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segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

FRANKENSTEIN (RS)

Foto: Cláudio Etges



SOB OLHAR DA CONFRONTAÇÃO, ESPETÁCULO TRIUNFA NA CENA ATUAL


por Diego Ferreira*

" Frankenstein" é o novo e ousado projeto do Coletivo Gompa, que a cada novo trabalho nos coloca diante de novas possibilidades no campo das artes da cena. Fica difícil categorizar e encaixotar em rótulos as produções deste coletivo que nos últimos cinco anos tem se dedicado a pesquisa de linguagem e levado a risca o hibridismo em suas produções. A chamada pós-modernidade teatral articulou novos padrões de encenação, requisitando do espectador uma percepção centrada nas sensações, ora desconstruindo a fábula e evitando qualquer significado racional, ora centrando a experiência estética no campo mítico ou performático da representação. E "Frankenstein" vai ao encontro destes dois vértices, que ao mesmo tempo eclode com a fábula presente no original de Mary Shelley buscando a essência da narrativa para expandir o conceito de pertencimento, além de trazer a tona questões sobre beleza, aceitação, mutilação, através de um olhar crítico e contemporâneo que evidencia o corpo e partes dele, pedaços, composições, deformações que vão criando fragmentos de um monstro que podemos fazer um paralelo com temas que estão sendo discutidos na atualidade como amputações, doação de órgãos, mutilações entre outras interferências e violências que nosso corpo está propenso a receber. Camila Bauer na direção do espetáculo mais uma vez surpreende, pois percebe-se que sua busca está sempre voltada para a reinvenção de si e dos códigos cênicos colocados em cena, sua direção passa a ser mais do que uma construção, mas a interrogação dos sentidos sob o olhar da confrontação de idéias e isso é louvável, pois o que vemos na cena é sempre algo novo, provocante sob a perspectiva contemporânea. 
Fabiane Severo é uma artista múltipla da cena, que mesmo nas montagens teatrais sempre evidencia a sua técnica apurada e refinada, com um corpo disponível que emana energia e que se comunica fortemente com o espectador. Sua performance em "Frankenstein" está nada menos que sensacional, com uma entrega que torna um corpo expansivo, conseguindo articular pequenas tensões através de um corpo presente e expressivo, um trabalho espetacular que fica na nossa memória como aqueles espetáculos inesquecíveis pela entrega de seus realizadores. Douglas Jung demonstra um corpo experiente, hábil para fazer qualquer coisa em cena, através de uma técnica apurada. Através de sua performance conseguimos visualizar pequenas pulsões de vida/morte, percepções de movimentos que tornam a experiência radical, no sentido em que vislumbramos a potência de um corpo preparado e habilitado para dialogar com a cena fragmentada e repleta de climas e tensões que é "Frankenstein". Um trabalho imagético e com uma paisagem sonora que é um novo personagem em cena, pelo fato de provocar os corpos e o espectador a adentrar nesse universo de terror. Alvaro RosaCosta é mestre em criar essas  paisagem que ultrapassam o que convencionamos a chamar de trilha sonora, cria uma paisagem sonora pois é elemento fundamental para a construção e fruição do espetáculo. Assim como a iluminação de Ricardo Vivian que auxilia na construção de texturas e delimitação do tempo/espaço da cena. Cabe citar o inventivo cenário de Élcio Rossini e os figurinos de Renan Vilas que são provocativos em sua essência e dentro da proposta dão o tom necessário para nos provocar e nos colocar dentro do clima da cena.
O projeto Gompa mais uma vez está de parabéns não apenas pelo trabalho, mas pelo conjunto de sua obra que a cada novo passo eleva as produções gaúchas a outros patamares, qualificando tecnicamente o teatro feito por aqui, prova disso é o reconhecimento que o coletivo vem conquistando por onde passa. 
Bravo!!!


FICHA TÉCNICA

​Direção: Camila Bauer
Elenco: Fabiane Severo e Douglas Jung
Composição e cena sonora: Álvaro RosaCosta
Coreografia: Fabiane Severo e Douglas Jung
Provocações coreográficas: Carlota Albuquerque
Cenografia e objetos: Élcio Rossini
Iluminação: Ricardo Vivian
Figurinos: Renan Vilas
Dramaturgia: Camila Bauer, Carina Corá e Pedro Bertoldi
Arte gráfica: Jéssica Barbosa
Fotografia: Regina Protskof e Cláudio Etges

Produção e realização: Projeto GOMPA


*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

domingo, 15 de dezembro de 2019

OS SALTIM(B)ANCOS (RS)


