GOTA D’ÁGUA NO TEMPO: QUANDO O TEMPO NÃO CONSEGUE LEVAR A TRAGÉDIA
Por Diego Ferreira
Há espetáculos que retornam ao palco para celebrar uma memória. Outros retornam porque aquilo que disseram ainda precisa ser escutado. Gota D’Água – No tempo, da Cia. Coisas Nossas de Teatro, apresentada na programação do 33º Festival Internacional Porto Alegre em Cena, parece nascer justamente desse encontro entre memória e urgência. Cinquenta anos depois da escrita do clássico de Chico Buarque e Paulo Pontes e vinte anos após a primeira montagem protagonizada por Georgette Fadel e Cristiano Tomiossi, a obra volta à cena não como peça de museu, mas como uma ferida que ainda não cicatrizou.
Talvez esteja aí uma das maiores forças desta remontagem: compreender que o tempo não necessariamente transforma as questões de uma sociedade. Às vezes, ele apenas troca os nomes, atualiza as paisagens e aperfeiçoa os mecanismos de exploração.
Escrita em 1975, em plena ditadura militar, Gota D’Água desloca a tragédia de Medeia, de Eurípides, para a fictícia Vila do Meio-Dia, no Rio de Janeiro. Joana é abandonada por Jasão, que escolhe o casamento com Alma, filha de Creonte, como possibilidade de ascensão social. Mas a tragédia particular de Joana nunca foi apenas uma história de abandono amoroso. Por trás dela estão a dívida, a especulação, a exploração, o poder econômico, a disputa pela moradia e a violência de uma estrutura social em que alguns podem ascender justamente porque outros são empurrados para fora.
Cinquenta anos depois, é difícil não reconhecer o Brasil contemporâneo nessa engrenagem. O mérito da montagem está em não tentar atualizar artificialmente o texto. Não há necessidade de substituir suas palavras por referências imediatas ao presente. A própria dramaturgia permanece suficientemente viva para produzir o choque. O que deveria ter envelhecido continua reconhecível. O que deveria ser memória ainda encontra eco na realidade. E então há o tempo inscrito nos corpos.
Vinte anos depois, Georgette Fadel e Cristiano Tomiossi voltam a interpretar Joana e Jasão. Não se trata, entretanto, de simplesmente repetir uma experiência anterior. O reencontro carrega outras idades, outras experiências, outras marcas e outras camadas de vida. Os atores não retornam aos personagens que eram; retornam a eles a partir de quem se tornaram.
Esse dado produz uma espécie de dramaturgia paralela. Existe o tempo de Joana e Jasão, o tempo de Chico Buarque e Paulo Pontes, o tempo histórico do Brasil e existe o tempo dos próprios intérpretes. Tudo se encontra em cena.
Georgette Fadel assume ainda uma tarefa particularmente complexa: dirige o espetáculo e interpreta Joana. A operação poderia produzir um conflito entre o olhar de fora e a experiência de dentro, mas a montagem encontra justamente nessa dupla condição uma de suas singularidades. Georgette parece organizar a cena a partir do próprio corpo de Joana, como se a personagem não estivesse apenas inserida naquele universo, mas também determinasse sua pulsação. E há algo impressionante nessa presença.
Pequena em estatura e gigante na composição de sua Joana, Georgette não precisa ampliar o gesto para ocupar o palco. Sua presença cresce pela densidade. Há força, desespero, ironia, amor, raiva e humanidade em sua construção. A atriz não transforma Joana em uma figura distante ou monumental; permite que a personagem permaneça profundamente humana justamente quando sua trajetória se aproxima da dimensão trágica.
Cristiano Tomiossi, por sua vez, constrói um Jasão atravessado pela contradição. Seu personagem não é simplesmente o homem que abandona uma mulher para ascender socialmente. É também aquele que acredita na promessa de um lugar melhor dentro de uma estrutura que exige dele o abandono de suas próprias origens. A tragédia de Jasão está, em parte, naquilo que ele acredita ganhar — e naquilo que precisa perder para conquistar esse lugar.
