sábado, 1 de junho de 2019

WHATSAPP PARA SHAKESPEARE (RS)

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TRADUÇÃO PALATÁVEL AO ESPECTADOR CONTEMPORÂNEO

Especial 14º Palco Giratório

                                                                                                por Diego Ferreira*

"Whattsapp para Shakespeare" é uma grata surpresa em nossos palcos. Primeiro por trazer Shakespeare a tona, porém desta vez de um modo bastante particular. A escritura do Bardo foi traduzida e marcada nos corpos dos bailarinos/intérpretes da Canoas Cia. de Dança, e o espetáculo acerta em cheio, pois Shakespeare é demasiadamente encenado (graças aos deuses!), porém muitas vezes os caminhos não são os melhores. Mas o espetáculo dirigido por Carlota Albuquerque vai na contramão disso e transborda o palco de criatividade e inventividade. Trata-se de um espetáculo híbrido que mescla diversas linguagens como o teatro, a dança, a música e as artes plásticas, que consegue unir o contemporâneo com o universo clássico de Shakespeare. A estética da produção enche os olhos, pois os figurinos de Fabrizio Rodrigues são belos e eficientes em cena, pois se utiliza de materiais como jeans aliados a gola rufo, reutilizando peças de uso cotidiano, transformando em peças cênicas de modo bastante peculiar já característico no trabalho de Fabrizio. 
O coletivo apropria-se de Shakespeare para falar do mundo e das relações hiperconectadas e desencontradas inerentes ao ser humano, o uso de aplicativos e redes sociais que aproximam e ao mesmo tempo afastam e esfriam as relações. A estética da produção enche os olhos, pois mescla imagens oníricas e fantásticas e que para isso funcionasse em cena, foi fundamental a equipe técnica de luxo que a produção tem, como os já citados figurinos de Fabrizio Rodrigues, a iluminação de Guto Greca que pincela e tinge a tela branca com as cores e texturas que são belíssimas demais. Na equipe também Alvaro RosaCosta que assina o desenho de som e é mestre em traduzir em experiências sonoras as sensações corpóreas do trabalho. Outro ponto positivo é a presença do ator Tom Peres que faz este elo entre a narração e a presentificação do autor em cena, dando um tom cômico e aos mesmo tempo situando o espectador no tempo/espaço atemporal da obra. Creio que com este espetáculo Carlota Albuquerque consegue encontrar neste jovem coletivo uma afirmação do seu trabalho e por que não uma renovação de seu próprio trabalho, que acompanho em espetáculos como "E lá na ve no vá", "Mulheres Insones", "Ditos e Malditos", "Piazzolla Coreografo", "O banho", entre outros. 
Diante de tudo isso, é louvável o surgimento e a criação do Canoas Coletivo de Dança que carrega consigo o nome de uma cidade e espero que o município apoie e valorize este e tantos outros grupos da cidade. Mas é importante pelo fato de revelar mais um coletivo forte e vigoroso em cena, onde todos os bailarinos/intérpretes são qualificados e demonstram em cena grande potencial criativo e de internalização das propostas da direção. O coletivo através de seus corpos e suas presenças conseguem o milagre de traduzir o clássico e deixá-lo palatável ao espectador contemporâneo. Realmente um trabalho fantástico.

Ficha técnica:
Concepção e Direção: Carlota Albuquerque
Intérpretes criadores: Carini Pereira, Caroline Fossá, Danielle Costa, Leslie Taubê, Leonardo Patro, Roberto Mendes, Tiago Ruffoni e Tom Peres 
Artista colaboradora: Joana Wiladino 
Produção: Cristina Colares Pereira
Figurino: Fabrízio Rodrigues 
Iluminação: Guto Greca 
Desenho de som: Álvaro Costa 
Vídeomaker: Ricardo Vivian

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

FÁBRICA DE ROBÔS - CRÍTICA

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TRABALHO INVENTIVO E RIGOROSO

