segunda-feira, 1 de julho de 2019

A MULHER ARRASTADA (RS)

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ATUAÇÃO BRILHANTE EM NARRATIVAS DE INCÔMODO 

por Diego Ferreira*


"Manifesto", é um gênero textual que consiste numa espécie de declaração formal, persuasiva e pública para a transmissão de opiniões, decisões, intenções e ideias. Normalmente de cunho político, um manifesto tem como objetivo principal expor determinado ponto de vista publicamente ou mesmo para um indivíduo ou grupo de pessoas. É considerado uma importante ferramenta democrática, pois possibilita que todo o indivíduo possa expressar publicamente o seu ponto de vista sobre determinado situação ou assunto, seja social, político, cultural ou religioso.
"A Mulher Arrastada" é apresentada como "peça-manifesto", um desabafo, um grito urgente para fazer ecoar a brutalidade ocorrida com Cláudia da Silva Ferreira, mulher negra, pobre e arrastada por policiais no Rio de Janeiro. No campo da dramaturgia, este manifesto surge para dar corpo, voz e principalmente nome a Claudia, e tudo o que vem acontecendo nos últimos tempos, com a ascensão no poder de um presidente extremamente racista e que representa e legítima parte da população que compactua com ele no que tange a discriminação racial. 
Surge também como um acalanto pós execução da Marielle. É lógico que a escrita surge muito antes deste último fato, mas serve para pensar, refletir e questionar até quando, ou melhor, quantas Cláudias, Marielles, Marias e tantas outras vão perder suas vidas e nada, absolutamente nada irá acontecer.
A escrita de Diones me toca de uma forma intensa, primeiramente, pelo fato de eu ser negro, e me identificar, mas mais do que isso, me importar e querer cada vez mais que vozes como esta ecoe e não sejam caladas, busquem o seu lugar de fala, buscando por si só o lugar de protagonismo sem a necessidade de mediação de terceiros. E segundo que a escrita é provocativa, não esbarra no fato da premissa da peça, estar em todas as mídias, o que poderia escorregar e cair em clichês ou até mesmo na criação de uma história melodramática tentando apenas emocionar o leitor/espectador com o drama da "pobre vítima" Claúdia. Mas graças ao olhar apurado, “A mulher arrastada” é um texto que a começar pela estrutura, eclode o drama assim como ocorre em autores pós-modernos, colocando em cena monólogos e vozes.
O texto é permeado de memórias fragmentárias e inconstantes, ficção e realidade andam juntas, também a dimensão do tempo está desconstruída: não há noção de passado e presente, separação de eu e outro; em caráter de hibridismo (o texto é um poema dramático, narrativo, concreto, e extremamente político, uma peça manifesto); um novo estado de expressão e percepção em uma escrita que é distante da estrutura tradicional de enredo. A fragmentação do sujeito contemporâneo é alcançada esteticamente com a utilização de recursos como as figuras do HOMEM/POLICIAL e das SOMBRAS que tem a função de situar os passos de Cláudia, a utilização de uma narrativa não linear, não especificação das personagens e do cenário, distorção do senso de realidade e de tempo. 
O trabalho de Diones é um verdadeiro “tour de force” dramatúrgico, que se materializa no espetáculo através de uma grande e competente equipe que consegue nos oferecer um trabalho de alto nível técnico e emocionante, a começar pela  interpretação irretocável de Celina Alcântara que é simplesmente arrasadora, meticulosa e espetacular. Alcança um registro que consegue dar corpo/voz a Cacau, como era conhecida Claúdia Ferreira. Impossível assistir a performance de Celina e não ser tocado, não ser perturbado pela força com que representa a personagem. Acompanho a muitos anos o trabalho de Celina, mas sem sombra de dúvida "A mulher arrastada" é daqueles personagens que vão ficar guardados na memória por muito tempo pela performance cênica, mas também pela função social e política que a obra de arte tem alcançado. Pedro Nambuco está no mesmo patamar de Celina e me assombra apenas através de sua presença, pois representa a força e a truculência policial branca. Nambuco representa um personagem que me dá asco, de certa forma, desde suas palavras iniciais, durante a violência que trata a mulher arrastada e até mesmo quando não tem falas, nem tampouco está em cena, mas apenas pelo fato de percebermos sua presença rondando o espaço como um lobo faminto. A dupla de atores está de parabéns pelo excelente trabalho. 
Assim como a direção de Adriane Mottola, que soube concatenar todos os elementos da encenação, partindo do texto de Diones, e explorando o melhor dos atores. Direção primorosa que parte de elementos simples para chegar num trabalho arrojado. Elementos como o carrinho de polícia que pode até passar despercebido, mas que dentro do contexto representa toda uma parcela de policiais que agem de forma ilegal dentro de corporações e que cometem barbáries como a relatada no espetáculo. Mottola faz um teatro essencial, um verdadeiro manifesto que é bárbaro e poético ao mesmo tempo. 
Impossível não citar a iluminação fantástica de Ricardo Vivian, que além de iluminar o espaço da cena onde os atores atuam, cria uma luz perfeita que dá conta de todo espaço, desde a entrada até atrás das arquibancadas criando um ambiente muitas vezes sufocantes, como a trilha sonora de Felipe Zancanaro que se faz presente em grande parte da cena, de forma sutil, operada ao vivo, uma experiência sonora que auxilia muito na construção emotiva do espetáculo. 
Assistir "A mulher arrastada" passa a ser uma obrigação para aqueles que gostam do bom teatro e para aqueles que precisam entender que o racismo é crime e precisa ser banido, que não pode ser tolerado, que precisa ser discutido e o espetáculo cumpre também esta função, de alargar e refletir sobre o ser negro num país extremamente racista. Que a produção possa circular por muito tempo levando a voz de Cláudia da Silva Ferreira o mais longe possível dizendo sempre: CLAUDIA DA SILVA FERREIRA: PRESENTE! 

