segunda-feira, 16 de março de 2026

COLAPSO E DESTRUIÇÃO DA CIDADE DE PORTO ALEGRE (RS)



QUANDO A CIDADE ENTRA EM COLAPSO

por Diego Ferreira*

    Há espetáculos que não apenas contam uma história, mas constroem um campo de pensamento. Colapso e Destruição da Cidade de Porto Alegre, da Cia Espaço em Branco, com direção de João de Ricardo e dramaturgia de Julio Zanotta, pertence a essa categoria rara de obras que transformam o palco em um lugar de reflexão sobre o tempo em que vivemos.
    Nos últimos anos, a ideia de cidade tem ocupado um lugar central em muitas criações das artes cênicas contemporâneas. A cidade aparece como território de disputa, memória e conflito. Em Porto Alegre, essa dimensão ganhou contornos ainda mais intensos após acontecimentos recentes que expuseram, de forma brutal, a fragilidade das estruturas que sustentam a vida coletiva. A enchente de 2024, que submergiu bairros inteiros e reconfigurou a paisagem urbana e afetiva da cidade, tornou visível algo que muitas vezes preferimos esquecer: as cidades também podem colapsar. É nesse horizonte que o espetáculo da Cia Espaço em Branco ressoa com particular potência.
    A encenação constrói uma atmosfera em que a cidade parece existir em estado de instabilidade permanente. A composição cenográfica organiza o espaço como um território em transformação contínua, sugerindo paisagens urbanas que oscilam entre ruína, memória e rearranjo. Não se trata de uma representação literal de Porto Alegre, mas de uma imagem simbólica da cidade contemporânea — esse organismo complexo que, ao mesmo tempo, abriga e desagrega aqueles que a habitam.
    Nesse desenho cênico, a iluminação assinada por Leandro Ross assume um papel central. O trabalho de luz apresentado no espetáculo alcança um nível de precisão raramente visto na cena porto-alegrense. Mais do que iluminar os corpos ou delimitar ambientes, a luz escreve a própria cena. Ela recorta espaços, reorganiza o olhar do espectador e cria atmosferas que transformam o palco em um território sensível, onde cada deslocamento parece carregar uma tensão latente.
    A direção de João de Ricardo articula esses elementos a partir de uma concepção pensada a partir de uma linguagem brechtiana. O elenco atua como um corpo coletivo, um organismo cênico no qual as individualidades se diluem para dar lugar a uma presença compartilhada. Não há aqui protagonistas isolados; o que emerge é um conjunto de corpos que se movem como se carregassem, em si, a pulsação da própria cidade.
    Essa escolha remete a uma tradição importante do teatro moderno. Bertolt Brecht compreendia o coro como um dispositivo capaz de deslocar a narrativa do indivíduo para a dimensão social da experiência. Ao invés de heróis solitários, o palco se torna espaço onde a coletividade se revela atravessada por conflitos históricos. Algo semelhante parece acontecer em Colapso e Destruição da Cidade de Porto Alegre: os intérpretes não representam apenas personagens, mas fragmentos de uma experiência urbana compartilhada.
    Essa dimensão coletiva é amplificada pela trilha sonora executada ao vivo por Rodrigo Fernandez, que atravessa o espetáculo como uma pulsação contínua. A música não surge como simples acompanhamento, mas como uma camada estrutural da encenação, dialogando com o movimento dos corpos e com as atmosferas criadas pela iluminação.
    O texto do dramaturgo Júlio Zanotta, provocativo, satírico e corrosivo se insere com força nessa arquitetura da cena. Sua escrita articula imagens e discursos que ecoam inquietações muito presentes na experiência urbana contemporânea. Em vez de oferecer uma narrativa linear, a dramaturgia parece operar por fragmentos, capturando algo das fissuras que atravessam a vida coletiva nas grandes cidades.
    Nesse sentido, o espetáculo dialoga com uma questão recorrente no teatro contemporâneo: a ideia de ruína como condição histórica. A ruína não aparece apenas como sinal de destruição, mas como aquilo que revela as camadas do tempo, expõe as fragilidades de um sistema e abre espaço para imaginar outras formas de existência.
    Talvez seja justamente por isso que Colapso e Destruição da Cidade de Porto Alegre encontre uma ressonância tão particular no presente. Ao evocar o colapso da cidade, o espetáculo não fala apenas de um cenário hipotético. Ele toca uma experiência que, de diferentes maneiras, já atravessa a vida daqueles que habitam esta cidade. E ao fazer isso através de um corpo coletivo em cena, a encenação parece lembrar algo essencial: nenhuma cidade existe sem os corpos que a habitam. 
    A força dessa construção coletiva se sustenta também na qualidade do elenco. Anildo Böes, Giovana de Figueiredo, João de Ricardo, Keter Velho, Marcelo Ádams, Rodrigo Fernandez e Sissi Venturin atuam com notável coesão, compondo um conjunto em que cada presença parece permanentemente atenta ao movimento do outro. Mais do que performances isoladas, o que se vê em cena é um trabalho de escuta e de composição rigorosa, no qual gestos, vozes e deslocamentos se organizam como parte de uma mesma engrenagem cênica. Essa precisão reforça a dimensão coral da encenação e faz com que o grupo funcione como um verdadeiro organismo vivo, atravessado pela pulsação da cidade que o espetáculo evoca.
    Talvez seja justamente aí que Colapso e Destruição da Cidade de Porto Alegre encontre sua imagem mais poderosa. Diante da ruína — seja ela simbólica, histórica ou urbana — resta ainda o corpo coletivo. Resta a possibilidade de reunir vozes, reorganizar gestos e imaginar outros modos de existência comum. As cidades podem colapsar, suas estruturas podem falhar e suas paisagens podem desaparecer. Mas enquanto houver corpos dispostos a ocupar o espaço comum, a cidade — como experiência, conflito e desejo — continuará sendo reconstruída.

