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sábado, 27 de novembro de 2021

A MULHER ARRASTADA - MOSTRA UMBÚ

 




Por Diego Ferreira - Especial MOSTRA UMBU DAS ARTES*

“A Mulher Arrastada” foi o espetáculo de abertura da Mostra Umbú das Artes que nasce com o propósito de reunir diversos trabalhos realizados durante a pandemia por artistas e coletivos teatrais, em diversos outros formatos que não o teatro em sua essência. Nascidos mutantes, são trabalhos que se equilibram na corda bamba dos “entres”: ora investigando sua relação com o cinema, ora desbravando o meio virtual como possibilidades de novas linguagens artísticas. Expressões das artes cênicas que, através de diferentes ferramentas, encontram a sala de cinema como janela de contato com o seu público, de forma segura e presencial.

Assistir “A Mulher Arrastada” na telona foi uma experiência arrebatadora. Pude experimentar o espetáculo de modo presencial, online e agora no cinema. Penso que o trabalho funciona e emociona em qualquer plataforma que se utilizar pelo material humano que a narrativa convoca o espectador a comungar. A experiência na telona agiganta ainda mais esse manifesto que evoca o episódio ocorrido no Rio de Janeiro,  uma ode contra o apagamento da memória de Cláudia da Silva Ferreira, mulher, negra, pobre, mãe que foi brutalmente assassinada e arrastada pela PM/RJ. 

A escrita de Diones Camargo me toca de uma forma intensa, justamente por criar narrativas que evoquem vozes que cada vez mais precisam ser exaltadas, vozes como esta ecoem e não sejam caladas, busquem o seu lugar de fala, buscando por si só o lugar de protagonismo sem a necessidade de mediação de terceiros. “A mulher arrastada” é um texto que a começar pela estrutura, eclode o drama assim como ocorre em autores pós-modernos, colocando em cena monólogos e vozes.

O texto é permeado de memórias fragmentárias e inconstantes, ficção e realidade andam juntas, também a dimensão do tempo está desconstruída: não há noção de passado e presente, separação de eu e outro; em caráter de hibridismo (o texto é um poema dramático, narrativo, concreto, e extremamente político, uma peça manifesto); um novo estado de expressão e percepção em uma escrita que é distante da estrutura tradicional de enredo. A fragmentação do sujeito contemporâneo é alcançada esteticamente com a utilização de recursos como as figuras do HOMEM/POLICIAL que tem a função de situar os passos de Cláudia, a utilização de uma narrativa não linear, não especificação das personagens e do cenário, distorção do senso de realidade e de tempo. 
A interpretação irretocável de Celina Alcântara que é simplesmente arrasadora, meticulosa e espetacular. Na tela grande Celina alcança uma força ainda maior nas vezes em que o close está focado em seu rosto. Impossível assistir a performance de Celina e não ser tocado, não ser perturbado pela força com que representa a personagem. Pedro Nambuco está no mesmo patamar de Celina e me assombra apenas através de sua presença, pois representa a força e a truculência policial branca, representa toda a bestialidade dos militares que tomam conta do poder e do estado. Nambuco representa um personagem que me dá asco, de certa forma, desde suas palavras iniciais, durante a violência que trata a mulher arrastada e até mesmo quando não tem falas, nem tampouco está em cena, mas apenas pelo fato de percebermos sua presença rondando o espaço como um lobo faminto. A dupla de atores está de parabéns pelo excelente trabalho. Assim como a direção de Adriane Mottola, que soube concatenar todos os elementos da encenação, partindo do texto de Diones, e explorando o melhor dos atores. Direção primorosa que parte de elementos simples para chegar num trabalho arrojado. 
Impossível não citar a iluminação funcional de Ricardo Vivian, que além de iluminar o espaço da cena onde os atores atuam, cria uma luz perfeita que dá conta de todo espaço, desde a entrada até atrás das arquibancadas criando um ambiente muitas vezes sufocantes, como a trilha sonora de Felipe Zancanaro que se faz presente em grande parte da cena, de forma sutil, operada ao vivo, uma experiência sonora que auxilia muito na construção emotiva do filme-espetáculo. 
Sigamos clamando: Claudia da Silva Ferreira, presente!

