sábado, 11 de março de 2023
MESA FARTA (RS)
domingo, 11 de julho de 2021
DESFAZENDA - ME ENTERRE FORA DESSE LUGAR (SP)
quinta-feira, 6 de maio de 2021
A ÚLTIMA NEGRA (RS) - CRÍTICA
COSMOVISÕES E EXISTÊNCIAS NEGRAS
Inicio minhas divagações sobre “A Última Negra” buscando refletir sobre a existência e sua relação entre teatro e negritudes. Primeiro busco pensar o teatro dentro do quadro atual em que nos encontramos e vislumbrar novas possibilidades de existência daqui em diante. A definição do verbo “existir” diz que “é ter existência real, ter presença viva, viver, ser”. Existir fala de presença viva. E PRESENÇA nas artes da cena tem um sentido amplo no que tange a uma presença real, mesmo que virtualizada como é o caso de “A Última Negra”. O mundo já não é mais o mesmo com a atual pandemia. Países de todo o planeta estão sofrendo as conseqüências desta crise, que são econômicas, sociais e também psicológicas. Foi dada uma pausa no cotidiano da humanidade e, compulsoriamente, cada indivíduo é levado a pensar sobre sua forma de existir no mundo: o trabalho, as relações, a maneira como utilizamos nossos recursos (ou a falta deles), o que se espera de fato da classe política, como gerir pessoas em vulnerabilidade social, e tantos outros desafios. São diversos problemas para serem resolvidos em um curto período de tempo e cada escolha pode determinar a vida e a morte de milhares de pessoas. No meio disso tudo, está também à classe artística, que lida há tempos com vários tipos de ataques e falta de investimentos. Na nossa sociedade, muitos partem da idéia da arte como algo supérfluo, dispensável ou até mesmo um hobby. Há, portanto, um preconceito estrutural (assim como o racismo estrutural abordado no espetáculo) em relação às artes, provavelmente atrelado à crença do valor mercadológico das profissões, no sentido de que há algumas mais importantes e "úteis" que outras. Com a pandemia, novas formas de “existência” têm sido pensadas para os artistas, não sem controvérsias e polêmicas, já que temporadas de espetáculos foram todos cancelados. Em meio a uma crise que escancara a insuficiência de políticas públicas para todos os setores da sociedade, os espetáculos teatrais, que tanto dependem do público (presença), tem estado parados. Para alguns artistas, uma alternativa tem sido as transmissões ao vivo através de plataformas virtuais. “A última negra” consegue se apropriar da definição de “existir” perfeitamente e trabalhar com ressignificações conceituais em relação à estrutura, a forma de compartilhar narrativas e sua relação com o espectador. O Coletivo Projeto Gompa consegue criar uma experiência viva que se aproxima muito de uma experiência teatral, pois se utiliza das plataformas, mas faz o evento teatral acontecer como a divulgação, a bilheteria, pré-estréia, estréia e a fruição da produção através do youtube. É possível afirmar que a emergência de outro mundo está fazendo com que artistas literalmente se reinventem cada vez mais, e se coloquem na fronteira de uma criação híbrida e criem abismos e arestas de novas possibilidades.
A produção cultural negra tem feito irromper novas linguagens insurgentes ao processo da padronização cultural que ainda se deixa respingar com culturas eurocentradas. Parecem surgir outros processos vitais para o diálogo entre culturas. Uma nova régua para indicar outro compasso para um humanismo além do eixo europeu. Ineditismos culturais advindos de um olhar cosmopolita e subversivo vivenciado nas redes de comunicação artística das margens contemporâneas. Muitos artistas e influenciadores digitais negros conseguiram ganhar status de celebridade e grande projeção através das redes sociais, fato que nas mídias tradicionais jamais conseguiriam “existir” ainda por causa dessa estrutura racista que perdura na sociedade.