SIMPLICIDADE EFICIENTE

por Diego Ferreira*


"Os Saltimbancos" é um das mais importantes obras do nosso país. Lançado no ano de 1977, o disco infantil “Os saltimbancos” foi um projeto composto por importantes figuras da música popular brasileira. A inspiração desse disco aparece como uma adaptação da obra literária “Os músicos de Bremen”, criada pelos lendários irmãos Jacob e Wilhelm Grimm.
Essa obra trata da união de um grupo de animais contra a exploração realizada por seus patrões. Ao longo das canções vemos que cada um dos animais canta as suas angústias e decidem se reunir para que tivessem a oportunidade de mudar o rumo de suas vidas. Os protagonistas envolvidos são um jumento, um cachorro, uma galinha e uma gata. Cada um reclama da exploração que sofria e contam com suas diferenças para se tornarem livres.
De modo geral, essa obra  assinada por Fabrizio Gorziza tem uma elaboração interessante  e bastante simples e explora de modo muito eficiente o uso de elementos lúdicos calcados na fisicalidade  dos atores e nas canções executadas ao vivo com arranjos bastante simples também, porém eficientes. As crianças apreendem a história com grande facilidade e podem aprender sobre valores muito importantes. Questões como união, solidariedade, justiça e diversidade são alguns dos conceitos que a narrativa dos saltimbancos consegue transmitir aos que tem a oportunidade de apreciá-la. Contudo, não podemos entender que “Os saltimbancos” seja uma simples obra pensada para crianças. A história desses animais tem uma relação muito importante com o contexto histórico vivido no Brasil daquela época. Ao falar sobre união, exploração e justiça, os animais que figuram essa fábula davam voz a uma série de questões políticas que marcavam o regime militar brasileiro e que infelizmente estão muito atuais pelo fato das atrocidades e retrocessos estarem de volta com a ascensão do governo atual. Não tendo liberdade para abertamente se opor ao governo da época, era comum que os artistas utilizassem de elementos e recursos estéticos que de forma indireta expressassem as suas opiniões. Na produção do Coletivo Teatral o único elemento cenográfico que depois se transforma na lua, é uma esfera, um picadeiro, com a bandeira do Brasil estilizada que já denota um pouco destas referências. O elenco Lucas Sampaio, Luciano Pieper, Leticia Paranhos e Yuri Niederaurer conseguem valorizar o enredo da peça e numa obra com um tempo bastante condensado, conseguem explorar as características dos personagens, cantando e encantando a platéia.
Percebemos que “Os Saltimbancos” é um rico documento histórico capaz de marcar adultos e crianças. Para o universo infantil, percebemos a construção de uma ferramenta didática capaz de introduzir a reflexão de valores muito interessantes para a formação dos pequenos. Aos adultos, uma obra que hoje atesta a falta de liberdade artística que impunha desafios e estratégias para se falar o que se pensava naquela época. Assim, temos um rico universo de questões educacionais e históricas a serem notadas por meio desse memorável disco.

FICHA TÉCNICA:

Direção Fabrizio Gorziza
Elenco:
Jumento - Lucas Sampaio
Cachorro - Luciano Pieper
Galinha - Leticia Paranhos
Gato - Yuri Niederaurer
Iluminação: Nara Maia
Figurinos e Cenário: Diãne Sbardelloto 
Duração: 50min
Faixa Etária: Livre

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 



domingo, 27 de outubro de 2019

ALICE - ALÉM DA TOCA DO COELHO (RS)


CLÁSSICO REINVENTADO COM EXCELÊNCIA

por Diego Ferreira*

É sempre bom assistir clássicos no teatro.
É sempre bom assistir clássicos bem feitos no teatro.
É sempre bom assistir clássicos reinventados no teatro, sem perder a essência e ainda por cima executado com excelência. 
A narrativa de "Alice no país das maravilhas" é um clássico da literatura mundial e por isso já gerou uma gama de adaptações para o teatro, cinema e TV e faz parte do imaginário de crianças e adultos. Pós a adaptação cinematográfica  de Tim Burton, parece difícil imaginar que algo novo ainda possa surgir, mas este trabalho da Soul Produções surpreende no sentido de trabalhar questões sobre as diferenças através da obra sem ser didático. Já sabemos de antemão tudo o que vai acontecer, mas aqui o "como" é feito, é o que traz inventividade ao espetáculo. Sue Gotardo foi bastante feliz na direção pois o colocar quatro atores  se revezando na construção de todas as personagens, acerta em também provocar o espectador colocando em cena quatro "Alices", o que gera inquietações interessantes e importantes de serem levantadas na atualidade e que também é um reflexo das metamorfoses a que a personagem é submetida ao longo do espetáculo. 
A montagem tem uma dinâmica que brinca o tempo inteiro com as situações e o ritmo das ações. A construção do imaginário surrealista é criado através da direção que foi rigorosa e inventiva, explorando muito bem o tempo/espaço através de seus corpos que criam movimentos físicos que ajudam a compor este outro universo. A cenografia de Alex Limberger e Daniel Fetter nos coloca em diversos planos através do movimento provocado pelos atores e principalmente pela iluminação de Marga Ferreira que além de criar ambientes distintos consegue criar uma poesia imagética. Outro ponto positivo são os objetos cênicos criados por Gustavo Dienstmann que através de materiais reutilizados dão um fôlego a encenação, como a cena do desaniversário. Cau Netto através de sua trilha sonora consegue criar espaços para que o público embarque com Alice no País das maravilhas, principalmente pelas canções que brincam com paródias de músicas como a da Lady Gaga, por exemplo, que além de serem hilárias são muito bem construídas através de arranjos e bem executadas pelo elenco. Daniel Lion como sempre criativo, demonstra conhecer não apenas o ofício de figurinista, mas consegue criar sempre soluções criativas pois também é artista do plco e isso faz toda a diferença. Todos os figurinos são extremamente belos e funcionais, como o da borboleta, do cacto, da Rainha de Copas. 
O elenco é ótimo e me surpreende pelo fato de encontrar Thiago Silva como ator, pois nestes últimos anos acompanho seu trabalho com dramaturgia e direção e aqui consegue surpreender e se articular da melhor forma possível, sua composição como cacto é hilária. Fabiana Santos também não conheci dos palcos, creio que apenas da iluminação e tem uma ótima energia nas suas composições especialmente na rainha. Luiz Manoel é um dos bons atores da capital e me surpreende sempre e aqui a sua criação do gato é boa demais. E Danuta Zaghetto na minha opinião é a atriz do ano pela série de espetáculos que participou e todos eles consegue imprimir a sua marca de ótima atriz que é, e aqui mais uma vez ela consegue diversificar e criar personalidade em cada personagem. Ou seja, se o espetáculo é bom, reflexo do bom elenco que tem e a confluência de todos os elementos estéticos que fazem parte deste Alice que encanta a todos. 