FICHA TÉCNICA:
Direção: João de Ricardo
Assistência de direção: Bruno da Rosa
Atuação: Anildo Böes, Giovana de Figueiredo, João de Ricardo, Keter Velho, Marcelo Ádams, Rodrigo Fernandez e Sissi Venturin
Trilha sonora ao vivo: Rodrigo Fernandez e Artur Wais
Figurinos: Daniel Lion
Cenografia: João de Ricardo
Cenotécnico: Jorge Gil
Iluminação: Leandro Ross
Design gráfico e social media: Nicole Rizzo
Assessoria de imprensa: Roberta Amaral
Produção: Liga

*Diego Ferreira é dramaturgo, professor, crítico e curador. Sua atuação transita entre criação, reflexão e mediação cultural no campo das artes cênicas. É autor das peças Negreiros: Histórias que a História Não Conta (Prêmio Açorianos de Dramaturgia 2024), Corália Brechó, Abdias do Nascimento e Vozes do Lixão: a história de Tugira. Criador do portal Olhares da Cena, dedica-se há mais de quinze anos à escrita crítica e à construção da memória das artes cênicas contemporâneas.

domingo, 15 de março de 2026

OLHARES DA CENA — POR QUE ESCREVER CRÍTICA HOJE?


por Diego Ferreira

Escrever crítica hoje é um gesto de permanência e de resistência. Olhar a cena hoje é um ato de resistência. 

Num tempo atravessado pela velocidade das opiniões e pela circulação instantânea de imagens, parar para pensar a cena pode parecer um ato quase anacrônico. Mas é justamente nessa suspensão do tempo que a crítica encontra sua potência: olhar para o teatro com atenção, escutar suas camadas e devolver à experiência artística um campo mais amplo de reflexão.

Ao longo das últimas décadas, os espaços dedicados à crítica foram desaparecendo dos jornais, das revistas culturais e dos meios de comunicação. A lógica da velocidade e da promoção substituiu lentamente o espaço da reflexão. Em muitos casos, o que resta são apenas registros apressados ou textos que se confundem com divulgação.

Mas o teatro — justamente por ser uma arte do encontro e da presença — precisa ser pensado.

A crítica não existe para determinar vencedores ou derrotados. Sua função não é produzir sentenças definitivas sobre uma obra. A crítica existe para ampliar a experiência da cena, para investigar seus sentidos, para tensionar suas escolhas estéticas e para inscrevê-la no debate cultural do seu tempo.

Sem crítica, o teatro corre o risco de desaparecer duas vezes: primeiro quando o espetáculo termina, depois quando ninguém mais se dispõe a pensar sobre ele.  E a escrita torna-se, então, uma forma de prolongar esse encontro, de registrar suas tensões, suas perguntas e suas possibilidades de sentido.

O Olhares da Cena nasceu desse desejo: criar um espaço onde o teatro pudesse continuar existindo também como pensamento.

Ao longo de mais de quinze anos, o portal acompanhou espetáculos, festivais, artistas e processos criativos que atravessam a cena contemporânea. Nesse percurso, tornou-se também um exercício de escuta: escuta das obras, dos criadores, dos contextos culturais e das transformações que atravessam o campo das artes cênicas.

A crítica, para mim, não é um tribunal. É um lugar de investigação.

Investigar o que uma obra propõe, que imaginários mobiliza, que formas inventa, que discursos tensiona. Investigar também os modos como o teatro se relaciona com seu tempo, com suas urgências políticas e com as histórias que insistem em atravessar o presente.

Escrever sobre a cena é aceitar que nenhuma análise será definitiva. Cada espetáculo abre perguntas que continuam reverberando para além do palco.

O Olhares da Cena segue existindo porque ainda acreditamos que o teatro merece ser pensado. Que a crítica pode ampliar a experiência estética. E que olhar para a arte é também uma forma de olhar para o mundo.

Enquanto houver cena, haverá também a necessidade de olhar para ela. Num momento em que a crítica parece cada vez mais rara, insistir em olhar o teatro com rigor e sensibilidade torna-se um gesto necessário. Olhares da Cena segue existindo por essa razão. Olhar a cena é, antes de tudo, recusar o silêncio.


Olhares da Cena é um portal dedicado à reflexão crítica sobre as artes cênicas, criado pelo dramaturgo e pesquisador Diego Ferreira. Há mais de quinze anos, o projeto acompanha espetáculos, festivais e processos criativos, contribuindo para a construção da memória e do pensamento crítico sobre o teatro contemporâneo.