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sábado, 11 de março de 2023

MESA FARTA (RS)



MESA FARTA E A CELEBRAÇÃO DE EXISTÊNCIAS NEGRAS

*por Diego Ferreira - Especial Porto Verão Alegre

    Há um excesso de abordagens da cultura negra sob o viés da dor e do racismo, talvez seja essa uma premissa necessária e urgente e "Mesa Farta" do Coletivo Pretagô caminha numa direção oposta ao colocar em cena uma abundância de festividade, de celebração, evidenciando corpos pretos em sua potencialidade de excelência. Entendo "Mesa Farta" como um passo a frente no trabalho performativo do Pretagô, uma maturação e evolução na linguagem e no discurso. Acredito e tenho fé numa arte preta de denúncia, de protesto, de colocar o dedo na ferida, e o próprio coletivo investigou essa possibilidade no seu primeiro trabalho "Qual a diferença entre o charme e o funk?"(2014), que discutia questões sociais sob a perspectiva da arte, de um corpo e discurso preto e politico, falando sobre racismo, afirmatividade, cultura e memória. 
    E passado alguns anos e alguns trabalhos eis que surge "Mesa Farta" que oferece ao seu público uma mesa posta e farta onde a dor e denúncia cedem o lugar a celebração, a festividade, a dança e a música. E o que isso significa?  Que nossas narrativas invibilizadas durante séculos e a tentativa de apagamento das nossas histórias não precisam mais serem evidenciadas? Não exatamente, pois ao assistir "Mesa Farta" minha reflexão é de que a arte preta assim como toda a sociedade está em movimento, e creio que o momento é o de celebrar, de compartilhar, de cantar e dançar, principalmente após uma pandemia e um governo que tinha uma política de destruição contra a comunidade preta e de todos os avanços que conquistamos ao longo dos anos. 
    Então é chegado o momento da fartura, de colher e compartilhar a alegria, de rebolar até o chão, de brindar e degustar o que há de melhor da vida. E o espetáculo é sobre isso, sobre a mesa, que é o único elemento cenográfico no palco, que fizemos um pacto de repensar quais serão os próximos passos e enquanto refletimos, comemos e dançamos, cantamos e nos divertimos. Entre quadros, cenas isoladas, narrativas entrecortadas e permeadas de um humor sarcástico e perspicaz, o coletivo Pretagô evidencia uma cena explosiva, com quatro corpos pretos que multiplicam através das suas presenças os discursos e narrativas que são agentes de transformações dentro desse processo e momento em que nos encontramos. 
    A produção marca a retomada do coletivo que durante a pandemia não parou, porém esse trabalho que havia feito apenas duas apresentações presenciais em sua estreia em 2020 retoma agora com folego e vibração, e ao mesmo tempo refletir como um espelho, da cena que reverbera no espectador a beleza e alegria que é ter a pele negra exaltada no palco. E o espetáculo é uma vitrine do sucesso, do poder, da beleza e da vitória colocados a mesa, mesa esta que agora temos o nosso lugar assegurado. Bruno Fernandes, Camila Falcão, Laura Lima e Kyky Rodrigues destilam sensibilidade e colocam seus corpos cheios de presença evidenciando que o corpo em cena por si só, já está carregado de discursos, mas suas narrativas e vozes potencializam ainda mais essa narrativa que contamina a cena. Os quatro atores dirigidos por Thiago Pirajira, um criador e pensador inquieto que eclode a cena com uma encenação carregada de subjetividades e teatralidades e que diz muito sobre a atualidade. Somados a isso temos uma técnica que trabalha a serviço da cena como a trilha original e funcional de João Pedro Cé, Thiago Pirajira e Grupo Pretagô que é mais um forte elemento narrativo da performance. "Mesa Farta" evidencia que o coletivo tem estofo suficiente para criar uma obra que celebra a nossa existência, priorizando os processos, as experiências e os deslocamentos que nos levam de um ponto a outro entendendo que o caminho é subjetivo e diferente para todos, compreendendo as vulnerabilidades no corre nosso de cada dia, mas que mesmo assim precisa e merece ser celebrado, precisa de um lugar ao sol diante de uma mesa farta de momentos de suspensão de um cotidiano que ainda insiste em nos encaixotar, nos classificar, em nos excluir. Que cada vez mais possamos desfrutar de mesas cada vez mais cheias de tudo o que temos direito. 

Ficha Técnica
Direção Thiago Pirajira
Elenco Bruno Fernandes, Camila Falcão e Kyky Rodrigues. 
Dramaturgia Grupo Pretagô
Trilha sonora original João Pedro Cé, Thiago Piraijra e Grupo Pretagô
Operação de som João Pedro Cé
Figurino Camila Falcão e Mari Falcão
Maquiagem Camila Falcão
Projeções Jana Castoldi
Iluminação Bathista Freire
Cenografia e ambientação Grupo Pretagô
Cenotécnico Rodrigo Shalako
Contrarregra Miguel Rosa
Captação e edição de vídeo Thiago Lazeri
Fotografia, Marca e Cartaz Anelise De Carli
Produção e Realização Grupo Pretagô
Duração 75 minutos
Classificação 14 anos