FICHA TÉCNICA 
Direção: Sue Gotardo 
Assistência de Direção: O Grupo 
Elenco: Danuta Zaghetto, Fabiana Santos, Luiz Manoel e Thiago Silva
Concepção e Dramaturgia:Danuta Zaghetto, Fabiana Santos, Luiz Manoel, Sue Gotardo e Thiago Silva;
Cenografia: Alex Limberger
Cenotécnica: Alex Limberger e Daniel Fetter
Figurino: Daniel Lion
Acessórios: Marga Ferreira
Trilha Sonora: Cau Netto
Canções Originais: Danuta Zaghetto, Fabiana Santos, Luiz Manoel 
Operação de Som: Manu Goulart
Preparação Corporal: Béthany Martínez
Coreografias: Béthany Martínez e grupo
Fotografia: Adriana Marchiori
Produção: Sue Gotardo


*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 



quarta-feira, 16 de outubro de 2019

F.R.A.M.E.S (RS)



MONTAGEM CRIATIVA TRIUNFA EM ESPAÇO NÃO CONVENCIONAL


por Diego Ferreira

F.R.A.M.E.S é o espetáculo resultante de um projeto inédito realizado em Porto Alegre, a Fábrica de Experiências Cênicas, para encenar um texto do dramaturgo Diones Camargo. O espetáculo é um mergulho numa pesquisa de linguagem que articula procedimentos teatrais da contemporaneidade, provocando o espectador e o artista participante a gerar novas abordagens e novos pontos de vista em relação a cena, transitando por algumas zonas de fronteira, tais como; a presença real (aqui e agora) do ator na cena e a referência ficcional do personagem, o real e o ficcional na dramaturgia se misturando e gerando uma terceira zona teatral, a indefinição proposital entre o território do ator e o do público, o diálogo com outras áreas artísticas e o uso de espaços não convencionais ou uso não convencional de espaços tradicionais como a Galeria La Photo na qual o projeto e o espetáculo se instalam. A produção abre frestas para que o espectador colabore com o que vê, saindo da passividade receptiva para uma atividade construtiva da cena, buscando devolver ao teatro seu caráter participativo e de reflexão através de um espetáculo vertiginoso, com um ritmo acelerado, onde cenas são criadas e personagens evocados para criar um universo que brinca com uma linguagem híbrida entre o teatro/performance e o cinema com forte inspiração no universo surrealista de David Linch. Diones Camargo mais uma vez nos presenteia com um texto que mescla narrativas rápidas, mas não rasas, sobre personagens e seus dramas vividos nos bastidores de um filme que nunca estreou. O texto é ágil e inteligente e se utiliza de uma sagacidade colocando em cena uma multiplicidade de histórias que flertam com nosso cotidiano. Carlos Ramiro merece muitos méritos pelo projeto e pela direção consistente que consegue atingir com um elenco oriundo de uma experiencia que coloca em cena atores com diferentes formações, mas no palco percebemos que o elenco é coeso, com exceção de Fernanda Petit que triunfa em cena. A montagem é criativa e se utiliza de uma concepção que abusa de elementos não tradicionais, a começar pelo espaço, seguido pela cenografia de Valeria Verba e Sheila Marafon e iluminação de Nara Maia que auxiliam muito na construção e (des)construção destes pequenos frames que constroem o todo do espetáculo. Voltando ao elenco, todos os atores tem o seu momento em cena, e estão muito a vontade na construção de suas figuras, todos muito bem preparados por Liane Venturella e Raul Voges, demonstrando o quão importante foi esta fábrica de experiências, porém é inevitável citar que Fernanda Petit está acima um degrau dos seus colegas, e isto não é dizer que ela é uma atriz melhor que os demais, pelo contrário, apenas salientar que o elenco é ótimo, porém Petit agarra com uma gana a personagem da palestrante que é a responsável por fazer uma espécie de costura da dramaturgia e arrasa na construção da sua personagem, é tocante, é profunda, é engraçada e triste ao mesmo tempo e merece o meu aplauso. Saí do teatro completamente feliz e satisfeito com o que assisti e cabe um agradecimento a Regina Protskof por transformar o seu espaço da Galeria num espaço de formação e fruição teatral e apenas isso já é relevante. 