por Diego Ferreira*

"Fábrica de Robôs" é um espetáculo ousado em sua concepção. Resultado do Curso de Formação de Atores da Casa de Teatro ganha tratamento profissional ao participar do projeto Novas Caras. Os diretores souberam explorar muito bem a questão da humanidade ou a falta dela através da narrativa baseada na obra de Karel Tchápek que apresenta o cotidiano de uma gigantesca empresa de tecnologia responsável pela criação de máquinas tão perfeitas que seriam capazes de substituir o ser humano em todas as suas funções. Entre arquivos corrompidos, falhas no sistema e respostas automáticas, a peça questiona os limites da humanidade. Chama atenção a questão estética bem explorada em todos os detalhes, desde a grande estrutura cenográfica, que os atores exploram de forma bastante criativa e eficiente, até a iluminação perfeita de Ricardo Vivian, que além de auxiliar no apelo visual e estético da obra consegue extrair nuances, texturas e plasticidade em todas as cenas. Os figurinos de Titi Lopes também tem uma sacada genial, que traz elementos que identificam os robôs e os demais personagens, além de brincar com a desconstrução de peças, sobreposição de texturas, cores sóbrias e estampas, que levam para a cena uma paleta de cores que traduzem muito bem a proposta do espetáculo. A trilha sonora e principalmente a emissão vocal dos atores estão super alinhados graças ao trabalho de Everton Rodrigues. O elenco é numeroso e coeso e joga o tempo todo junto, e o grande destaque do trabalho é o coletivo, onde ninguém destoa de ninguém ou sobressai aos demais atores, sendo este um dos muitos pontos positivos do trabalho, assim como a direção de Camila Bauer que mais uma vez coloca em cena um trabalho inventivo e rigoroso, conseguindo extrair o que há de melhor dos atores. 
O único aspecto negativo do trabalho é a virtuose exacerbada de alguns atores, pois o trabalho tem uma disposição bastante física do elenco, e esta disponibilidade é fantástica, porém alguns atores extrapolam e é justamente onde a virtuose aparece além da conta, exatamente onde ações são executadas apenas demonstrando o quanto determinado ator sabe dominar seu corpo, mas a sua ação está fora do contexto da cena. A dramaturgia de Pedro Bertoldi, Camila Bauer e Carina Corá traz um texto político e atual e consigo traçar um paralelo com o (des)governo brasileiro, que ao focar sua gestão apenas em questões ideológicas, retira verbas de areas extremamente importantes como a educação, cultura, filosofia e sociologia, areas que tem a função de estimular a troca de saberes e fomentar o pensamento critico, e o paralelo é justamente  que um tipo de (des)governo como este é o de transformar os homens em robôs, extraindo das pessoas/máquinas apenas o que lhe convém. E por isso é muito pertinente a dramaturgia do espetáculo por lidar com metaforas inerentes ao homem contemporâneo. 

Ficha Técnica: 
DIREÇÃO: Camila Bauer.
DIREÇÃO COREOGRÁFICA: Carlota Albuquerque.
DIREÇÃO MUSICAL: Everton Rodrigues.
DRAMATURGIA: Pedro Bertoldi, Camila Bauer e Carina Corá, escrita colaborativamente a partir de textos do elenco e da obra Fábrica de Robôs, de Karel Tchápek.
CRIAÇÃO E OPERAÇÃO DE LUZ: Ricardo Vivian.
CONCEPÇÃO DE CENÁRIO E FIGURINO: Turma design cênico da Casa de Teatro (Fábio Moreno, Giovana Dotto, Júlia Lopes, Márcia Lopes, Pedro Freitas e Walter Diehl).
CENOTÉCNICOS: Paulo Ricardo de Oliveira, Gabriel Martins e Carlos Ramiro Fensterseifer.
CONFECÇÃO DE FIGURINOS: Titi Lopes.
COORDENAÇÃO DA EQUIPE DE CENÁRIO E FIGURINO: Carlos Ramiro Fensterseifer e Nara Lucia Maia.
CONCEPÇÃO DE MAQUIAGEM: Leandra Kruger.
MAQUIAGEM: O elenco.
TÉCNICO E OPERADOR DE SOM: Vitório Azevedo
DESIGN GRÁFICO: Henrique Lago
ARTE: Artur Luzardo
TEASER E VÍDEOS DO ESPETÁCULO: Pedro Martins Spieker, Renata Lorenzi e Rafael C. Dornelles.
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: Ewillyn Lopes
ELENCO: Alexei Goldenberg, Artur Luzardo, Cristiano Nascimento, Ewillyn Lopes, Franco Mendes, Gabriel Martins, Helena Sá, Henrique Lago, Leandra Kruger, Luiza Waichel, Natália Ferreira, Rafael Dorneles, Renata Lorenzi, Yuri Amaral, Zé Passos.

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

domingo, 12 de maio de 2019

ELAS - CRÍTICA

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Dramaturgia(s): Ampliação do discurso estético