*Diego Ferreira - Editor do Olhares da Cena. Dramaturgo, Professor e Crítico de Teatro. Graduado em Teatro/UERGS. Curador do 28º Porto Alegre em Cena. Integrante da Comissão Julgadora do 9º Prêmio Nacional de Dramaturgia Carlos Carvalho. Vencedor do Prêmio Açorianos 2021 na categoria Ação Periférica com o projeto "Três tempos para a Dramaturgia Negra no RS."



domingo, 11 de julho de 2021

DESFAZENDA - ME ENTERRE FORA DESSE LUGAR (SP)

 


SOMOS FEITOS DE POSSÍVEIS
por Diego Ferreira*

Refletir sobre a pluralidade e diversidade do teatro brasileiro na atualidade é indispensável. É salutar também não apenas refletir mas cada vez mais subverter as estruturas desse teatro, evitando a reprodução de modelos, práticas e principalmente narrativas distorcidas que perduraram durante muito tempo. Falar sobre o teatro brasileiro contemporâneo e não ressaltar a grande relevância que os teatros negros tem é no mínimo discutível, (para não dizer outra coisa) é necessário provocar esse diálogo para de uma vez por todas dizer que a produção negra atual é extremamente diversificada e múltipla e talvez a mais rica sob o ponto de vista estético, político e poético. E "Desfazenda - Me enterre fora desse lugar" é um excelente exemplo dessa forte articulação que está acontecendo hoje. A produção é o novo trabalho do Coletivo O Bonde de São Paulo e evidencia o trabalho de quatro excelentes interpretes, quatro corpos, quatro vozes, que propagam, multiplicam e amplificam o pensamento e narrativas de muitos corpos pretos. "Desfazenda" coloca em cena quatro personagens: 12, 13, 23 e 40. São quatro pessoas pretas que quando crianças foram salvas da guerra por um padre branco. Desde então elas vivem na fazenda deste padre, cuidando das tarefas diárias, supervisionadas por zero, um homem preto um pouco mais velho. O padre nunca sai da capela, a guerra nunca atingiu a fazenda, e sempre que os porquês são questionados, o sino soa e tudo volta a ser como antes. Ou quase sempre.
A dramaturgia de Lucas Moura é pautada pela fragmentação e intertextualidade. O discurso narrativo consegue contrastar a fabula como depoimentos pessoais criando uma multiplicidade extremamente interessante. A palavra de Moura é vida, é morte, é arma ao mesmo tempo que é alvo. A palavra é corpo/matéria. A palavra é ficção e fricção de tempos e memórias distintos. A palavra é de Lucas, ao mesmo tempo que é de 40, ao mesmo tempo de que é de Jhonny, a palavra é de 23 ao mesmo tempo que é de Marina, ao mesmo tempo que é de 12, e também 23, assim como a palavra é de Filipe, de Ailton, a palavra é de Roberta, a palavra também é minha. A palavra é texto. E o texto desvela discursos que consegue propagar a partir de sua ação uma infinidades de vozes. Texto é ritmo e poesia. Poesia visceral, urgente e emergente. O texto é estruturado em narrativas épicas evidenciado através da direção espetacular de Roberta Estrela D'alva que consegue criar muitas soluções cênicas e dispositivos que dá um ritmo alucinado ao trabalho, além de muitas camadas. Fiquei extremamente tocado com todo o espetáculo, chamado aqui de "peça-filme", mas confesso que fazia tempo que um texto não captava tanto a minha atenção como essa dramaturgia de Lucas Moura, e olha que isso acontece justamente num tempo em que o teatro chega até a recepção de forma virtual, porém isso não afetou em nada, pelo contrário, pois nesse caso a virtualidade da proposta se transforma em presença potente pelo modo de construção que conseguem cooptar o olhar e principalmente o afeto de quem está do lado de cá da tela. Texto aliado a direção criam um objeto virtual, uma peça-filme que evidencia o caráter espetacular desse modelo sem deixar de ser teatro. Estrela D'alva imprime um ritmo atrelado a toda uma plasticidade carregada numa teatralidade. A começar pelas projeções iniciais com as vozes de Grace Passô e Negra Rosa que além de nos localizar no que estamos prestes a assistir revelam alta carga poética. Depois assistimos os intérpretes se colocando em xeque o tempo topo, construindo e desconstruindo esse imaginário fabular ao mesmo tempo que nos colocam no tempo de hoje, com nossos problemas de hoje, nossas alegrias e nossas dores. Numa das passagens do texto é dito: "a gente precisa arranjar um tempo de desviar". e desviar é mudar de direção. Precisar de tempo para mudar de direção, muitas vezes será que temos esse tempo para desviar? É necessário tempo, é necessário mudar o curso das águas e "Desfazenda" consegue esse tempo para desviar e propõe uma mudança que dialoga diretamente comigo.

E porque dialoga comigo?

Dialoga porque é virtual, mas é presença
É porque é presença, é corpo, é negro
Dialoga porque tem uma fábula, mas também tem reflexão
Dialoga porque tem ritmo, tem fala, língua falada, tem rap
Dialoga porque tem ator que mesmo através da tela fala diretamente comigo
Dialoga porque o ator sou eu, e aquilo que estava escrito nos diários poderia ter sido escrito por mim
Dialoga porque a câmera guia o meu olhar.