Ficha Técnica:
Fábrica de Experiências Cênicas apresenta
Texto: Diones Camargo
Direção: Carlos Ramiro Fensterseifer
Direção de atores: Liane Venturella
Direção Coreográfica: Raul Voges
Elenco: Elison Couto, Fernanda Petit, Gabriel Messias, Gabriela Iablonovski, Henrique Araújo, Henrique Lago, Lucas Prado, Martina Pilau,  Natália Ferreira, Pâmela Mânica, Odila Bohrer, Sibele Garroni, Zé Passos
Iluminação: Nara Maia
Trilha Sonora: Ian Ramil
Cenografia e produção de arte: Valeria Verba e Sheila Marafon
Vídeos: Maurício Casiraghi
Figurinos: Carlos Ramiro Fensterseifer
Assistentes de figurinos: Liane Venturella e Titi Lopes
Produção: Carlos Ramiro Fensterseifer e Regina Protskof
Fotografia: Regina Protskof
Assessoria de imprensa: Léo Sant'Anna
Design Gráfico: Henrique Lago
Realização: Galeria La Photo e INCOMODE-TE




*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

domingo, 6 de outubro de 2019

HOMEM DE LUGAR NENHUM (RS)




REFLEXÃO COM OLHAR APURADO SOBRE TEMAS DO NOSSO TEMPO

por Diego Ferreira*

Homens
      Trânsito
           Lugares
                     Lugar Nenhum
                                        Lugar 
Um lugar pode ser definido pelo espaço e seus usos. Para a geografia, por exemplo, ao se acrescentar a variável “poder”, você tem o conceito de território. Ou seja, o espaço não é só a parte física, é o que o sujeito faz ali. Existe uma face material e outra humana. Teorizar sobre isso clareia algo que sabemos intuitivamente, embora às vezes nos doa constatar: é impossível revisitar os mesmos lugares. O tempo não só muda a paisagem como distancia os usos. Outras pessoas ocupam o pátio da faculdade, os bancos de praça, o boteco preferido… E os homens de teatro escolhem o palco para construir uma reflexão sobre política e amor, não necessariamente nesta ordem. "Homem de lugar nenhum" se utiliza de metáforas para se referir a lugares transitórios que não possuem significado suficiente para serem definidos como "um lugar". Lugares transitórios, passageiros, provisórios, breves. Lugar. Não lugar. Lugar nenhum. O espaço do palco é o ponto de partida que Eduardo Kraemer encontrou para transitar em cenas breves e fragmentadas sobre a condição do homem e seu espaço no nosso tempo, e para isso recorreu a diversos autores para construir um ato político e simbólico sobre questões atuais. O resultado combina uma narrativa que parte da intertextualidade e que encontra na direção de Kraemer uma estética que combina a iluminação do próprio Eduardo e o espaço cênico de Alexandre Navarro Moreira que constrói uma bela instalação que além de ser esteticamente interessante, serve de arena para o embate entre os atores destilarem suas (in)certezas. Creio que a força do espetáculo vem desta tríade formada pela direção, iluminação e cenário, lógico que a dupla de atores tem grande peso, mas a estética e a teatralidade proposta pelo olhar de Kraemer propõe um olhar diferenciado e apurado para falar sobre temas provocantes, perturbadores e conflitantes sobre nosso tempo que agoniza, que é fugaz, que é sórdido, rápido e acelerado. E tudo isso encontramos neste não lugar. Zé Adão Barbosa e Renato Del Campão são verdadeiros homens de teatro, experientes e experimentados e encontram seu lugar dentro deste verdadeiro ringue, através de um verborrágico embate de idéias, de textos, de narrativas que nos situam no lugar do homem contemporâneo e todas as questões que este homem carrega, principalmente sobre política, mas não sobre a política partidária que nos aterra a cada dia, mas sobre micro-políticas que afetam o dia a dia do homem moderno, sobre o afeto, sobre o amor. João Petrillo, Caio Lopes e Artur Gaudenzi Luzardo estão ali para presentificar o alter ego destas figuras e provocar o espectador. "Homem de lugar nenhum" é um belo espetáculo esteticamente e que em tempos de políticas infundadas e vazias, merece ser assistido, para que possamos construir juntos um reflexão sobre o nosso lugar nesta sociedade que muitas vezes preza apenas pelo material e se furta das relações humanas.



Ficha Técnica:
Autores: diversos autores clássicos e contemporâneos
Atuação/Roteiro: Zé Adão Barbosa e Renato Del Campão
Direção/Roteiro/Iluminação/ Trilha pesquisada: Eduardo Kraemer
Atores convidados: João Petrillo, Caio Lopes e Artur Gaudenzi Luzardo
Cenografia: Alexandre Navarro Moreira
Figurinos: Zé Adão Barbosa e grupo 
Vídeos/Projeções: Daniel Jainequine
Arte por: Vitor Facchi
Fotos: Luciã Lopes  e Gustavo Razzera 
Produção: Cia Teatrofídico



*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

ABOBRINHAS RECHEADAS - DANCE A LETRA (RS)