Isso também tem a ver com a cosmovisão africana, uma maneira subjetiva de ver e entender o mundo, principalmente as relações humanas e os papéis dos indivíduos na sociedade, assim como respostas a questões filosóficas básicas, como a finalidade da existência humana. Ou seja, seguimos falando de “existências” e de como respondemos as questões do nosso tempo. “A Última Negra” se apresenta como espetáculo virtual e se pauta na criação de uma história original, em todos os sentidos, desde o argumento até a concretização do projeto e o modo de compartilhamento e fruição. A começar pela dramaturgia de Pedro Bertoldi que nos provoca acerca de como é ser a última pessoa negra no Brasil. No texto 100 anos após o incêndio do Museu Nacional, uma arqueóloga encontra o corpo de uma mulher negra congelada. Inexplicavelmente, Dandara (entendedores entenderão a escolha deste nome) sobreviveu a mais de um século abaixo de zero grau e sua sobrevivência em um Brasil onde há muitos anos não existem vestígios de pessoas negras, faz reacender as discussões sobre o racismo institucional existente no país. É interessante essa abordagem que nos desloca para um Brasil distópico, até mesmo absurdo, para refletir sobre o racismo, evidenciando que mesmo num mundo distante ainda perduram as chagas provocadas pela estrutura racial. A narrativa trata o preconceito racial com um humor refinado e crítico. Aponta para a ferida, sem tocar diretamente nela. Constrói fricções entre o universo real e ficcional. Propõe uma reflexão sobre o lugar do negro na sociedade contemporânea e isso é feito a partir de uma visão irônica e, algumas vezes, até cômica, como pode ser observado na cena do repórter, por exemplo, na construção de um humor ácido e crítico.
A experiência virtual se desdobra em tempos e janelas distintos. É uma brincadeira, uma crítica aos inimigos institucionalizados, uma proposta para entender se realmente são inimigos ou se isso é fruto de uma manipulação promovida pela estrutura social.Podemos também fazer uma leitura afrofuturista que flerta com uma estética que combina elementos de memória, ficção científica e histórica, fantasia, arte africana e arte da diáspora africana, com cosmologias negras para criticar não só os dilemas atuais da estrutura racial, mas também para revisar, principalmente revisar, interrogar e reexaminar os eventos históricos do passado que aqui remete ao congelamento de uma mulher negra durante 100 anos.
A narrativa evita, conseqüentemente,
elementos folclóricos clichês que o sistema estabelece. A dramaturgia não se detém
nos aspectos geralmente comuns quando se trata de narrativas negras. O texto de
Pedro Bertoldi desvela várias reflexões que são caras para o teatro negro brasileiro
e, sem sombra de dúvida, merece ser lido, assistido, estudado e divulgado por
aqueles que se dedicam aos estudos afro-brasileiros. Sem dúvida um texto que
mesmo numa experiência virtual te coloca dentro da situação proposta. E lógico
que exaltar o texto de Bertoldi é necessário, porém ressaltar a trilha sonora
original de Álvaro RosaCosta é dizer que ela é um dos elementos que me fazer
mergulhar na fruição do trabalho, pois é presente em muitos momentos, e a música funciona para dizer coisas na cena sem ser tão óbvio e
colocar o espectador e sua atenção em outros lugares. Música é dramaturgia. É
pausa. É signo. É existência e
presença. Embora muitas vezes não seja notada pelo espectador,
a trilha sonora é fator narrativo que integra a obra cênica. Assim como a direção
de imagens e edição de Júlio Estevan que faz com que a experiência seja feliz e
potente. Percebemos que não é apenas um teatro filmado, ou imagens captadas de
qualquer modo, pelo contrário, imagens com muita qualidade que evidenciam cada
personagem e seus espaços dentro da narrativa. E produzir hoje uma leitura
sobre um espetáculo virtual é destacar esse profissional que geralmente num
espetáculo presencial não teria tamanha importância, mas nesse caso é, tão ou
mais importante como os demais profissionais do trabalho.