A teatralidade latente se manifesta e materializa através da iluminação que é um dos signos presentes e que auxiliam fortemente na construção potente do trabalho. A luz de Matheus Brant executada por Gabriele Souza é espetacular, pois constrói uma estética imagética que também é signo, que também é um tecido narrativo, uma sensível dramaturgia da iluminação que é presente, é corpo, é fundamental. A luz é corte, é interrupção, é interferência, é dispositivo que revela e esconde corpos, desenha e inscreve esse corpo-espaço, num tempo presente e virtual. As cores, intensidades e temperaturas dessa luz são bem articuladas que deixam uma forte marca nessa experiência. Evidencia rostos, corpos ou partes dele, cores, preto e branco, apenas branco, apenas negro, e vermelho. E essas cores, apenas essas três cores me levam a muitos significados e metáforas como o vermelho-sangue das mortes dos corpos pretos que assistimos todos os dias e que infelizmente esse sangue vermelho/preto não é no palco do teatro, nem tão pouco virtual, mas sangue real, sangue derramado todos os dias principalmente nas favelas e periferias do nosso país.
Outro elemento importante é a trilha sonora de Dani Nega que constrói uma linda paisagem sonora, presente o tempo todo, potente e linda, linda demais, já que o texto falado também é musicalidade. O ritmo é a mola propulsora que faz rodar essa experiência. A trilha é um coração pulsando sempre mas que as vezes nem sentimos mas ela está ali presente, pulsando e emanado vida. Outro destaque são os figurinos de Ailton Barros que são funcionais, rico em detalhes mesmo todos sendo peças pretas com o avental branco. Essas cores do figurino e da iluminação dá o tom metafórico da montagem, cria alguns códigos facilmente lidos pelo espectador, como quando os interpretes utilizam o avental branco estão dentro da narrativa fabular, e quando retiram o elemento branco evocam pensamentos e memórias pessoais/coletivas. Percebe que código interessante este:  quando ele , o ator, retira o elemento branco do seu figurino é quando a ilusão fabular se desfaz, ou seja, desfazendo, despindo, desconstruindo pensamentos. Desfazenda. 
Então, a peça-filme é uma enorme surpresa nessa mar de incertezas, e justamente por se tratar de um espetáculo filmado, todo o reconhecimento merecido a toda a equipe de Captação de imagens, montagem e fotografia que faz o espetáculo acontecer da melhor forma possível, com alto impacto e força poética e estética graças aos trabalhos destes profissionais. 
E aos quatro atores/
interpretes/vozes/corpos/subjetividades/forças/respiração/inspiração/transpiração/   
Ailton Barros
Filipe Celestino
Jhonny Salaberg
Marina Esteves
Registro a minha satisfação em partilhar desse momento através desse trabalho. Todos do elenco sem exceções dinamizam e potencializam através de suas presenças diferentes estados de temporalidades. Seus corpos/vozes produzem potencias que muitas vezes contrastam com as violências da narrativa.
Em múltiplas camadas, com ambiguidades e tensões internas naquilo que se pretende fazer, "Desfazenda - Me enterrem fora desse lugar" é um  grito por um aquilombamento e um desvelador daquilo que ainda se custa a ver: as ações fundantes das populações negras e o sangue preto que constitui a estruturação desse país.

Ficha Técnica
Direção: Roberta Estrela D'Alva (@estreladalva) Dramaturgia: Lucas Moura (@lucasmouradr) Direção Musical: Dani Nega (@daninega) Elenco: Ailton Barros (@ailtonbarrosoficial), Filipe Celestino (@ficelestino), Jhonny Salaberg (@jhonnysalaberg) e Marina Esteves (@vimvermarina). Vozes Mãe e Criança: Grace Passô (@gracepasso) e Negra Rosa (@meninanegrarosa). Direção de Imagem e Montagem: Gabriela Miranda e Matheus Brant (@matheusbrant) Direção de Fotografia: Matheus Brant Consultoria Artística: Daniel Lima (@dcfl.daniel_lima) Som direto: Ruben Vals (@rukuraka_) Treinamento e desenho de spoken word: Roberta Estrela D'Alva Produção Musical: Dani Nega Músicas "Saci" e "Tocar o Gado": Dani Nega e Lucas Moura Figurino: Ailton Barros Desenvolvimento de figurino: Leonardo Carvalho (@tchaubeijotudodebom) Operação de câmera e Efeitos óticos: Isadora Brant (@isabrant) Desenho de Luz: Matheus Brant Operação de Luz: Gabriele Souza (@gabezok) Técnica de Iluminação e Traquitanas: Giovanna Kelly (giovannakmg) Marcação de Cor: Lucas Silva Campos e Samira França Design Gráfico: Tide Gugliano (@tidegugliano) Legendas: Francisco Grasso Produção: Corpo Rastreado (@corporastreado) – David Costa, Gisely Alves e Júlia Tavares (@tvrsjulia) Assessoria de Imprensa: Canal Aberto (@canal_aberto) – Marcia Marques (@marciamarquesnovaes), Carol Zeferino e Daniele Valério Realização: O Bonde Dramaturgia livremente inspirada no filme "Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil" de Belisario Franca (@belisariof)