ABOBRINHAS RECHEADAS COM MOLHO DE INOVAÇÃO E CRIATIVIDADE

por Diego Ferreira*

É possível hoje criar algo novo na dança contemporânea? 
Ainda é possível se desvencilhar de códigos e convenções batidos e já ultrapassados? 
Sim, é possível ainda se utilizar da criatividade e inovação na dança para criar novos mecanismos, e para isso acontecer é necessário retroceder para avançar na construção de novos paradigmas quando tratamos de criação em dança.
A obra "Abobrinhas Recheadas - Dance a Letra" se constrói com diversos vocabulários corporais e apresenta um espetáculo repleto de elementos cômicos, apresentados de forma teatral, levando ao público uma série de coreografias em duplas, solos e em grupos, fazendo referência a cultura pop mas com alta sofistificação criativa e inventiva. 
Assim se dá uma dança-rapsódia-infernal irreverente, brincalhona, provocadora, indecente, furiosa, astuciosa e sensual. Uma dança emanada por um corpo carregado de outros, de contradições, ambiguidades, bens e males, ou seja, um corpo humano, de gente, da nossa gente e ainda ri de si e de nós. O mais interessante é a pesquisa ddança com o humor e o quanto isso acarreta na qualidade do trabalho. Para fazer rir é necessário ser sério antes, é é justamente essa seriedade que percebo no trabalho da Macarenando Dance Concept, nas suas ações e modos de produção e como isso acarreta nos modos de sobrevivência do seu trabalho e a interferência na cultura local.  
O espetáculo é bastante simples se o espectador desavisado atentar apenas para as coreografias que codificam literalmente as letras de música do nosso cancioneiro popular, porém penso que o trabalho é consistente justamente por fomentar as discussões sobre estereótipos em diversos tipos de dança e isso não é tão simples como parece, pois é preciso pensar, experimentar para conseguir desconstruir e construir novos paradigmas no cenário da dança. E o grande mérito da Macarenando é esse, pois apresenta um trabalho autoral, coerente e extremamente engraçado. Diego Mac e Gui Malgarizi foram muito feliz na concepção do espetáculo e Daniela Aquino, Diego Mac, Juliana Rutkowski e Nilton Gaffree são brilhantes em suas composições, através dos seus gestos e coreografias conseguimos nos identificar com o demonstrado em cena. Todos os bailarinos destilam competencia para criar pequenos números de dança neste grande picadeiro e destilam humor e capacidade de extrair de seus corpos em movimento graça e comunicação direta com o espectador. 


FICHA TÉCNICA  
 Direção e coreografia: Diego Mac e Gui Malgarizi  Bailarinos: Daniela Aquino, Diego Mac, Juliana Rutkowski e Nilton Gaffree  Produção: Sandra Santos  Assistência de produção: Giulia Baptista Vieira e Arthur Bonfanti  Iluminação: Gui Malgarizi e Sandra Santos  Operação de som: Dani Dutra  Fotos: Gui Malgarizi e Dani Dutra  Arte gráfica: Diego Mac  Duração: 75 minutos  Classificação etária: livre  Realização: Macarenando Dance Concept 


*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

sábado, 24 de agosto de 2019

O GATO DE BOTAS E BOMBACHAS (RS)



CUIDADOSA PRODUÇÃO DEDICADA AOS PEQUENOS (E AOS GRANDES TAMBÉM)


por Diego Ferreira*


O espetáculo "O gato de botas e bombachas" da Cia Vento Minuano é surpreendente pelo cuidado e zelo em todas as etapas da produção, desde a divulgação até a estética da proposta. A obra que assistimos é uma adaptação do famoso conto de Charles Perrault numa dramaturgia original de Charles Ferreira que revela um texto todo construído em rima para contar a história de um gato de estimação que usa botas e bombachas e mora no interior do Rio Grande do Sul. A narrativa do espetáculo é cheia de trapalhadas para desvendar uma série de roubos de gados de um fazendeiro gaúcho, e é rica em detalhes e se utiliza de humor e musicalidade para se comunicar com o espectador. 
A produção está impecável e como é bom assistir ao bom teatro dirigido a infância, pois auxilia muita na formação das platéias futuras. Airton de Oliveira foi muito feliz ao escolher sua equipe técnica pois se cercou de profissionais que souberam explorar o melhor de cada unidade da produção. Airton na direção consegue explorar o melhor de um elenco redondo com um naipe de atores que sabem cada qual utilizar suas melhores potencialidades em cena e a direção também tem êxito em articular todos os elementos estéticos que consegue traduzir de ótima forma as cores e sons do interior do Rio Grande do Sul sem cair em clichês. 
O cenário de Marcos Buffon e todos elementos são belíssimos e funcionam muito bem em cena, associados a iluminação de Nara Lucia Maia que consegue imprimir na cena uma paleta de cores que parece uma tela de pintura, assim como os belos e funcionais figurinos de Claudio Benevenga que agregam muito na produção. Por se tratar de um musical a trilha sonora é destaque e muito bem executada ao vivo pelos atores, e por ser muito bem executada gostaria de ver o elenco tocar mais em cena, ao invés de passagens onde música de estúdio são executadas, talvez essa seja a única exceção do trabalho, de valorizar ainda mais este elenco que domina o canto e os instrumentos, sendo que a trilha gravada não atrapalha a produção, mas por se tratar de um musical poderia privilegiar ainda mais a execução ao vivo. 
O elenco foi escolhido a dedo e está ótimo formado pelos atores Dejayr Ferreira, Fabrizio Gorziza, Luciano Pieper, Rodrigo Waschburguer e Tom Peres e estão muito bem em cena, cantando e representando esta história campeira. Todos, sem exceção, estão entregues e inteiros em cena, um elenco coeso e dentro do jogo e da proposta creditando o mérito disso a direção de Airton que tem um grande aproveitamento dos atores. 
É muito bom ver um espetáculo com a temática regional ganhar um status de bom teatro principalmente por valorizar e resgatar nossa cultura através das músicas e vestimentas e por nos fazer rir de um gato trapaceiro que ganha os nossos corações. Que a produção tenha uma longa trajetória e possa ganhar a estrada de outras paragens para que conheçam o bom trabalho produzido no estado. 