Hayline Vitória está à
frente do elenco e seu trabalho é sensacional, pois a câmera revela ângulos,
detalhes, expressões, pulsações que no teatro não percebemos. A relação com a
câmera é diferente da relação com um espectador no teatro presencial e esse
trabalho fica evidente aqui. Hayline personifica Dandara, a última negra que
ficou congelada nos últimos 100 anos. Mas todo o elenco está muito bem dentro
desta proposta. Álvaro RosaCosta, Fabrício Zavareze, Guilherme Ferrêra, Fabiane
Severo e Henrique Gonçalves cada um no seu quadrado desenvolvem um ótimo
trabalho que difere do trabalho que já conheço nos palcos e isso é bom, por se
tratar de outra linguagem. Confesso que quando vi o início das divulgações e percebi
que o Projeto Gompa estava produzindo um novo trabalho pautado em questões
raciais e que trazia em sua equipe técnica a maioria de artistas não negros
isso de certa forma me provocou, fiquei feliz por um lado e intrigado por
outro. Mas depois de assistir ao trabalho, constatei a necessidade dos artistas
não negros na concretização do trabalho e principalmente a presença de Silvana
Rodrigues na co-direção juntamente com Camila Bauer, pois sabendo da
competência e força criativa de Bauer constatada em outros trabalhos, mas que
no que diz respeito a questões raciais, era necessária a presença de uma
artista tão competente como a citada Bauer, mas que pode contribuir com outros
olhares e com uma “vivência preta” acerca da obra que assistimos. Não é que seja
proibido coletivo ou artistas não negros pautarem a negritude em suas
propostas, pelo contrário, é necessário e salutar dialogar cada vez mais sobre
a negritude na arte, mas deve-se cuidar para que as propostas não sejam
esvaziadas de sentidos e principalmente do discurso, o que não é o caso deste
projeto. Espero que não seja mal compreendido, porém é necessário refletir
sobre o esvaziamento na hora de se apropriar de elementos culturalmente ligados
a negritude, que já é algo complexo por si só, mas que é importante refletir
sobre isso. Por se tratar de uma experiência virtual creio que a produção
voltará a ser exibida e merece ser assistida pela qualidade e principalmente pela
reflexão provocada pelo texto de Bertoldi.
Ficha Técnica:
História original e dramaturgia: Pedro Bertoldi
Direção: Silvana
Rodrigues e Camila Bauer
Elenco: Hayline
Vitória, Álvaro RosaCosta, Fabrício Zavareze, Guilherme Ferrêra, Fabiane
Severo, Henrique Gonçalves.
Direção de imagens e
edição: Júlio Estevan
Trilha sonora original
e edição de som: Álvaro RosaCosta
Orientação de figurino:
Fabiane Severo e Guilherme Ferrêra
Designer gráfico: Mitti
Mendonça
Fotografia e criação de
teasers: Júlio Estevan
Assessoria e produção
de conteúdo de mídias: Tainã Rosa
Assessoria de imprensa:
Thais Silveira
Produção de vídeo:
Júlio Estevan
Produção musical:
Álvaro RosaCosta
Produção
administrativa/cultural: Hayline Vitória
Produção executiva:
Silvia Duarte
Realização: Projeto
GOMPA
Financiamento: Pró
Cultura RS - Lei de incentivo e Fundo, Secretaria da Cultura - Governo do
Estado do Rio Grande do Sul
Apoio: EntreAtos
*Diego Ferreira é Dramaturgo, Diretor, Professor e Crítico Teatral. Graduado em Teatro UERGS/2009. Estudou Letras na FAPA/2002. Coordena o Núcleo de Dramaturgia do Espaço do Ator. Editor do blog Olhares da Cena. Participou do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É integrante da GiraDramatúrgica - Grupo de Estudos em Dramaturgia Negra coordenado por Carlos Canarin/UNESPAR. Professor do Espaço do Ator e da extensão UNISINOS.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2020
REVERB (FIN/BRA)
Por Diego
Ferreira*
Paisagem
Corpos a margem abandonada
Preto
Branco
Preto
Trapiche
Imagem bucólica
Águas
Frio
Lá fora a neve
Contraste
Contraste da neve e o negro dos corpos
Preto e branco
Cabelos
Verde
Há muita simbologia neste REVERB, no rio que passa e não volta e nos
corpos que correm e voltam. Existe muito afeto na relação destes corpos com o
espaço e isso é muito forte e representativo. Corpos negros dançando na neve é
muito representativo. É político. Dialoga com a performance anterior de “Corpos
Ditos” com a idéia do passaporte e das
pessoas em mover-se. É importante se mover.
A vídeo-performance utiliza uma estética sem cor e isso reflete
justamente na cor. Os corpos tem cor. O espaço tem cor. É o corpo negro se
deslocando num espaço branco repleto de neve. Percebe as múltiplas
possibilidades que uma única obra pode possibilitar? E isso é fantástico. “Reverb”
é tão poético e belo. Ancestral e simbólico. Quando assisto a performance me
permito a senti-la ao invés de tentar encontrar justificativas racionais que
venham a dar conta de efêmero que acontece ali. O rio passa, mas os corpos permanecem. E
permanecem dançando, o que de fato é um ato político. Reverb fez o encerramento
da mostra Cura de forma grande. Uma performance que me provocou e deixou na
minha memória uma série de caminhos a trilhar no campo das artes.