por Diego Ferreira*

O espetáculo "ELAS" da Nós Cia de Teatro é sem sombra de dúvida um dos melhores espetáculos de 2019 apresentados até aqui, e tentarei explicar o porque nas próximas linhas. 
O espetáculo coloca em cena cinco atrizes para falar sobre o universo feminino, e esta premissa já poderia ser uma barreira, pois temos inumeros espetáculos, filmes e tratados sobre a mulher na atualidade e na arte e muitas vezes o caminho escolhido é o mais fácil que acabam repetindo determinados clichês. Não é o caso de "Elas". A produção te pega de uma forma pois ao mesmo tempo que fala sobre as mulheres, fala também sobre todos nós, pois toca em temas que são inerentes a todos e isto é fantástico, pois trata-se de um espetáculo que inclui, a começar pela abertura da noite que foi da atriz Mayura Mattos, atriz negra que ao sair do teatro para fazer a abertura falou uma frase que teve um impacto tão grande e significante para todos os negros que estavam ali, ela falou: "todos os negros podem passar na frente", e eu que sou negro já entrei no espaço da encenação com a autoestima lá em cima, pois geralmente homens e mulheres negras quase nunca são os primeiros... e este preâmbulo e toda a fala de Mayura já criou um ambiente em que todos estavam e deveriam estar ali, juntos! Mayura é uma artista sensacional e abrilhantou a noite.
Depois assistimos a um trabalho que pensou em todos os detalhes para se tornar o que é. A dramaturgia de Everson Silva se apoia em citações de Fernanda Bastos e fragmentos  de textos, canções e vozes dissonantes que caminham para um mesmo rumo: falar da mulher na sociedade contemporânea e suas belezas, lutas, preconceitos e exaltação. O espetáculo é composto por diversas camadas que buscam fugir da superficie para dialogar com o espectador. Neste caso, amplio o conceito de dramaturgia para colocá-lo no plural e falar em dramaturgia(s), ampliando a discução estética. 
A acepção mais difundida do termo dramaturgia remete ao campo da escrita do texto dramático. Mas há outra acepção de dramaturgia que se liga prioritariamente à constituição de uma narrativa cênica, espetacular, e é desta última significação que Everson enquanto dramaturgo e diretor consegue extrair o melhor da produção. Temos aqui a dramaturgia textual, física, espacial, sonora, plástica e estética que conseguem convergir todas para nos proporcionar uma bela experiência cênica. O espaço cênico construído com louvor por Jony Pereira tras uma dimensão metafórica e poética, colocando no palco da sala Alvaro Moreyra uma piscina que através de suas águas consegue lavar o espectador, pois as águas lavam, curam, benzem, limpam toda a sujeira do mundo. E este movimento que a água provoca enquanto elemento cenográfico central coloca em evidência os corpos das atrizes, que utilizam um figurino que tem como base a transparência, que ao entrar em contato com a água vai ganhando outros contornos. Interessante esta proposta de figurino pois evidencia a diversidade dos corpos em cena, corpos que fogem do padrão midiático, corpos de mulheres reais, corpos com suas marcas, suas identidades, suas vivências. Corpos que são atravessados pela água e por toda a poesia que estes corpos conseguem propagar pelo espaço através dos seus movimentos, deslocamentos mas principalmente pela presença e discurso que o corpo em cena propõe. A iluminação de Veridiana Mendes é de uma competência fantástica, pois consegue criar uma comunicação através da luz, sua criação não serve apenas para iluminar, mas cria códigos e signos que tornam a experiência estética ainda mais potente. Quando a luz toca nas águas é a certeza de belas imagens, somadas a trilha sonora que também é eficaz e consegue criar um espaço sonoro que reforça o já referido até aqui. Outro destaque é a produção do espetáculo que teve um trabalho bastante positivo, desde a divulgação até mesmo a criação de toda a estrutura que dá base ao trabalho. 
O elenco formado pelas atrizes Kacau Soares, Leticia Kleemann, Paula Cardoso, Raquel Tessari e Val Barcellos é tão potente, tão coeso, tão diverso e por isso conseguem colocar em cena toda a dimensão poética e emotiva do trabalho. Todas as atrizes tem uma carga dramática e estão ali com seus corpos e discursos a disposição da encenação. A força do coletivo é que faz do trabalho o que ele é, e a direção soube explorar isso muito bem. Nelas temos todas as características inerentes a mulheres brasileiras e por isso além de ser um trabalho com esta carga estética alta, temos um trabalho político que coloca o corpo da mulher no centro do discurso e seu lugar de fala. O elenco é tão coeso, mas destaco a atriz Kacau Soares principalmente na cena em que ela recria a canção Cabô de Lueji Luna e carrega na intensidade e internalização do discurso contido na letra que faz escorrer as lágrimas do espectador que se juntam as águas do palco.
Portanto, trata-se de um espetáculo de forte impacto estético e narrativo que merece um retorno aos palcos gaúchos e porque não os palcos do Brasil!

Ficha Técnica:

Direção: Everson Silva.
Produção: Pedro Dos Santos.
Atuação: Kacau Soares, Leticia Kleemann, Paula Cardoso, Raquel Tessari e Val Barcellos.
Dramaturgia: Everson Silva, a partir do material criado coletivamente, com citações de “Desta Cor” de Fernanda Bastos (gentilmente cedida pela Figura de Linguagem).
Trilha Sonora: Composição original de Maninho Melo (Jeff Mou).
Músicos: Maninho Melo, Leandro Alves e Edu Coelho Educs. Técnico de Gravação e Mixagem de Leandro Alves. Gravado em Canoas (2018), na L&A Produções Musicais.
Cenografia: Jony Pereira.
Iluminação: Veridiana Mendes.
Figurino: Studio Lê Brochier.
Maquiagem: Criação Coletiva.
Fotografia: Jean Pierre Kruze.
Arte e Mídias Digitais: Amanda Hamermüller.
Assessoria de Imprensa: Silvia Mara Abreu.
Produção Executiva: Everson Silva.
Assistência de Produção: Val Barcellos.
Realização: Nós Cia. de Teatro.