*Diego Ferreira é Dramaturgo, Diretor, Professor e Crítico Teatral. Graduado em Teatro UERGS/2009. Estudou Letras na FAPA/2002.  Coordena o Núcleo de Dramaturgia do Espaço do Ator. Editor do blog Olhares da Cena. Participou do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É integrante da GiraDramatúrgica - Grupo de Estudos em Dramaturgia Negra coordenado por Carlos Canarin/UNESPAR. Professor do Espaço do Ator e da extensão na UNISINOS. Produziu “Três tempos para a dramaturgia negra no RS” contemplado no edital Diversidade nas Culturas da Fundação Marcopolo. Curador do 28º Porto Alegre em Cena/2021.  

quinta-feira, 6 de maio de 2021

A ÚLTIMA NEGRA (RS) - CRÍTICA

 




COSMOVISÕES E EXISTÊNCIAS NEGRAS

| *por Diego Ferreira


Inicio minhas divagações sobre “A Última Negra” buscando refletir sobre a existência e sua relação entre teatro e negritudes. Primeiro busco pensar o teatro dentro do quadro atual em que nos encontramos e vislumbrar novas possibilidades de existência daqui em diante. A definição do verbo “existir” diz que “é ter existência real, ter presença viva, viver, ser”. Existir fala de presença viva. E PRESENÇA nas artes da cena tem um sentido amplo no que tange a uma presença real, mesmo que virtualizada como é o caso de “A Última Negra”. O mundo já não é mais o mesmo com a atual pandemia. Países de todo o planeta estão sofrendo as conseqüências desta crise, que são econômicas, sociais e também psicológicas. Foi dada uma pausa no cotidiano da humanidade e, compulsoriamente, cada indivíduo é levado a pensar sobre sua forma de existir no mundo: o trabalho, as relações, a maneira como utilizamos nossos recursos (ou a falta deles), o que se espera de fato da classe política, como gerir pessoas em vulnerabilidade social, e tantos outros desafios. São diversos problemas para serem resolvidos em um curto período de tempo e cada escolha pode determinar a vida e a morte de milhares de pessoas. No meio disso tudo, está também à classe artística, que lida há tempos com vários tipos de ataques e falta de investimentos. Na nossa sociedade, muitos partem da idéia da arte como algo supérfluo, dispensável ou até mesmo um hobby. Há, portanto, um preconceito estrutural (assim como o racismo estrutural abordado no espetáculo) em relação às artes, provavelmente atrelado à crença do valor mercadológico das profissões, no sentido de que há algumas mais importantes e "úteis" que outras. Com a pandemia, novas formas de “existência” têm sido pensadas para os artistas, não sem controvérsias e polêmicas, já que temporadas de espetáculos foram todos cancelados. Em meio a uma crise que escancara a insuficiência de políticas públicas para todos os setores da sociedade, os espetáculos teatrais, que tanto dependem do público (presença), tem estado parados.  Para alguns artistas, uma alternativa tem sido as transmissões ao vivo através de plataformas virtuais. “A última negra” consegue se apropriar da definição de “existir” perfeitamente e trabalhar com ressignificações conceituais em relação à estrutura, a forma de compartilhar narrativas e sua relação com o espectador. O Coletivo Projeto Gompa consegue criar uma experiência viva que se aproxima muito de uma experiência teatral, pois se utiliza das plataformas, mas faz o evento teatral acontecer como a divulgação, a bilheteria, pré-estréia, estréia e a fruição da produção através do youtube. É possível afirmar que a emergência de outro mundo está fazendo com que artistas literalmente se reinventem cada vez mais, e se coloquem na fronteira de uma criação híbrida e criem abismos e arestas de novas possibilidades.

    A produção cultural negra tem feito irromper novas linguagens insurgentes ao processo da padronização cultural que ainda se deixa respingar com culturas eurocentradas. Parecem surgir outros processos vitais para o diálogo entre culturas. Uma nova régua para indicar outro compasso para um humanismo além do eixo europeu. Ineditismos culturais advindos de um olhar cosmopolita e subversivo vivenciado nas redes de comunicação artística das margens contemporâneas. Muitos artistas e influenciadores digitais negros conseguiram ganhar status de celebridade e grande projeção através das redes sociais, fato que nas mídias tradicionais jamais conseguiriam “existir” ainda por causa dessa estrutura racista que perdura na sociedade.

