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sexta-feira, 29 de maio de 2026

PEÇA ÚNICA (MS)

 


Dissidência e sobrevivência em Peça Única

por Diego Ferreira*

    Há algo profundamente político quando corpos historicamente expulsos do centro da cena ocupam um espaço como o Palco Giratório. Não se trata apenas de representatividade — palavra que muitas vezes suaviza conflitos —, mas de presença, de enfrentamento e de reconfiguração do olhar. Peça Única, da House of Hands Up MS, emerge justamente desse lugar: como uma obra que reivindica existência através da dança, da moda, da performance e da precariedade transformada em linguagem estética.

    Para compreender a potência do espetáculo, talvez seja necessário retornar brevemente à cultura ballroom e ao vogue. Nascidas nos Estados Unidos, sobretudo entre comunidades negras e latinas LGBTQIAPN+, as ballrooms surgem como espaços de acolhimento, disputa simbólica e reinvenção identitária. Em um mundo que negava trabalho, afeto, segurança e humanidade para esses corpos dissidentes, os bailes criavam outra lógica de pertencimento. As “houses” — famílias escolhidas — tornaram-se redes de sobrevivência. E o vogue, muito além de uma dança, passou a operar como gesto político: posar, desfilar, performar glamour e poder diante de uma sociedade que insistia em relegar esses corpos à marginalidade.

    Quando a House of Hands Up MS leva essa cultura para o centro de um dos projetos mais importantes de circulação teatral do país, o que está em jogo não é apenas a legitimação institucional de uma estética periférica, mas a fricção entre mundos. Peça Única não suaviza essa tensão. Pelo contrário: a obra parece construída justamente no atrito.

    Com nove performers em cena, o espetáculo investiga a beleza como campo de batalha. A moda aparece não como ornamento, mas como armadura e invenção de si. O figurino, as poses, os desfiles e as construções imagéticas dialogam diretamente com a tradição ballroom, onde vestir-se também é sobreviver. Há algo de radical na maneira como o coletivo transforma o estilo em manifesto. Cada entrada, cada olhar lançado ao público, cada movimento carregado de atitude reivindica o direito de ser visto sem pedir licença.

    Mas talvez o aspecto mais instigante de Peça Única esteja em assumir a gambiarra, o improviso e a desorganização como princípios estéticos. Existe uma recusa explícita em produzir uma obra “acabada” nos moldes tradicionais. A precariedade deixa de ser ausência de recursos para tornar-se discurso. E isso é profundamente coerente com a própria história dos corpos queer periféricos no Brasil: sujeitos que historicamente precisaram inventar modos de existir com o que restava, criando beleza justamente nas frestas.

    A pergunta que atravessa a obra — “como produzir vida em cunt?” — ecoa como provocação e manifesto. Em vez de buscar respostas definitivas, o espetáculo parece interessado em permanecer na instabilidade. A cena pulsa como uma coreografia de sobrevivência: excessiva, vulnerável, debochada e, ao mesmo tempo, violenta. Há uma recusa da normatividade até mesmo nos modos de composição dramatúrgica. Peça Única desafia expectativas de linearidade e organização, optando por um fluxo fragmentado, próximo do caos, como se afirmasse que a própria dissidência não cabe em estruturas rígidas.

    A dança vogue aparece então não apenas como referência estética, mas como tecnologia de resistência. Os movimentos cortados, os braços desenhando linhas impossíveis, as poses abruptas e o jogo constante com a câmera imaginária produzem uma cena onde o corpo reivindica centralidade absoluta. São corpos que historicamente foram transformados em caricatura ou invisibilidade e que aqui devolvem o olhar ao espectador com intensidade e confronto.

    Existe ainda algo de muito simbólico no fato de um coletivo de Mato Grosso do Sul ocupar esse espaço nacional. Frequentemente, quando se fala de ballroom no Brasil, o eixo Rio-São Paulo monopoliza as narrativas. A House of Hands Up MS rompe essa lógica e evidencia como a cultura vogue se espalhou pelo país, criando novas redes de pertencimento e criação artística fora dos grandes centros.

    Peça Única não busca conforto. Sua força está justamente em instaurar desconfortos. O espetáculo compreende que existir enquanto corpo dissidente no Brasil já é, por si só, uma experiência performativa de sobrevivência. E talvez seja exatamente isso que a obra oferece: não uma celebração romantizada da diversidade, mas a exposição crua, vibrante e estilizada de vidas que insistem em continuar produzindo beleza apesar da violência cotidiana.

    Ao ocupar o Palco Giratório, esses corpos não pedem autorização para existir. Eles transformam o palco em território de disputa, desfile, festa e enfrentamento. É dança. É moda. É periferia. É política. Mas, acima de tudo, é a afirmação radical de que sobreviver também pode ser uma forma de arte.

    Diante de toda essa perspectiva política e estética, o que permanece ao final de Peça Única é justamente aquilo que o título anuncia: trata-se de um espetáculo singular, de uma peça única. E não apenas pela temática ou pela potência discursiva que carrega, mas sobretudo pela qualidade artística que sustenta a obra. A House of Hands Up MS não ocupa o Palco Giratório por concessão ou gesto de inclusão simbólica; ocupa porque existe rigor, presença cênica e uma visceralidade arrebatadora nos corpos de seu elenco. São performers que arrasam em cena, que compreendem o palco como espaço de disputa, mas também como território de invenção estética radical.

    Há uma pulsação coletiva que atravessa a montagem e transforma cada gesto em acontecimento. O espetáculo evidencia que a cultura ballroom não é tendência passageira nem mero recorte de nicho: é linguagem artística sofisticada, é produção de pensamento, é tecnologia de sobrevivência e criação. Por isso, Peça Única precisa circular, ecoar e atravessar o Brasil. Porque cada apresentação amplia a possibilidade de deslocar essas existências das margens para o centro. E talvez seja exatamente esse o movimento mais poderoso da obra: fazer com que corpos historicamente marginalizados deixem de apenas ocupar o palco e passem, definitivamente, a redefinir o próprio centro da cena contemporânea brasileira.


Ficha Técnica

Coreografia e Direção: Roger Pacheco
Direção Artística e Dramaturgia: Marcos Mattos
Operação de Luz: Breno Lucas
Figurino: Roger Pacheco
Confecção dos Figurinos: Fernando Frateliê – Ateliê de Costura
Intérpretes: Tarso Aguillera, Flávio dos Santos, Gabriela Benitez, Yara Maria, Daniel de Andrade, Hednilthon Moraes, Greydson Clink, Johnny Mike, Roger Pacheco
Paratexto: Febraro de Oliveira


Diego Ferreira é professor de teatro, dramaturgo, crítico e curador. Graduado em Teatro pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), é criador do projeto Olhares da Cena, espaço dedicado à crítica e reflexão sobre as artes da cena. Entre seus trabalhos dramatúrgicos estão Negreiros: História que a História Não Conta — vencedor do Prêmio Açorianos 2024, Corália Brechó, Abdias do Nascimento e Vozes do Lixão: a história de Tugira.