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. Diretor do Grupo Skatá de Canoas.


sexta-feira, 3 de maio de 2019

O URSO COM MÚSICA NA BARRIGA - CRÍTICA

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GRANDE ESPETÁCULO EM PEQUENOS DETALHES

por Diego Ferreira*
O espetáculo "O urso com música na barriga" é uma grata surpresa que agrada em cheio a toda família, pelo bom teatro apresentado pela produção caprichada em todos os sentidos. Trata-se da produção do Grupo Atimonautas Teatro de Bonecos e dirigido por Arlete Cunha. Baseado no livro homônimo de Érico Veríssimo o espetáculo tem um apelo visual bastante forte e se utiliza de várias técnicas do teatro de animação como grandes e pequenos bonecos de manipulação direta, bonecos de vestir e marionetes que transportam o espectador para um espaço lúdico e fantástico para falar de temas importantes como intolerância, dificuldade de comunicação e bullying. 
A produção é excelente pois é detalhista, tu enxerga o cuidado em cada pequeno detalhe, do cuidado com figurinos dos bonecos e na construção dos mesmos, da linda iluminação de Vinícius Lopes e Vicente Goulart e da trilha funcional de Ricardo Pavão, pois como a dramaturgia é contada através de locuções a trilha sonora acaba ganhando um peso bastante grande por dialogar com todos os elementos e sendo a linha motriz do espetáculo.
No espetáculo a comunicação se dá através da interação dos bonecos com a platéia, e o que vemos é altamente positivi, pois o espetáculo é didático, ao abordar temas relevantes, mas não é panfletário no sentido de defender um ponto de vista ou até mesmo apontar culpados.  Os atores/manipuladores Alberto Vermelho, Dênis Moreira, Mairã Alves e Jacqueline Rosa são precisos e deixam brilhar os bonecos e não as suas pessoalidades e por isso temos um ótimo resultado. 
Parabéns a todos os envolvidos e que a produção possa trilhar novos e longos caminhos pois o espetáculo encanta com toda sua beleza e poesia.


Ficha Técnica
Texto: Érico Veríssimo
Direção: Arlete Cunha
Assistência de direção: Dedy Ricardo
Atuação/Manipulação: Alberto Vermelho, Dênis Moreira, Mairã Alves e Jacqueline Rosa
Locução: Alberto Vermelho, Dedy Ricardo, Dênis Moreira, Jacqueline Rosa, Rafael Cambará e Ricardo Pavão
Concepção de bonecos, cenários e figurinos: Dênis Moreira
Confecção de bonecos, cenários e figurinos: Ateliê Nunes
Engenharia Eletrônica: Marcelo Patines
Iluminação: Vinícius Lopes e Vicente Goulart
Trilha original: Ricardo Pavão
Gravação de trilha: Mosaico Produtora Cultural
Designer gráfico: Dídi Jucá
Fotografia: Adriana Marchiori
Produção executiva e divulgação: Raiar Produções.
Realização: Atimonautas Teatro de Bonecos

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. Diretor do Grupo Skatá de Canoas.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

LÊ BUFÊ - CRÍTICA

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EXERCÍCIO AFINADO DE ATORES


por Diego Ferreira*



Bufão é o cômico grotesco, o marginal que utiliza da pretensa insanidade para denunciar os aspectos torpes da sociedade discriminatória. Apesar de seu discurso ser proibido, a sociedade sempre está disposta a ouvi-los.  Os personagens exercem sua blasfêmia através de paródias e pequenas cenas recheadas de deboche onde destilam todo o seu talento, e mais do que isso, toda a sua ácida crítica social. A cena em que a dupla Celói e Lingüiça refletem sobre o teatro contemporâneo é simplesmente impagável, onde criticam os próprios colegas de forma inteligente e cômica, assim como as demais cenas que tocam, de forma cômica e grotesca, em temas pertinentes e variados, expondo, por exemplo, o que há de impessoal nas relações virtuais, de falso na bondade que atende somente ao moralismo e de abusivo nas relações de poder do homem sobre a mulher.
Ao vislumbrar as duas figuras adentrando no palco de um teatro, e se apropriando daquele lugar oportuno, (pois o público já estava lá) para destilar toda sua sagacidade crítica e política, talvez não tenhamos a dimensão do que é trabalhar a partir da técnica do bufão, e trata-se de uma técnica completamente difícil e elaborada. A construção do seu corpo é bastante complexa, pois além do bufão, o ator representa figuras que este paródia e que não pode desmentir a base que sustenta o jogo. A construção do corpo da paródia deve obedecer à do bufão. É importante que o intérprete entenda qual o argumento narrativo do bufão e qual a do parodiado. E é justamente neste ponto que Aline Marques e Eduardo d’Avila são brilhantes, pois conseguem compreender e internalizar de forma magistral o jogo necessário da técnica da bufonaria, denunciando todas as mazelas que acometem estes seres marginalizados. Eduardo d’Avilla consegue evidenciar através de sua composição toda sua verve cômica e crítica ao mesmo tempo, conseguindo sustentar o jogo junto a Aline Marques que mais uma vez consegue construir um exímio trabalho de desconstrução da sua persona para construir sua Celói que é excepcional. A dupla funciona muito bem, porém Aline é dona de si e triunfa de forma magistral em cena através de sua figura que é engraçada, sarcástica, crítica e acima de tudo humana.
Não posso deixar de citar a ótima trilha sonora de André Paz que consegue se conectar de forma bastante particular a encenação.
“Lê Bufê” não é um espetáculo que prima por uma estética visual com cenários e figurinos exuberantes, até porque nem cabe na sua concepção, mas o espetáculo preza pelo exercício afinado de uma dupla de atores que exercem a pura técnica, resultado de pesquisa estética apurada e refinada que revela um rico trabalho de ATOR!
Bravo!!!