    Isso também tem a ver com a cosmovisão africana, uma maneira subjetiva de ver e entender o mundo, principalmente as relações humanas e os papéis dos indivíduos na sociedade, assim como respostas a questões filosóficas básicas, como a finalidade da existência humana. Ou seja, seguimos falando de “existências” e de como respondemos as questões do nosso tempo. “A Última Negra” se apresenta como espetáculo virtual e se pauta na criação de uma história original, em todos os sentidos, desde o argumento até a concretização do projeto e o modo de compartilhamento e fruição. A começar pela dramaturgia de Pedro Bertoldi que nos provoca acerca de como é ser a última pessoa negra no Brasil. No texto 100 anos após o incêndio do Museu Nacional, uma arqueóloga encontra o corpo de uma mulher negra congelada. Inexplicavelmente, Dandara (entendedores entenderão a escolha deste nome) sobreviveu a mais de um século abaixo de zero grau e sua sobrevivência em um Brasil onde há muitos anos não existem vestígios de pessoas negras, faz reacender as discussões sobre o racismo institucional existente no país. É interessante essa abordagem que nos desloca para um Brasil distópico, até mesmo absurdo, para refletir sobre o racismo, evidenciando que mesmo num mundo distante ainda perduram as chagas provocadas pela estrutura racial.  A narrativa trata o preconceito racial com um humor refinado e crítico. Aponta para a ferida, sem tocar diretamente nela. Constrói fricções entre o universo real e ficcional. Propõe uma reflexão sobre o lugar do negro na sociedade contemporânea e isso é feito a partir de uma visão irônica e, algumas vezes, até cômica, como pode ser observado na cena do repórter, por exemplo, na construção de um humor ácido e crítico.

    A experiência virtual se desdobra em tempos e janelas distintos. É uma brincadeira, uma crítica aos inimigos institucionalizados, uma proposta para entender se realmente são inimigos ou se isso é fruto de uma manipulação promovida pela estrutura social.Podemos também fazer uma leitura afrofuturista que flerta com uma estética que combina elementos de memória, ficção científica e histórica, fantasia, arte africana e arte da diáspora africana, com cosmologias negras para criticar não só os dilemas atuais da estrutura racial, mas também para revisar, principalmente revisar, interrogar e reexaminar os eventos históricos do passado que aqui remete ao congelamento de uma mulher negra durante 100 anos.  

Designer gráfico: Mitti Mendonça

    A narrativa evita, conseqüentemente, elementos folclóricos clichês que o sistema estabelece. A dramaturgia não se detém nos aspectos geralmente comuns quando se trata de narrativas negras. O texto de Pedro Bertoldi desvela várias reflexões que são caras para o teatro negro brasileiro e, sem sombra de dúvida, merece ser lido, assistido, estudado e divulgado por aqueles que se dedicam aos estudos afro-brasileiros. Sem dúvida um texto que mesmo numa experiência virtual te coloca dentro da situação proposta. E lógico que exaltar o texto de Bertoldi é necessário, porém ressaltar a trilha sonora original de Álvaro RosaCosta é dizer que ela é um dos elementos que me fazer mergulhar na fruição do trabalho, pois é presente em muitos momentos, e a música funciona para dizer coisas na cena sem ser tão óbvio e colocar o espectador e sua atenção em outros lugares. Música é dramaturgia. É pausa. É signo. É existência e presença. Embora muitas vezes não seja notada pelo espectador, a trilha sonora é fator narrativo que integra a obra cênica. Assim como a direção de imagens e edição de Júlio Estevan que faz com que a experiência seja feliz e potente. Percebemos que não é apenas um teatro filmado, ou imagens captadas de qualquer modo, pelo contrário, imagens com muita qualidade que evidenciam cada personagem e seus espaços dentro da narrativa. E produzir hoje uma leitura sobre um espetáculo virtual é destacar esse profissional que geralmente num espetáculo presencial não teria tamanha importância, mas nesse caso é, tão ou mais importante como os demais profissionais do trabalho.          

    Hayline Vitória está à frente do elenco e seu trabalho é sensacional, pois a câmera revela ângulos, detalhes, expressões, pulsações que no teatro não percebemos. A relação com a câmera é diferente da relação com um espectador no teatro presencial e esse trabalho fica evidente aqui. Hayline personifica Dandara, a última negra que ficou congelada nos últimos 100 anos. Mas todo o elenco está muito bem dentro desta proposta. Álvaro RosaCosta, Fabrício Zavareze, Guilherme Ferrêra, Fabiane Severo e Henrique Gonçalves cada um no seu quadrado desenvolvem um ótimo trabalho que difere do trabalho que já conheço nos palcos e isso é bom, por se tratar de outra linguagem. Confesso que quando vi o início das divulgações e percebi que o Projeto Gompa estava produzindo um novo trabalho pautado em questões raciais e que trazia em sua equipe técnica a maioria de artistas não negros isso de certa forma me provocou, fiquei feliz por um lado e intrigado por outro. Mas depois de assistir ao trabalho, constatei a necessidade dos artistas não negros na concretização do trabalho e principalmente a presença de Silvana Rodrigues na co-direção juntamente com Camila Bauer, pois sabendo da competência e força criativa de Bauer constatada em outros trabalhos, mas que no que diz respeito a questões raciais, era necessária a presença de uma artista tão competente como a citada Bauer, mas que pode contribuir com outros olhares e com uma “vivência preta” acerca da obra que assistimos. Não é que seja proibido coletivo ou artistas não negros pautarem a negritude em suas propostas, pelo contrário, é necessário e salutar dialogar cada vez mais sobre a negritude na arte, mas deve-se cuidar para que as propostas não sejam esvaziadas de sentidos e principalmente do discurso, o que não é o caso deste projeto. Espero que não seja mal compreendido, porém é necessário refletir sobre o esvaziamento na hora de se apropriar de elementos culturalmente ligados a negritude, que já é algo complexo por si só, mas que é importante refletir sobre isso. Por se tratar de uma experiência virtual creio que a produção voltará a ser exibida e merece ser assistida pela qualidade e principalmente pela reflexão provocada pelo texto de Bertoldi.  