Direção:Ana Paula Mathias
Coreografía:Mario Lopes e Malu Avelar
Trilha Sonora: Erica Navarro
Gravação e Mixagem:Adonias Souza Júnior
Gravação e Mixagem:Adonias Souza Júnior
Desenho Sonoro:Ruben Valdes
Intérpretes: Mario Lopes e Malu Avelar
Formato de realização: Videodança
Duração:60 minutos
Duração:10 minutos
Classificação:Livre
*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve críticas
no blog Olhares da Cena. Integrante da GIRADRAMATÚRGICA – Grupo de Estudos em
Dramaturgia Negra. Integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto
Alegre coordenado por Diones Camargo. Foi jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi
jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na
Unisinos e Unilasalle.
CORPOS DITOS (RS)
Por Diego
Ferreira*
Quando comecei a
estudar sobre o negro no teatro, ainda dentro da universidade a principal
dificuldade era encontrar bibliografia e referências a respeito do tema e
principalmente vislumbrar na cena corpos negros em ação. De minha parte, havia
um total desconhecimento dessa história e da complexidade que ela encerrava.
Essa compreensão só veio se dando na construção de sentidos no tempo e espaço.
E em Porto Alegre no que se refere a teatro negro o Caixa Preta é um dos coletivos
que abriram portas a muitos artistas que hoje exercem o seu trabalho e na
atualidade o Pretagô é uma forte e agradável referencia por se engajar na luta
do enfrentamento ao racismo a partir de vozes e corpos que trazem novos ângulos
ao discurso negro nas artes cênicas, o que se constitui numa excelente
oportunidade para aprofundar reflexões.
Por essa razão,
considero “Corpos Ditos” uma afronta a tudo o que temos passado neste ano
pandêmico. Trata-se de uma reunião de pretos celebrando nossos discursos. A
partir da investigação de elementos que caracterizam a performance arte em
acordo com a poética desenvolvida pelo Pretagô, os performers exploram imagens
e áudios captados através de seus smartphones e criam cenas motivadas por um
discurso escolhido por eles. E isso provoca um grande impacto, pois cada ator
provocados por estímulos que desconhecemos criam uma performance a partir do
seu lugar de fala e “de casa”. E cada quadro nos provoca a partir das imagens
propostas e dos textos e narrativas que existem em cada ação. Cosmovisões
negras que firmam territórios de embates e sutilezas. “Corpos Ditos” é de uma
singeleza e ao mesmo tempo de uma potência aterrorizante, como aparece num dos
quadros essa palavra: “aterrorizada”, no sentido de perder as esperanças. Ao
acompanhar e assistir o Pretagô minha esperança é renovada pois existe um
trabalho muito sério e muito atual.
“Mover-se
é um milagre”
“Mover-se
dói.”
É bastante
representativo o quadro em que o Bruno aparece com um passaporte e seu discurso
fala de mover-se. É representativo. É triste e feliz ao mesmo tempo justamente
pela questão de mobilidade e as
possibilidades que temos em mover-se pelo país e mundo. Assim como toda a
proposta tem uma dimensão do que é ser negro no Brasil. E do que representa ser
artista negro no Brasil. Sons, textos, discursos, imagens, corpos. Negros.
Corpos negros em deslocamento. Corpos negros se movendo. Corpos negros se
movendo para curar toda e qualquer dor que esses corpos carregam. A parformance
tem humor, ancestralidade, sustentabilidade, metáforas que constroem leituras
pretas do momento que vivemos. E tudo tem poesia, beleza e embate. Tem
diversidade. Afeto. Sutileza. Liberdade. “Corpos Ditos” é uma pausa em nosso
cotidiano para parar, sentir e refletir sobre o nosso lugar dentro da
sociedade. Um momento belo para celebrar a vida através dos corpos ditos e
também dos malditos. O importante é celebrar e isso o Pretagô tem feito.