Ao redor deles, todo o elenco que merece ser exaltado: Débora Veneziani, Joaz Campos, José Eduardo Rennó, Laruama Alves, Leandro Vieira, Lilian Regina, Lívia Camargo e Mawusi Tulani, demonstra uma impressionante disponibilidade física, vocal e cênica. A montagem exige presença e entrega. Os atores constroem a comunidade, suas tensões, seus desejos, suas festas, seus conflitos e sua dimensão coletiva. Existe uma energia coral que sustenta a narrativa e impede que a tragédia de Joana seja compreendida apenas como um drama individual. Essa valorização do ator talvez seja uma das escolhas mais bonitas da montagem.
Em tempos de espetáculos frequentemente mediados por grandes aparatos tecnológicos, Gota D’Água – No tempo aposta naquilo que o teatro possui de mais essencial: o corpo, a palavra, a relação e a presença. Não há grandes cenários ou excessos de elementos visuais disputando atenção com os intérpretes. A cena não precisa ser preenchida para ser potente. O espaço é ocupado pelos atores. E a palavra é tratada como matéria cênica. E se a palavra possui força, a música não fica atrás.
A banda em cena é parte fundamental da pulsação do espetáculo. Músicas conhecidas reaparecem em novas roupagens, reorganizadas pela direção musical de Marco França e pela codireção de Alê Moura. A trilha não tenta competir com a dramaturgia; dialoga com ela.
O resultado é especialmente preciso pela maneira como o som se apresenta: limpo, equilibrado, com vozes muito bem equalizadas e músicos integrados à dinâmica da cena. A execução ao vivo acrescenta uma camada de presença que uma trilha previamente gravada dificilmente alcançaria. A música nasce diante do público e, ao nascer, participa da construção daquela comunidade. É como se a Vila do Meio-Dia também cantasse.
E talvez seja justamente por isso que a música consiga produzir tanto celebração quanto tensão. Há festa, adoração, desejo, cotidiano e resistência, mas há também a sensação de que aquela alegria está cercada por forças maiores. O cerco se fecha sem que a comunidade deixe de existir.
A montagem parece compreender que a tragédia de Joana não acontece isoladamente; ela é produzida por uma estrutura. É justamente essa estrutura que encontra uma maneira especialmente contundente de fazer esse passado dialogar com o presente. Em determinado momento, Joana/Georgette rompe as fronteiras do tempo histórico da dramaturgia e traz para dentro da cena a situação de processos de desapropriação de espaços culturais de São Paulo que também enfrentam, aproximando a violência sofrida por sua personagem da realidade de grupos e territórios culturais ameaçados pela perda de seus espaços. A referência ao Teatro de Contêiner Mungunzá e ao Teatro Vento Forte, entre outros espaços culturais, produz uma espécie de curto-circuito temporal. Aquilo que Joana vive na ficção — o risco de perder o lugar onde construiu sua história, sua comunidade e sua existência — deixa de pertencer exclusivamente à Vila do Meio-Dia. A desapropriação deixa de ser apenas elemento da trama. Ela passa a ser uma experiência concreta do presente.
É nesse momento que a remontagem revela uma de suas operações políticas mais fortes: não basta dizer que o texto de Chico Buarque e Paulo Pontes continua atual. A montagem encontra acontecimentos e situações do teatro brasileiro contemporâneo capazes de colocar essa atualidade em confronto direto com a cena. Joana olha para o passado, mas também olha para nós.
E, quando fala dos espaços culturais ameaçados, a personagem parece perguntar quem tem o direito de permanecer? Quem pode ocupar a cidade? Quem decide o destino de um território? O que acontece quando um espaço deixa de ser compreendido como lugar de memória, criação e convivência e passa a ser visto apenas pelo valor de sua propriedade? São perguntas que ultrapassam a história de Joana. A montagem não precisa, portanto, atualizar artificialmente a dramaturgia. O próprio presente invade a obra e demonstra que determinadas estruturas continuam operando.