 Ficha Técnica:

 História original e dramaturgia: Pedro Bertoldi

Direção: Silvana Rodrigues e Camila Bauer

Elenco: Hayline Vitória, Álvaro RosaCosta, Fabrício Zavareze, Guilherme Ferrêra, Fabiane Severo, Henrique Gonçalves.

Direção de imagens e edição: Júlio Estevan

Trilha sonora original e edição de som: Álvaro RosaCosta

Orientação de figurino: Fabiane Severo e Guilherme Ferrêra

Designer gráfico: Mitti Mendonça

Fotografia e criação de teasers: Júlio Estevan

Assessoria e produção de conteúdo de mídias: Tainã Rosa

Assessoria de imprensa: Thais Silveira

Produção de vídeo: Júlio Estevan

Produção musical: Álvaro RosaCosta

Produção administrativa/cultural: Hayline Vitória

Produção executiva: Silvia Duarte

Realização: Projeto GOMPA

Financiamento: Pró Cultura RS - Lei de incentivo e Fundo, Secretaria da Cultura - Governo do Estado do Rio Grande do Sul

Apoio: EntreAtos


*Diego Ferreira é Dramaturgo, Diretor, Professor e Crítico Teatral. Graduado em Teatro UERGS/2009. Estudou Letras na FAPA/2002.  Coordena o Núcleo de Dramaturgia do Espaço do Ator. Editor do blog Olhares da Cena. Participou do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É integrante da GiraDramatúrgica - Grupo de Estudos em Dramaturgia Negra coordenado por Carlos Canarin/UNESPAR. Professor do Espaço do Ator e da extensão UNISINOS. 






quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

REVERB (FIN/BRA)

 


Por Diego Ferreira*

 

Paisagem

Corpos a margem abandonada

Preto

Branco

Preto

Trapiche

Imagem bucólica

Águas

Frio

Lá fora a neve

Contraste

Contraste da neve e o negro dos corpos

Preto e branco

Cabelos

Verde

 

Há muita simbologia neste REVERB, no rio que passa e não volta e nos corpos que correm e voltam. Existe muito afeto na relação destes corpos com o espaço e isso é muito forte e representativo. Corpos negros dançando na neve é muito representativo. É político. Dialoga com a performance anterior de “Corpos Ditos” com a idéia do passaporte  e das pessoas em mover-se. É importante se mover.  A vídeo-performance utiliza uma estética sem cor e isso reflete justamente na cor. Os corpos tem cor. O espaço tem cor. É o corpo negro se deslocando num espaço branco repleto de neve. Percebe as múltiplas possibilidades que uma única obra pode possibilitar? E isso é fantástico. “Reverb” é tão poético e belo. Ancestral e simbólico. Quando assisto a performance me permito a senti-la ao invés de tentar encontrar justificativas racionais que venham a dar conta de efêmero que acontece ali.  O rio passa, mas os corpos permanecem. E permanecem dançando, o que de fato é um ato político. Reverb fez o encerramento da mostra Cura de forma grande. Uma performance que me provocou e deixou na minha memória uma série de caminhos a trilhar no campo das artes.

 

 

Direção:Ana Paula Mathias

Coreografía:Mario Lopes e Malu Avelar

Trilha Sonora: Erica Navarro

Gravação e Mixagem:Adonias Souza Júnior

Gravação e Mixagem:Adonias Souza Júnior

Desenho Sonoro:Ruben Valdes

Intérpretes: Mario Lopes e Malu Avelar

Formato de realização: Videodança

Duração:60 minutos

Duração:10 minutos

Classificação:Livre

 

                                                                                                                                                                           

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve críticas no blog Olhares da Cena. Integrante da GIRADRAMATÚRGICA – Grupo de Estudos em Dramaturgia Negra. Integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. Foi jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle.                                                                                                                     

 

CORPOS DITOS (RS)

 


Por Diego Ferreira*

Quando comecei a estudar sobre o negro no teatro, ainda dentro da universidade a principal dificuldade era encontrar bibliografia e referências a respeito do tema e principalmente vislumbrar na cena corpos negros em ação. De minha parte, havia um total desconhecimento dessa história e da complexidade que ela encerrava. Essa compreensão só veio se dando na construção de sentidos no tempo e espaço. E em Porto Alegre no que se refere a teatro negro o Caixa Preta é um dos coletivos que abriram portas a muitos artistas que hoje exercem o seu trabalho e na atualidade o Pretagô é uma forte e agradável referencia por se engajar na luta do enfrentamento ao racismo a partir de vozes e corpos que trazem novos ângulos ao discurso negro nas artes cênicas, o que se constitui numa excelente oportunidade para aprofundar reflexões.