FICHA TÉCNICA

Texto DIONES CAMARGO

Direção ADRIANE MOTTOLA
Elenco CELINA ALCÂNTARA e PEDRO NAMBUCO
Trilha Sonora Original FELIPE ZANCANARO
Iluminação RICARDO VIVIAN
Cenografia ISABEL RAMIL (ambientação cênica) e ZOÉ DEGANI (objetos cenográficos)
Fotos de Divulgação REGINA PEDUZZI PROTSKOF
Arte Gráfica JESSICA BARBOSA
Assessoria de Imprensa LAURO RAMALHO
Produção LUÍSA BARROS
Realização DIONES CAMARGO e LA PHOTO GALERIA E ESPAÇO CULTURAL
Apoio CIA. STRAVAGANZA e UTA – USINA DO TRABALHO DO ATOR

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

quinta-feira, 20 de junho de 2019

TOCAR PARAÍSO (RS)

Apresentação terá três narrativas diferentes

ALARGAMENTO DE POSSIBILIDADES PARA TOCAR O PARAÍSO


por Diego Ferreira*

"Tocar Paraíso" é o resultado do projeto "Transit" promovido pelo Instituto Goethe com parceria do Palco Giratório. O espetáculo parte do texto de Thomas Kock que parte de uma escrita vertiginosa e verborrágica para falar sobre temas da nossa contemporaneidade que pode ser dura, trágica ou poética dependendo sempre de que ponto de vista que estamos. O texto utiliza em uma das suas abordagens a metáfora do trem, onde histórias são atravessadas através de uma gama de possibilidades textuais que se utilizam de uma ironia e sarcasmo caracteristico e que torna o texto uma verdadeira potência, mas que as vezes pelo fato da fragmentação e velocidade de proposições o texto de Kock se esvai e escorre, tirando um pouco o foco do espectador, mas graças a direção de João de Ricardo o texto ganha uma encenação que tem a assinatura da Cia. Espaço em Branco, colocando em cena o resultado de uma pesquisa que vem desenvolvendo ao longo dos anos junto ao coletivo. O que me chama a atenção neste trabalho é a apropriação do texto e o alargamento das possibilidades que o coletivo alcança. No palco assistimos um espetáculo que potencializa o texto através de imagens criadas a partir dos corpos dos atores, imagens poéticas e metafóricas que desnudam os discursos do homem ocidental. 
A iluminação de João de Ricardo e Lucca Simas tem papel importante na construção deste universo imagético, assim como a utilização de todo o espaço do teatro do Goethe, inclusive as areas externas. A trilha sonora de Daniel Roittman e Rodrigo Fernandez também tem grande importância e relevância, pois é tamanha a funcionalidade que o ambiente sonoro produzido tem no espetáculo que interfere diretamente na cena. 
O elenco é fantástico, todos sem exceções, pois soube se conectar as ideias de Koch, mas principalmente a linguagem do encenador, pois todos os atores e atrizes estão conectados e disponíveis para tocar o paraíso e nos fazer conhecer tal paraíso. Um elenco que utiliza seu corpo/voz a serviço de construir um discurso cênico que provoca um discurso político e isso é sempre bem vindo.Todos cantam/dançam/interpretam/representam com muito sarcasmo e presença. Sem dúvida mais um grande trabalho da Cia. Espaço em Branco e de seu encenador João de Ricardo. 


Ficha Técnica

Direção: João de Ricardo – JdR
Texto: Thomas Köck com tradução de Christine Höhrig
Elenco: Anildo Böes, Eduardo d’Avila, Evelyn Ligocki, Fernanda Carvalho Leite, Iandra Cattani e JdR
Luz: JdR e Lucca Simmas
Som ao vivo: Daniel Roitman e Rodrigo Fernandez
Figurinos, produção e divulgação: Cia. Espaço em BRANCO
Vídeos e fotos: Bruno Gularte Barreto
Estagiário de luz e contra-regra: Thales Ramsés


*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

quarta-feira, 12 de junho de 2019

MACBETH E O REINO SOMBRIO (RS)

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ATORES BRILHAM EM PRODUÇÃO ACERTADA DIRIGIDA AS CRIANÇAS

por Diego Ferreira*

"Macbeth e o Reino Sombrio" é a grande sensação do teatro gaúcho por vários motivos e o primeiro deles parte da coragem do Coletivo Órbita em transpor aos palcos a tragédia "Macbeth", e para complicar um pouco mais, dirigilá-las as crianças. E não é que deu certo. Digo mais: muito certo, pois o espetáculo é excelente e parte de elementos muito simples para contar a história sangrenta que envolve poder. No palco temos um cenário extremamente simples composto por tecidos e escadas. Uma iluminação bastante simples e acertada de Bathista Freire e uma trilha sonora funcional de Rafael de Carli, ou seja, todos esses elementos são simples e básicos justamente para deixar brilhar o trio de atores Camila Pasa, João Pedro Decarli e Rodrigo Waschburger e a boa adaptação do texto que se tornou essencial, adaptando a obra aos pequenos, mas mantendo a complexa história do bardo. A direção é de João Pedro Decarli que também atua ao lado de Camila e Rodrigo. Os três dão um verdadeiro show no palco, pois cantam, dançam e executam uma série de acrobacias para dar conta de interpretar diversos personagens que desfilam durante a encenação. Os três atores estão excepcionais, e está neles o acerto da produção, pois não é fácil fazer Shakespeare, ainda mais para crianças e a direção soube escolher muito bem os adereços e acessórios que caracterizam cada personagem, assim como a ótima utilização da escada como elemento cenográfico. Um bom teatro que deixa de lado todo tipo de esteriótipos que surgem quando tratamos de teatro infantil. Essa experiência reforça a importância da universidade pública e de qualidade, pois o trabalho, assim como todo o elenco é, ou foi aluno da UERGS: Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, que desenvolve um trabalho de formação de artistas/professores muito importante e que precisa ser mantida e valorizada. Vida longa ao Macbeth e ao Coletivo Órbita!!!  

