A urgência e os desafios de Mulheres de Plástico
Ao longo de seus 43 anos de trajetória, a GEDA Cia de Dança consolidou-se como um dos grupos mais importantes da cena gaúcha quando o assunto é a articulação entre dança, pensamento crítico e questões sociais urgentes. Sob a direção de Maria Waleska Van Helden, a companhia construiu uma produção artística marcada pela inquietação e pelo compromisso com temas que atravessam o tempo presente. Espetáculos como Ás vezes eu Kahlo, Vaga e Andaime demonstram uma pesquisa consistente que encontra na linguagem da dança-teatro um espaço fértil para tensionar estruturas sociais e provocar reflexão.
É nesse percurso que se insere Mulheres de Plástico, mais recente criação da companhia. O espetáculo parte de uma premissa potente: utilizar o plástico como metáfora para refletir sobre os padrões impostos às mulheres, as tentativas de moldagem dos corpos e comportamentos femininos e os mecanismos de opressão que atravessam suas existências. A imagem é rica. O plástico, material resistente, descartável, moldável e onipresente, oferece inúmeras possibilidades simbólicas para pensar os processos de objetificação, consumo e violência que historicamente recaem sobre os corpos femininos.
Essa camada conceitual é apresentada de maneira bastante clara antes mesmo do início da encenação, num epílogo apresentado no hall do teatro. Vídeos e depoimentos das intérpretes ajudam a construir uma expectativa sobre a relação entre o material plástico e a experiência feminina, estabelecendo uma chave de leitura promissora para o que virá a seguir.
Entretanto, à medida que o espetáculo avança, essa linha de investigação parece perder centralidade. A encenação passa a concentrar-se predominantemente nas múltiplas formas de violência contra as mulheres, especialmente na discussão sobre o feminicídio, deslocando parcialmente o eixo dramatúrgico inicialmente anunciado. Não se trata de uma mudança problemática em si — afinal, a violência de gênero é um tema urgente e necessário, e deve estar sempre no centro de qualquer discussão —, mas da sensação de que duas pesquisas distintas convivem na mesma obra sem que suas conexões sejam plenamente desenvolvidas.
A pergunta que permanece é justamente como o plástico dialoga com essas violências. De que maneira a metáfora material poderia atravessar de forma mais consistente a construção das cenas? Como relacionar o caráter moldável e descartável do plástico aos mecanismos sociais que produzem silenciamento, apagamento e morte? São questões que a obra apresenta, mas que ainda carecem de uma elaboração dramatúrgica mais aprofundada.
Talvez resida aí um dos principais desafios deste trabalho. Embora a força imagética da encenação seja evidente, sente-se falta de uma organização dramatúrgica capaz de costurar com maior precisão os diversos materiais colocados em cena. A impressão é de que o espetáculo possui temas relevantes e imagens significativas, mas ainda busca um eixo estruturante que articule essas camadas de maneira mais orgânica. É uma obra recém estreada e justamente por isso carrega consigo um campo fértil de amadurecimento.
Outro recurso recorrente na encenação é a utilização da projeção de vídeos, elemento que poderia ampliar as camadas de leitura da obra e estabelecer contrapontos entre imagem, corpo e discurso. No entanto, sua presença nem sempre alcança a potência que parece almejar. Em diversos momentos, as projeções sofrem com a incidência da iluminação cênica, tornando as imagens pouco nítidas e dificultando sua fruição pelo público. Há sequências em que o conteúdo projetado se torna praticamente ilegível, comprometendo sua função comunicativa dentro da construção do espetáculo.
Para além da questão técnica, também se percebe uma fragilidade na integração dramatúrgica desse material audiovisual. Em vez de tensionar, ampliar ou deslocar os sentidos produzidos pela cena, muitas projeções acabam reiterando informações que já estão claramente presentes na ação das intérpretes. É o caso da cena da caixinha de música, em que a imagem projetada acompanha e reforça aquilo que já está sendo comunicado corporalmente, assumindo um caráter predominantemente ilustrativo. Ao invés de criar novas camadas de significado, o vídeo parece confirmar o que o espectador já compreendeu. Seu uso encontra maior efetividade nos momentos em que apresenta dados estatísticos ou informações documentais relacionadas à violência contra as mulheres, contribuindo para situar o debate proposto pela obra em uma dimensão social concreta. Ainda assim, permanece a sensação de que o recurso audiovisual poderia assumir uma função mais ativa na tessitura do espetáculo, dialogando de forma menos redundante com a cena e participando mais diretamente da construção de sua dramaturgia.
Outro aspecto que merece reflexão está na forma como o espetáculo mobiliza dados sobre feminicídio e violência contra mulheres, especialmente mulheres negras. Em determinado momento, estatísticas revelam que mulheres negras estão entre as maiores vítimas dessa violência estrutural. A informação é importante e necessária. No entanto, ela cria uma tensão quando observamos que não há mulheres negras representadas no elenco ou identificadas nos demais espaços de visibilidade da criação. Surge então uma lacuna entre discurso e representação.