Por essa razão, considero “Corpos Ditos” uma afronta a tudo o que temos passado neste ano pandêmico. Trata-se de uma reunião de pretos celebrando nossos discursos. A partir da investigação de elementos que caracterizam a performance arte em acordo com a poética desenvolvida pelo Pretagô, os performers exploram imagens e áudios captados através de seus smartphones e criam cenas motivadas por um discurso escolhido por eles. E isso provoca um grande impacto, pois cada ator provocados por estímulos que desconhecemos criam uma performance a partir do seu lugar de fala e “de casa”. E cada quadro nos provoca a partir das imagens propostas e dos textos e narrativas que existem em cada ação. Cosmovisões negras que firmam territórios de embates e sutilezas. “Corpos Ditos” é de uma singeleza e ao mesmo tempo de uma potência aterrorizante, como aparece num dos quadros essa palavra: “aterrorizada”, no sentido de perder as esperanças. Ao acompanhar e assistir o Pretagô minha esperança é renovada pois existe um trabalho muito sério e muito atual.

“Mover-se é um milagre”

“Mover-se dói.”

É bastante representativo o quadro em que o Bruno aparece com um passaporte e seu discurso fala de mover-se. É representativo. É triste e feliz ao mesmo tempo justamente pela questão de mobilidade  e as possibilidades que temos em mover-se pelo país e mundo. Assim como toda a proposta tem uma dimensão do que é ser negro no Brasil. E do que representa ser artista negro no Brasil. Sons, textos, discursos, imagens, corpos. Negros. Corpos negros em deslocamento. Corpos negros se movendo. Corpos negros se movendo para curar toda e qualquer dor que esses corpos carregam. A parformance tem humor, ancestralidade, sustentabilidade, metáforas que constroem leituras pretas do momento que vivemos. E tudo tem poesia, beleza e embate. Tem diversidade. Afeto. Sutileza. Liberdade. “Corpos Ditos” é uma pausa em nosso cotidiano para parar, sentir e refletir sobre o nosso lugar dentro da sociedade. Um momento belo para celebrar a vida através dos corpos ditos e também dos malditos. O importante é celebrar e isso o Pretagô tem feito.

 

 

 

Direção:Bruno Fernandes e Silvana Rodrigues

Autoria: Pretagô, baseado em discursos de diversos autores

Elenco:Bruno Cardoso, Camila Falcão, Kyky Rodrigues, Laura Lima, Manuela Miranda e Thiago Pirajira

Trilha Sonora: João Pedro Cé e Vini Silva

Direção e edição de imagem: Marina Kerber - Macumba Lab

Fotografia: Anelise De Carli

Produção e Realização:Grupo Pretagô

Duração:36 minutos

Classificação: 14 anos

                                                                                                                                                                           

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve críticas no blog Olhares da Cena. Integrante da GIRADRAMATÚRGICA – Grupo de Estudos em Dramaturgia Negra. Integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. Foi jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle.                                                                                                                     

ORI ORISTÉIA – UM RITO SACRIFICAL (RS)

 


Por Diego Ferreira*

 

A presença do grupo Caixa Preta na CURA é bastante significativa por se tratar de um grupo que abriu portas e possibilidades da representatividade de muitos artistas negros da cidade Porto Alegre se enxergarem no palco e ver que é possível estar nesse espaço também e ser representativo. O Caixa Preta também foi o responsável de realizar o Matriz - Encontro de Arte de Matriz Africana em Porto Alegre, importante encontro que promoveu encontros, espetáculos e reflexões que com certeza teve desdobramentos que muitas vezes não conseguimos nem mensurar mas o que é possível perceber que a cena gaúcha está mais negra e isso é reflexo destas iniciativas. Assistimos “Ori Oristéia” por questões técnicas que impediram de acontecer outra ação agendada. Rever o trabalho faz resgatar toda teatralidade que é muito característica nos trabalhos do grupo dirigido por Jessé Oliveira. Assistimos o espetáculo em formato digital numa gravação com uma câmera fixa e de um plano geral, o que para o espectador que não assistiu a montagem de modo presencial impede de perceber expressões e nuances dos atores que no presencial são fantásticos e que envolve o espectador justamente por isso. Mas neste formato percebemos o pulso forte que Jessé tem enquanto encenador e vislumbramos toda a engrenagem cenográfica que utiliza vários planos. Conseguimos captar também o canto forte do elenco e uma gama de imagens que recriam o universo da trilogia Orestéia recriadas aqui por um universo pop aliados ao universo dos ritos de matriz africana. Esteticamente é potente e extremamente atual e espero ansioso que o Caixa Preta retorne aos palcos juntamente com toda a sua pesquisa séria de linguagem que faz dele um dos grupos mais emblemáticos do nosso teatro.