Texto inspirado de Macbeth de William Shakespeare. Direção: João Pedro Decarli. Elenco: Camila Pasa, João Pedro Decarli e Rodrigo Waschburger. Criação de trilha sonora original e operação: Rafael Decarli. Criação de luz e operação: Bathista Freire. Figurino e cenário: o grupo. Artes Gráficas: Ana Paula Decarli Crédito das fotos do espetáculo: Estevão Dornelles

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 



domingo, 9 de junho de 2019

A FOME (RS)

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ESFACELAMENTO DA CENA SEM FRONTEIRAS

por Diego Ferreira*

Escrever sobre o espetáculo "A Fome" é uma tarefa ampla e desafiadora, pois o espetáculo se desenrola e se transforma no tempo e no espaço através da multiplicidade de camadas. A complexidade da produção parte de uma infinitude de corpos, de modos de existência e de expressão para colocar no centro da cena circunstâncias míticas e críticas sobre o feminino. A Cia. Espaço em Branco através da direção de João de Ricardo consegue nos provocar e nos surpreender e apresenta um espetáculo forte, intenso, impactante e que mantém a estética da Cia. já explorada em outros trabalhos, porém, aqui, a cena ganha uma dimensão maior, articulando conceitos, percepções e possibilidades que rompem com as convenções e levam a intérprete as últimas consequências, numa atuação louvável de Sissi Betina Venturin, que materializa este corpo/voz que tem uma fome voraz, pela vida. A dramaturgia de Sissi e Marcos Contreras é construída através de pequenos espasmos, contrações e divagações, fugindo das unidades de tempo/espaço e investindo numa voz que dialoga com o agora, investigando o espectador a traçar paralelos, a pensar e dialogar com questões éticas, antropológicas, filosóficas e sociais, sobretudo num tempo em que precisamos falar sobre feridas abertas da colonização e suas violências. Um texto forte e impactante, merecedor do recente Prêmio Açorianos que o espetáculo recebeu. 
A interpretação/representação de Sissi é de uma força e magnitude, que a atriz (que é pequenina em estatura) cresce e se agiganta, tornando-se um monstro em cena. Sissi domina muito bem o seu instrumento vocal/corporal e através deste dominio transita entre a performance, o teatro e a dança. Impossível parar de olhar a intérprete, pois através de sua presença cria uma relação forte e palatável com a platéia. 
Sissi emana através do seu corpo a resistência, a força, a ancestralidade, a ética, a persistência de seguir adiante, afetando-se por atravessamentos que permeiam as questões do nosso tempo. Realmente uma grande atriz e não é de hoje. 
E junto com ela tem a marca de um encenador inquieto que está sempre buscando novas possibilidades para a cena. Ao assistir um espetáculo de João de Ricardo sabemos já de antemão que vamos ser provocados o tempo inteiro, instigados a chegar em outros lugares que ainda não foram explorados. Na cena não existem fronteiras, pelo contrário, as estruturas são esfaceladas e reinventadas. Cabe ressaltar a iluminação de Carina Sehn que explora muito bem as diversas possibilidades cênicas, uma luz que as vezes é mínima, depois avança para a macro, oscilando entre focos e led's para criar este espaço atemporal. Uma luz impecável. 
"A Fome" é sem dúvida um trabalho que me conquistou muito, que me instigou e puxou o meu tapete, e isto é louvável.

FICHA TÉCNICA:
Direção: João de Ricardo
Atuação: Sissi Betina Venturin
Dramaturgia: Marcos Contreras e Sissi Betina Venturin
Trilha sonora: Daniel Roitman e grupo
Iluminação: Carina Sehn. Vídeos: Jana Castoldi
Figurinos, produção e divulgação: João de Ricardo e Sissi Betina Venturin
Fotografia: Morgana Mazzon


*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

sábado, 8 de junho de 2019

DAS CINZAS CORAÇÃO (RS)

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PEQUENA JÓIA RARA

por Diego Ferreira*

"Das cinzas coração" é daqueles espetáculos que são verdadeiras jóias raras nos palcos brasileiros e digo "pequena jóia rara". Me refiro ao espetáculo como "pequena jóia" simplesmente pela duração do espetáculo, que é curtinho, mas um grande espetáculo considerando sua magnitude e relevância dentro de uma pesquisa de linguagem. 
O espetáculo se pauta na utilização de linguagens como o circo, o cinema-mudo, o clown, a música executada brilhantemente ao vivo para mais uma vez trazer a tona histórias de opressão feminina que aconteciam (acontecem ainda!) no início do século passado. Durante muitos e muitos anos falar e até mesmo rir de situações que colocavam a mulher num nível inferior ao homem era muito comum, porém hoje a história mudou um pouco, avançamos um pouco com leis de amparo a mulher em situação de violência, porém temos muito a avançar. Mas o espetáculo trás a tona isso, mas de uma forma extremamente criativa e crítica, pois Aurora se coloca dentro deste jogo estabelecido pelo homem, porém não se deixa sufocar por completo, a perceber pelo final do espetáculo. A produção foi muito feliz em todas as suas escolhas conseguindo realmente transportar o espectador para o universo do cinema mudo. Iluminação pontual, figurinos, maquiagem jogam juntos com a produção.  Destaque para o cenário que é super funcional e que foi premiado na última edição do Açorianos e também para a magnífica presença e trilha sonora de Arthur de Faria que executa a trilha ao vivo, uma experiência sonora fantástica. 
A dupla de atores é de extrema competência, Valquiria Cardoso através de um corpo expandido e uma força na comunicação não verbal, pois estabelece este jogo diretamente com a platéia e Jéferson Rachewsky na figura do marido está simplesmente sensacional, pois domina com maestria a arte clownesca e faz rir com domínio como ninguém. 
E para finalizar o espetáculo é realizada a exibição de um filme em preto e branco fantástico que foi inspiração para a criação, realmente a cereja do bolo.
"Das cinzas coração" é uma celebração e união dos grupos Teatro Ateliê e Quimera e com certeza merece circular pelo Brasil inteiro mostrando um trabalho de alta qualidade produzido no Rio Grande do Sul. 

