domingo, 12 de maio de 2019

ELAS - CRÍTICA

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas

Dramaturgia(s): Ampliação do discurso estético

por Diego Ferreira*

O espetáculo "ELAS" da Nós Cia de Teatro é sem sombra de dúvida um dos melhores espetáculos de 2019 apresentados até aqui, e tentarei explicar o porque nas próximas linhas. 
O espetáculo coloca em cena cinco atrizes para falar sobre o universo feminino, e esta premissa já poderia ser uma barreira, pois temos inumeros espetáculos, filmes e tratados sobre a mulher na atualidade e na arte e muitas vezes o caminho escolhido é o mais fácil que acabam repetindo determinados clichês. Não é o caso de "Elas". A produção te pega de uma forma pois ao mesmo tempo que fala sobre as mulheres, fala também sobre todos nós, pois toca em temas que são inerentes a todos e isto é fantástico, pois trata-se de um espetáculo que inclui, a começar pela abertura da noite que foi da atriz Mayura Mattos, atriz negra que ao sair do teatro para fazer a abertura falou uma frase que teve um impacto tão grande e significante para todos os negros que estavam ali, ela falou: "todos os negros podem passar na frente", e eu que sou negro já entrei no espaço da encenação com a autoestima lá em cima, pois geralmente homens e mulheres negras quase nunca são os primeiros... e este preâmbulo e toda a fala de Mayura já criou um ambiente em que todos estavam e deveriam estar ali, juntos! Mayura é uma artista sensacional e abrilhantou a noite.
Depois assistimos a um trabalho que pensou em todos os detalhes para se tornar o que é. A dramaturgia de Everson Silva se apoia em citações de Fernanda Bastos e fragmentos  de textos, canções e vozes dissonantes que caminham para um mesmo rumo: falar da mulher na sociedade contemporânea e suas belezas, lutas, preconceitos e exaltação. O espetáculo é composto por diversas camadas que buscam fugir da superficie para dialogar com o espectador. Neste caso, amplio o conceito de dramaturgia para colocá-lo no plural e falar em dramaturgia(s), ampliando a discução estética. 
A acepção mais difundida do termo dramaturgia remete ao campo da escrita do texto dramático. Mas há outra acepção de dramaturgia que se liga prioritariamente à constituição de uma narrativa cênica, espetacular, e é desta última significação que Everson enquanto dramaturgo e diretor consegue extrair o melhor da produção. Temos aqui a dramaturgia textual, física, espacial, sonora, plástica e estética que conseguem convergir todas para nos proporcionar uma bela experiência cênica. O espaço cênico construído com louvor por Jony Pereira tras uma dimensão metafórica e poética, colocando no palco da sala Alvaro Moreyra uma piscina que através de suas águas consegue lavar o espectador, pois as águas lavam, curam, benzem, limpam toda a sujeira do mundo. E este movimento que a água provoca enquanto elemento cenográfico central coloca em evidência os corpos das atrizes, que utilizam um figurino que tem como base a transparência, que ao entrar em contato com a água vai ganhando outros contornos. Interessante esta proposta de figurino pois evidencia a diversidade dos corpos em cena, corpos que fogem do padrão midiático, corpos de mulheres reais, corpos com suas marcas, suas identidades, suas vivências. Corpos que são atravessados pela água e por toda a poesia que estes corpos conseguem propagar pelo espaço através dos seus movimentos, deslocamentos mas principalmente pela presença e discurso que o corpo em cena propõe. A iluminação de Veridiana Mendes é de uma competência fantástica, pois consegue criar uma comunicação através da luz, sua criação não serve apenas para iluminar, mas cria códigos e signos que tornam a experiência estética ainda mais potente. Quando a luz toca nas águas é a certeza de belas imagens, somadas a trilha sonora que também é eficaz e consegue criar um espaço sonoro que reforça o já referido até aqui. Outro destaque é a produção do espetáculo que teve um trabalho bastante positivo, desde a divulgação até mesmo a criação de toda a estrutura que dá base ao trabalho. 
O elenco formado pelas atrizes Kacau Soares, Leticia Kleemann, Paula Cardoso, Raquel Tessari e Val Barcellos é tão potente, tão coeso, tão diverso e por isso conseguem colocar em cena toda a dimensão poética e emotiva do trabalho. Todas as atrizes tem uma carga dramática e estão ali com seus corpos e discursos a disposição da encenação. A força do coletivo é que faz do trabalho o que ele é, e a direção soube explorar isso muito bem. Nelas temos todas as características inerentes a mulheres brasileiras e por isso além de ser um trabalho com esta carga estética alta, temos um trabalho político que coloca o corpo da mulher no centro do discurso e seu lugar de fala. O elenco é tão coeso, mas destaco a atriz Kacau Soares principalmente na cena em que ela recria a canção Cabô de Lueji Luna e carrega na intensidade e internalização do discurso contido na letra que faz escorrer as lágrimas do espectador que se juntam as águas do palco.
Portanto, trata-se de um espetáculo de forte impacto estético e narrativo que merece um retorno aos palcos gaúchos e porque não os palcos do Brasil!