 

Direção:Jessé Oliveiras

Assistente de direção:Juliano Barros

Elenco / Performers:Adriana Rodrigues, Diego Nayà, Éder Rosa, Glau Barros, Juliano Barros, Marcelo de Paula, Mariana Marmontel, Pâmela Amaro, Viviane Juguero e Wagner Madeira

Dramaturgia:Viviane Juguero

Argumento: Jessé Oliveira

Consultoria teórica:Barbara Kastner (Alemanha)

Trilha sonora original:Viviane Juguero e Grupo Caixa Preta

Colaboração nos arranjos e sonoplastia:Wagner Madeira e Diego Naià

Consultoria musical: Álvaro RosaCosta

Cenário:Rodrigo Shalako

Artista Gráfico:Waldemar Max

Iluminação:José Luis Fagundes Kabelo

Assistência em preparação corporal:Éder Rosa

Direção de Produção e Elaboração do Projeto:Jessé Oliveira Produção

Produção:Silvia Abreu

Duração:1h55 min

Classificação: 14 anos

 

 


*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve críticas no blog Olhares da Cena. Integrante da GIRADRAMATÚRGICA – Grupo de Estudos em Dramaturgia Negra. Integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. Foi jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

 

 

O FEMININO SAGRADO: UM OLHAR DESCENDENTE DA MITOLOGIA AFRICANA (RS)

 


Por Diego Ferreira*

O presente texto visa construir uma reflexão sobre a presença e a representação feminina no espetáculo “O feminino sagrado”, trazendo para o diálogo aspectos característicos da transmissão de saberes das religiões afro-brasileiras, focando no trânsito da performance ritual sagrada para a performance artística. Aqui, saliento a importância da CURA enquanto plataforma de promoção de trabalhos e performance negra, de protagonismo do corpo negro na cena contemporânea em tempos pandêmicos e também enalteço a mostra enquanto construção da memória a partir dos materiais virtuais produzidos para a mostra mas que permanecem enquanto documentos vivos para a posteridade e isso é de suma importância enquanto construção das nossas próprias memórias, algo que precisa ser repensado nas artes cênicas. E falar sobre o trabalho de Iara Deodoro a frente do seu Afro-sul é remexer e enaltecer a memória e a cultura de resgate do povo negro gaúcho e aqui especificamente enaltecer mulheres fortes, mulheres reais. O trabalho é uma espécie de documentário que mescla a fala das mulheres/bailarinas que presentificam no espetáculo as Yabás e os espíritos ancestrais femininos ali representados, sob a perspectiva da relação corpo x espiritualidade e as associações possíveis com as mulheres contemporâneas. E neste doc. é apresentado fragmentos do espetáculo filmado anteriormente e agora pontuado com a fala dessas mulheres. O trabalho por si só já é emocionante por resgatar toda a história e importância do Afro-sul na cena e nas manifestações populares e por colocar Iara Deodora num lugar de destaque por seu importante trabalho não apenas na cena, mas em projetos sociais que evidenciam que falamos aqui muito além do que assistimos na cena. Ouvir a fala destas mulheres e ao mesmo tempo ver fragmentos do espetáculo é emocionante por trazer consigo um misto de emoções e de vir carregados de significados e de vivências que extrapolam a cena e borram vida/arte. Ao mesmo tempo em que identificamos uma narrativa que busca aproximar as lendas e mitologias dos orixás femininas, também acompanhamos a trajetória de mulheres reais, fortes, mães que estão ali expondo suas lutas e dores, suas vitórias e memórias diante do olhar atento dos espectadores. O fragmento final onde mostra a própria Deodoro em cena é de embargar o coração e se permitir a expurgar as emoções e lágrimas. Parabenizar os profissionais que construíram esse documentário, pois conseguiram na medida explorar e expor o humano e o artístico se é possível separar isso. Resistência, representatividade, ancestralidade, negritude e o protagonismo estão a frente deste projeto importante e necessário na vida cultural da cidade, estado e país. Que possamos valorizar cada vez mais o trabalho de instituições como o Afro-sul e vislumbrar a maravilha do feminino sagrado.

Direção: Iara Deodoro

Bailarinos:T habata Ferreira, Carla Souza, Maria Da Graça Penha, Edjana Deodoro, Leciane Ferreira, Taila Souza, Taise Souza, Jaqueline Jesus, Fernanda Pereira, Camila Camargo, Gisele Mendonça, Mauren Martins, Deise Freitas, Leonardo Da Silva, Nathalia Dornelles, Miguel Rosa, Bruna Marcondes.

Bailarinos mirim: Murilo Deodoro, Ana Clara Martins, Enrico Baraibar, Isabela Martins, Lorenzzo Martins, Yasmin Souza, Marina Freitas, Pedro Henrique Freitas, Bruno Amaral, Alice Martins.

Trilha Sonora: Maestro Marco Farias

Músicos: Janaína Caceres, Carine Brazil, Gustavo Vasques, Philipe Vasques, Paulo Romeu Deodoro

Figurinos: Luiz Augusto Lacerda

Iluminação: Paulo Renato Costa

Sonorização: José Derli Rodrigues

Poetas: Ana Dos Santos Poetisa, Isabete Fagundes Almeida, Jorge Fróes, Maumau De Castro, Nádia Lis Severo

VJ: Augusto Santos

Fotógrafo: Bruno Gomes

Intérprete dos poemas: Camila Coronel

Duração: 60 minutos

Classificação: Livre


*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve críticas no blog Olhares da Cena. Integrante da GIRADRAMATÚRGICA – Grupo de Estudos em Dramaturgia Negra. Integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. Foi jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle.