A HORA DO ENCONTRO: QUANDO DUAS POÉTICAS SE ENCONTRAM: O RISCO COMO POTÊNCIA EM "A HORA DE ÉRICO"
Há espetáculos que começam antes mesmo de a luz se acender. A Hora de Érico é um deles. Antes de acompanhar o encontro ficcional entre Érico Verissimo, Clarice Lispector e Sebastião Verissimo, somos convidados a testemunhar outro encontro, talvez ainda mais improvável: o de duas das mais importantes assinaturas do teatro gaúcho contemporâneo. De um lado, Júlio Conte, dramaturgo que construiu uma obra marcada pela centralidade da palavra, pelos conflitos psicológicos e por uma escrita profundamente atravessada pela psicanálise. De outro, Marcelo Restori, cuja pesquisa cênica privilegia o corpo, a performance, a imagem e a a tensão física como motores da cena. A simples reunião desses dois criadores já constitui, por si só, um acontecimento teatral.
O resultado não é uma disputa de linguagens, mas um diálogo em permanente estado de tensão. A palavra nunca abdica de sua força, mas também não governa sozinha a encenação. O corpo responde ao texto, as imagens prolongam os silêncios, a movimentação dos atores produz significados que escapam à narrativa verbal. É justamente desse atrito entre diferentes formas de pensar o teatro que nasce a singularidade da montagem.
Essa lógica do encontro atravessa também a dramaturgia. Fazer Érico Verissimo dividir a cena com Clarice Lispector talvez seja um gesto que apenas o teatro possa realizar com tamanha liberdade. Não interessa verificar a fidelidade histórica do acontecimento, embora a amizade entre ambos ofereça um sólido ponto de partida. O que importa é o que esse encontro produz. Clarice deixa de ser apenas uma personagem histórica para transformar-se numa consciência crítica, numa presença que conduz Érico por suas zonas mais profundas de memória, culpa e afeto.
Ao lado deles surge Sebastião Verissimo, figura decisiva para compreender o percurso íntimo do escritor. O espetáculo não procura resolver conflitos familiares nem oferecer respostas definitivas. Pelo contrário, compreende que as grandes questões humanas permanecem abertas. O palco torna-se, então, esse espaço onde a literatura, a memória e a imaginação se autorizam a inventar aquilo que a realidade jamais permitiu.
Visualmente, A Hora de Érico impressiona pela precisão de suas escolhas. A cenografia de Luiz Marasca desenha um espaço de forte carga simbólica, enquanto a iluminação de Veridiana Matias esculpe atmosferas que transitam entre a memória e o sonho. A trilha sonora, os figurinos e a movimentação dos intérpretes compõem uma cena de grande refinamento plástico, na qual nenhum elemento é gratuito. Há uma harmonia rara entre forma e conteúdo, permitindo que a experiência estética amplie as camadas de sentido da dramaturgia.
O elenco corresponde plenamente ao desafio proposto. Marcello Crawshaw constrói um Érico Verissimo marcado pela contenção, revelando um homem que, diante dos fantasmas do passado, é obrigado a confrontar suas próprias fragilidades. Karine Paz empresta à sua Clarice Lispector uma presença física e enigmática, tornando-se uma espécie de consciência que conduz e provoca, sem jamais impor respostas. Heitor Schmidt confere humanidade a Sebastião Verissimo, evitando qualquer simplificação de uma figura tão determinante para a trajetória afetiva do escritor.
Essa qualidade dramatúrgica alcança seu ápice no encontro entre Érico e seu pai, já para além da vida. Distantes do realismo e mergulhados num espaço onde memória e imaginação se confundem, pai e filho revisitam afetos, ressentimentos e silêncios que atravessaram toda uma existência. A delicada cena da carta, escrita e rememorada entre ambos, sintetiza com sensibilidade aquilo que o espetáculo busca construir desde o início: a possibilidade de que o teatro realize encontros que a vida jamais permitiu. É um dos momentos mais comoventes da montagem, tanto pela precisão da escrita de Júlio Conte quanto pela condução da direção. Marcello Crawshaw, no papel de Érico Verissimo, e Heitor Schmidt, como Sebastião Verissimo, entregam interpretações de grande maturidade, sustentadas por uma escuta cênica generosa e por uma emoção que nunca resvala no sentimentalismo. É nessa cena que a palavra e o corpo, as duas matrizes estéticas que estruturam o espetáculo, encontram talvez sua síntese mais potente.
Há também algo profundamente admirável na postura artística que a montagem assume. Em um momento em que muitas produções escolhem permanecer em territórios conhecidos, A Hora de Érico aposta no risco. Reunir dois diretores de universos estéticos tão distintos poderia resultar em uma obra fragmentada. O espetáculo, contudo, demonstra exatamente o contrário: as diferenças não são anuladas, mas transformadas em matéria de criação. O desconforto provocado pelo choque entre essas poéticas torna-se a principal força da encenação.
Talvez seja justamente aí que resida sua maior qualidade. Mais do que celebrar os 120 anos de Érico Verissimo, A Hora de Érico presta também uma homenagem à própria história do teatro gaúcho. O encontro entre Júlio Conte e Marcelo Restori simboliza a capacidade da cena contemporânea de promover diálogos entre diferentes gerações, procedimentos e visões de mundo. O espetáculo evidencia que a tradição não se preserva pela repetição, mas pela disposição de se reinventar continuamente.
Ao reunir literatura, teatro, memória e experimentação estética, a montagem reafirma uma das maiores potências da arte: criar encontros que a realidade jamais permitiria. Entre Érico Verissimo e Clarice Lispector, entre pai e filho, entre palavra e corpo, entre tradição e invenção, A Hora de Érico demonstra que o teatro continua sendo o lugar privilegiado onde o impossível acontece. E é justamente nessa ousadia que reside sua beleza.
FICHA TÉCNICA
Dramaturgia: Júlio Conte
Direção: Júlio Conte e Marcelo Restori
Elenco: Marcello Crawshaw, Karine Paz e Heitor Schmidt
Cenografia e Cenotecnia: Luiz Marasca
Iluminação: Veridiana Matias
Operação de Som: Manu Goulart
Trilha pesquisada: Marcelo Restori
Figurino: Patsy Cecato
Vídeo: Fredericco Restori
Fotos: Fernando Pires
Efeitos de som: Alex Ribeiro
Contra-regragem e assistência cenotécnica: Leonardo Schöpf
Produção executiva e divulgação: Gustavo Saul
Realização: Cômica Cultural
Apoio: Secretaria da Cultura de Porto Alegre
Classificação: 16 anos
Duração: 60 minutos
*Diego Ferreira é professor de teatro, dramaturgo, crítico e curador. Graduado em Teatro pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), é criador do projeto Olhares da Cena, espaço dedicado à crítica e reflexão sobre as artes da cena. Entre seus trabalhos dramatúrgicos estão Negreiros: História que a História Não Conta — vencedor do Prêmio Açorianos 2024, Corália Brechó, Abdias do Nascimento e Vozes do Lixão: a história de Tugira.