Ficha técnica:


Elenco: Dejayr Ferreira, Fabrizio Gorziza, Luciano Pieper, Rodrigo Waschburguer e Tom Peres
Texto: Charles Ferreira
Direção: Airton de Oliveira
Assistente de direção: Sandra Loureiro
Direção musical e trilha sonora gravada: Arthur Barbosa
Músicos na trilha gravada: Arthur Barbosa (violino e regente), Dhouglas Umabel (viola e violino), Diego Silveira (percussão e bateria), Eduardo Knobe (piano), Henrique Amado (flauta e flautín), José Milton Vieira (trombone), Matheus Kleber (acordeon) e Rafael Honório (violoncelo).
Gravação da trilha sonora: Estúdio Porta da Toca
Técnico de gravação: Bruno Klein
Trilha sonora acústica: Dejayr Ferreira (percussão), Fabrizio Gorziza (acordeon), Luciano Pieper (violão), Rodrigo Waschburguer (violão e bombo leguero) e Tom Peres (violão e percussão)
Criação do figurino: Claudio Benevenga
Criação e execução do cenário: Marcos Buffon
Criação de luz: Nara Lúcia Maia
Coreografias: Sayonara Sosa
Preparador vocal: Márcio Buzatto
Programação visual: Bento Abreu
Confecção de figurino: Naray Pereira
Administração e produção executiva: Marcos Buffon
Diretor de produção: Airton de Oliveira
Montagem: Cia Vento Minuano
Realização: Telúrica Produções

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

CLLÃ (RS)


CELEBRAÇÃO EM ESPETÁCULO REFINADO E INVENTIVO


por Diego Ferreira*

O espetáculo "CLLÃ" reúne e celebra a amizade de 18 anos dos bailarinos Luciana Dariano, Alex Sander dos Santos e Lauren Lautert e nos brinda com um espetáculo brilhante. CLLàinspira-se no universo do cineasta Wes Anderson e é embalado pela música de Gustav Mahler. No palco, assistimos a situações desconexas, desoladoras e sarcásticas à medida que rearranjam a mobília de uma sala de estar. O espetáculo é uma grata surpresa pois consegue retratar através de suas influências um cotidiano que flerta com um universo absurdo, nonsense e que brinca com o movimento de uma forma que foge das convenções que geralmente assistimos nos espetáculos de dança, aqui os bailarinos que tem uma vasta experiencia e carregam isso em seus corpos, conseguem colocar a sua técnica a serviço de uma construção que está a serviço da cena e de uma convenção cênica que consegue construir a dramaturgia dos corpos e isto dialoga diretamente com os espectadores. Graças ao trabalho rigoroso dos três bailarinos não assistimos apenas a virtuose dos corpos, mas um espetáculo em que o bailarino está dentro de uma concepção estética que esbanja teatralidade a começar pela paleta de cores dos figurinos e objetos de cena, assim como a iluminação que foi muito bem pensada para evidenciar apenas o que é necessário deste cotidiano inóspito destes três seres e outros mais que surgem durante a cena. A sensação é que todo espetáculo foi concebido pensando na comunhão com o público, pois a cena é leve, as vezes cômicas e muitas vezes surreais, numa trama repleta de sutilezas e poesia corpórea. "Cllã" é um espetáculo inventivo e tem uma técnica refinada que evidencia a maturidade artística dos seus criadores, inovando no que tange a poética da dança. Um espetáculo singular e de alta capacidade de comunicação com o espectador. Aplausos para o trio de bailarinos e toda a equipe do trabalho que merece retornar aos palcos. 

FICHA TÉCNICA

Criadores Intérpretes: Alex Sander dos Santos, Luciana
Dariano e Lauren Lautert
Olhar externo: Carlota Albuquerque
Trilha sonora, Edição e Composição: Aldo D’Ibaños
Iluminação: Fernando Ochoa
Figurino: Margarida Rache
Fotografia: Lívida Dávalos e Leo Zimmer Saldanha
Produção Arthur Bonfanti e equipe
Colaboradores: Fernando Mendonça e José Fernando Ibaños

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

domingo, 18 de agosto de 2019

MARILYN, O MUSICAL (RS)


MUSICAL EQUIVOCADO SOBRE MARILYN

por Diego Ferreira*

"Marilyn, o Musical" é uma produção do "Música e Cena" de São Leopoldo, livremente inspirada em Bombshell de Smash ótima série que assisti e que retrata os bastidores da criação de um musical sobre a vida e obra de Marilyn Monroe. O espetáculo é um musical cheio de equívocos infelizmente, a começar pela escolha ousada do grupo em produzir um musical sobre a vida e obra de Marilyn, grande ícone que mudou normas, inverteu estruturas, enfrentou de frente seus fantasmas e viveu numa linha tênue entre vida/morte. O Grupo se lança em tal empreitada sem ter condições financeiras e principalmente técnica para viabilizar tal feito, a começar pelo numeroso elenco que demonstra um despreparo, carecendo de uma direção que explore as potencialidades vocais, corporais e expressivas dos atores/cantores/bailarinos. O problema que detecto não é a escolha do tema, que é louvável, mas a forma como chega ao público através de uma boa divulgação a qual o grupo executa muito bem, conseguindo lotar o teatro do Sesc Canoas, mas no desenrolar do espetáculo que é longo também percebemos que o grupo se propõe a um grande desafio que não consegue cumprir. 
A começar pela concepção estética do trabalho que nos mostra uma Marilyn que fica apenas na casca, não tem um aprofundamento da personagem que é interpretada por várias atrizes que ficam apenas no clichê da loura atraente. Falta uma criação que desvele a humanidade da personagem, e isto não é fácil, me parece que falta uma direção que provoque isso no elenco, sair do lugar comum e buscar descobrir novas possibilidades na criação. Os figurinos vão pelo mesmo caminho, alguns percebemos que foram criados para o espetáculo, outros arranjados tornando a proposta desproporcional e pobre, até mesmo os sapatos utilizados pelos atores em cena, que muitas vezes eram seus próprios calçados, demonstrando uma falta de cuidado da produção. A iluminação também não auxilia muito na criação de climas e espaços criados na cena, por exemplo, a iluminação poderia criar espaços que pudessem iluminar a banda presente no palco, as vezes apenas a cena que ocorre na frente, mas não consegue criando uma luz muito simplista, assim como os microfones que muitas vezes não funcionaram, ou  falharam em cena tornando o espetáculo massante de ser assistido. A própria banda poderia ousar mais e criar novos arranjos para músicas que se encaixasse melhor para cada cantor conseguir executar o seu melhor. O que me parece é que falta uma identificação com a história e as personagens que fazem parte dela, em uma construção demasiadamente simplista de uma grande ícone que merece uma homenagem a sua altura. Infelizmente saí decepcionado do teatro pelo potencial que o grupo tem, mas que não cumpriu. 


FICHA TÉCNICA

Espetáculo: Marilyn, O Musical
Duração: 100 minutos
Classificação: 14 anos
Elenco: Anne Greif, Bernardo Appel, Érica Ribas, Gabriel Tamujo, Gregory Martiny, Guilherme Oliveira, Gustavo Rezende, Iago Dal-Ri, Iago Dutra, João Marcelo Lucas, Júlia Hansen, Júlia Leiria, Júlia Lucas, Letícia Laureano, Mirella Queiroz, Mônica Freitas, Rafael Possel, Rafael Peres, Vinicius Kaiser, Vithor Ávila e Yasmine Trojan.
Versões das Canções: Júlia Leiria, Érica Ribas, Yasmine Trojan e Júlia Hansen
Versões dos Arranjos Musicais: Gabriel Tamujo, Gustavo Rezende, Iago Dal-Ri, Iago Dutra, Rafael Peres, Rafael Possel.
Sonorização e Iluminação: Prego Produções
Cenografia: Anne Greif e Mirella Queiroz
Figurino: Leopoldo Schneider
Roteiro: Música e Cena
Direção Coreográfica: Yasmine Trojan
Direção Musical: Érica Ribas e Vinícius Kaiser
Codireção: Júlia Leiria
Direção Geral: João Marcelo Lucas
Realização: Música e Cena
Apoio: Sesc Canoas e Prego Produções

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

sábado, 17 de agosto de 2019

MEU IRMÃO, O MEDO (RS)


IMPORTANTE REFLEXÃO HISTÓRICA EM ESPETÁCULO IRREGULAR

por Diego Ferreira*

O espetáculo "Meu irmão, o medo" é uma produção do Grupo Atrito que pretende (re)mexer nas feridas históricas do nosso país. Diante do momento que o Brasil está mergulhado, com a eleição e a tomada do poder por um (des)governo que está diretamente ligado as ideologias que nos reportam diretamente aos horrores provocados pela ditadura militar, um espetáculo como esse merece destaque na cena atual, justamente por provocar uma reflexão sobre o que pretendemos para nosso futuro nos reportando ao passado.
Diante disso, temos um espetáculo que considero irregular, que precisa ajustar muitas arestas, mas que também tem alguns destaques como a dramaturgia de Fernanda Moreno que cria uma narrativa que mexe nas feridas históricas e políticas do Brasil sobre a campanha da Legalidade liderada pelo Brizola, e é neste pano de fundo que a história se desenvolve. Fernanda cria um entrecruzamento de histórias, colocando em cena vários personagens fazendo com que os atores tenham que interpretar vários personagens e isso provoca uma lentidão na cena, pois alguns atores são pouco experientes não conseguindo internalizar a proposta dramatúrgica. A dramaturgia é boa, mas para o espetáculo alavancar é necessário que o elenco se coloque em cena de corpo e alma, com toda a gana necessária para fazer ecoar no espectador os traumas históricos que os personagens solicitam. Se a Fernanda dramaturga é boa, a Fernanda diretora carece de trabalhar junto ao seu elenco a criação e projeção dos personagens que montam este quebra-cabeças político, pois as interpretações estão muito rasas, periféricas, precisando de uma orientação atenta, para conseguir extrair a humanidade destes personagens, assim como a presença em cena e dicção. Do elenco irregular destaque para Marcia Schuler, Juliana Katz e Ismael Goulart que conseguem se sobressair aos demais, mas que tem potencial para crescer ainda mais em cena. O cenário construído com caixas é muito bem pensado e funciona em cena, como se tirássemos das caixas estas memórias, empilhamos as mesmas e depois destruímos, como acontece em cena. Da parte técnica o grupo poderia atentar para a trilha sonora que as vezes entra de forma exagerada em volume e extensão, podendo eleger alguns momentos para realçar a ação da peça, assim como a iluminação que as vezes deixa os atores no escuro.
O grupo Atrito é um grupo novo na cena teatral de Porto Alegre que com este trabalho traz a tona um texto que tem muitos paralelos com a política atual e soube explorar isso com muitas sutilezas, mas carece de ajustes para se comunicar melhor com o espectador, mas que mesmo assim merece ser assistido quando retornar aos palcos justamente por esse engajamento que percebemos no coletivo.