É nesse ponto que a dimensão política de Gota D’Água permanece tão contundente. A peça não fala apenas sobre uma mulher abandonada. Fala sobre quem possui a terra, quem determina as regras, quem cobra, quem deve, quem pode permanecer e quem precisa partir. Fala sobre o desejo de ascensão social e sobre o preço cobrado por uma sociedade profundamente desigual. Creonte continua sendo reconhecível porque as formas de poder também continuam encontrando maneiras de se reinventar. E Jasão permanece atual porque a promessa de ascensão individual ainda pode exigir o afastamento daqueles que ficaram para trás. A Vila do Meio-Dia, nesse sentido, está muito longe de ser apenas uma paisagem do passado.
O título Gota D’Água – No tempo ganha então uma dimensão quase provocativa. Que tempo é esse? O tempo que passou? O tempo dos personagens? O tempo dos atores? O tempo histórico? Ou o tempo de uma sociedade que continua repetindo determinadas violências?
Talvez seja justamente esse o paradoxo que o espetáculo nos entrega: cinquenta anos separam a escrita da obra de sua celebração contemporânea, vinte anos separam a primeira experiência de Georgette e Cristiano dessa nova montagem, mas algumas estruturas parecem ter atravessado o tempo com uma facilidade assustadora.
O espetáculo não precisa responder a isso. Basta colocar novamente Joana diante de nós. Basta fazer sua voz atravessar o espaço. Basta colocar os atores em cena, os músicos tocando ao vivo e a palavra de Chico Buarque e Paulo Pontes encontrando novamente o ouvido de uma plateia.
Porque talvez a grande força de Gota D’Água – No tempo esteja justamente em nos lembrar que alguns clássicos não permanecem vivos porque pertencem ao passado. Permanecem vivos porque o presente ainda não conseguiu deixá-los para trás.
FICHA TÉCNICA
Texto: Chico Buarque e Paulo Pontes
Direção: Georgette Fadel
Codireção: Cristiano Tomiossi
Direção Musical: Marco França
Codireção Musical: Alê Moura
Elenco: Cristiano Tomiossi, Débora Veneziani, Georgette Fadel, Joaz Campos, José Eduardo Rennó, Laruama Alves, Leandro Vieira, Lilian Regina, Lívia Camargo e Mawusi Tulani.
Músicos: Alê Moura, Flavio Rubens, Ildo Silva e Renato Passarinho
Direção de Arte e Iluminação: Felipe Tchaça
Direção de Movimento coral: Kleber Montanheiro
Direção de Produção: Cristiano Tomiossi e Vanda Dantas
Direção de Palco e Contrarregra: Nilton Araújo
Assistente de Direção: José Eduardo Rennó
Assistente de Direção de Movimento: Débora Veneziani
Assistente de Direção de Arte: Vanda Dantas
Assistente de Produção: Gaê e Giovana Carneiro
Desenho e Técnico de Operação de Som: JP Hecht
Operação de Luz: Felipe Fly
Designer e Criação de Identidade Visual: Sato do Brasil
Fotógrafa: Barbara Campos
Filmagem: Felipe Corvello
Costureira: Dhenyse Iwone
Gestão de Projeto: Cia. Coisas Nossas de Teatro
* Diego Ferreira é professor de teatro, dramaturgo, crítico e curador. Graduado em Teatro pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), é criador do projeto Olhares da Cena, espaço dedicado à crítica e reflexão sobre as artes da cena, e criador da Escola Livre de Artes da Cena. Entre seus trabalhos dramatúrgicos estão Negreiros: História que a História Não Conta — vencedor do Prêmio Açorianos 2024 —, Corália Brechó, Abdias do Nascimento e Vozes do Lixão: a história de Tugira.