FICHA TÉCNICA:
Orientação técnica da máscara bufão: Aline Marques
Direção: Aline Marques e Eduardo d’Avila
Texto: Aline Marques e Eduardo d’Avila
Atuação: Aline Marques e Eduardo d’Avila
Trilha sonora original: André Paz
Cenário, figurino e maquiagem: Aline Marques e Eduardo d’Avila
Material Gráfico: Gilmar Barcarol
Fotos: Pulp Fotografia
Contribuições/olhar crítico: Camila Diehl



*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. Diretor do Grupo Skatá de Canoas.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

NEVA - CRÍTICA

Foto: Qex Bittencourt


ESPETÁCULO SIMPLES E POTENTE


por Diego Ferreira*



No dia 9 de janeiro de 1905, um dos mais importantes da história do século XX, Olga Knipper (viúva de Anton Tchékhov) e mais dois atores, Masha e Aleko, estão num teatro de São Petersburgo. Era domingo, dia em que as tropas czaristas massacraram um grupo de trabalhadores que viera fazer um protesto pacífico e desarmado em frente ao Palácio de Inverno do Czar. Porém, dentro do teatro, bem em frente ao rio Neva, Aleko e Masha ajudam Olga, a ensaiar O Jardim das Cerejeiras enquanto aguardam o diretor de peça, ou a Revolução, ou alguma outra coisa desconhecida. Olga quer apenas o reconhecimento de seu talento, Aleko é conservador e deseja que o mundo permaneça como está e Masha faz discursos inflamados de que mundo mudará para melhor com a Revolução. Mas não é tão simples. Após ensaiar por diversas vezes a morte de Tchékhov com Olga e Masha, Aleko às vezes parece encarnar o autor, agindo de forma diferente do habitual, caindo fora de seu ideário.
A peça Neva é um espetáculo encenado dentro da universidade e dá inicio ao Projeto TPE: Teatro, Pesquisa e Extensão, um projeto longevo e importante que evidencia os espetáculos gestados dentro do Departamento de Arte Dramática da UFRGS. Trata-se de uma montagem dirigida por Silvana Rodrigues sobre texto do chileno Guillermo Calderón. Primeiramente gostaria de parabenizar a escolha do texto de Calderón que trás um contexto completo: há uma profunda reflexão sarcástica a respeito da arte teatral, há a vida privada com foco nas vaidades dos atores e há o drama popular da revolução nascente. No texto temos menos humor e muito mais sarcasmo. É neste ponto que evidencio a carência da encenação, pois temos a história destes três atores bastante relevantes e específicos dentro de um contexto repleto de tensão política e percebo que os atores não conseguem criar esta dimensão política dos personagens (com exceção de Marina Fervenza que pela natureza de sua personagem consegue atingir um pouco mais esta dimensão), até mesmo devido à idade dos interpretes, o que acarreta na construção e maturidade dos personagens. Isso não significa que os atores e direção não alcance um bom resultado, pelo contrário, está justamente em Marina Fervenza, Natasha Villar e Phillipe Coutinho, orientados pela Silvana Rodrigues a força da produção, pois mesmo sem conseguir atingir esta dimensão política e seus desdobramentos do que acontece lá fora do teatro, os atores conseguem atingir a dimensão dramática, construindo esta metalinguagem, que é o teatro dentro do teatro, onde percebemos os devaneios entre a insanidade e a encenação revivendo a morte de Anton Tchekhov. “Neva” é um espetáculo simples em sua essência e potente em seu contexto que nos lembra que no Brasil de hoje estamos diante de situações bem próximas da Rússia do início do século passado. E por isso o espetáculo já merece nosso aplauso.

Ficha Técnica

Texto: Guillermo Calderón

Direção: Silvana Rodrigues

Assistência de direção: Sandino Rafael

Elenco: Marina Fervenza, Natasha Villar e Phillipe Coutinho

Orientação: Patricia Fagundes

Co-orientação: Juliana Kersting e Sandino Rafael

Luz: Bruna Casali, Henrique Strieder e João Caron

Trilha Sonora Pesquisada: Silvana Rodrigues

Operação de Som: Sandino Rafael

Figurinos: Mari Falcão

Foto: Qex Bittencourt

Duração: 55 minutos

Classificação Indicativa: 14 anos

Peça originada na disciplina Atelier de Composição e Montagem (2018/1), no Departamento de Arte Dramática da UFRGS.

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. Foi jurado do Prêmio do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. Diretor do Grupo Skatá de Canoas.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