Direção:Bruno Fernandes e Silvana Rodrigues
Autoria: Pretagô, baseado em discursos de diversos autores
Elenco:Bruno Cardoso, Camila Falcão, Kyky Rodrigues, Laura Lima, Manuela
Miranda e Thiago Pirajira
Trilha Sonora: João Pedro Cé e Vini Silva
Direção e edição de imagem: Marina Kerber - Macumba Lab
Fotografia: Anelise De Carli
Produção e Realização:Grupo Pretagô
Duração:36 minutos
Classificação: 14 anos
*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve críticas
no blog Olhares da Cena. Integrante da GIRADRAMATÚRGICA – Grupo de Estudos em
Dramaturgia Negra. Integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto
Alegre coordenado por Diones Camargo. Foi jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi
jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na
Unisinos e Unilasalle.
ORI ORISTÉIA – UM RITO SACRIFICAL (RS)
Por Diego
Ferreira*
A
presença do grupo Caixa Preta na CURA é bastante significativa por se tratar de
um grupo que abriu portas e possibilidades da representatividade de muitos
artistas negros da cidade Porto Alegre se enxergarem no palco e ver que é
possível estar nesse espaço também e ser representativo. O Caixa Preta também
foi o responsável de realizar o Matriz - Encontro de Arte de Matriz Africana em
Porto Alegre, importante encontro que promoveu encontros, espetáculos e
reflexões que com certeza teve desdobramentos que muitas vezes não conseguimos
nem mensurar mas o que é possível perceber que a cena gaúcha está mais negra e
isso é reflexo destas iniciativas. Assistimos “Ori Oristéia” por questões
técnicas que impediram de acontecer outra ação agendada. Rever o trabalho faz
resgatar toda teatralidade que é muito característica nos trabalhos do grupo
dirigido por Jessé Oliveira. Assistimos o espetáculo em formato digital numa
gravação com uma câmera fixa e de um plano geral, o que para o espectador que
não assistiu a montagem de modo presencial impede de perceber expressões e
nuances dos atores que no presencial são fantásticos e que envolve o espectador
justamente por isso. Mas neste formato percebemos o pulso forte que Jessé tem
enquanto encenador e vislumbramos toda a engrenagem cenográfica que utiliza
vários planos. Conseguimos captar também o canto forte do elenco e uma gama de
imagens que recriam o universo da trilogia Orestéia recriadas aqui por um
universo pop aliados ao universo dos ritos de matriz africana. Esteticamente é
potente e extremamente atual e espero ansioso que o Caixa Preta retorne aos
palcos juntamente com toda a sua pesquisa séria de linguagem que faz dele um
dos grupos mais emblemáticos do nosso teatro.
Direção:Jessé
Oliveiras
Assistente
de direção:Juliano Barros
Elenco
/ Performers:Adriana Rodrigues, Diego Nayà, Éder
Rosa, Glau Barros, Juliano Barros, Marcelo de Paula, Mariana Marmontel, Pâmela
Amaro, Viviane Juguero e Wagner Madeira
Dramaturgia:Viviane
Juguero
Argumento: Jessé
Oliveira
Consultoria
teórica:Barbara Kastner (Alemanha)
Trilha
sonora original:Viviane Juguero e Grupo Caixa Preta
Colaboração
nos arranjos e sonoplastia:Wagner Madeira e Diego Naià
Consultoria
musical: Álvaro RosaCosta
Cenário:Rodrigo
Shalako
Artista
Gráfico:Waldemar Max
Iluminação:José
Luis Fagundes Kabelo
Assistência
em preparação corporal:Éder Rosa
Direção
de Produção e Elaboração do Projeto:Jessé Oliveira Produção
Produção:Silvia
Abreu
Duração:1h55
min
Classificação: 14
anos
*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve críticas no blog Olhares da
Cena. Integrante da GIRADRAMATÚRGICA – Grupo de Estudos em Dramaturgia Negra.
Integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado
por Diones Camargo. Foi jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio
Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e
Unilasalle.
O FEMININO SAGRADO: UM OLHAR DESCENDENTE DA MITOLOGIA AFRICANA (RS)
Por Diego Ferreira*
O presente texto visa
construir uma reflexão sobre a presença e a representação feminina no
espetáculo “O feminino sagrado”, trazendo para o diálogo aspectos
característicos da transmissão de saberes das religiões afro-brasileiras,
focando no trânsito da performance ritual sagrada para a performance artística.