Direção: Jéferson Rachewsky
Elenco e dramaturgia: Jéferson Rachewsky e Valquíria Cardoso

Trilha sonora: Arthur de Faria
Concepção visual e figurinos: Valquíria Cardoso
Cenografia: Alex Limberger e Valquíria Cardoso
Adereços: Diego Steffani e Valquíria Cardoso
Criação de luz: Osvaldo Perrenoud
Operação de luz: Daniel Fetter
Operação de vídeo: Alex Limberger
Produção: Quimera Criações Artísticas e Teatro Ateliê


*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

sábado, 1 de junho de 2019

WHATSAPP PARA SHAKESPEARE (RS)

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TRADUÇÃO PALATÁVEL AO ESPECTADOR CONTEMPORÂNEO

Especial 14º Palco Giratório

                                                                                                por Diego Ferreira*

"Whattsapp para Shakespeare" é uma grata surpresa em nossos palcos. Primeiro por trazer Shakespeare a tona, porém desta vez de um modo bastante particular. A escritura do Bardo foi traduzida e marcada nos corpos dos bailarinos/intérpretes da Canoas Cia. de Dança, e o espetáculo acerta em cheio, pois Shakespeare é demasiadamente encenado (graças aos deuses!), porém muitas vezes os caminhos não são os melhores. Mas o espetáculo dirigido por Carlota Albuquerque vai na contramão disso e transborda o palco de criatividade e inventividade. Trata-se de um espetáculo híbrido que mescla diversas linguagens como o teatro, a dança, a música e as artes plásticas, que consegue unir o contemporâneo com o universo clássico de Shakespeare. A estética da produção enche os olhos, pois os figurinos de Fabrizio Rodrigues são belos e eficientes em cena, pois se utiliza de materiais como jeans aliados a gola rufo, reutilizando peças de uso cotidiano, transformando em peças cênicas de modo bastante peculiar já característico no trabalho de Fabrizio. 
O coletivo apropria-se de Shakespeare para falar do mundo e das relações hiperconectadas e desencontradas inerentes ao ser humano, o uso de aplicativos e redes sociais que aproximam e ao mesmo tempo afastam e esfriam as relações. A estética da produção enche os olhos, pois mescla imagens oníricas e fantásticas e que para isso funcionasse em cena, foi fundamental a equipe técnica de luxo que a produção tem, como os já citados figurinos de Fabrizio Rodrigues, a iluminação de Guto Greca que pincela e tinge a tela branca com as cores e texturas que são belíssimas demais. Na equipe também Alvaro RosaCosta que assina o desenho de som e é mestre em traduzir em experiências sonoras as sensações corpóreas do trabalho. Outro ponto positivo é a presença do ator Tom Peres que faz este elo entre a narração e a presentificação do autor em cena, dando um tom cômico e aos mesmo tempo situando o espectador no tempo/espaço atemporal da obra. Creio que com este espetáculo Carlota Albuquerque consegue encontrar neste jovem coletivo uma afirmação do seu trabalho e por que não uma renovação de seu próprio trabalho, que acompanho em espetáculos como "E lá na ve no vá", "Mulheres Insones", "Ditos e Malditos", "Piazzolla Coreografo", "O banho", entre outros. 
Diante de tudo isso, é louvável o surgimento e a criação do Canoas Coletivo de Dança que carrega consigo o nome de uma cidade e espero que o município apoie e valorize este e tantos outros grupos da cidade. Mas é importante pelo fato de revelar mais um coletivo forte e vigoroso em cena, onde todos os bailarinos/intérpretes são qualificados e demonstram em cena grande potencial criativo e de internalização das propostas da direção. O coletivo através de seus corpos e suas presenças conseguem o milagre de traduzir o clássico e deixá-lo palatável ao espectador contemporâneo. Realmente um trabalho fantástico.

Ficha técnica:
Concepção e Direção: Carlota Albuquerque
Intérpretes criadores: Carini Pereira, Caroline Fossá, Danielle Costa, Leslie Taubê, Leonardo Patro, Roberto Mendes, Tiago Ruffoni e Tom Peres 
Artista colaboradora: Joana Wiladino 
Produção: Cristina Colares Pereira
Figurino: Fabrízio Rodrigues 
Iluminação: Guto Greca 
Desenho de som: Álvaro Costa 
Vídeomaker: Ricardo Vivian

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

FÁBRICA DE ROBÔS - CRÍTICA

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TRABALHO INVENTIVO E RIGOROSO

por Diego Ferreira*

"Fábrica de Robôs" é um espetáculo ousado em sua concepção. Resultado do Curso de Formação de Atores da Casa de Teatro ganha tratamento profissional ao participar do projeto Novas Caras. Os diretores souberam explorar muito bem a questão da humanidade ou a falta dela através da narrativa baseada na obra de Karel Tchápek que apresenta o cotidiano de uma gigantesca empresa de tecnologia responsável pela criação de máquinas tão perfeitas que seriam capazes de substituir o ser humano em todas as suas funções. Entre arquivos corrompidos, falhas no sistema e respostas automáticas, a peça questiona os limites da humanidade. Chama atenção a questão estética bem explorada em todos os detalhes, desde a grande estrutura cenográfica, que os atores exploram de forma bastante criativa e eficiente, até a iluminação perfeita de Ricardo Vivian, que além de auxiliar no apelo visual e estético da obra consegue extrair nuances, texturas e plasticidade em todas as cenas. Os figurinos de Titi Lopes também tem uma sacada genial, que traz elementos que identificam os robôs e os demais personagens, além de brincar com a desconstrução de peças, sobreposição de texturas, cores sóbrias e estampas, que levam para a cena uma paleta de cores que traduzem muito bem a proposta do espetáculo. A trilha sonora e principalmente a emissão vocal dos atores estão super alinhados graças ao trabalho de Everton Rodrigues. O elenco é numeroso e coeso e joga o tempo todo junto, e o grande destaque do trabalho é o coletivo, onde ninguém destoa de ninguém ou sobressai aos demais atores, sendo este um dos muitos pontos positivos do trabalho, assim como a direção de Camila Bauer que mais uma vez coloca em cena um trabalho inventivo e rigoroso, conseguindo extrair o que há de melhor dos atores. 
O único aspecto negativo do trabalho é a virtuose exacerbada de alguns atores, pois o trabalho tem uma disposição bastante física do elenco, e esta disponibilidade é fantástica, porém alguns atores extrapolam e é justamente onde a virtuose aparece além da conta, exatamente onde ações são executadas apenas demonstrando o quanto determinado ator sabe dominar seu corpo, mas a sua ação está fora do contexto da cena. A dramaturgia de Pedro Bertoldi, Camila Bauer e Carina Corá traz um texto político e atual e consigo traçar um paralelo com o (des)governo brasileiro, que ao focar sua gestão apenas em questões ideológicas, retira verbas de areas extremamente importantes como a educação, cultura, filosofia e sociologia, areas que tem a função de estimular a troca de saberes e fomentar o pensamento critico, e o paralelo é justamente  que um tipo de (des)governo como este é o de transformar os homens em robôs, extraindo das pessoas/máquinas apenas o que lhe convém. E por isso é muito pertinente a dramaturgia do espetáculo por lidar com metaforas inerentes ao homem contemporâneo. 