SOBRE NÓS - CRÍTICA

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O MELHOR DE TCHEKHOV NA CENA CONTEMPORÂNEA

por Diego Ferreira*

"Sobre nós" é um espetáculo que parte dos textos de Anton Tchekhov (" A Gaivota"; "As três irmãs" e "O Jardim das Cerejeiras") e marca a estréia do Coletivo Gaivota, um grupo de jovens artistas originários do Laboratório Cênico Léo Maciel. 
Em Tchekhov temos os climas e atmosferas da cena russa burguesa, a ação dramática e os personagens realistas. Temos também a convenção cênica da quarta parede (convenção que neste caso é detonada, graças a Deus! (sic) ). Trazer o autor para a cena hoje é buscar revelar a sua poesia, e a tentativa de sugerir atmosferas subterrâneas ao texto e ação dramática. Sua narrativa é suave, repleta de nuances e a delicadeza do clima e da intenção. 
Léo Maciel através da sua direção precisa e criativa de "Sobre nós" consegue extrair o melhor de Tchekhov e de sua poesia. O espetáculo é uma grata surpresa neste início de temporada. A começar pela dramaturgia, pautada por fragmentos, visto como texto que pode variar  no tocante a extensão , gênero ou tipo de linguagem cênica. Nesta proposta de cena, eu vejo os fragmentos como "unidades em si" - minidramas, imagens, cenas poéticas e visões. A narrativa se desenrola através destas unidades que são amarradas por relatos pessoais dos atores e de cenas que mantém viva a poesia Tchekhoviana. 
O espetáculo é de uma beleza extraordinária, que nos arrebata desde a entrada na sala até o útimo suspiro dos atores. Tudo está a serviço da estética proposta pela direção que é de trazer o autor a contemporaneidade. Mas creio que Léo Maciel consegue ir além justamente por fazer um contraponto das situações cênicas sem subinhá-las demais, criando atmosferas e contrastes vivos. A cena se torna potencializada através da presença viva e forte do coletivo de atores e de todos os elementos presentes na cena. O cenário e a disposição da platéia auxilia na criação de uma cumplicidade junto ao espectador, assim como os figurinos, maquiagem e cabelos de Valquiria Cardoso que criam um jogo de contrastes entre o novo e o velho, o clássico e o contemporâneo e que torna a cena ainda mais envolvente. Ponto para Valquíria que acerta em cheio nessa estética que transborda na cena uma multiplicidade de signos através das cores, estampas e texturas dos figurinos, assim como a maquiagem. A iluminação de Luciana Tondo e Ricardo Vivian é outro destaque pois dialoga com todos os elementos da cena, traduzindo beleza e criando espaços atemporais no trabalho. Exemplo disso é uma cena que é bela e simples ao mesmo tempo que é a cena"tempo e xícara", onde os atores conseguem extrair sonoplastia de xícaras, colocadas no tempo/espaço da cena e que exprime toda a poesia da encenação.
O elenco está totalmente entregue ao trabalho, conseguiram internalizar todas as influências e referências do autor e direção. Faço uma ressalva ao trabalho da Angela Spiazzi, pois é notável a presença e disponibilidade dos corpos em cena, e isto é possível graças a preparação corporal eficiente. Cada texto, cada palavra, cada gesto está cheio de energia e poesia. Todos estão ótimos em cena, segurando muito bem o espetáculo e para atores que saíram de um Laboratório Cênico, espaço de aprendizagem e experimentação, estão todos num nível profissional avançado. 
Repito que todos os atores estão no mesmo nível, porém Lincoln Speziali e Natalia Lavrati conseguem se destacar pois puxam o foco por ter uma presença cênica, uma energia, uma disponibilidade e aquele olho que faz com que o espectador dialogue diretamente com ambos através de olhares e sutilezas. 
A seleção da trilha sonora seria a única exceção neste trabalho repleto de acertos, pois se pauta entre trilhas e temas que dialogam diretamente com a obra e não chegam a comprometer a cena, mas um exemplo é a cena entre Jaques e Felipe que executam uma belíssima cena, ao som de "Flutua", sendo que a canção não contrapõe a cena, mas sublinha demasiadamente a ação dos dois, beirando ao clichê, mas se esta é a intenção da cena tudo bem, senão poderia evidenciar e valorizar esta bela cena entre os dois atores. 
"Sobre Nós" é um trabalho de afirmação de Léo Maciel, que se coloca entre os melhores encenadores da capital, assim como evidencia uma nova geração de atores, que realizam nesta produção um trabalho que merece ser visto e aplaudido em pé. 
Bravo e viva Tchekov! 

FICHA TÉCNICA:

Direção: Leo Maciel
Preparação corporal/coreografia: Angela Spiazzi
Produção: Jaques Machado
Design de luz: Ricardo Vivian / Luciana Tondo
Técnica de som: Manu Goulart
Figurinos, Maquiagem/Cabelos: Valquiria Cardoso
Arte Gráfica: Jaques Machado / Natalia Lavrati
Elenco: Aline Armani, Felipe Evangelista, Guilherme Fraga, Jaques Machado, Juliana Sixel, Lincoln Speziali, Natalia Lavratti. 

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. Diretor do Grupo Skatá de Canoas.



domingo, 21 de abril de 2019

MILHÕES CONTRA UM - CRÍTICA



OAZES DE QUALIDADE E ORIGINALIDADE

por Diego Ferreira*

"Milhões contra um" não se trata apenas de um espetáculo. Trata- se de um ato político, trata - se de uma família que trabalha incansávelmente pela arte do teatro na capital e apenas esta premissa já valeria a ida ao teatro. Mas o espetáculo nos atravessa de tal maneira que é impossível não parar e refletir sobre as camadas e proposições do projeto.

Primeiro que a união da família Oliveira Azevedo (Oazes) é tamanha que transborda em todos os detalhes da cena, provocados por Ricardo Zigomático que soube aproveitar e extrair o melhor de cada um. As atuações de Carlos Azevedo e Lisiane Medeiros estão tão afinadas que o espectador fica magnetizado tamanha entrega. Conheço o trabalho do Carlos Azevedo como grande profissional da iluminação e sei que fazia muito tempo que não atuava, mas ao vê lo em cena temos a consciência de termos em nossa frente um ator meticuloso, forte e que consegue articular sua interpretação através de sutilezas e pequenas ações físicas como vemos na cena do homem com o capuz. Lisiane Medeiros como a mulher que conduz a bomba também destila sensibilidade e nos entrega o melhor de um trabalho que envolve ética e paixão. Lisiane é dona de si e de tudo ao mesmo tempo, domina a cena e todo o espiral que conduz o espectador num labirinto de sensações provocados pelo cenário minimalista, trilha e iluminação que é seca, bruta e pontual mas que eu achei genial do modo em que é operacionalizada em cena, assim como a trilha. Ponto positivo são os figurinos de Antonio Rabadan que através dos tons e texturas imprime à cena uma estética que contribue muito para o desenrolar da narrativa, assim como a maquiagem de Elison Couto. " Milhões contra um" é teatro de ótima qualidade e daqueles trabalhos que te pega pela originalidade e qualidade que te surpreende pelo despojamento, quebra de barreiras entre o real e o ficcional e principalmente pela manutenção da família de artistas que segue na labuta da arte. Um bravo especial a Ricardo Zigomático que conseguiu entender e traduzir em excelente espetáculo os anseios do Oazes. Zigomático concretiza uma direção criativa e pontual de um espetáculo que ficará na memória. Trabalho imperdivel!


FICHA TÉCNICA 

Texto: Raul Germano Brandão e Grupo Oazes
Direção: Ricardo Zigomático
Elenco: Carlos Azevedo e Lisiane Medeiros
Design de Iluminação: Casemiro Azevedo
Trilha Sonora Original: Vitório O. Azevedo
Figurinos: Antonio Rabàdan
Maquiagem e Cabelo: Elison Couto
Maquiagem de efeito: Amanda Gatti
Programação Gráfica: Vitório O. Azevedo
Teasers: Breno Dias
Cenografia: Grupo Oazes
Produção Executiva: Amanda Gatti
Fotos: Adriana Marchiori e Amanda Gatti
Duração: 50 minutos
Classificação Etária: 14 anos. 


*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. Foi jurado do Prêmio do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. Diretor do Grupo Skatá de Canoas.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

TABATABA - DOIS CONTRA O MUNDO (RS)

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VOZES NEGRAS NO CENTRO DA CENA

por Diego Ferreira*

“Taba Taba” é uma adaptação do texto de Bernard Mariè Koltes realizada por Rafael Sandino. Partimos da premissa que a escolha do texto para a atual montagem é de extrema importância, pois trata de questões que remontam a África e suas ancestralidades, confirmando a importância, podemos apenas observar a noite da apresentação, onde a sala estava totalmente lotada, pessoas tendo que ir embora, e na platéia a maioria dos espectadores eram negros para ver no palco dois intérpretes também negros desvelarem suas histórias e de seus pares.
         “TabaTaba” é uma história em que a solidão é o ponto de encontro. Dois irmãos, Maimouna e Abou, vivem além da impossibilidade de sentir o comportamento "normal" das pessoas de sua cidade como suas. O pequeno Abou deposita todo o seu desejo em sua Harley-Davidson e passa o dia com ela; Maimouna, como irmã mais velha e responsável por sua criação, sente-se humilhada por esse comportamento e tenta orientá-lo para uma aparência mais social. Mas à medida que o tempo avança, pode-se ver uma cumplicidade obscura entre os dois que mitiga a angústia de não pertencer.  A montagem evidencia este “não pertencer” através dos relatos pessoais dos atores, numa espécie de distanciamento da narrativa de Koltes. A perversão os mantém longe da sociedade, mas ao mesmo tempo é o elo que os une.  
Maimouna aparece no pátio de casa conversando com seu irmão mais novo. Ela o censura por se dedicar apenas a polir a motocicleta em vez de perseguir as garotas, assim como todos os garotos de sua idade. Lutas menores, os indivíduos grandes tratados com ternura, no qual o autor francês Bernard Marie Koltès evoca a difícil missão que é deixar a infância, território que um dia é necessário partir e que, no entanto, nunca nos abandona.
O que mais exalto na produção é a inserção de novos fragmentos e depoimentos pessoais que somados ao texto de Koltes criam uma nova dimensão, tornando a dramaturgia intertextual, com outras vozes que ressoam melhor no espectador contemporâneo.
A direção de Sandino consegue extrair o melhor da sua dupla de intérpretes, estando exatamente aí o que há de melhor da produção e a base da sustentação da produção são os atores. A iluminação de Fabiana Santos é pontual e consegue exercer bem o seu papel de criar atmosferas e texturas reportando o espectador para esta África quente. Assim como a trilha sonora e figurinos que são simples e essenciais. A silhueta da motocicleta talvez seja o elemento que mais tenha me intrigado no início, pois é um elemento muito importante, quase um personagem, que desencadeia a narrativa do espetáculo, e me intrigou justamente, pois no inicio da encenação víamos apenas a silhueta chapada de motocicleta, e isto negava as ações dos personagens, não combinava com a concepção que até então estávamos assistindo. Porém, num determinado momento da montagem, a silhueta é virada e mostra a outra faceta, demonstrando uma reprodução bastante fiel de uma motocicleta, um baita acerto de Chico Machado, aí neste momento eu vibrei e penso que poderia estar assim desde o inicio, pois a cena ficaria mais coerente, lógico que apenas um pensamento meu.
Outro elemento que em minha opinião seria desnecessário é a projeção de vídeos, pois serve apenas para duplicar os atores, mas o problema maior é a operação e manipulação da câmera e projetor que me incomodou enquanto espectador, pois desvia o foco da cena, desestabilizando a cena, a não ser que este seja o propósito.
Tirando estes detalhes, penso que Hayline da Rosa Vitória e Phillipe Coutinho são os senhores da cena, dois atores tão jovens que se entregam em atuações vigorosas e intensas. Hayline tem uma presença radiante que faz com que ela se agiganta em cena, se utilizando de sutilezas e de uma voz precisa. Phillipe é daqueles atores que puxam o foco para si, através de sua energia e sensibilidade, que sabe muito bem o que está fazendo no palco. Lógico que é mérito de Sandino amarrar todos os elementos através de sua direção, e nos oferece um espetáculo forte, político e que reflete as questões da negritude e sua dimensão histórica e atual na cena gaúcha.

