quinta-feira, 24 de novembro de 2022

BICHOLÓGICO (RS)


    PEQUENO QUEBRA-CABEÇA DE INVENÇÃO

*por Diego Ferreira    

"Bichológico" é uma pequenina peça de teatro voltado para a primeira infância. Um trabalho estimulante no sentido da recepção pois evidência o jogo teatral a partir de um divertido jogo de criação que provoca os pequenos espectadores num verdadeiro quebra-cabeças de invenção. O espetáculo parte do livro homônimo de Paula Teitelbaum e ganha vida nas mãos de Dilmar Messias, um mago do teatro dirigido a infância que está a frente do Circo Teatro Girassol a tantos anos e que segue nos presenteando com grandes obras cênicas, como é o caso de "Bichológico", que eu chamaria de pequenina obra de arte, pelo tamanho e extensão, porém de uma grande dimensão por direcionar a sua criação a uma faixa etária que precisa ser estimulada imageticamente e criativamente desde a tenra infância. E é exatamente que a produção faz através da presença da atriz Débora Rodrigues que é quem nos conduz nessa aventura de contar as pequenas histórias e montar e desmontar as as criaturas quer fazem parte da narrativa a partir da composição com figuras geométricas criadas com coloridos materiais sustentáveis e reciclados, que desenham e criar formas que geralmente são utilizadas como estímulo na educação infantil para desenvolver noções de espaço, coordenação motora, e memória visual. 
    Penso que o grande mérito dessa produção é justamente todo o conceito que a produção carrega de sustentabilidade e a manipulação das figuras que a priori são muitos simples, mas se tornam potentes pela forma, inteligência e criatividade com que são empregadas.  Nessa sentido Diego Steffani a frente da direção de arte foi muito feliz na construção dos elementos de "Bichológico", desde a escolha dos materiais, cores e formas, e também na questão das cores, onde se destaca o branco e depois as cores vão tomando conta do palco como se fosse uma grande tela de arte sendo preenchida pelas cores do cenário, figurino, das formas geométricas e todos os elementos utilizados. 
    Dilmar Messias conduz Débora Rodrigues que encanta a platéia pela leveza, equilíbrio e pela corporeidade com que emprega para a criação e transição das figuras. Sozinha em cena é a responsável por dar vida a inúmera figuras extremamente criativas. Acompanhando a cena temos a trilha de Cláudio Levitan que pontua aos quadros e auxilia na criação das narrativas. "Bichológico" é uma "jóinha" teatral voltada para a infância.      










FICHA TÉCNICA 
Com: Débora Rodrigues Baseado no livro de: Paula Taitelbaum Música de: Cláudio Levitan Arranjos: Kiti Santos Direção de Arte: Diego Steffani Iluminação: Anderson Balheiro Fotografia: Claudio Benevenga Fotografia Arte Gráfica: Pomo Estúdio Direção: Dilmar Messias


 *Diego Ferreira é Dramaturgo, Diretor, Professor e Crítico Teatral. Graduado em Teatro UERGS/2009. Estudou Letras na FAPA/2002. Coordena o Núcleo de Dramaturgia do RS. Integrante da Comissão Julgadora do 9º Concurso Nacional de Dramaturgia Carlos Carvalho promovido pela Coordenação de Artes Cênicas da Prefeitura de Porto Alegre. Editor do blog Olhares da Cena. Professor do Espaço do Ator e da extensão na UNISINOS. Produziu “Três tempos para a dramaturgia negra no RS” contemplado no edital Diversidade nas Culturas da Fundação Marcopolo. Vencedor do Prêmio Açorianos de Teatro 2021 na categoria Ação Periférica. 

terça-feira, 22 de novembro de 2022

GABINETE DE CURIOSIDADES (RS) - CRÍTICA

PONTE AFETIVA ENTRE ESPECTADOR E A CENA

                                                                                                                      *por Diego Ferreira

 

    