Ficha Técnica: 
DIREÇÃO: Camila Bauer.
DIREÇÃO COREOGRÁFICA: Carlota Albuquerque.
DIREÇÃO MUSICAL: Everton Rodrigues.
DRAMATURGIA: Pedro Bertoldi, Camila Bauer e Carina Corá, escrita colaborativamente a partir de textos do elenco e da obra Fábrica de Robôs, de Karel Tchápek.
CRIAÇÃO E OPERAÇÃO DE LUZ: Ricardo Vivian.
CONCEPÇÃO DE CENÁRIO E FIGURINO: Turma design cênico da Casa de Teatro (Fábio Moreno, Giovana Dotto, Júlia Lopes, Márcia Lopes, Pedro Freitas e Walter Diehl).
CENOTÉCNICOS: Paulo Ricardo de Oliveira, Gabriel Martins e Carlos Ramiro Fensterseifer.
CONFECÇÃO DE FIGURINOS: Titi Lopes.
COORDENAÇÃO DA EQUIPE DE CENÁRIO E FIGURINO: Carlos Ramiro Fensterseifer e Nara Lucia Maia.
CONCEPÇÃO DE MAQUIAGEM: Leandra Kruger.
MAQUIAGEM: O elenco.
TÉCNICO E OPERADOR DE SOM: Vitório Azevedo
DESIGN GRÁFICO: Henrique Lago
ARTE: Artur Luzardo
TEASER E VÍDEOS DO ESPETÁCULO: Pedro Martins Spieker, Renata Lorenzi e Rafael C. Dornelles.
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: Ewillyn Lopes
ELENCO: Alexei Goldenberg, Artur Luzardo, Cristiano Nascimento, Ewillyn Lopes, Franco Mendes, Gabriel Martins, Helena Sá, Henrique Lago, Leandra Kruger, Luiza Waichel, Natália Ferreira, Rafael Dorneles, Renata Lorenzi, Yuri Amaral, Zé Passos.

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

domingo, 12 de maio de 2019

ELAS - CRÍTICA

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Dramaturgia(s): Ampliação do discurso estético

por Diego Ferreira*

O espetáculo "ELAS" da Nós Cia de Teatro é sem sombra de dúvida um dos melhores espetáculos de 2019 apresentados até aqui, e tentarei explicar o porque nas próximas linhas. 
O espetáculo coloca em cena cinco atrizes para falar sobre o universo feminino, e esta premissa já poderia ser uma barreira, pois temos inumeros espetáculos, filmes e tratados sobre a mulher na atualidade e na arte e muitas vezes o caminho escolhido é o mais fácil que acabam repetindo determinados clichês. Não é o caso de "Elas". A produção te pega de uma forma pois ao mesmo tempo que fala sobre as mulheres, fala também sobre todos nós, pois toca em temas que são inerentes a todos e isto é fantástico, pois trata-se de um espetáculo que inclui, a começar pela abertura da noite que foi da atriz Mayura Mattos, atriz negra que ao sair do teatro para fazer a abertura falou uma frase que teve um impacto tão grande e significante para todos os negros que estavam ali, ela falou: "todos os negros podem passar na frente", e eu que sou negro já entrei no espaço da encenação com a autoestima lá em cima, pois geralmente homens e mulheres negras quase nunca são os primeiros... e este preâmbulo e toda a fala de Mayura já criou um ambiente em que todos estavam e deveriam estar ali, juntos! Mayura é uma artista sensacional e abrilhantou a noite.
Depois assistimos a um trabalho que pensou em todos os detalhes para se tornar o que é. A dramaturgia de Everson Silva se apoia em citações de Fernanda Bastos e fragmentos  de textos, canções e vozes dissonantes que caminham para um mesmo rumo: falar da mulher na sociedade contemporânea e suas belezas, lutas, preconceitos e exaltação. O espetáculo é composto por diversas camadas que buscam fugir da superficie para dialogar com o espectador. Neste caso, amplio o conceito de dramaturgia para colocá-lo no plural e falar em dramaturgia(s), ampliando a discução estética. 
A acepção mais difundida do termo dramaturgia remete ao campo da escrita do texto dramático. Mas há outra acepção de dramaturgia que se liga prioritariamente à constituição de uma narrativa cênica, espetacular, e é desta última significação que Everson enquanto dramaturgo e diretor consegue extrair o melhor da produção. Temos aqui a dramaturgia textual, física, espacial, sonora, plástica e estética que conseguem convergir todas para nos proporcionar uma bela experiência cênica. O espaço cênico construído com louvor por Jony Pereira tras uma dimensão metafórica e poética, colocando no palco da sala Alvaro Moreyra uma piscina que através de suas águas consegue lavar o espectador, pois as águas lavam, curam, benzem, limpam toda a sujeira do mundo. E este movimento que a água provoca enquanto elemento cenográfico central coloca em evidência os corpos das atrizes, que utilizam um figurino que tem como base a transparência, que ao entrar em contato com a água vai ganhando outros contornos. Interessante esta proposta de figurino pois evidencia a diversidade dos corpos em cena, corpos que fogem do padrão midiático, corpos de mulheres reais, corpos com suas marcas, suas identidades, suas vivências. Corpos que são atravessados pela água e por toda a poesia que estes corpos conseguem propagar pelo espaço através dos seus movimentos, deslocamentos mas principalmente pela presença e discurso que o corpo em cena propõe. A iluminação de Veridiana Mendes é de uma competência fantástica, pois consegue criar uma comunicação através da luz, sua criação não serve apenas para iluminar, mas cria códigos e signos que tornam a experiência estética ainda mais potente. Quando a luz toca nas águas é a certeza de belas imagens, somadas a trilha sonora que também é eficaz e consegue criar um espaço sonoro que reforça o já referido até aqui. Outro destaque é a produção do espetáculo que teve um trabalho bastante positivo, desde a divulgação até mesmo a criação de toda a estrutura que dá base ao trabalho. 
O elenco formado pelas atrizes Kacau Soares, Leticia Kleemann, Paula Cardoso, Raquel Tessari e Val Barcellos é tão potente, tão coeso, tão diverso e por isso conseguem colocar em cena toda a dimensão poética e emotiva do trabalho. Todas as atrizes tem uma carga dramática e estão ali com seus corpos e discursos a disposição da encenação. A força do coletivo é que faz do trabalho o que ele é, e a direção soube explorar isso muito bem. Nelas temos todas as características inerentes a mulheres brasileiras e por isso além de ser um trabalho com esta carga estética alta, temos um trabalho político que coloca o corpo da mulher no centro do discurso e seu lugar de fala. O elenco é tão coeso, mas destaco a atriz Kacau Soares principalmente na cena em que ela recria a canção Cabô de Lueji Luna e carrega na intensidade e internalização do discurso contido na letra que faz escorrer as lágrimas do espectador que se juntam as águas do palco.
Portanto, trata-se de um espetáculo de forte impacto estético e narrativo que merece um retorno aos palcos gaúchos e porque não os palcos do Brasil!

Ficha Técnica:

Direção: Everson Silva.
Produção: Pedro Dos Santos.
Atuação: Kacau Soares, Leticia Kleemann, Paula Cardoso, Raquel Tessari e Val Barcellos.
Dramaturgia: Everson Silva, a partir do material criado coletivamente, com citações de “Desta Cor” de Fernanda Bastos (gentilmente cedida pela Figura de Linguagem).
Trilha Sonora: Composição original de Maninho Melo (Jeff Mou).
Músicos: Maninho Melo, Leandro Alves e Edu Coelho Educs. Técnico de Gravação e Mixagem de Leandro Alves. Gravado em Canoas (2018), na L&A Produções Musicais.
Cenografia: Jony Pereira.
Iluminação: Veridiana Mendes.
Figurino: Studio Lê Brochier.
Maquiagem: Criação Coletiva.
Fotografia: Jean Pierre Kruze.
Arte e Mídias Digitais: Amanda Hamermüller.
Assessoria de Imprensa: Silvia Mara Abreu.
Produção Executiva: Everson Silva.
Assistência de Produção: Val Barcellos.
Realização: Nós Cia. de Teatro.

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. Diretor do Grupo Skatá de Canoas.


sexta-feira, 3 de maio de 2019

O URSO COM MÚSICA NA BARRIGA - CRÍTICA

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GRANDE ESPETÁCULO EM PEQUENOS DETALHES

por Diego Ferreira*
O espetáculo "O urso com música na barriga" é uma grata surpresa que agrada em cheio a toda família, pelo bom teatro apresentado pela produção caprichada em todos os sentidos. Trata-se da produção do Grupo Atimonautas Teatro de Bonecos e dirigido por Arlete Cunha. Baseado no livro homônimo de Érico Veríssimo o espetáculo tem um apelo visual bastante forte e se utiliza de várias técnicas do teatro de animação como grandes e pequenos bonecos de manipulação direta, bonecos de vestir e marionetes que transportam o espectador para um espaço lúdico e fantástico para falar de temas importantes como intolerância, dificuldade de comunicação e bullying. 
A produção é excelente pois é detalhista, tu enxerga o cuidado em cada pequeno detalhe, do cuidado com figurinos dos bonecos e na construção dos mesmos, da linda iluminação de Vinícius Lopes e Vicente Goulart e da trilha funcional de Ricardo Pavão, pois como a dramaturgia é contada através de locuções a trilha sonora acaba ganhando um peso bastante grande por dialogar com todos os elementos e sendo a linha motriz do espetáculo.
No espetáculo a comunicação se dá através da interação dos bonecos com a platéia, e o que vemos é altamente positivi, pois o espetáculo é didático, ao abordar temas relevantes, mas não é panfletário no sentido de defender um ponto de vista ou até mesmo apontar culpados.  Os atores/manipuladores Alberto Vermelho, Dênis Moreira, Mairã Alves e Jacqueline Rosa são precisos e deixam brilhar os bonecos e não as suas pessoalidades e por isso temos um ótimo resultado. 
Parabéns a todos os envolvidos e que a produção possa trilhar novos e longos caminhos pois o espetáculo encanta com toda sua beleza e poesia.


Ficha Técnica
Texto: Érico Veríssimo
Direção: Arlete Cunha
Assistência de direção: Dedy Ricardo
Atuação/Manipulação: Alberto Vermelho, Dênis Moreira, Mairã Alves e Jacqueline Rosa
Locução: Alberto Vermelho, Dedy Ricardo, Dênis Moreira, Jacqueline Rosa, Rafael Cambará e Ricardo Pavão
Concepção de bonecos, cenários e figurinos: Dênis Moreira
Confecção de bonecos, cenários e figurinos: Ateliê Nunes
Engenharia Eletrônica: Marcelo Patines
Iluminação: Vinícius Lopes e Vicente Goulart
Trilha original: Ricardo Pavão
Gravação de trilha: Mosaico Produtora Cultural
Designer gráfico: Dídi Jucá
Fotografia: Adriana Marchiori
Produção executiva e divulgação: Raiar Produções.
Realização: Atimonautas Teatro de Bonecos

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. Diretor do Grupo Skatá de Canoas.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

LÊ BUFÊ - CRÍTICA

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EXERCÍCIO AFINADO DE ATORES


por Diego Ferreira*



Bufão é o cômico grotesco, o marginal que utiliza da pretensa insanidade para denunciar os aspectos torpes da sociedade discriminatória. Apesar de seu discurso ser proibido, a sociedade sempre está disposta a ouvi-los.  Os personagens exercem sua blasfêmia através de paródias e pequenas cenas recheadas de deboche onde destilam todo o seu talento, e mais do que isso, toda a sua ácida crítica social. A cena em que a dupla Celói e Lingüiça refletem sobre o teatro contemporâneo é simplesmente impagável, onde criticam os próprios colegas de forma inteligente e cômica, assim como as demais cenas que tocam, de forma cômica e grotesca, em temas pertinentes e variados, expondo, por exemplo, o que há de impessoal nas relações virtuais, de falso na bondade que atende somente ao moralismo e de abusivo nas relações de poder do homem sobre a mulher.
Ao vislumbrar as duas figuras adentrando no palco de um teatro, e se apropriando daquele lugar oportuno, (pois o público já estava lá) para destilar toda sua sagacidade crítica e política, talvez não tenhamos a dimensão do que é trabalhar a partir da técnica do bufão, e trata-se de uma técnica completamente difícil e elaborada. A construção do seu corpo é bastante complexa, pois além do bufão, o ator representa figuras que este paródia e que não pode desmentir a base que sustenta o jogo. A construção do corpo da paródia deve obedecer à do bufão. É importante que o intérprete entenda qual o argumento narrativo do bufão e qual a do parodiado. E é justamente neste ponto que Aline Marques e Eduardo d’Avila são brilhantes, pois conseguem compreender e internalizar de forma magistral o jogo necessário da técnica da bufonaria, denunciando todas as mazelas que acometem estes seres marginalizados. Eduardo d’Avilla consegue evidenciar através de sua composição toda sua verve cômica e crítica ao mesmo tempo, conseguindo sustentar o jogo junto a Aline Marques que mais uma vez consegue construir um exímio trabalho de desconstrução da sua persona para construir sua Celói que é excepcional. A dupla funciona muito bem, porém Aline é dona de si e triunfa de forma magistral em cena através de sua figura que é engraçada, sarcástica, crítica e acima de tudo humana.
Não posso deixar de citar a ótima trilha sonora de André Paz que consegue se conectar de forma bastante particular a encenação.
“Lê Bufê” não é um espetáculo que prima por uma estética visual com cenários e figurinos exuberantes, até porque nem cabe na sua concepção, mas o espetáculo preza pelo exercício afinado de uma dupla de atores que exercem a pura técnica, resultado de pesquisa estética apurada e refinada que revela um rico trabalho de ATOR!
Bravo!!!

FICHA TÉCNICA:
Orientação técnica da máscara bufão: Aline Marques
Direção: Aline Marques e Eduardo d’Avila
Texto: Aline Marques e Eduardo d’Avila
Atuação: Aline Marques e Eduardo d’Avila
Trilha sonora original: André Paz
Cenário, figurino e maquiagem: Aline Marques e Eduardo d’Avila
Material Gráfico: Gilmar Barcarol
Fotos: Pulp Fotografia
Contribuições/olhar crítico: Camila Diehl



*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. Diretor do Grupo Skatá de Canoas.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

NEVA - CRÍTICA

Foto: Qex Bittencourt


ESPETÁCULO SIMPLES E POTENTE


por Diego Ferreira*



No dia 9 de janeiro de 1905, um dos mais importantes da história do século XX, Olga Knipper (viúva de Anton Tchékhov) e mais dois atores, Masha e Aleko, estão num teatro de São Petersburgo. Era domingo, dia em que as tropas czaristas massacraram um grupo de trabalhadores que viera fazer um protesto pacífico e desarmado em frente ao Palácio de Inverno do Czar. Porém, dentro do teatro, bem em frente ao rio Neva, Aleko e Masha ajudam Olga, a ensaiar O Jardim das Cerejeiras enquanto aguardam o diretor de peça, ou a Revolução, ou alguma outra coisa desconhecida. Olga quer apenas o reconhecimento de seu talento, Aleko é conservador e deseja que o mundo permaneça como está e Masha faz discursos inflamados de que mundo mudará para melhor com a Revolução. Mas não é tão simples. Após ensaiar por diversas vezes a morte de Tchékhov com Olga e Masha, Aleko às vezes parece encarnar o autor, agindo de forma diferente do habitual, caindo fora de seu ideário.
A peça Neva é um espetáculo encenado dentro da universidade e dá inicio ao Projeto TPE: Teatro, Pesquisa e Extensão, um projeto longevo e importante que evidencia os espetáculos gestados dentro do Departamento de Arte Dramática da UFRGS. Trata-se de uma montagem dirigida por Silvana Rodrigues sobre texto do chileno Guillermo Calderón. Primeiramente gostaria de parabenizar a escolha do texto de Calderón que trás um contexto completo: há uma profunda reflexão sarcástica a respeito da arte teatral, há a vida privada com foco nas vaidades dos atores e há o drama popular da revolução nascente. No texto temos menos humor e muito mais sarcasmo. É neste ponto que evidencio a carência da encenação, pois temos a história destes três atores bastante relevantes e específicos dentro de um contexto repleto de tensão política e percebo que os atores não conseguem criar esta dimensão política dos personagens (com exceção de Marina Fervenza que pela natureza de sua personagem consegue atingir um pouco mais esta dimensão), até mesmo devido à idade dos interpretes, o que acarreta na construção e maturidade dos personagens. Isso não significa que os atores e direção não alcance um bom resultado, pelo contrário, está justamente em Marina Fervenza, Natasha Villar e Phillipe Coutinho, orientados pela Silvana Rodrigues a força da produção, pois mesmo sem conseguir atingir esta dimensão política e seus desdobramentos do que acontece lá fora do teatro, os atores conseguem atingir a dimensão dramática, construindo esta metalinguagem, que é o teatro dentro do teatro, onde percebemos os devaneios entre a insanidade e a encenação revivendo a morte de Anton Tchekhov. “Neva” é um espetáculo simples em sua essência e potente em seu contexto que nos lembra que no Brasil de hoje estamos diante de situações bem próximas da Rússia do início do século passado. E por isso o espetáculo já merece nosso aplauso.