 


FICHA TÉCNICA


Direção: Adriane Mottola Texto:Diones Camargo Elenco:Celina Alcântara e Pedro Nambuco Iluminação:Ricardo Vivian Trilha Sonora:Felipe Zancanaro 



*Diego Ferreira é Dramaturgo, Diretor, Professor e Crítico Teatral. Graduado em Teatro UERGS/2009. Estudou Letras na FAPA/2002. Coordena o Núcleo de Dramaturgia do Espaço do Ator. Editor do blog Olhares da Cena. Professor do Espaço do Ator e da extensão na UNISINOS. Produziu “Três tempos para a dramaturgia negra no RS” contemplado no edital Diversidade nas Culturas da Fundação Marcopolo. Foi indicado no Prêmio Açorianos 2021 em 3 categorias: Olhares da Cena na categoria Ação Formativa e o projeto "Três tempos para a dramaturgia negra no RS" nas categorias Ação Formativa e Ação Periférica.



 

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

A MULHER ARRASTADA (RS) - CRÍTICA

 


Por Diego Ferreira - Especial MOSTRA CURA*

“A mulher arrastada” foi o espetáculo de abertura da CURA – I Mostra de Artes Cênicas Negras que nasce com o propósito de fortalecer a dignidade negra nas disputas nas artes cênicas. E digo com toda certeza que não poderia ter escolha mais acertada. Estamos vivendo tempos pandêmicos. Tempos sombrios. Tempos cabulosos. E a CURA surge para trazer um alento a tudo isso que nos acomete. Nas últimas décadas muito se falou e foram enaltecidas perspectivas de virem à frente da cena os elementos estéticos que envolvem a cultura negra no Brasil. Assim, diante das diversas formas expressivas que nos propõem estéticas apreciativas na nossa atualidade, tais formas constantemente estão diante de contextos sejam sociais, culturais, políticos, antropológicos, artísticos, que nos conduzem a refletir a respeito dos diversos formatos apresentados para a nossa fruição e entendimento de linguagens construídas por nós. Nós, que estabelecemos, invariavelmente, códigos que propiciam a complexidade da comunicação e expressão humana. Desse modo, o corpo negro é uma fonte inesgotável de proposições estéticas. Falar sobre esta fonte como um campo de descobertas e de fazeres, como sendo um fenômeno estético bem como o sujeito da percepção, oferece a possibilidade de descobertas do sensível e do indizível que é propiciada pela arte. Neste caso, arte virtual e remota devido aos tempos pandêmicos.

Assistir “A mulher arrastada” online foi uma experiência arrebatadora. Pude experimentar o espetáculo de modo presencial e agora online. Afirmo que nas duas ocasiões o trabalho me provoca e emociona, de modos diferentes e em realidades distintas. A experiência virtual trouxe nuances que não tinha experimentado antes como a câmera que coloca os interpretes em evidência, provocando o espectador, como se a câmera fosse uma lente de aumento, e essa câmera é móvel, é viva e amplia as possibilidades de fruição do espetáculo, mantendo um diálogo direto com o “tele – espectador”. “A mulher arrastada” é um trabalho contundente que surge como uma ode contra o apagamento da memória de Cláudia da Silva Ferreira, mulher, negra, pobre, mãe que foi brutalmente assassinada e arrastada pela PM/RJ. Semana passada um homem negro foi brutalmente assassinado num supermercado em Porto Alegre e somado a este tem uma centena de casos onde o corpo negro continua sendo alvo. Ainda continua. Ainda. Até quando? Até quando o corpo negro continuará sendo banalizado e espancando até a morte? Ou arrastado até a morte?

Mesmo existindo essa interlocução a partir do campo da virtualidade, os intérpretes nãos se furtam a isso e com sua presença e humanidade conseguem dialogar diretamente com o espectador, principalmente quando interagem com a câmera falando diretamente através de suas lentes. Sinceramente não acredito muito nessa nova forma de fazer teatro, essa relação que se estabelece a partir de dispositivos, porém a de se destacar que essa primeira experiência da CURA foi totalmente satisfatória pelo fato de a produção repensar a estrutura de captação que foi executada dentro da Sala Álvaro Moreira com todo aparato de iluminação e som.