Ficha Técnica:

Direção: Everson Silva.
Produção: Pedro Dos Santos.
Atuação: Kacau Soares, Leticia Kleemann, Paula Cardoso, Raquel Tessari e Val Barcellos.
Dramaturgia: Everson Silva, a partir do material criado coletivamente, com citações de “Desta Cor” de Fernanda Bastos (gentilmente cedida pela Figura de Linguagem).
Trilha Sonora: Composição original de Maninho Melo (Jeff Mou).
Músicos: Maninho Melo, Leandro Alves e Edu Coelho Educs. Técnico de Gravação e Mixagem de Leandro Alves. Gravado em Canoas (2018), na L&A Produções Musicais.
Cenografia: Jony Pereira.
Iluminação: Veridiana Mendes.
Figurino: Studio Lê Brochier.
Maquiagem: Criação Coletiva.
Fotografia: Jean Pierre Kruze.
Arte e Mídias Digitais: Amanda Hamermüller.
Assessoria de Imprensa: Silvia Mara Abreu.
Produção Executiva: Everson Silva.
Assistência de Produção: Val Barcellos.
Realização: Nós Cia. de Teatro.

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. Diretor do Grupo Skatá de Canoas.


sexta-feira, 3 de maio de 2019

O URSO COM MÚSICA NA BARRIGA - CRÍTICA

Imagem relacionada

GRANDE ESPETÁCULO EM PEQUENOS DETALHES

por Diego Ferreira*
O espetáculo "O urso com música na barriga" é uma grata surpresa que agrada em cheio a toda família, pelo bom teatro apresentado pela produção caprichada em todos os sentidos. Trata-se da produção do Grupo Atimonautas Teatro de Bonecos e dirigido por Arlete Cunha. Baseado no livro homônimo de Érico Veríssimo o espetáculo tem um apelo visual bastante forte e se utiliza de várias técnicas do teatro de animação como grandes e pequenos bonecos de manipulação direta, bonecos de vestir e marionetes que transportam o espectador para um espaço lúdico e fantástico para falar de temas importantes como intolerância, dificuldade de comunicação e bullying. 
A produção é excelente pois é detalhista, tu enxerga o cuidado em cada pequeno detalhe, do cuidado com figurinos dos bonecos e na construção dos mesmos, da linda iluminação de Vinícius Lopes e Vicente Goulart e da trilha funcional de Ricardo Pavão, pois como a dramaturgia é contada através de locuções a trilha sonora acaba ganhando um peso bastante grande por dialogar com todos os elementos e sendo a linha motriz do espetáculo.
No espetáculo a comunicação se dá através da interação dos bonecos com a platéia, e o que vemos é altamente positivi, pois o espetáculo é didático, ao abordar temas relevantes, mas não é panfletário no sentido de defender um ponto de vista ou até mesmo apontar culpados.  Os atores/manipuladores Alberto Vermelho, Dênis Moreira, Mairã Alves e Jacqueline Rosa são precisos e deixam brilhar os bonecos e não as suas pessoalidades e por isso temos um ótimo resultado. 
Parabéns a todos os envolvidos e que a produção possa trilhar novos e longos caminhos pois o espetáculo encanta com toda sua beleza e poesia.


Ficha Técnica
Texto: Érico Veríssimo
Direção: Arlete Cunha
Assistência de direção: Dedy Ricardo
Atuação/Manipulação: Alberto Vermelho, Dênis Moreira, Mairã Alves e Jacqueline Rosa
Locução: Alberto Vermelho, Dedy Ricardo, Dênis Moreira, Jacqueline Rosa, Rafael Cambará e Ricardo Pavão
Concepção de bonecos, cenários e figurinos: Dênis Moreira
Confecção de bonecos, cenários e figurinos: Ateliê Nunes
Engenharia Eletrônica: Marcelo Patines
Iluminação: Vinícius Lopes e Vicente Goulart
Trilha original: Ricardo Pavão
Gravação de trilha: Mosaico Produtora Cultural
Designer gráfico: Dídi Jucá
Fotografia: Adriana Marchiori
Produção executiva e divulgação: Raiar Produções.
Realização: Atimonautas Teatro de Bonecos

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. Diretor do Grupo Skatá de Canoas.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

LÊ BUFÊ - CRÍTICA

A imagem pode conter: 2 pessoas, pessoas sorrindo, close-up


EXERCÍCIO AFINADO DE ATORES


por Diego Ferreira*



Bufão é o cômico grotesco, o marginal que utiliza da pretensa insanidade para denunciar os aspectos torpes da sociedade discriminatória. Apesar de seu discurso ser proibido, a sociedade sempre está disposta a ouvi-los.  Os personagens exercem sua blasfêmia através de paródias e pequenas cenas recheadas de deboche onde destilam todo o seu talento, e mais do que isso, toda a sua ácida crítica social. A cena em que a dupla Celói e Lingüiça refletem sobre o teatro contemporâneo é simplesmente impagável, onde criticam os próprios colegas de forma inteligente e cômica, assim como as demais cenas que tocam, de forma cômica e grotesca, em temas pertinentes e variados, expondo, por exemplo, o que há de impessoal nas relações virtuais, de falso na bondade que atende somente ao moralismo e de abusivo nas relações de poder do homem sobre a mulher.
Ao vislumbrar as duas figuras adentrando no palco de um teatro, e se apropriando daquele lugar oportuno, (pois o público já estava lá) para destilar toda sua sagacidade crítica e política, talvez não tenhamos a dimensão do que é trabalhar a partir da técnica do bufão, e trata-se de uma técnica completamente difícil e elaborada. A construção do seu corpo é bastante complexa, pois além do bufão, o ator representa figuras que este paródia e que não pode desmentir a base que sustenta o jogo. A construção do corpo da paródia deve obedecer à do bufão. É importante que o intérprete entenda qual o argumento narrativo do bufão e qual a do parodiado. E é justamente neste ponto que Aline Marques e Eduardo d’Avila são brilhantes, pois conseguem compreender e internalizar de forma magistral o jogo necessário da técnica da bufonaria, denunciando todas as mazelas que acometem estes seres marginalizados. Eduardo d’Avilla consegue evidenciar através de sua composição toda sua verve cômica e crítica ao mesmo tempo, conseguindo sustentar o jogo junto a Aline Marques que mais uma vez consegue construir um exímio trabalho de desconstrução da sua persona para construir sua Celói que é excepcional. A dupla funciona muito bem, porém Aline é dona de si e triunfa de forma magistral em cena através de sua figura que é engraçada, sarcástica, crítica e acima de tudo humana.
Não posso deixar de citar a ótima trilha sonora de André Paz que consegue se conectar de forma bastante particular a encenação.
“Lê Bufê” não é um espetáculo que prima por uma estética visual com cenários e figurinos exuberantes, até porque nem cabe na sua concepção, mas o espetáculo preza pelo exercício afinado de uma dupla de atores que exercem a pura técnica, resultado de pesquisa estética apurada e refinada que revela um rico trabalho de ATOR!
Bravo!!!

FICHA TÉCNICA:
Orientação técnica da máscara bufão: Aline Marques
Direção: Aline Marques e Eduardo d’Avila
Texto: Aline Marques e Eduardo d’Avila
Atuação: Aline Marques e Eduardo d’Avila
Trilha sonora original: André Paz
Cenário, figurino e maquiagem: Aline Marques e Eduardo d’Avila
Material Gráfico: Gilmar Barcarol
Fotos: Pulp Fotografia
Contribuições/olhar crítico: Camila Diehl



*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. Diretor do Grupo Skatá de Canoas.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

NEVA - CRÍTICA

Foto: Qex Bittencourt


ESPETÁCULO SIMPLES E POTENTE


por Diego Ferreira*



No dia 9 de janeiro de 1905, um dos mais importantes da história do século XX, Olga Knipper (viúva de Anton Tchékhov) e mais dois atores, Masha e Aleko, estão num teatro de São Petersburgo. Era domingo, dia em que as tropas czaristas massacraram um grupo de trabalhadores que viera fazer um protesto pacífico e desarmado em frente ao Palácio de Inverno do Czar. Porém, dentro do teatro, bem em frente ao rio Neva, Aleko e Masha ajudam Olga, a ensaiar O Jardim das Cerejeiras enquanto aguardam o diretor de peça, ou a Revolução, ou alguma outra coisa desconhecida. Olga quer apenas o reconhecimento de seu talento, Aleko é conservador e deseja que o mundo permaneça como está e Masha faz discursos inflamados de que mundo mudará para melhor com a Revolução. Mas não é tão simples. Após ensaiar por diversas vezes a morte de Tchékhov com Olga e Masha, Aleko às vezes parece encarnar o autor, agindo de forma diferente do habitual, caindo fora de seu ideário.
A peça Neva é um espetáculo encenado dentro da universidade e dá inicio ao Projeto TPE: Teatro, Pesquisa e Extensão, um projeto longevo e importante que evidencia os espetáculos gestados dentro do Departamento de Arte Dramática da UFRGS. Trata-se de uma montagem dirigida por Silvana Rodrigues sobre texto do chileno Guillermo Calderón. Primeiramente gostaria de parabenizar a escolha do texto de Calderón que trás um contexto completo: há uma profunda reflexão sarcástica a respeito da arte teatral, há a vida privada com foco nas vaidades dos atores e há o drama popular da revolução nascente. No texto temos menos humor e muito mais sarcasmo. É neste ponto que evidencio a carência da encenação, pois temos a história destes três atores bastante relevantes e específicos dentro de um contexto repleto de tensão política e percebo que os atores não conseguem criar esta dimensão política dos personagens (com exceção de Marina Fervenza que pela natureza de sua personagem consegue atingir um pouco mais esta dimensão), até mesmo devido à idade dos interpretes, o que acarreta na construção e maturidade dos personagens. Isso não significa que os atores e direção não alcance um bom resultado, pelo contrário, está justamente em Marina Fervenza, Natasha Villar e Phillipe Coutinho, orientados pela Silvana Rodrigues a força da produção, pois mesmo sem conseguir atingir esta dimensão política e seus desdobramentos do que acontece lá fora do teatro, os atores conseguem atingir a dimensão dramática, construindo esta metalinguagem, que é o teatro dentro do teatro, onde percebemos os devaneios entre a insanidade e a encenação revivendo a morte de Anton Tchekhov. “Neva” é um espetáculo simples em sua essência e potente em seu contexto que nos lembra que no Brasil de hoje estamos diante de situações bem próximas da Rússia do início do século passado. E por isso o espetáculo já merece nosso aplauso.

Ficha Técnica

Texto: Guillermo Calderón

Direção: Silvana Rodrigues

Assistência de direção: Sandino Rafael

Elenco: Marina Fervenza, Natasha Villar e Phillipe Coutinho

Orientação: Patricia Fagundes

Co-orientação: Juliana Kersting e Sandino Rafael

Luz: Bruna Casali, Henrique Strieder e João Caron

Trilha Sonora Pesquisada: Silvana Rodrigues

Operação de Som: Sandino Rafael

Figurinos: Mari Falcão

Foto: Qex Bittencourt

Duração: 55 minutos

Classificação Indicativa: 14 anos

Peça originada na disciplina Atelier de Composição e Montagem (2018/1), no Departamento de Arte Dramática da UFRGS.

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. Foi jurado do Prêmio do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. Diretor do Grupo Skatá de Canoas.