Ficha Técnica

Texto: Guillermo Calderón

Direção: Silvana Rodrigues

Assistência de direção: Sandino Rafael

Elenco: Marina Fervenza, Natasha Villar e Phillipe Coutinho

Orientação: Patricia Fagundes

Co-orientação: Juliana Kersting e Sandino Rafael

Luz: Bruna Casali, Henrique Strieder e João Caron

Trilha Sonora Pesquisada: Silvana Rodrigues

Operação de Som: Sandino Rafael

Figurinos: Mari Falcão

Foto: Qex Bittencourt

Duração: 55 minutos

Classificação Indicativa: 14 anos

Peça originada na disciplina Atelier de Composição e Montagem (2018/1), no Departamento de Arte Dramática da UFRGS.

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. Foi jurado do Prêmio do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. Diretor do Grupo Skatá de Canoas.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

SOBRE NÓS - CRÍTICA

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O MELHOR DE TCHEKHOV NA CENA CONTEMPORÂNEA

por Diego Ferreira*

"Sobre nós" é um espetáculo que parte dos textos de Anton Tchekhov (" A Gaivota"; "As três irmãs" e "O Jardim das Cerejeiras") e marca a estréia do Coletivo Gaivota, um grupo de jovens artistas originários do Laboratório Cênico Léo Maciel. 
Em Tchekhov temos os climas e atmosferas da cena russa burguesa, a ação dramática e os personagens realistas. Temos também a convenção cênica da quarta parede (convenção que neste caso é detonada, graças a Deus! (sic) ). Trazer o autor para a cena hoje é buscar revelar a sua poesia, e a tentativa de sugerir atmosferas subterrâneas ao texto e ação dramática. Sua narrativa é suave, repleta de nuances e a delicadeza do clima e da intenção. 
Léo Maciel através da sua direção precisa e criativa de "Sobre nós" consegue extrair o melhor de Tchekhov e de sua poesia. O espetáculo é uma grata surpresa neste início de temporada. A começar pela dramaturgia, pautada por fragmentos, visto como texto que pode variar  no tocante a extensão , gênero ou tipo de linguagem cênica. Nesta proposta de cena, eu vejo os fragmentos como "unidades em si" - minidramas, imagens, cenas poéticas e visões. A narrativa se desenrola através destas unidades que são amarradas por relatos pessoais dos atores e de cenas que mantém viva a poesia Tchekhoviana. 
O espetáculo é de uma beleza extraordinária, que nos arrebata desde a entrada na sala até o útimo suspiro dos atores. Tudo está a serviço da estética proposta pela direção que é de trazer o autor a contemporaneidade. Mas creio que Léo Maciel consegue ir além justamente por fazer um contraponto das situações cênicas sem subinhá-las demais, criando atmosferas e contrastes vivos. A cena se torna potencializada através da presença viva e forte do coletivo de atores e de todos os elementos presentes na cena. O cenário e a disposição da platéia auxilia na criação de uma cumplicidade junto ao espectador, assim como os figurinos, maquiagem e cabelos de Valquiria Cardoso que criam um jogo de contrastes entre o novo e o velho, o clássico e o contemporâneo e que torna a cena ainda mais envolvente. Ponto para Valquíria que acerta em cheio nessa estética que transborda na cena uma multiplicidade de signos através das cores, estampas e texturas dos figurinos, assim como a maquiagem. A iluminação de Luciana Tondo e Ricardo Vivian é outro destaque pois dialoga com todos os elementos da cena, traduzindo beleza e criando espaços atemporais no trabalho. Exemplo disso é uma cena que é bela e simples ao mesmo tempo que é a cena"tempo e xícara", onde os atores conseguem extrair sonoplastia de xícaras, colocadas no tempo/espaço da cena e que exprime toda a poesia da encenação.
O elenco está totalmente entregue ao trabalho, conseguiram internalizar todas as influências e referências do autor e direção. Faço uma ressalva ao trabalho da Angela Spiazzi, pois é notável a presença e disponibilidade dos corpos em cena, e isto é possível graças a preparação corporal eficiente. Cada texto, cada palavra, cada gesto está cheio de energia e poesia. Todos estão ótimos em cena, segurando muito bem o espetáculo e para atores que saíram de um Laboratório Cênico, espaço de aprendizagem e experimentação, estão todos num nível profissional avançado. 
Repito que todos os atores estão no mesmo nível, porém Lincoln Speziali e Natalia Lavrati conseguem se destacar pois puxam o foco por ter uma presença cênica, uma energia, uma disponibilidade e aquele olho que faz com que o espectador dialogue diretamente com ambos através de olhares e sutilezas. 
A seleção da trilha sonora seria a única exceção neste trabalho repleto de acertos, pois se pauta entre trilhas e temas que dialogam diretamente com a obra e não chegam a comprometer a cena, mas um exemplo é a cena entre Jaques e Felipe que executam uma belíssima cena, ao som de "Flutua", sendo que a canção não contrapõe a cena, mas sublinha demasiadamente a ação dos dois, beirando ao clichê, mas se esta é a intenção da cena tudo bem, senão poderia evidenciar e valorizar esta bela cena entre os dois atores. 
"Sobre Nós" é um trabalho de afirmação de Léo Maciel, que se coloca entre os melhores encenadores da capital, assim como evidencia uma nova geração de atores, que realizam nesta produção um trabalho que merece ser visto e aplaudido em pé. 
Bravo e viva Tchekov! 

FICHA TÉCNICA:

Direção: Leo Maciel
Preparação corporal/coreografia: Angela Spiazzi
Produção: Jaques Machado
Design de luz: Ricardo Vivian / Luciana Tondo
Técnica de som: Manu Goulart
Figurinos, Maquiagem/Cabelos: Valquiria Cardoso
Arte Gráfica: Jaques Machado / Natalia Lavrati
Elenco: Aline Armani, Felipe Evangelista, Guilherme Fraga, Jaques Machado, Juliana Sixel, Lincoln Speziali, Natalia Lavratti. 

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. Diretor do Grupo Skatá de Canoas.