Aqui, saliento a importância da CURA enquanto plataforma de promoção de
trabalhos e performance negra, de protagonismo do corpo negro na cena
contemporânea em tempos pandêmicos e também enalteço a mostra enquanto
construção da memória a partir dos materiais virtuais produzidos para a mostra
mas que permanecem enquanto documentos vivos para a posteridade e isso é de
suma importância enquanto construção das nossas próprias memórias, algo que
precisa ser repensado nas artes cênicas. E falar sobre o trabalho de Iara
Deodoro a frente do seu Afro-sul é remexer e enaltecer a memória e a cultura de
resgate do povo negro gaúcho e aqui especificamente enaltecer mulheres fortes,
mulheres reais. O trabalho é uma espécie de documentário que mescla a fala das
mulheres/bailarinas que presentificam no espetáculo as Yabás e os espíritos
ancestrais femininos ali representados, sob a perspectiva da relação corpo x
espiritualidade e as associações possíveis com as mulheres contemporâneas. E
neste doc. é apresentado fragmentos do espetáculo filmado anteriormente e agora
pontuado com a fala dessas mulheres. O trabalho por si só já é emocionante por
resgatar toda a história e importância do Afro-sul na cena e nas manifestações
populares e por colocar Iara Deodora num lugar de destaque por seu importante
trabalho não apenas na cena, mas em projetos sociais que evidenciam que falamos
aqui muito além do que assistimos na cena. Ouvir a fala destas mulheres e ao
mesmo tempo ver fragmentos do espetáculo é emocionante por trazer consigo um
misto de emoções e de vir carregados de significados e de vivências que
extrapolam a cena e borram vida/arte. Ao mesmo tempo em que identificamos uma
narrativa que busca aproximar as lendas e mitologias dos orixás femininas,
também acompanhamos a trajetória de mulheres reais, fortes, mães que estão ali
expondo suas lutas e dores, suas vitórias e memórias diante do olhar atento dos
espectadores. O fragmento final onde mostra a própria Deodoro em cena é de
embargar o coração e se permitir a expurgar as emoções e lágrimas. Parabenizar
os profissionais que construíram esse documentário, pois conseguiram na medida
explorar e expor o humano e o artístico se é possível separar isso. Resistência,
representatividade, ancestralidade, negritude e o protagonismo estão a frente
deste projeto importante e necessário na vida cultural da cidade, estado e
país. Que possamos valorizar cada vez mais o trabalho de instituições como o
Afro-sul e vislumbrar a maravilha do feminino sagrado.
Direção: Iara
Deodoro
Bailarinos:T
habata Ferreira, Carla Souza, Maria Da Graça Penha, Edjana Deodoro, Leciane
Ferreira, Taila Souza, Taise Souza, Jaqueline Jesus, Fernanda Pereira, Camila
Camargo, Gisele Mendonça, Mauren Martins, Deise Freitas, Leonardo Da Silva,
Nathalia Dornelles, Miguel Rosa, Bruna Marcondes.
Bailarinos mirim: Murilo
Deodoro, Ana Clara Martins, Enrico Baraibar, Isabela Martins, Lorenzzo Martins,
Yasmin Souza, Marina Freitas, Pedro Henrique Freitas, Bruno Amaral, Alice
Martins.
Trilha Sonora: Maestro
Marco Farias
Músicos: Janaína
Caceres, Carine Brazil, Gustavo Vasques, Philipe Vasques, Paulo Romeu Deodoro
Figurinos: Luiz
Augusto Lacerda
Iluminação: Paulo
Renato Costa
Sonorização: José
Derli Rodrigues
Poetas: Ana
Dos Santos Poetisa, Isabete Fagundes Almeida, Jorge Fróes, Maumau De Castro,
Nádia Lis Severo
VJ: Augusto
Santos
Fotógrafo: Bruno
Gomes
Intérprete dos poemas: Camila
Coronel
Duração: 60
minutos
Classificação: Livre
*Diego
Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve críticas no blog Olhares da Cena.
Integrante da GIRADRAMATÚRGICA – Grupo de Estudos em Dramaturgia Negra.
Integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado
por Diones Camargo. Foi jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio
Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e
Unilasalle.
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