FICHA TÉCNICA
Direção: Sandino Rafael
Elenco: Hayline da Rosa Vitória e Phillipe Coutinho
Iluminação: Fabiana Santos
Operador de projeção: Fabrício Zavareze
Sonoplastia: Sandino Rafael
Cenografia: Chico Machado
Fotografia: Dayane Alencar

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. Foi jurado do Prêmio do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. Diretor do Grupo Skatá de Canoas.


domingo, 14 de abril de 2019

VAGA (RS)

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DESLOCAMENTOS DE CORPOS POLÍTICOS

Por Diego Ferreira*

Corpos que vagam...
Corpos que suam...
Corpos em deslocamento
Corpos refugiados
Corpos imigrantes e migrantes
Corpos que vagam
Vaga
Vaga é um ato político desenhado nos corpos dos intérpretes
Vaga é forte
Vaga é macro e micro ao mesmo tempo
É geopolítico no que tange ao deslocamento e organização de povos e de indivíduos que carregam suas histórias que estão gravadas nos corpos
De onde venho e para onde vou...
Fico
Fica
Vaga é composto por uma grande diversidade de corpos, individualidades e subjetividades que se misturam e indicam caminhos para a própria formação do nosso país que foi formado por diversas etnias.
A GEDA cia de dança através da direção de Maria Waleska van Helden se apropria de um espaço não convencional localizado no Multipalco Theatro São Pedro e através de sua concepção Vaga consegue nos provocar desde os primeiros instantes como a entrada da mãe com sua filha no colo, partindo na seqüência inicial da marcha dos refugiados que se inicia no andar superior do espaço e que é de uma beleza extraordinária. As coreografias seguintes também provocam através dos discursos presentes nos corpos e na fala dos intérpretes. A GEDA está de parabéns por nos proporcionar outro olhar sobre um tema tão recorrente no Brasil como este. A iluminação do Casemiro Azevedo auxilia na criação e delimitação do espaço, assim como a vibrante trilha sonora ao vivo de Loua Oula Djembé, que contagia com seus tambores dando o tom a cena, mas não somente neste sentido, pois apenas a presença de Djembé já é um signo super importante e que dialoga muito com a questão da diversidade apresentada na cena. A canção - tema do Thiago Ramil é linda demais e soma - se junto a todos os acertos da produção.
Em suma, o espetáculo “Vaga” se propõe com êxito a discutir a concepção política que atravessa os discursos da dança contemporânea, a partir da contextualização e exploração das noções de política e estética presentes no pensamento acerca de migração e refugiados. Merece nosso aplauso pelas belas imagens, poesia e encantamento que um tema bastante duro consegue provocar nos corpos políticos dos bailarinos.
Ficha técnica
Direção e concepção: Maria Waleska van Helden
Intérpretes/criadores: Bodh Sahaj, Graziela Silveira, Geórgia Macedo, Priya Mariana Konrad, Consuelo Vallandro, João Lima, Clarissa Gomes, Felipe Suares, Carini Pereira, Morena dos Anjos, Danielle Costa, Marilice Bastos e Aline Karpinski.
Elenco de apoio: Nury Salazar, Juliana Nolibos, Natália Streb, Omara Longe e Perla Santos.
Assistente de direção: Luciana Dariano
Ensaiadora: Graziela Silveira
Trilha sonora: Thiago Ramil e Loua Oula Djembé
Iluminação: Carol Zimmer 
Operação de Iluminação: Casemiro Azevedo
Produção Executiva: Ana Paula Reis / Bendita Cultura
Duração: 40 minutos
Classificação indicativa: Livre
Realização: Kapsula Produções Culturais

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. Foi jurado do Prêmio do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. Diretor do Grupo Skatá de Canoas.