A questão não está em quem pode ou não abordar determinado tema, mas em como determinadas presenças — ou ausências — produzem sentidos dentro da obra. Quando mulheres negras aparecem apenas como dado estatístico, sem que suas experiências encontrem correspondência nos corpos presentes em cena, abre-se um espaço crítico que merece ser pensado. Afinal, falar sobre representatividade também implica refletir sobre quem ocupa os lugares de fala, visibilidade e criação.
Entre as imagens mais impactantes da montagem está o solo de Clarissa Gomes. Vestindo um figurino composto por resíduos e materiais descartados, a intérprete atravessa a cena carregando uma criança, compondo uma imagem que reúne fragilidade, sobrecarga, cuidado e abandono. Trata-se de um dos momentos de maior força visual do espetáculo, capaz de sintetizar muitas das questões que a obra procura discutir sobre o feminino e as violências que atravessam a experiência das mulheres.
Contudo, a potência simbólica da cena encontra alguns limites em sua execução. A presença da criança, embora carregada de significado, parece não estar integrada à dinâmica cênica construída ao redor dela. Em diversos momentos, sua participação produz uma sensação de deslocamento em relação ao tempo e ao ritmo da ação, como se habitasse uma camada distinta daquela proposta pela encenação. O resultado é que a atenção do espectador se divide entre a força da composição visual e uma percepção de estranhamento provocada pela falta de organicidade da presença da criança em cena.
Outro elemento que chama atenção é a boneca negra carregada pela intérprete. Embora sua aparição possa sugerir múltiplas leituras simbólicas, ela inevitavelmente dialoga com uma questão já instaurada pelo próprio espetáculo: a evocação recorrente das mulheres negras através de estatísticas e referências à violência de gênero. Quando a presença negra surge novamente por meio de um objeto, e não de corpos efetivamente representados na cena, abre-se um campo de tensão que extrapola a intenção inicial da montagem. Mais do que ampliar a discussão, a imagem pode deslocar o olhar do público para questões relativas à representatividade e aos modos como determinadas presenças são convocadas dentro da obra. Não se trata de invalidar a escolha cênica, mas de reconhecer que ela produz camadas de leitura que talvez o espetáculo ainda não tenha desenvolvido plenamente.
Por outro lado, alguns elementos da montagem demonstram grande potência. O trabalho cenográfico e de figurinos concebido por Diego Steffani dialoga de maneira consistente com o universo proposto pelo espetáculo. A utilização de materiais reciclados e a construção visual dos ambientes reforçam a atmosfera de artificialidade, aprisionamento e transformação sugerida pela metáfora do plástico. Há uma coerência estética que sustenta visualmente a encenação e oferece imagens de forte impacto ao público.
Também merece destaque a entrega das intérpretes Carini Pereira, Clarissa Gomes, Consuelo Vallandro, Débora Rodrigues e Graziela Silveira, que conduzem a obra com intensidade e disponibilidade cênica. Cada interprete com suas individualidades e subjetividades sustentam a obra com maestria. Seus corpos tornam-se território de denúncia, resistência e exposição, sustentando a dimensão sensível da proposta mesmo nos momentos em que a dramaturgia parece não se sustentar.
Mulheres de Plástico é, sobretudo, um espetáculo que revela coragem ao enfrentar questões urgentes relacionadas à condição feminina contemporânea. Sua força está na relevância do tema e na qualidade da pesquisa artística que sustenta sua criação. Ao mesmo tempo, sua estreia evidencia caminhos que ainda podem ser aprofundados, especialmente na articulação entre conceito e dramaturgia.
Talvez seja justamente nesse estado de construção que resida o interesse da obra. Há material, imagens e inquietações suficientes para que o espetáculo continue amadurecendo e expandindo suas camadas de sentidos. E quando uma criação provoca perguntas que permanecem ecoando após o fim da apresentação, ela já demonstra possuir algo fundamental: a capacidade de seguir em movimento.
Ficha Técnica
Concepção, direção e coreografia: Maria Waleska Van Helden
Elenco: Carini Pereira, Clarissa Gomes, Consuelo Vallandro, Débora Rodrigues e Graziela Silveira
Iluminação: Nara Maia
Trilha Sonora: Kiti Santos
Operação de Som: Pati de la Rocha
Criação e operação de vídeo e fotografia: Rabo de Galo Filmes (Cris Oliveira e Samuel Gambohan)
Cenário e Figurino: Diego Steffani
Colaboradores – preparação técnica: Rodrigo Scherer e Maximiliano Stanford
Produção: Consuelo Vallandro
Assistência de produção: Claudia Dutra
Participação especial: Gabriel Lima Barreto Van Helden
Apoio: Espaço Cultural Andanças e Vera Lúcia Remedi Pereira
Parcerias: Estúdio Stravaganza e Fundação Teatro São Pedro
Assessoria de comunicação para as artes: Textuaria
Identidade Visual: Pedro Van Helden
Social Media: Cláudia Dutra
*Diego Ferreira é professor de teatro, dramaturgo, crítico e curador. Graduado em Teatro pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), é criador do projeto Olhares da Cena, espaço dedicado à crítica e reflexão sobre as artes da cena. Entre seus trabalhos dramatúrgicos estão Negreiros: História que a História Não Conta — vencedor do Prêmio Açorianos 2024, Corália Brechó, Abdias do Nascimento e Vozes do Lixão: a história de Tugira.