A escrita de Diones Camargo me toca de uma forma intensa, justamente por criar narrativas que evoquem vozes que cada vez mais precisam ser exaltadas, vozes como esta ecoem e não sejam caladas, busquem o seu lugar de fala, buscando por si só o lugar de protagonismo sem a necessidade de mediação de terceiros. “A mulher arrastada” é um texto que a começar pela estrutura, eclode o drama assim como ocorre em autores pós-modernos, colocando em cena monólogos e vozes.
O texto é permeado de memórias fragmentárias e inconstantes, ficção e realidade andam juntas, também a dimensão do tempo está desconstruída: não há noção de passado e presente, separação de eu e outro; em caráter de hibridismo (o texto é um poema dramático, narrativo, concreto, e extremamente político, uma peça manifesto); um novo estado de expressão e percepção em uma escrita que é distante da estrutura tradicional de enredo. A fragmentação do sujeito contemporâneo é alcançada esteticamente com a utilização de recursos como as figuras do HOMEM/POLICIAL que tem a função de situar os passos de Cláudia, a utilização de uma narrativa não linear, não especificação das personagens e do cenário, distorção do senso de realidade e de tempo. 
A interpretação irretocável de Celina Alcântara que é simplesmente arrasadora, meticulosa e espetacular. No vídeo Celina alcança uma força ainda maior nas vezes em que o close está focado em seu rosto. Impossível assistir a performance de Celina e não ser tocado, não ser perturbado pela força com que representa a personagem. Pedro Nambuco está no mesmo patamar de Celina e me assombra apenas através de sua presença, pois representa a força e a truculência policial branca, representa toda a bestialidade dos militares que tomam conta do poder e do estado. Nambuco representa um personagem que me dá asco, de certa forma, desde suas palavras iniciais, durante a violência que trata a mulher arrastada e até mesmo quando não tem falas, nem tampouco está em cena, mas apenas pelo fato de percebermos sua presença rondando o espaço como um lobo faminto. A dupla de atores está de parabéns pelo excelente trabalho. Assim como a direção de Adriane Mottola, que soube concatenar todos os elementos da encenação, partindo do texto de Diones, e explorando o melhor dos atores. Direção primorosa que parte de elementos simples para chegar num trabalho arrojado. Elementos como o carrinho de polícia que pode até passar despercebido, mas que dentro do contexto representa toda uma parcela de policiais que agem de forma ilegal dentro de corporações e que cometem barbáries como à relatada no espetáculo. Mottola faz um teatro essencial, um verdadeiro manifesto que é bárbaro e poético ao mesmo tempo. 
Impossível não citar a iluminação funcional de Ricardo Vivian, que além de iluminar o espaço da cena onde os atores atuam, cria uma luz perfeita que dá conta de todo espaço, desde a entrada até atrás das arquibancadas criando um ambiente muitas vezes sufocantes, como a trilha sonora de Felipe Zancanaro que se faz presente em grande parte da cena, de forma sutil, operada ao vivo, uma experiência sonora que auxilia muito na construção emotiva do espetáculo. 
Sigamos clamando: Claudia da Silva Ferreira, presente!

 


FICHA TÉCNICA


Direção: Adriane Mottola Texto:Diones Camargo Elenco:Celina Alcântara e Pedro Nambuco Iluminação:Ricardo Vivian Trilha Sonora:Felipe Zancanaro Duração:50 minutos Classificação: 12 anos

+ Infos no site: mostracura.com.br


*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve críticas no blog Olhares da Cena. Integrante da GIRADRAMATÚRGICA – Grupo de Estudos em Dramaturgia Negra. Integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. Foi jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

 

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

A MULHER ARRASTADA (RS)

 


Espetáculo Online Com Transmissão Ao Vivo

PROGRAMAÇAO CURA: 02/12 - 19H

O Espetáculo que abre a CURA faz um entrelaçamento entre fato verídico e ficcional. Essa peça-manifesto mostra a figura trágica de Cláudia reivindicando o que durante a cobertura jornalística do caso foi aos poucos apagados: o seu nome, elemento este que foi substituído pela impessoal, violenta e cruel alcunha de “Mulher Arrastada”. Com direção de Adriane Mottola e dramaturgia de Diones Camargo. Traz no elenco Celina Alcântara e Pedro Nambuco

