quarta-feira, 16 de setembro de 2026

IMORAIS (PE)

 


IMORAIS — Quando os limites da moralidade entram em cena

Por Diego Ferreira

    O que torna alguém imoral? Em que momento um desejo, uma escolha ou um comportamento ultrapassa a fronteira do que convencionamos chamar de aceitável? E, sobretudo, quem estabelece essa fronteira?

    É a partir dessas perguntas que Imorais, do Bando de Nada Coletivo de Teatro, constrói sua experiência cênica. O espetáculo pernambucano, texto de Cristiano Primo, com adaptação dramatúrgica e direção de Emmanuel Matheus, chega ao Porto Alegre em Cena carregando uma atmosfera de permanente tensão. Há algo prestes a acontecer durante toda a encenação — e talvez seja justamente essa sensação de iminência que mantenha o espectador em estado de alerta.

       A dramaturgia é um dos grandes méritos da montagem. Embora em alguns momentos recorra a frases que se aproximam de determinados clichês discursivos, o texto encontra uma estrutura bastante interessante para desenvolver seus conflitos. Mais do que entregar respostas, a dramaturgia organiza situações, relações e confrontos que permitem ao público perceber como as noções de certo e errado são construídas dentro de uma casa, de uma família e de suas relações.

    E essa escolha é importante. Imorais não trata a moralidade como uma ideia abstrata. Ela aparece incorporada aos corpos, aos silêncios, às palavras e, principalmente, às relações de poder. O espaço doméstico torna-se, assim, uma espécie de território de disputa, onde afetos, desejos, convenções e interditos entram constantemente em choque.

        A tensão do espetáculo não está apenas naquilo que é dito, mas também naquilo que parece estar sendo evitado. Há uma violência subterrânea nas relações, uma espécie de desconforto que atravessa os personagens e contamina a cena. O espectador é colocado diante de situações nas quais nem sempre é possível encontrar uma posição confortável. E talvez seja justamente aí que esteja uma das forças da montagem: Imorais não permite que o julgamento seja tão simples quanto gostaríamos.

O assunto é necessário.

    Em uma sociedade que frequentemente estabelece regras diferentes para diferentes corpos, desejos e comportamentos, discutir quem pode ou não ultrapassar determinadas fronteiras é também discutir poder. A moralidade nunca é completamente neutra. Ela é atravessada por valores, convenções, relações familiares, expectativas sociais e pelos lugares que cada indivíduo ocupa dentro dessas estruturas.

    O espetáculo acerta ao não transformar essa discussão em uma simples tese. A dramaturgia se desenvolve a partir do conflito e permite que as contradições permaneçam em cena. É uma obra que provoca mais pelo desconforto das perguntas do que pela facilidade das respostas.

    O elenco merece destaque pela disponibilidade física, corporal e pela força com que enfrenta a cena. Cristiano Primo, Hblynda Morais, Felipe Nunes e Marcos Zé constroem presenças que sustentam a tensão do espetáculo e fazem do corpo também um território de conflito. Há uma entrega que ultrapassa a palavra e transforma gesto, silêncio e movimento em matéria dramatúrgica. Entre essas presenças, Hblynda Morais chama especial atenção. Sua força cênica, aliada a uma expressividade corporal muito precisa, faz com que sua presença se imponha mesmo nos momentos de contenção. Hblynda não apenas ocupa a cena: ela tensiona o espaço e amplia a temperatura das relações que o espetáculo coloca em jogo.

    E se o elenco sustenta essa temperatura, a iluminação de Cleison Ramos merece atenção especial. Os cortes de luz funcionam quase como interrupções no fluxo da cena. Não estão ali apenas para iluminar, mas para recortar, separar, revelar e esconder. A luz cria enquadramentos e produz uma espécie de pulsação visual que acompanha a tensão dramatúrgica. Esses cortes contribuem para uma atmosfera fragmentada, como se a própria cena estivesse constantemente reorganizando aquilo que podemos ou não enxergar. A iluminação torna-se, portanto, parte efetiva da dramaturgia do espetáculo.

    Imorais é uma montagem tensa. E não necessariamente busca aliviar essa tensão. Pelo contrário: parece compreender que determinados assuntos precisam permanecer incômodos para que possam ser verdadeiramente discutidos.

    Há momentos em que o texto poderia escapar um pouco mais de determinadas formulações já conhecidas, encontrando caminhos ainda mais particulares para dizer aquilo que pretende. Mas essa ressalva não diminui a qualidade de uma dramaturgia que apresenta uma arquitetura consistente e sabe criar situações capazes de sustentar o conflito.

    Ao final, talvez a pergunta permaneça sem resposta: quem são, afinal, os imorais?

    Talvez sejam aqueles que atravessam os limites impostos. Ou talvez sejam aqueles que têm o poder de estabelecer quais limites os outros devem obedecer.

    É nessa zona instável, entre desejo e proibição, afeto e violência, escolha e julgamento, que Imorais encontra sua força.

    E é justamente por não oferecer uma resposta confortável que o espetáculo continua reverberando depois que as luzes se apagam.


Acesse www.olharesdacena.com.br/


FICHA TÉCNICA

Texto: Cristiano Primo
Adaptação Dramatúrgica e Direção: Emmanuel Matheus
Produção Executiva: HBlynda Morais
Elenco: Cristiano Primo, HBlynda Morais, Felipe Nunes e Marcos Zé
Pesquisa Sonoplastia: Emmanuel Matheus
Operação Sonoplastia: Monique Sampaio
Concepção Figurino: O Grupo
Concepção Cenário: Emmanuel Matheus
Iluminador: Cleison Ramos (Farol Atelier da Luz)
Fotos: Jéssica Viana
Programador Visual: Arthur Cardoso

*Diego Ferreira é professor de teatro, dramaturgo, crítico e curador. Graduado em Teatro pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), é criador do projeto Olhares da Cena, espaço dedicado à crítica e reflexão sobre as artes da cena. Entre seus trabalhos dramatúrgicos estão Negreiros: História que a História Não Conta — vencedor do Prêmio Açorianos 2024, Corália Brechó, Abdias do Nascimento e Vozes do Lixão: a história de Tugira. É criador da Escola Livre de Artes da Cena.