A sofisticação da simplicidade em “Histórias Negras para Crianças de Todas as Cores”
por Diego Ferreira*
Em tempos em que muitos espetáculos parecem disputar a atenção do público pelo excesso de estímulos visuais e tecnológicos, Histórias Negras para Crianças de Todas as Cores encontra justamente na simplicidade sua maior potência estética. O espetáculo protagonizado por Dedy Ricardo revela como poucos elementos em cena podem construir universos vastos quando sustentados por presença, escuta e imaginação.
Partindo da tradição da contação de histórias africanas, a montagem transforma o palco em território de memória ancestral. A atriz Dedy Ricardo conduz o público por uma narrativa que atravessa gerações e afetos, recuperando vozes de mulheres negras que historicamente foram apagadas ou silenciadas. Em cena, surge Suma, menina que se perde em uma floresta encantada no norte da África e encontra o feiticeiro Obaio, figura que inaugura sua travessia de coragem, inteligência e resistência.
O espetáculo acerta ao compreender que a contação de histórias não é apenas um recurso dramatúrgico, mas um gesto político e cultural. A oralidade torna-se instrumento de preservação da memória afro-diaspórica e aproxima crianças e adultos de narrativas pouco presentes nos repertórios tradicionais do teatro infantil brasileiro. Nesse sentido, a direção de Júlia Ludwig demonstra sensibilidade ao construir uma encenação que não sufoca a palavra nem a performance da atriz com excessos cenográficos. Há uma confiança rara na força do encontro entre intérprete e plateia.
E é justamente na presença de Dedy Ricardo que a obra encontra sua dimensão mais sofisticada. Com domínio cênico e maturidade artística, a atriz dá corpo e voz às personagens sem recorrer a caricaturas ou exageros. Seu trabalho é marcado por precisão narrativa, musicalidade vocal e uma escuta constante do público. Dedy compreende que contar histórias é também criar imagens invisíveis, permitindo que cada espectador complete a cena com sua própria imaginação. Sua atuação produz encantamento porque nasce de uma entrega genuína à narrativa e à ancestralidade que a sustenta.
Outro elemento fundamental para a atmosfera do espetáculo é a trilha sonora original executada por Ricardo Pavão. Mais do que acompanhamento musical, a composição funciona como extensão dramatúrgica da cena. Os sons ajudam a desenhar a floresta, o mistério, os perigos e os momentos de delicadeza da trajetória de Suma. Há uma organicidade entre música e atuação que amplia a experiência sensorial do público e reforça o caráter ritualístico da encenação.
A iluminação de Thais Andrade também merece destaque pela maneira como potencializa os climas da narrativa sem perder a delicadeza proposta pela montagem. Com economia de recursos e inteligência estética, a luz conduz o olhar do espectador, sugerindo espaços, atmosferas e estados emocionais que expandem a dimensão poética da cena.
Ao colocar uma mulher negra como protagonista de sua própria aventura, Histórias Negras para Crianças de Todas as Cores tensiona imaginários historicamente embranquecidos presentes no teatro infantojuvenil e reafirma a importância da representatividade desde a infância. O espetáculo não transforma essa discussão em discurso panfletário; ao contrário, ela emerge organicamente da própria narrativa e da ocupação do espaço cênico por corpos e histórias frequentemente invisibilizados no contexto cultural do Rio Grande do Sul.
A montagem de Dedy Ricardo demonstra que a sofisticação no teatro não depende de grandes aparatos técnicos, mas da capacidade de criar presença, vínculo e imaginação compartilhada. E é justamente nessa aparente simplicidade que o espetáculo encontra sua beleza mais profunda.
Ficha técnica
Atuação: Dedy Ricardo
Direção: Júlia Ludwig
Trilha sonora original: Ricardo Pavão
Produção: Juliano Barros
Iluminação: Thais Andrade
*Diego Ferreira é professor de teatro, dramaturgo, crítico e curador. Graduado em Teatro pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), é criador do projeto Olhares da Cena, espaço dedicado à crítica e reflexão sobre as artes da cena. Entre seus trabalhos dramatúrgicos estão Negreiros: História que a História Não Conta — vencedor do Prêmio Açorianos 2024, Corália Brechó, Abdias do Nascimento e Vozes do Lixão: a história de Tugira.