    "Gabinete de Curiosidades" é uma ode ao teatro, uma celebração, um ato de paixão a arte de representar. O espetáculo trás  reflexões sobre o papel do ator na sociedade,  através do encontro entre duas figuras Oneirópolos e Disoíonos, idosos residentes num asilo em Corruptúnia, um país imaginário, assim como o tempo que se passa em 2040. E como vemos no espetáculo, tempo e espaço nem tão imaginário assim de acordo com a narrativa apresentada e o paralelo com o Brasil atual. E é justamente sobre isso que gostaria de ressaltar, a força do teatro e o seu poder de transformação, e que essa força não acontece somente no palco, mas se esvai na platéia e se estabelece no cotidiano das pessoas principalmente pelos temas abordados na produção. 
    O eixo principal da narrativa proposta por Gilberto Schwartsmann evidencia o jogo teatral dos velhos atores e suas tentativas (e frustações) de criar um espetáculo original através de textos clássicos da dramaturgia mundial para concorrer a um prêmio público e isso por si só, já justifica a ida ao teatro. Mas juntamente com o eixo principal acompanhamos outras sub-narrativas que versam justamente sobre o envelhecimento da sociedade e a urgência de colocarmos esse tema em discussão, ainda mais no meio artístico, onde a busca pelo novo é sempre uma obsessão. Então colocar a história desses dois idosos em cena abre espaço para dialogar sob o viés do envelhecimento artístico, e é justamente ele que nos traz a aceitação das ambiguidades, das diferenças, do contraditório e abre espaço para uma diversidade de experiências. 
    Arlete Cunha e Zé Adão Barbosa são representantes já algum tempo do que há de melhor no nosso teatro, seja pelo seu trabalho na atuação mas também como figuras que carregam consigo uma representatividade ética com que encaram os seus trabalhos. Ambos profissionais experientes e que de certo modo refletem a vida dos personagens retratados no espetáculo, até mesmo porque alguns dos personagens retratados na dramaturgia já se materializaram nos palcos através desses atores. E mais uma vez a dupla de atores nos arrebatam com suas atuações e modo como nos conduzem nesse gabinete de curiosidades. Dois grandes atores com duas grandes atuações que nos levam do riso as lágrimas, através da humanidade com que encaram as suas criações, e isso nos toca de um modo muito afetivo e particular.
    E o mesmo serve para Luciano Alabarse com sua visão apurada de encenador que enxerga a cena como um todo, de um olhar atento e inspirador. Um desafio de ousadias e significações teatrais justamente por evidenciar a carpintaria teatral na cenografia, nos figurinos, iluminação e nas atuações. É teatro, puro teatro, mas também é vida real, vida vivida, vida experimentada. É teatro que transborda personalidade e identidade que está está impregnada na encenação, onde os atores em vários momentos se voltam para eles mesmos, saindo dos personagens clássicos evocados pelos atores da ficção, mas também pelos próprios atores Zé Adão e Arlete e esse jogo faz com que a crítica se instale, um raio x do fazer teatral, uma construção de uma ponte afetiva entre o espectador e a cena possibilitando a reflexão, o senso crítico e o lugar do fazer artístico e da recepção teatral. 
    Um belo espetáculo com sua imponente cenografia e iluminação que estão a serviço da encenação. Assim como a descoberta de um novo dramaturgo Gilberto Schwartsmann, que evoca em sua escrita uma visão apurada sobre o fazer teatral, uma verdadeira aula repleta de citações que faz com que os apaixonados pelo teatro se aproxime da produção afetivamente. 

FICHA TÉCNICA COMPLETA

Dramaturgia: GILBERTO SCHWARTSMANN Direção: LUCIANO ALABARSE Elenco: ARLETE CUNHA e ZÉ ADÃO BARBOSA Participação: FERNANDO ZUGNO Iluminação: MAURÍCIO MOURA e JOÃO FRAGA Técnico de luz: ANDRÉ HANAUER DE FREITAS Trilha Sonora: LUCIANO ALABARSE Operação de Som: LUIZ MANOEL e MANU GOULART Figurinos: ANTONIO RABÀDAN Cenário: LUCIANO ALABARSE Cenotécnico: RODRIGO SHALAKO Acessório Lustre: DANIEL JAINECHINE Assessoria de Imprensa: CÁTIA TEDESCO e MAUREN FAVERO (Agência Cigana) Projeto Gráfico: DIDI JUCÁ Coordenação de Produção: LETÍCIA VIEIRA Produção Executiva: JAQUES MACHADO Produção Geral: PRIMEIRA FILA PRODUÇÕES

*Diego Ferreira é Dramaturgo, Diretor, Professor e Crítico Teatral. Graduado em Teatro UERGS/2009. Estudou Letras na FAPA/2002. Coordena o Núcleo de Dramaturgia do RS. Integrante da Comissão Julgadora do 9º Concurso Nacional de Dramaturgia Carlos Carvalho promovido pela Coordenação de Artes Cênicas da Prefeitura de Porto Alegre. Editor do blog Olhares da Cena. Professor do Espaço do Ator e da extensão na UNISINOS. Produziu “Três tempos para a dramaturgia negra no RS” contemplado no edital Diversidade nas Culturas da Fundação Marcopolo. Vencedor do Prêmio Açorianos de Teatro 2021 na categoria Ação Periférica.