segunda-feira, 1 de junho de 2026

BIBLIOTECA DE BOLSO (BA)

 

Quando a memória se torna encontro

por Diego Ferreira*

    Em um tempo marcado pela velocidade, pelo consumo acelerado de imagens e pela efemeridade das experiências, a performance Biblioteca de Bolso, concebida pela Dimenti Produções Culturais, surge como um gesto de desaceleração. Mais do que uma atividade paralela da programação do Festival Palco Giratório, a ação se estabelece como um espaço de escuta, partilha e preservação de memórias, transformando artistas em livros vivos e espectadores em leitores de histórias que não cabem nas páginas de um arquivo tradicional.

    Se em 2025 a experiência da Biblioteca de Dança já havia provocado encontros potentes entre corpos, trajetórias e narrativas, a nova proposta amplia esse horizonte ao voltar o olhar para os vinte anos de circulação do Festival Palco Giratório em Porto Alegre. Sob a direção de Neto Machado e Jorge Alencar, da Dimenti, a performance cria uma espécie de cartografia afetiva da cena gaúcha, reunindo grupos fundamentais da produção teatral local — Oi Nóis Aqui Traveiz, Cia Stravaganza, Incomode-Te e Cia Gente Falante — para compartilhar fragmentos de suas histórias e de suas relações com o festival.

    O dispositivo é simples e, justamente por isso, profundamente eficaz. Distribuídos em mesas-capítulos, os intérpretes aguardam seus leitores. Não há palco, quarta parede ou hierarquia entre quem fala e quem escuta. O público circula livremente, escolhe seus percursos e constrói sua própria dramaturgia de encontros. Cada conversa torna-se uma experiência singular, impossível de ser reproduzida exatamente da mesma forma para outra pessoa.

    Há algo de profundamente político nessa escolha. Em vez de monumentalizar a memória em discursos oficiais, a performance aposta na oralidade, na experiência compartilhada e na dimensão subjetiva das lembranças. As histórias narradas não pretendem construir uma versão definitiva da trajetória dos grupos ou do festival. Pelo contrário: revelam as lacunas, os afetos, os acasos e as marcas que permanecem inscritas nos corpos daqueles que viveram determinados acontecimentos.

    Nesse sentido, a ideia de biblioteca ganha uma camada poética particularmente interessante. Diferentemente de uma biblioteca convencional, onde os livros permanecem intactos à espera de seus leitores, aqui os "volumes" respiram, emocionam-se, esquecem detalhes, acrescentam novas percepções e se transformam a cada encontro. A memória deixa de ser documento para tornar-se acontecimento.

    Entre os diversos "livros vivos" disponíveis ao público, algumas narrativas revelavam com especial intensidade a potência do dispositivo criado pela Dimenti. No capítulo conduzido por Lauro Ramalho, a memória ganhava contornos de correspondência afetiva ao relembrar sua relação com o ator Silvero Pereira. A partir da evocação das cartas trocadas entre ambos ao longo dos anos, Lauro compartilhava não apenas recordações pessoais, mas uma história de amizade, admiração artística e formação mútua. O relato revelava como os percursos das artes cênicas são construídos também pelos encontros que acontecem fora dos palcos, nos gestos de incentivo, nas trocas de afeto e na construção de redes de pertencimento.

    Da mesma forma, o encontro com Paulo Fontes evidenciava a força da memória teatral como experiência transformadora. Ao narrar sua relação com o espetáculo Proibido Elefantes, Fontes não apenas recuperava lembranças de uma montagem marcante, mas compartilhava os impactos emocionais que ela produziu em sua trajetória. Sua fala ultrapassava o simples exercício da recordação para tornar visível como determinadas obras permanecem habitando artistas e espectadores muito tempo depois do encerramento das temporadas. O espetáculo reaparecia ali não como um objeto do passado, mas como uma experiência ainda viva, capaz de mobilizar emoções e reflexões no presente.

    São justamente momentos como esses que fazem de Biblioteca de Bolso uma experiência singular. Mais do que registrar fatos ou datas, a ação se interessa pelas marcas deixadas pelos encontros artísticos. O que se compartilha não é apenas a memória dos espetáculos, mas a memória das transformações que eles produziram na vida das pessoas.

    Também chama atenção a delicadeza com que a Dimenti articula diferentes gerações de artistas. Ao reunir grupos com trajetórias tão distintas e significativas para a cena gaúcha, a ação evidencia como o Festival Palco Giratório não foi apenas um espaço de circulação de espetáculos, mas também um território de formação, intercâmbio e construção de vínculos duradouros. As narrativas compartilhadas revelam um festival que ultrapassa sua dimensão programática para existir como experiência afetiva na vida de artistas e espectadores.

    Talvez o aspecto mais potente de Biblioteca de Bolso esteja justamente naquilo que ela não tenta fazer. Não há nostalgia excessiva nem a tentativa de cristalizar um passado idealizado. O que emerge é uma memória viva, pulsante, atravessada pelas transformações do tempo e pelas diferentes formas de recordar. Ao ouvir essas histórias, percebemos que preservar a memória das artes da cena não significa apenas registrar espetáculos, mas manter vivas as relações humanas que eles produziram.

    Ao final do percurso, fica a sensação de ter visitado não apenas uma biblioteca, mas uma coleção de afetos. Uma experiência que reafirma a importância da escuta como prática artística e da memória como matéria viva da cena. Em tempos em que tantas histórias correm o risco de desaparecer na velocidade do presente, Biblioteca de Bolso nos lembra que recordar também é um ato de criação.

Ficha Técnica: 

Direção: Neto Machado e Jorge Alencar


*Diego Ferreira é professor de teatro, dramaturgo, crítico e curador. Graduado em Teatro pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), é criador do projeto Olhares da Cena, espaço dedicado à crítica e reflexão sobre as artes da cena. Entre seus trabalhos dramatúrgicos estão Negreiros: História que a História Não Conta — vencedor do Prêmio Açorianos 2024, Corália Brechó, Abdias do Nascimento e Vozes do Lixão: a história de Tugira.