Sinopse:Rio de Janeiro, 2014. Cláudia Silva Ferreira – mulher negra, pobre, 38 anos, mãe de quatro filhos biológicos e quatro adotivos – é brutalmente alvejada pela Polícia Militar ao sair de casa no Morro da Congonha (RJ) para comprar pão para sua família. Após, seu corpo é atirado às pressas no camburão da viatura e arrastado ainda com vida em meio ao tráfego da capital fluminense sob o olhar horrorizado de motoristas e pedestres. Entrelaçando fato verídico e ficcional, esta peça-manifesto mostra a figura trágica de Cláudia reivindicando o que durante a cobertura jornalística do caso foi aos poucos apagados: o seu nome, elemento este que foi substituído pela impessoal, violenta e cruel alcunha de “Mulher Arrastada”. Vozes inaudíveis; vozes que são silenciadas ou que silenciam. Pessoas em situações sociais opostas, mas que se encontram igualmente à margem; cidadãos excluídos pela sociedade ou afastados dela na tentativa de se proteger; peões periféricos separados por um muro simbólico erguido entre dois extremos e cuja única intenção é impedir que estes opostos se reconheçam ou tomem consciência um do outro. Ambos ligados à ordem construída para anestesiar as potências de revolta que denunciam um sistema excludente e desigual. "A Mulher Arrastada" é uma montagem independente idealizada pelo seu autor, o dramaturgo Diones Camargo, em parceria com a encenadora Adriane Mottola (fundadora da Cia. Stravaganza) e a atriz Celina Alcântara (cofundadora do UTA - Usina do Trabalho do Ator), e que conta com renomados artistas de diversas áreas. Vencedora dos Prêmios Braskem Em Cena 2018 de Melhor Espetáculo e Melhor Atriz, esta elogiada peça-manifesto vem percorrendo importantes mostras das artes cênicas no Brasil e no Exterior.

Transmissão pelo youtube | site Direção:Adriane Mottola Dramaturgia:Diones Camargo Elenco:Celina Alcântara e Pedro Nambuco Iluminação:Ricardo Vivian Trilha Sonora:Felipe Zancanaro Duração:50 minutos Classificação: 12 anos
+ Infos no site: mostracura.com.br

segunda-feira, 1 de julho de 2019

A MULHER ARRASTADA (RS)

Resultado de imagem para A MULHER ARRASTADA TEATRO

ATUAÇÃO BRILHANTE EM NARRATIVAS DE INCÔMODO 

por Diego Ferreira*


"Manifesto", é um gênero textual que consiste numa espécie de declaração formal, persuasiva e pública para a transmissão de opiniões, decisões, intenções e ideias. Normalmente de cunho político, um manifesto tem como objetivo principal expor determinado ponto de vista publicamente ou mesmo para um indivíduo ou grupo de pessoas. É considerado uma importante ferramenta democrática, pois possibilita que todo o indivíduo possa expressar publicamente o seu ponto de vista sobre determinado situação ou assunto, seja social, político, cultural ou religioso.
"A Mulher Arrastada" é apresentada como "peça-manifesto", um desabafo, um grito urgente para fazer ecoar a brutalidade ocorrida com Cláudia da Silva Ferreira, mulher negra, pobre e arrastada por policiais no Rio de Janeiro. No campo da dramaturgia, este manifesto surge para dar corpo, voz e principalmente nome a Claudia, e tudo o que vem acontecendo nos últimos tempos, com a ascensão no poder de um presidente extremamente racista e que representa e legítima parte da população que compactua com ele no que tange a discriminação racial. 
Surge também como um acalanto pós execução da Marielle. É lógico que a escrita surge muito antes deste último fato, mas serve para pensar, refletir e questionar até quando, ou melhor, quantas Cláudias, Marielles, Marias e tantas outras vão perder suas vidas e nada, absolutamente nada irá acontecer.
A escrita de Diones me toca de uma forma intensa, primeiramente, pelo fato de eu ser negro, e me identificar, mas mais do que isso, me importar e querer cada vez mais que vozes como esta ecoe e não sejam caladas, busquem o seu lugar de fala, buscando por si só o lugar de protagonismo sem a necessidade de mediação de terceiros. E segundo que a escrita é provocativa, não esbarra no fato da premissa da peça, estar em todas as mídias, o que poderia escorregar e cair em clichês ou até mesmo na criação de uma história melodramática tentando apenas emocionar o leitor/espectador com o drama da "pobre vítima" Claúdia. Mas graças ao olhar apurado, “A mulher arrastada” é um texto que a começar pela estrutura, eclode o drama assim como ocorre em autores pós-modernos, colocando em cena monólogos e vozes.
O texto é permeado de memórias fragmentárias e inconstantes, ficção e realidade andam juntas, também a dimensão do tempo está desconstruída: não há noção de passado e presente, separação de eu e outro; em caráter de hibridismo (o texto é um poema dramático, narrativo, concreto, e extremamente político, uma peça manifesto); um novo estado de expressão e percepção em uma escrita que é distante da estrutura tradicional de enredo. A fragmentação do sujeito contemporâneo é alcançada esteticamente com a utilização de recursos como as figuras do HOMEM/POLICIAL e das SOMBRAS que tem a função de situar os passos de Cláudia, a utilização de uma narrativa não linear, não especificação das personagens e do cenário, distorção do senso de realidade e de tempo. 
O trabalho de Diones é um verdadeiro “tour de force” dramatúrgico, que se materializa no espetáculo através de uma grande e competente equipe que consegue nos oferecer um trabalho de alto nível técnico e emocionante, a começar pela  interpretação irretocável de Celina Alcântara que é simplesmente arrasadora, meticulosa e espetacular. Alcança um registro que consegue dar corpo/voz a Cacau, como era conhecida Claúdia Ferreira. Impossível assistir a performance de Celina e não ser tocado, não ser perturbado pela força com que representa a personagem. Acompanho a muitos anos o trabalho de Celina, mas sem sombra de dúvida "A mulher arrastada" é daqueles personagens que vão ficar guardados na memória por muito tempo pela performance cênica, mas também pela função social e política que a obra de arte tem alcançado. Pedro Nambuco está no mesmo patamar de Celina e me assombra apenas através de sua presença, pois representa a força e a truculência policial branca. Nambuco representa um personagem que me dá asco, de certa forma, desde suas palavras iniciais, durante a violência que trata a mulher arrastada e até mesmo quando não tem falas, nem tampouco está em cena, mas apenas pelo fato de percebermos sua presença rondando o espaço como um lobo faminto. A dupla de atores está de parabéns pelo excelente trabalho. 
Assim como a direção de Adriane Mottola, que soube concatenar todos os elementos da encenação, partindo do texto de Diones, e explorando o melhor dos atores. Direção primorosa que parte de elementos simples para chegar num trabalho arrojado. Elementos como o carrinho de polícia que pode até passar despercebido, mas que dentro do contexto representa toda uma parcela de policiais que agem de forma ilegal dentro de corporações e que cometem barbáries como a relatada no espetáculo. Mottola faz um teatro essencial, um verdadeiro manifesto que é bárbaro e poético ao mesmo tempo. 
Impossível não citar a iluminação fantástica de Ricardo Vivian, que além de iluminar o espaço da cena onde os atores atuam, cria uma luz perfeita que dá conta de todo espaço, desde a entrada até atrás das arquibancadas criando um ambiente muitas vezes sufocantes, como a trilha sonora de Felipe Zancanaro que se faz presente em grande parte da cena, de forma sutil, operada ao vivo, uma experiência sonora que auxilia muito na construção emotiva do espetáculo. 
Assistir "A mulher arrastada" passa a ser uma obrigação para aqueles que gostam do bom teatro e para aqueles que precisam entender que o racismo é crime e precisa ser banido, que não pode ser tolerado, que precisa ser discutido e o espetáculo cumpre também esta função, de alargar e refletir sobre o ser negro num país extremamente racista. Que a produção possa circular por muito tempo levando a voz de Cláudia da Silva Ferreira o mais longe possível dizendo sempre: CLAUDIA DA SILVA FERREIRA: PRESENTE! 

FICHA TÉCNICA

Texto DIONES CAMARGO

Direção ADRIANE MOTTOLA
Elenco CELINA ALCÂNTARA e PEDRO NAMBUCO
Trilha Sonora Original FELIPE ZANCANARO
Iluminação RICARDO VIVIAN
Cenografia ISABEL RAMIL (ambientação cênica) e ZOÉ DEGANI (objetos cenográficos)
Fotos de Divulgação REGINA PEDUZZI PROTSKOF
Arte Gráfica JESSICA BARBOSA
Assessoria de Imprensa LAURO RAMALHO
Produção LUÍSA BARROS
Realização DIONES CAMARGO e LA PHOTO GALERIA E ESPAÇO CULTURAL
Apoio CIA. STRAVAGANZA e UTA – USINA DO TRABALHO DO ATOR

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

quinta-feira, 24 de maio de 2018

A MULHER ARRASTADA (RS)


E amanhã estreia "A mulher Arrastada" com dramaturgia de Diones Camargo, Direção de Adriane Mottola e com Celina Alcântara e Pedro Nambuco no elenco, dentro da programação do 13º Palco Giratório RS. 
A imagem pode conter: uma ou mais pessoas e pessoas sentadas
Por Diego Ferreira[1]
 “A Mulher Arrastada” enquanto dramaturgia surge para dar corpo, voz e atenção a tudo o que vem acontecendo nos últimos dias, surge como um acalanto pós execução da Marielle. É lógico que a escrita surge muito antes deste último fato, mas serve para pensar e refletir, questionar até quando, ou melhor, quantas Cláudias, Marielles, Marias e tantas outras vão perder suas vidas e nada, absolutamente nada irá acontecer.
A escrita de Diones me toca de uma forma intensa, primeiramente, pelo fato de eu ser negro, e me identificar muito com estas memórias, e segundo que a escrita é provocativa, não esbarra no fato da premissa da peça, estar em todas as mídias, o que poderia escorregar e cair em clichês ou até mesmo na criação de uma história melodramática tentando apenas emocionar o leitor/espectador com o drama da pobre vítima Claúdia. Mas graças ao olhar apurado, “A mulher arrastada” é um texto que a começar pela estrutura, eclode o drama assim como ocorre em autores pós-modernos, como Sarah Kane e até mesmo Heiner Müller.
O texto ”A mulher arrastada” é permeado de memórias fragmentárias e inconstantes, ficção e realidade andam juntas, também a dimensão do tempo está desconstruída: não há noção de passado e presente, separação de eu e outro; em caráter de hibridismo (o texto é um poema dramático, narrativo, concreto, e extremamente político); um novo estado de expressão e percepção em uma escrita que é distante da estrutura tradicional de enredo. A fragmentação do sujeito contemporâneo é alcançada esteticamente com a utilização de recursos como as figuras do HOMEM e das SOMBRAS que tem a função de situar os passos de Claúdia, a utilização de uma narrativa não linear, não especificação das personagens e do cenário, distorção do senso de realidade e de tempo.
O trabalho de Diones é um verdadeiro “tour de force” dramatúrgico, e agora fico aqui na expectativa de vê-lo ganhar vida no corpo da Celina Alcântara que é uma intérprete maravilhosa, uma atriz negra que tem na sua força a sua razão de ser e de representar tantos e tantos artistas negros dentro da academia. Em minha opinião não tinha outra atriz a não ser ela, que foi minha orientadora na graduação. Que as palavras deste potente texto possam ecoar e quem sabe transformar o olhar de muitas pessoas para que Claudias e Marieles estejam sempre PRESENTE entre nós!

A MULHER ARRASTADA (RS)

Dias 25 e 26 de maio de 2018 - Sexta-feira  e sábado, ás 21 horas
Galeria La Photo - Travessa da Paz, 44 - Farroupilha - Porto Alegre/RS
Gênero: Teatro Adulto / Classificação: 14 anos / Duração: 55min

Inspirado no caso real ocorrido no Rio De Janeiro em 2014, a peça refaz os últimos momentos de Cláudia Silva Ferreira – mulher, negra, trabalhadora, 38 anos, mãe de 4 filhos biológicos e 4 adotivos – brutalmente assassinada pela Polícia Militar ao sair de casa, no Morro da Congonha, para comprar pão para sua família. Após ser baleada, seu corpo foi atirado às pressas no camburão da viatura e arrastado ainda com vida em meio ao tráfego da capital carioca, sob o olhar horrorizado de motoristas e transeuntes. Valendo-se de uma construção poética que contrapõe o fato verídico ao simbolismo das imagens evocadas, o texto do dramaturgo Diones Camargo mostra a figura trágica de Cacau reivindicando o que durante toda a cobertura jornalística do caso foi aos poucos apagado: o seu nome, elemento este que foi substituído pela impessoal, violenta e cruel alcunha de “Mulher Arrastada”.

Ficha técnica:
Texto: Diones Camargo
Direção: Adriane Mottola
Elenco: Celina Alcântara e Pedro Nambuco
Cenografia: Isabel Ramil e Zoé Degani
Iluminação: Ricardo Vivian
Trilha Sonora Original: Felipe Zancanaro
Fotografia: Regina Peduzzi Protskof
Produção: Francisco Ribeiro
Realização: Diones Camargo e Galeria La Photo e Espaço Cultural
Apoio: Cia/Estúdio Stravaganza


[1] Diego Ferreira é Graduado em Teatro pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul. Professor de Teatro na Unissinos e no La Salle. Diretor do Grupo Skatá. Faz parte da Comissão  Julgadora do Prêmio Açorianos Revelação 2018 e atualmente é membro do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo.
Escreve criticas no blog Olhares da Cena http://olharesdacena.blogspot.com.br/

Publicado originalmente no Site CÊNICAS.