Direção e Dramaturgia: Fernanda Moreno
Assistente de Direção: Ismael Goulart
Elenco: Camila Salton, Domingos Berwanger, Giordano Spencer, Ismael Goulart, Jacque Sabater, Juliana Katz, Marcia Schuler, Rafael Mog e Tiago Martinelli .
Maquiagem: Victória Guella
Iluminação: Fabiana Santos
Sonoplastia: Ismael Goulart
Figurino: Grupo ATritO
Cenografia: Grupo ATritO


*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

2068 (RS)


SUSPENSÃO DO COTIDIANO EM ESPETÁCULO RIGOROSO



por Diego Ferreira*

"2068" é o novo espetáculo do Grupo Máscara Encena e assim como seu excepcional trabalho anterior "Imobilhados" arrebata o espectador pelo alto rigor técnico e estético de suas produções. Um espetáculo intenso, poético e necessário na atual cena gaúcha. Destaco a importância da máscara enquanto elemento potencializador de processos criativos para a cena no teatro contemporâneo, que ultrapassa em muito uma visão utilitária do objeto-máscara, como mero mecanismo de revivescência de tradições teatrais deslocadas de seu contexto sociocultural, e promulga uma forma de pensar-fazer teatro que se ousa chamar aqui de máscara expressiva (pois é muito mais amplo que isso), isto é, um pensar sobre a máscara como lugar de metamorfoses e hibridismos cênicos. Mas mais do que isso, o uso de uma máscara, representa a utilização de uma corporalidade que o jogo com a máscara exige, implicando o uso de pura técnica, e "2068" parte um princípio de composição-colagem do personagem teatral a partir das máscaras que nele coexistem e que correspondem às múltiplas facetas de uma personalidade moderna fragmentada, nos questionando se ainda é possível sonhar num mundo distópico, a qual a arte não busca mais a harmonia a não ser através da dissonância. A máscara revela um corpo orgânico, em sua percepção espetacular, isto é, ao cobrir o rosto, o indivíduo vê-se obrigado a comunicar-se e expressar-se com todo o seu corpo, garantindo-lhe uma consciência mais concreta dos elementos imateriais da cena que estão sob seu domínio. Com seu "2068" o Máscara Encena alcança uma dimensão essencial do jogo teatral, que é profundamente poética, onirica, metafórica e política pois através de uma temporalidade futura dialoga com a nossa atualidade através de temas como a liberdade, a violência, o preconceito, porém a experiência provocada não é nos dada em nenhum momento, precisamos estar abertos e aptos a tecer nossas próprias experiências a partir do belo material que o espetáculo nos dá, são pequenas histórias suspensas no ar, pequenos espaços sutis para que possamos dialogar através do nosso olhar. 
A direção de Liane Venturella é de extrema importância, pois revela que tem propriedade para extrair do objeto-máscara toda a humanidade que os seres inanimados ganham no palco. Somos embriagados com a vida que estes personagens ganham em cena e percebemos cada pequeno movimento, cada gesto e toda a carga estética que o trabalho propõe graças ao olhar criterioso de uma direção que amarra muito bem todos os elementos da obra que assistimos. O elenco formado por Alexandre Borin, Camila Vergara, Fábio Cuelli e Mariana Rosa são os grandes responsáveis por suspender o nosso duro cotidiano durante 60 minutos e nos levar a outros mundos, outros espaços onde ainda é possível sonhar sim, pois através dos seus corpos expressivos é possível tornar o sonho realidade diante dos nossos olhos. O elenco consegue literalmente se multiplicar em cena e dar vida a uma gama de personagens que muitas vezes precisei piscar para me certificar de que tais seres não eram reais, pois através dos corpos dos atores, os personagens ganham vida e nos fazem acreditar nas suas vidas e suas narrativas sobre atemporalidades.  
A produção opera verdadeiro milagre no pequeno palco do Instituto Ling com cenário quase nulo, porém com uma iluminação impecável de Fabiana Santos que cria espaços e texturas que trazem uma certa frieza no que tange ao confinamento das personagens, auxiliada pelas texturas e cores dos belos figurinos e pela excelente trilha sonora de Caio Amon, que cria uma narrativa sonora que guia o espectador na dramaturgia do espetáculo. 
Mais uma grande estreia nos palcos gaúchos, num ano nebuloso, mas que graças aos artistas da cidade tem nos agraciados com ricas experiências teatrais. 

Direção: Liane Venturella
Dramaturgia: Máscara EnCena e Liane Venturella
Elenco: Alexandre Borin, Camila Vergara, Fábio Cuelli e Mariana Rosa
Trilha Sonora Original: Caio Amon
Iluminação e Operação de Luz: Fabiana Santos
Operação de Som: Vitório Azevedo
Máscaras: Fábio Cuelli
Bonecos: Rita Spier
Cenografia: Máscara EnCena
Figurino: Liane Venturella
Confecção de Figurinos: Naray Pereira
Direção de Produção: Camila Vergara
Produção e Idealização: Máscara EnCena


*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle.