segunda-feira, 19 de agosto de 2019

CLLÃ (RS)


CELEBRAÇÃO EM ESPETÁCULO REFINADO E INVENTIVO


por Diego Ferreira*

O espetáculo "CLLÃ" reúne e celebra a amizade de 18 anos dos bailarinos Luciana Dariano, Alex Sander dos Santos e Lauren Lautert e nos brinda com um espetáculo brilhante. CLLàinspira-se no universo do cineasta Wes Anderson e é embalado pela música de Gustav Mahler. No palco, assistimos a situações desconexas, desoladoras e sarcásticas à medida que rearranjam a mobília de uma sala de estar. O espetáculo é uma grata surpresa pois consegue retratar através de suas influências um cotidiano que flerta com um universo absurdo, nonsense e que brinca com o movimento de uma forma que foge das convenções que geralmente assistimos nos espetáculos de dança, aqui os bailarinos que tem uma vasta experiencia e carregam isso em seus corpos, conseguem colocar a sua técnica a serviço de uma construção que está a serviço da cena e de uma convenção cênica que consegue construir a dramaturgia dos corpos e isto dialoga diretamente com os espectadores. Graças ao trabalho rigoroso dos três bailarinos não assistimos apenas a virtuose dos corpos, mas um espetáculo em que o bailarino está dentro de uma concepção estética que esbanja teatralidade a começar pela paleta de cores dos figurinos e objetos de cena, assim como a iluminação que foi muito bem pensada para evidenciar apenas o que é necessário deste cotidiano inóspito destes três seres e outros mais que surgem durante a cena. A sensação é que todo espetáculo foi concebido pensando na comunhão com o público, pois a cena é leve, as vezes cômicas e muitas vezes surreais, numa trama repleta de sutilezas e poesia corpórea. "Cllã" é um espetáculo inventivo e tem uma técnica refinada que evidencia a maturidade artística dos seus criadores, inovando no que tange a poética da dança. Um espetáculo singular e de alta capacidade de comunicação com o espectador. Aplausos para o trio de bailarinos e toda a equipe do trabalho que merece retornar aos palcos. 

FICHA TÉCNICA

Criadores Intérpretes: Alex Sander dos Santos, Luciana
Dariano e Lauren Lautert
Olhar externo: Carlota Albuquerque
Trilha sonora, Edição e Composição: Aldo D’Ibaños
Iluminação: Fernando Ochoa
Figurino: Margarida Rache
Fotografia: Lívida Dávalos e Leo Zimmer Saldanha
Produção Arthur Bonfanti e equipe
Colaboradores: Fernando Mendonça e José Fernando Ibaños

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

domingo, 18 de agosto de 2019

MARILYN, O MUSICAL (RS)


MUSICAL EQUIVOCADO SOBRE MARILYN

por Diego Ferreira*

"Marilyn, o Musical" é uma produção do "Música e Cena" de São Leopoldo, livremente inspirada em Bombshell de Smash ótima série que assisti e que retrata os bastidores da criação de um musical sobre a vida e obra de Marilyn Monroe. O espetáculo é um musical cheio de equívocos infelizmente, a começar pela escolha ousada do grupo em produzir um musical sobre a vida e obra de Marilyn, grande ícone que mudou normas, inverteu estruturas, enfrentou de frente seus fantasmas e viveu numa linha tênue entre vida/morte. O Grupo se lança em tal empreitada sem ter condições financeiras e principalmente técnica para viabilizar tal feito, a começar pelo numeroso elenco que demonstra um despreparo, carecendo de uma direção que explore as potencialidades vocais, corporais e expressivas dos atores/cantores/bailarinos. O problema que detecto não é a escolha do tema, que é louvável, mas a forma como chega ao público através de uma boa divulgação a qual o grupo executa muito bem, conseguindo lotar o teatro do Sesc Canoas, mas no desenrolar do espetáculo que é longo também percebemos que o grupo se propõe a um grande desafio que não consegue cumprir. 
A começar pela concepção estética do trabalho que nos mostra uma Marilyn que fica apenas na casca, não tem um aprofundamento da personagem que é interpretada por várias atrizes que ficam apenas no clichê da loura atraente. Falta uma criação que desvele a humanidade da personagem, e isto não é fácil, me parece que falta uma direção que provoque isso no elenco, sair do lugar comum e buscar descobrir novas possibilidades na criação. Os figurinos vão pelo mesmo caminho, alguns percebemos que foram criados para o espetáculo, outros arranjados tornando a proposta desproporcional e pobre, até mesmo os sapatos utilizados pelos atores em cena, que muitas vezes eram seus próprios calçados, demonstrando uma falta de cuidado da produção. A iluminação também não auxilia muito na criação de climas e espaços criados na cena, por exemplo, a iluminação poderia criar espaços que pudessem iluminar a banda presente no palco, as vezes apenas a cena que ocorre na frente, mas não consegue criando uma luz muito simplista, assim como os microfones que muitas vezes não funcionaram, ou  falharam em cena tornando o espetáculo massante de ser assistido. A própria banda poderia ousar mais e criar novos arranjos para músicas que se encaixasse melhor para cada cantor conseguir executar o seu melhor. O que me parece é que falta uma identificação com a história e as personagens que fazem parte dela, em uma construção demasiadamente simplista de uma grande ícone que merece uma homenagem a sua altura. Infelizmente saí decepcionado do teatro pelo potencial que o grupo tem, mas que não cumpriu. 


FICHA TÉCNICA

Espetáculo: Marilyn, O Musical
Duração: 100 minutos
Classificação: 14 anos
Elenco: Anne Greif, Bernardo Appel, Érica Ribas, Gabriel Tamujo, Gregory Martiny, Guilherme Oliveira, Gustavo Rezende, Iago Dal-Ri, Iago Dutra, João Marcelo Lucas, Júlia Hansen, Júlia Leiria, Júlia Lucas, Letícia Laureano, Mirella Queiroz, Mônica Freitas, Rafael Possel, Rafael Peres, Vinicius Kaiser, Vithor Ávila e Yasmine Trojan.
Versões das Canções: Júlia Leiria, Érica Ribas, Yasmine Trojan e Júlia Hansen
Versões dos Arranjos Musicais: Gabriel Tamujo, Gustavo Rezende, Iago Dal-Ri, Iago Dutra, Rafael Peres, Rafael Possel.
Sonorização e Iluminação: Prego Produções
Cenografia: Anne Greif e Mirella Queiroz
Figurino: Leopoldo Schneider
Roteiro: Música e Cena
Direção Coreográfica: Yasmine Trojan
Direção Musical: Érica Ribas e Vinícius Kaiser
Codireção: Júlia Leiria
Direção Geral: João Marcelo Lucas
Realização: Música e Cena
Apoio: Sesc Canoas e Prego Produções

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

sábado, 17 de agosto de 2019

MEU IRMÃO, O MEDO (RS)


IMPORTANTE REFLEXÃO HISTÓRICA EM ESPETÁCULO IRREGULAR

por Diego Ferreira*

O espetáculo "Meu irmão, o medo" é uma produção do Grupo Atrito que pretende (re)mexer nas feridas históricas do nosso país. Diante do momento que o Brasil está mergulhado, com a eleição e a tomada do poder por um (des)governo que está diretamente ligado as ideologias que nos reportam diretamente aos horrores provocados pela ditadura militar, um espetáculo como esse merece destaque na cena atual, justamente por provocar uma reflexão sobre o que pretendemos para nosso futuro nos reportando ao passado.
Diante disso, temos um espetáculo que considero irregular, que precisa ajustar muitas arestas, mas que também tem alguns destaques como a dramaturgia de Fernanda Moreno que cria uma narrativa que mexe nas feridas históricas e políticas do Brasil sobre a campanha da Legalidade liderada pelo Brizola, e é neste pano de fundo que a história se desenvolve. Fernanda cria um entrecruzamento de histórias, colocando em cena vários personagens fazendo com que os atores tenham que interpretar vários personagens e isso provoca uma lentidão na cena, pois alguns atores são pouco experientes não conseguindo internalizar a proposta dramatúrgica. A dramaturgia é boa, mas para o espetáculo alavancar é necessário que o elenco se coloque em cena de corpo e alma, com toda a gana necessária para fazer ecoar no espectador os traumas históricos que os personagens solicitam. Se a Fernanda dramaturga é boa, a Fernanda diretora carece de trabalhar junto ao seu elenco a criação e projeção dos personagens que montam este quebra-cabeças político, pois as interpretações estão muito rasas, periféricas, precisando de uma orientação atenta, para conseguir extrair a humanidade destes personagens, assim como a presença em cena e dicção. Do elenco irregular destaque para Marcia Schuler, Juliana Katz e Ismael Goulart que conseguem se sobressair aos demais, mas que tem potencial para crescer ainda mais em cena. O cenário construído com caixas é muito bem pensado e funciona em cena, como se tirássemos das caixas estas memórias, empilhamos as mesmas e depois destruímos, como acontece em cena. Da parte técnica o grupo poderia atentar para a trilha sonora que as vezes entra de forma exagerada em volume e extensão, podendo eleger alguns momentos para realçar a ação da peça, assim como a iluminação que as vezes deixa os atores no escuro.
O grupo Atrito é um grupo novo na cena teatral de Porto Alegre que com este trabalho traz a tona um texto que tem muitos paralelos com a política atual e soube explorar isso com muitas sutilezas, mas carece de ajustes para se comunicar melhor com o espectador, mas que mesmo assim merece ser assistido quando retornar aos palcos justamente por esse engajamento que percebemos no coletivo.

Direção e Dramaturgia: Fernanda Moreno
Assistente de Direção: Ismael Goulart
Elenco: Camila Salton, Domingos Berwanger, Giordano Spencer, Ismael Goulart, Jacque Sabater, Juliana Katz, Marcia Schuler, Rafael Mog e Tiago Martinelli .
Maquiagem: Victória Guella
Iluminação: Fabiana Santos
Sonoplastia: Ismael Goulart
Figurino: Grupo ATritO
Cenografia: Grupo ATritO


*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

2068 (RS)


SUSPENSÃO DO COTIDIANO EM ESPETÁCULO RIGOROSO



por Diego Ferreira*

"2068" é o novo espetáculo do Grupo Máscara Encena e assim como seu excepcional trabalho anterior "Imobilhados" arrebata o espectador pelo alto rigor técnico e estético de suas produções. Um espetáculo intenso, poético e necessário na atual cena gaúcha. Destaco a importância da máscara enquanto elemento potencializador de processos criativos para a cena no teatro contemporâneo, que ultrapassa em muito uma visão utilitária do objeto-máscara, como mero mecanismo de revivescência de tradições teatrais deslocadas de seu contexto sociocultural, e promulga uma forma de pensar-fazer teatro que se ousa chamar aqui de máscara expressiva (pois é muito mais amplo que isso), isto é, um pensar sobre a máscara como lugar de metamorfoses e hibridismos cênicos. Mas mais do que isso, o uso de uma máscara, representa a utilização de uma corporalidade que o jogo com a máscara exige, implicando o uso de pura técnica, e "2068" parte um princípio de composição-colagem do personagem teatral a partir das máscaras que nele coexistem e que correspondem às múltiplas facetas de uma personalidade moderna fragmentada, nos questionando se ainda é possível sonhar num mundo distópico, a qual a arte não busca mais a harmonia a não ser através da dissonância. A máscara revela um corpo orgânico, em sua percepção espetacular, isto é, ao cobrir o rosto, o indivíduo vê-se obrigado a comunicar-se e expressar-se com todo o seu corpo, garantindo-lhe uma consciência mais concreta dos elementos imateriais da cena que estão sob seu domínio. Com seu "2068" o Máscara Encena alcança uma dimensão essencial do jogo teatral, que é profundamente poética, onirica, metafórica e política pois através de uma temporalidade futura dialoga com a nossa atualidade através de temas como a liberdade, a violência, o preconceito, porém a experiência provocada não é nos dada em nenhum momento, precisamos estar abertos e aptos a tecer nossas próprias experiências a partir do belo material que o espetáculo nos dá, são pequenas histórias suspensas no ar, pequenos espaços sutis para que possamos dialogar através do nosso olhar. 
A direção de Liane Venturella é de extrema importância, pois revela que tem propriedade para extrair do objeto-máscara toda a humanidade que os seres inanimados ganham no palco. Somos embriagados com a vida que estes personagens ganham em cena e percebemos cada pequeno movimento, cada gesto e toda a carga estética que o trabalho propõe graças ao olhar criterioso de uma direção que amarra muito bem todos os elementos da obra que assistimos. O elenco formado por Alexandre Borin, Camila Vergara, Fábio Cuelli e Mariana Rosa são os grandes responsáveis por suspender o nosso duro cotidiano durante 60 minutos e nos levar a outros mundos, outros espaços onde ainda é possível sonhar sim, pois através dos seus corpos expressivos é possível tornar o sonho realidade diante dos nossos olhos. O elenco consegue literalmente se multiplicar em cena e dar vida a uma gama de personagens que muitas vezes precisei piscar para me certificar de que tais seres não eram reais, pois através dos corpos dos atores, os personagens ganham vida e nos fazem acreditar nas suas vidas e suas narrativas sobre atemporalidades.  
A produção opera verdadeiro milagre no pequeno palco do Instituto Ling com cenário quase nulo, porém com uma iluminação impecável de Fabiana Santos que cria espaços e texturas que trazem uma certa frieza no que tange ao confinamento das personagens, auxiliada pelas texturas e cores dos belos figurinos e pela excelente trilha sonora de Caio Amon, que cria uma narrativa sonora que guia o espectador na dramaturgia do espetáculo. 
Mais uma grande estreia nos palcos gaúchos, num ano nebuloso, mas que graças aos artistas da cidade tem nos agraciados com ricas experiências teatrais. 

Direção: Liane Venturella
Dramaturgia: Máscara EnCena e Liane Venturella
Elenco: Alexandre Borin, Camila Vergara, Fábio Cuelli e Mariana Rosa
Trilha Sonora Original: Caio Amon
Iluminação e Operação de Luz: Fabiana Santos
Operação de Som: Vitório Azevedo
Máscaras: Fábio Cuelli
Bonecos: Rita Spier
Cenografia: Máscara EnCena
Figurino: Liane Venturella
Confecção de Figurinos: Naray Pereira
Direção de Produção: Camila Vergara
Produção e Idealização: Máscara EnCena


*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 





quarta-feira, 7 de agosto de 2019

O POLVO (RS)


DRAMATURGIA-TENTÁCULO DESTAQUE NA CENA GAÚCHA

por Diego Ferreira

"O POLVO" é um espetáculo oriundo do Curso de Teatro da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul e se destaca primeiro por sua dramaturgia tentáculo, uma metáfora ao polvo que possui oito tentáculos assim como a estrutura do espetáculo, que é dividida em quadros com cenas curtas e aparentemente banais e cotidianas, mas que ao refletir sobre tais cenas, percebemos camadas profundas (talvez a mesma profundidade que o animal polvo alcança no fundo do mar), que refletem o lugar do homem na atualidade justamente por trazer a tona temas urgentes que dialogam com o homem contemporâneo. Só aí já temos uma excelente utilização deste novo termo de "dramaturgia-tentáculo", onde a partir da imagem do polvo conseguimos vislumbrar várias possibilidades metafóricas e estéticas e como casou muito bem este termo utilizado, pois temos oito tentáculos, e o animal pode ser observado tanto na superficie como em lugares mais profundos e por isso tem tudo a ver com o espetáculo apresentado. Nesta acepção, a dramaturgia de Marcelo Ádams abrange tanto a superficialidade de temas que de tão cotidianos poderiam não provocar o espectador, mas ao mesmo tempo abrange a profundidade no desenrolar dos acontecimentos e juntamente com isso os meios cênicos  empregados na encenação, que no detalhe parte de elementos muito simplórios, mas na totalidade se tornam arrojados. Por tudo isso, a dramaturgia de "O polvo" torna-se um dos grandes destaques da encenação, juntamente com a direção também de Marcelo Ádams que consegue explorar toda essa densidade do texto e traduzir em cenas curtas e muito bem articuladas num espetáculo que consegue tocar o espectador de um modo diferenciado. O grande elenco também é outro destaque pois todos os atores, eu disse todos os atores, tem de certa forma o seu destaque projetando nos seus personagens uma carga dramática que é na medida, sem esbarrar em interpretações exacerbadas ou clichês, como poderia acontecer com a cena inicial do casal e a cena de separação do casal homoafetivo, duas possibilidades que se não forem trabalhadas na medida poderiam caminhar para outros caminhos, mas que torna-se super acertada na forma como foi conduzida, assim como todas as cenas. O elenco também e o responsável pela execução da trilha sonora ao vivo construindo boas soluções sonoras e que contribuem muito para o clima das cenas e também para a costura das cenas fragmentadas. Outro destaque é a iluminação que é bela e pontual criando espaços poéticos na cena. Enfim, "O polvo" é um trabalho profissional que emociona justamente por ter sido gestado dentro de um curso de teatro de uma universidade pública, a UERGS, e que merece ser louvado por isso e por sua qualidade. 
Bravo!!!


|| FICHA TÉCNICA ||

TEXTO E DIREÇÃO: Marcelo Ádams
ELENCO: Ândy, Caroline Costa, Denise Cruz, Eduardo Fronckowiak, Evandro Samuel, Gabriele Manteze, Jaqueline Mayer, João Pedro Corrêa, Luana Corrêa, Mari Mü, Maria Carolina Aquino, Matheus Ramires, Tiago Bayarri, Yuri Niederauer
CONCEPÇÃO DE LUZ: Rodrigo Waschburger e Tiago Bayarri
OPERAÇÃO DE LUZ: Rodrigo Waschburger
PRODUÇÃO: Eduardo Fronckowiak, João Pedro Corrêa, Maria Carolina Aquino, Matheus Ramires e Tiago Bayarri
CENOGRAFIA, FIGURINOS E TRILHA SONORA AO VIVO: Po(l)vo do Teatro
FOTOS DE DIVULGAÇÃO: Gabriele Manteze e Victoria Sanguiné
ARTE GRÁFICA: Letícia Schmitt e Eduardo Fronckowiak


*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

terça-feira, 30 de julho de 2019

HISTÓRIA DO FUTURO (RS)


TRABALHO PROVOCANTE SOBRE UM PAÍS DO FUTURO

por Diego Ferreira*

O espetáculo "História do Futuro" coloca em cena uma adaptação do texto de Antonio Vieira escrito a mais de 300 anos e que prevê a ideia de um país do futuro. Diria que o texto e a própria encenação vem muito a calhar diante de todas as situações que estamos vivenciando num Brasil que está mergulhado em incertezas políticas e o contexto da obra, que é muito atual dialoga diretamente com tudo isso. 
Provocação é a palavra que melhor se encaixa em relação ao trabalho apresentado, pois diante de todas as soluções estéticas apresentadas me senti extremamente provocado, através do texto que consegue ampliar a noção de construção de um país, sua formação, sua gente e cores, sua derrocada a partir da corrupção e a partir disso, sua reconstrução através da ética empregada em suas relações com suas mazelas. Me senti provocado com a própria encenação com direção de Eduardo Severino que é artista da dança e estreia na direção teatral, e carrega em uma direção contemporânea, articulando novos padrões de encenação, requisitando do espectador uma percepção centrada nas sensações, ora desconstruindo a fábula e evitando qualquer significado racional, ora centrado na experiência estética provocado pelas ótimas projeções mapeadas de Jana Castoldi que tornam a experiência prazerosa pela qualidade e apuro estético. Severino  a partir de suas experiências consegue criar um espetáculo que coloca em cena um ator que está extremamente seguro em cena, um corpo que é expressivo, que é minimalista e que tem domínio de seus movimentos, e que tudo que está colocado ali tem um sentido. Caco Coelho está excelente em cena, dono de si e com uma potência que eu não estava acostumado, pois conhecíamos seu trabalho como produtor e diretor, um verdadeiro batalhador das artes da cidade, sendo o projeto Usina das Artes um grande exemplo. Mas o lado ator de Caco estava adormecido e nesta oportunidade é desvelada e merece nosso destaque pela qualidade e apropriação do texto de Antônio Vieira. Um ator exercitando sua plenitude em cena. Mas os méritos da produção não cessam por aqui, pois além da qualidade de Severino e Caco Coelho, destaco também as participações em vídeo de Lima Duarte que dialoga e interfere na cena diretamente e sua participação é fundamental para o desenvolvimento da obra. Cabe citar a trilha sonora de Renato Velho e Driko Oliveira que é pontual e totalmente dentro da proposta da encenação, assim como a iluminação de Guto Greca e Eduardo Kramer que conseguem dialogar com as projeções, com o cenário e com as cenas que o ator faz na platéia, que aliás são muito boas quebrando a quarta parede e aproximando o espectador ao trabalho. 
"História do Futuro" é um espetáculo que tem muitas camadas e que merece ser visto e revisto pela capacidade que tem de dialogar com questões do nosso tempo e que se utiliza de uma estética apurada para falar sobre um Brasil possível. Produção impecável de Gisela Sparremberger que precisa urgentemente ser assistida. 



FICHA TÉCNICA:
Supervisao: Vera Holtz
Direção: Eduardo Severino
Roteiro e Interpretação: Caco Coelho
Produção e Assessoria de Imprensa: Tradeberger Cultural / Gisela Sparremberger
Projeção Mapeada: Jana Castoldi
Participação em Audiovisual: Lima Duarte
Luz: Guto Greca e Eduardo Kramer
Trilha Sonora: Renato Velho e Driko Oliveira
Coordenação Técnica: Gabriel Coelho
Vídeo: Fernando Piccoli
Figurino: Mariane Collovini
Voz: Lígia Motta
Acompanhamento Psicopedagogo: Clarissa Candiota
Fotografia: Taís Regina Palhares

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

domingo, 28 de julho de 2019

ÁS VEZES EU KAHLO (RS)


HUMANIDADE DE FRIDA EM ESPETÁCULO DETALHISTA 

por Diego Ferreira*

Se fizermos uma pesquisa rápida sobre a obra de Frida Kahlo o que mais nos chama a atenção são as cores vibrantes e a energia do povo mexicano em suas roupas, adereços e pinturas. O que a GEDA Cia. de Dança nos apresenta é uma obra coreográfica que escolhe acertadamente outros caminhos a partir da imagem forte da mulher revolucionária, mas que aqui nesta obra conhecemos o outro lado desta mesma artista, que se tornou um icone pop através de uma grande apropriação de suas imagens que são vendidas e produzidas em camisetas, bolsas e objetos.   No espetáculo o lado fragilizado, suas dores e transgressões emocionais são o ponto de partida para a construção de um trabalho que é extremamente detalhista. Suas cores dão espaço ao luto, os pincéis são transformados em muletas e assim entre agressões físicas, mutilações, quedas e tropeços o trabalho exalta com grande qualidade toda a potencialidade humana de Frida. 
Mais uma vez Maria Waleska e sua GEDA nos brinda com um espetáculo que é extremamente contemporâneo e técnico, mas que em nenhum momento se perde em coreografias gratuitas ou que primam apenas pela virtuose dos bailarinos, muito pelo contrário, o espetáculo é extremamente rigoroso e pega o espectador pela capacidade que tem em emocionar. É carne exposta se materializando em pequenos espasmos, pequenos lutos de uma mulher forte, mas que aqui mostra suas fraquezas. 
Graziela Silveira está simplesmente maravilhosa neste solo que tem a participação como bailarina dublê de Clarissa Gomes. Graziela tem uma força e entrega que faz deste trabalho uma referência em dança contemporânea. A bailarina através do seu corpo cria um verdadeiro manifesto surrealista, um corpo que aos pedaços vai se recompondo e montando partes de sua vida. E o corpo de Graziela expandido no tempo-espaço é revelado em fluxo de vida/morte entre sutilezas e explosões num espaço atemporal. A obra tem grande dramaticidade revelada através de todas as escolhas estéticas como o cenário, a trilha sonora, as belas projeções e a iluminação que convergem todas para um mesmo sentido que é a de entregar um trabalho extremamente meticuloso e de grande qualidade dirigidos pela Maria Waleska van Helden que sem sombra de dúvidas pode ser considerada patrimônio da dança pelos trabalhos prestados e não apenas isso, pela trajetória sim, mas principalmente pela qualidade de suas escolhas. 


Ficha Técnica “Às Vezes, eu Kahlo

Concepção, Coreografia e Direção Geral: Maria Waleska van Helden

Dramaturgia do Corpo: Denis Gosch

Técnica do Movimento: Luciana Dariano

Bailarina-intérprete: Graziela Silveira

Trilha Sonora Original e Operação de Som: Vitório O. Azevedo

Participação Especial: Giovanni Capeletti

Desenho e Operação de Luz: Carol Zimmer

Criação e Projeção de Vídeos: Fernando Muniz e Paula Pinheiro

Cenógrafo e Figurinista: Antonio Rabadan

Pesquisa: Maria Waleska van Helden e Consuelo Vallandro

Texto: Consuelo Vallandro

Fotografia: Sabrina van Helden

Voz em off: Arlete Cunha

Assessoria de Comunicação: Silvia Abreu Consultoria Integrada de Marketing

Produção Executiva: Ana Paula Reis / Bendita Cultura

Realização: Kapsula Produções Culturais

Agradecimentos: Equipe da Casa de Cultura Mario Quintana


Classificação 12 anos

Duração: 40 min



*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

quinta-feira, 11 de julho de 2019

EXPEDIÇÃO MONSTRO (RS)


OLHAR CUIDADOSO  PARA UM MUNDO MULTIFACETADO DAS CRIANÇAS 


por Diego Ferreira*


"Expedição Monstro" é um espetáculo teatral infantil que se utiliza de temas ludicos para tratar de preservação da natureza e na esteira consegue abordar outros temas pertinentes aos pequenos como imaginação, enfrentamento dos medos, respeito as diferenças e o convívio em coletividade. A começar pela personagem feminina que gosta de ser chamada de Jadyson, demonstrando que não gosta de ser menina, assim como ocorre no livro "A bolsa amarela" de Lygia Bojunga, em que a personagem não gosta de ser menina e gostaria de ser menino. Temas pertinentes e que merecem ser abordados no teatro dirigido as crianças. 
Com dramaturgia e direção de Matheus Melchionna o espetáculo vai na contramão do estigma de que teatro infantil é uma arte menor, pois a produção além de ter um caráter pedagógico, tem alto apelo estético e grande força na interpretação de todo elenco. Melchionna consegue articular os elementos cenográficos, texto e atores para construir uma fábula que tem todos os elementos do bom teatro infantil. Quatro crianças se unem em prol de uma expedição pela floresta, no meio da tal expedição ocorrem alguns fatos que modificam o rumo da mesma e surgem na história monstros que vão fazer as crianças a repensarem suas atitudes e seus medos. Basicamente o texto trata disso, mas a delícia está justamente no modo como cada personagem é apresentado. Desta forma todo o elenco está ótimo em cena, destacando os interpretes dos monstros Danuta Zaghetto e Ander Belotto que constroem figuras que inventam uma língua nova e que são carismáticas e engraçadas. Considero Danuta uma das melhores atrizes do teatro gaúcho atual pelos seus espetáculos, tanto os dirigidos a infância quanto os dirigidos ao público adulto. Os demais atores também merecem destaque pela sua construção e naturalidade como representam as crianças. 
Merece destaque a arte gráfica do espetáculo de Suzana Witt pois é de uma delicadeza e consegue retratar as personagens no cartaz e em toda a identidade visual do trabalho. O cenário também é um destaque e está totalmente dentro da proposta pois se utiliza de muitas garrafas pets que são transformadas e ressignificadas em peças cenográficas que com a utilização da iluminação dá um tom especial a parte estética do espetáculo.  
A produção não menospreza a inteligência das crianças e através de sua narrativa desperta no espectador uma curiosidade em saber o que vai acontecer com os personagens.
Com este trabalho, a Cia. Indeterminada cativa a todos sem medo de ousar, oferecendo um olhar cuidadoso para o mundo multifacetado das crianças de hoje. Um espetáculo que trata de temas relacionados a natureza, mas não resvala em clichês ou pedagogias chatas, pois por trás do tema tem uma história muito bem articulada que se sustenta do início ao fim, assim como nosso interesse que se renova do início ao final do espetáculo. Um belo recorte do teatro infantil da capital.



FICHA TECNICA 

Ficha Técnica:​

Elenco: Ana Caroline de David, Ander Belotto, Bruna Casali, Danuta Zaghetto, Lauro Fagundes, Maurício Schneider e Renata Stein

Direção: Matheus Melchionna

Trilha Sonora Original: Carina Levitan e Guilherme Ceron

Operação de som: Norton Goettems

Iluminação: Carol Zimmer

Cenografia:  Rita Spier, Rodolfo Ruscheinsky e grupo

Figurinos: Camila Falcão e Mari Falcão

Maquiagem: Camila Falcão

Objetos Cênicos e Máscaras: Rita Spier

Dramaturgia: Matheus Melchionna, a partir de improvisações e colaborações do grupo

Colaborações Artísticas: Patrícia Fagundes, Daniela Aquino e Gisela Habeyche

Produção: Cia. INDETERMINADA

Arte Gráfica: Suzana Witt



*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

terça-feira, 9 de julho de 2019

DAS AMARRAS DELA (RS)

A imagem pode conter: 1 pessoa

VOÔ POÉTICO E SENSORIAL SOBRE O FEMININO

por Diego Ferreira*


Amarras vem do verbo amarrar. O mesmo que:Atar, ligar, prender, segurar com amarra, corda, barbante. "Das amarras dela" enfoca o corpo feminino na dança através de um voô poético e sensorial através da dança aérea. 
O espetáculo tem uma atmosfera magnetizante pois além de colocar no centro da cena o corpo feminino nos induz a questionar sobre o corpo como elemento que constitui o circo e a dança, e sobre sua relação com o desempenho do artista dentro da concepção do espetáculo.
Como espectador penso que para obter os resultados, precisa de perseverança, ritmo, força, coragem, alegria, coordenação, auto-imagem, auto-disciplina, auto-confiança e segurança; e resulta ainda mais complexa, pensado que estas são apenas algumas das qualidades que se relacionam com processos de cada indivíduo, e depois com os processos coletivos.
No palco os bailarinos nos entregam mais do que um corpo físico,  pois através das suas amarradas coreografias nos apresentam o corpo simbólico, o corpo mental, o corpo político, o corpo histórico;  e isso me leva a considerar o corpo que realiza atividade circense como um “corpo em estado de presença” o qual desenvolve uma prática não identificável com as outras artes, apesar de ter relação com todas: com teatro por toda a concepção do espetáculo e da cena, com a dança pelo caráter corporal e o movimento que permeia o espetáculo circense, com a música pelo ritmo que a constitui a base de todas as técnicas circenses, com as artes plásticas pelo conteúdo e pela construção de imagens e emoções. 
O espetáculo é uma suspensão poética, que retira o espectador do seu cotidiano para nos colocar literalmente nas alturas, buscando sempre superar limites dos corpos dos interpretes. 
Saí do teatro extremamente extasiado com a proposta do Circo Híbrido de construir um espetáculo que consegue traçar uma metáfora inteligente sobre o feminino presente na cena contemporânea. 

Ficha técnica:
Concepção, Direção e Orientação Coreográfica: Tainá Borges e Lara Rocho;
Elenco: Tainá Borges, Lara Rocho, Maílson Fantinel, Simone Balestro, Liss Larissa Andrade, Livia Iglin, Raquel Braun, Mariana Kich e Agatha Andriola;
Iluminação: Mirco Zanini
Operação de som: Vado Vergara
Cenografia e Montagens: Luís Cocolichio
Figurinos: Clarissa Marchetti
Produção e divulgação: Circo Híbrido
Registro de Imagens: Sal Fotografia
Design Gráfico: Mônica Kern

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

domingo, 7 de julho de 2019

CÁRCERE (SP)



TEATRO ESSENCIAL COM EXCELENTE ATUAÇÃO


por Diego Ferreira

O espetáculo "Cárcere" coloca em cena um solo de Vinícius Piedade para tratar de temas como a liberdade ou a ausência dela. Com texto de Piedade e Saulo Ribeiro a dramaturgia do espetáculo narra uma semana na vida de um pianista preso que entre narrativas e delírios traz a tona suas lembranças, anseios e reflexões  através de um diário onde ele imprime tudo isso. O trabalho de Piedade é extremamente essencial, pois parte de um trabalho atoral e a partir disso consegue grande comunicação com o espectador.
Falar de sistema carcerário, prisão e tentar entender o que o preso fez para chegar aquela situação geralmente pode levar a construção de narrativas pesadas, densas e percorrer outros caminhos, mas o solo "Cárcere" parte da mesma premissa mas vai para outros lugares, pois trata de tais assuntos com uma leveza e consegue divertir o espectador, graças ao texto que foge de clichês e até mesmo de julgamentos e também por causa do ator que tem total domínio do seu instrumento de trabalho, seu corpo/voz. Seu trabalho é construído através de micropartituras físicas e vocais que revela sua capacidade de se colocar no palco sem nenhum artificio de figurino ou cenários e sustentar um trabalho longo sem ser cansativo. E isso se deve também a capacidade de comunicação com o espectador que participa ativamente, seja dialogando com seu interlocutor, ou até mesmo iluminando boa parte da cena, através da utilização de uma lanterna, literalmente iedade está nas mães da platéia, ou a platéia em suas mãos. 
Todos os méritos da produção está no modo em que Piedade se coloca diante do espectador, como uma folha em branco, como seu personagem "Ovo" cita: "a liberdade é uma folha em branco". O "Cárcere" é uma alternativa dentro deste universo de clausura, usa folhas em branco e uma lanterna, estabelece uma reflexão sem apontar o dedo em riste para ninguem, mas investe em suas próprias realidades. Vinicius Piedade está nada menos que excelente neste espetáculo, que é maduro em todos os sentidos. Um teatro minimalista que alcança grande resultado.


FICHA TÉCNICA

Direção, iluminação e atuação: 
Vinícius Piedade
Texto:
Saulo Ribeiro e Vinícius Piedade
Trilha Sonora:
Manuel Pessôa
Concepção visual:
Márcio Baptista
Figurino:
Cynthia Guedes
Fotos:
Joffre Oliveira

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

quinta-feira, 4 de julho de 2019

JUNHO: UMA AVENTURA IMAGINÁRIA (RS)


REFLEXÃO FILOSÓFICA RICA EM DETALHES DIRIGIDO AS CRIANÇAS

por Diego Ferreira*

Um espetáculo que se dispõe a trazer a literatura para a cena através de uma dramaturgia que enfoca o livro e através dele os desdobramentos para criar uma aventura cênica pode parecer um tema batido? Sim, eu disse pode, porém não é o que acontece com o excelente "Junho: Uma aventura imaginária". Com dramaturgia e direção de Thiago Silva a produção é repleta de elementos que tornam o trabalho do jovem Coletivo Nômade, um espetáculo maduro e com uma concepção rica em todos os detalhes. A começar pelo texto, e que texto senhores, pois Thiago se inspira em referências estéticas e históricas diversas, tais como o personagem Frankenstein de Mary Shelley e a história da judia Anne Frank, além dos filmes Laranja Mecânica e da estética dos programas infantis dos anos 90, para criar uma história original sobre a Família Frank. A trama do espetáculo é repleta de aventuras, mas o mais interessante é a sutileza com que são tratados temas como as diferenças em relação a sua família diferente, a criatividade e imaginação, o estímulo a leitura, o aprisionamento de conhecimento, e que podemos utilizar como metáfora atual do país, onde educação não é levada a sério. Mas o espetáculo não trata apenas disso, mas sim de uma aventura repleta de tramas que me faz recordar aquelas histórias clássicas cheias de mistérios e enigmas e que sempre são resolvidas ao final. Em seu "Junho", Thiago resgata aquele bom teatro que faz o espectador pensar e refletir a partir dos temas abordados no palco. É bom teatro por isso, por estimular no espectador a imaginação sem cair nos clichês presentes no teatro infantil e mais do que isso, um espetáculo que é rico na teatralidade da cena. 
A estética do espetáculo é um verdadeiro deleite.  Jennifer Ribeiro e Jardel Rocha são os responsáveis pela caracterização e maquiagem e alcançam um resultado surpreendente, pois não há nada fora do lugar, todos os elementos, figurinos, maquiagem, cabelos e adereços estão a serviço da cena para contar a história da família Frank. Assim como a cenografia de Roger Santos que é funcional, rica em detalhes e ainda potencializa o jogo de sombras que é um dos momentos mais belos do trabalho. Henrique Strieder também colabora criando uma iluminação poética que trabalha com cores e texturas que valorizam o cenário e os figurinos em cena, criando através da luz as dimensões espaciais que o espetáculo se propõe. E quanto ao elenco, formado por Alessandra Bier, Ana Caroline de David, Hayline Vitória, Jardel Rocha, Leonardo Steffanello, Pâmela Bratz e Roger Santos estão simplesmente irretocáveis, pois através da caracterização e do trabalho físico e vocal que cada um desenvolve, conseguem nos transportar para outras dimensões. Todos do elenco estão irretocáveis, mas preciso destacar o trabalho de Jardel Rocha como Junho e Roger Santos como Tio Cosme e Antenor, pois suas construções estão maduras e apenas um degrau acima dos demais até mesmo em função das suas personagens serem o protagonista e o vilão que é muito cômico e rico em detalhes expressionistas. 
O Coletivo Nômade merece todos os aplausos por esta produção que agrada a todos pela qualidade de todos os detalhes que fazem de "Junho: Uma aventura imaginária" um daqueles trabalhos que vão ficar guardados na memória pelo forte apelo poético, estético e imagético, mas principalmente pela qualidade dos atores e direção.   


Ficha Técnica:

​

Texto e Direção Teatral: Thiago Silva

Elenco: Alessandra Bier, Ana Caroline de David, Hayline Vitória, Jardel Rocha, Leonardo Steffanello, Pâmela Bratz e Roger Santos.

Trilha Sonora Original: Régis Moewius

Operação de som: Thiago Silva

Caracterização Cênica e Maquiagem: Jennifer Ribeiro e Jardel Rocha

Cenografia: Roger Santos

Cenotécnica: Roger Santos, Jardel Rocha, Mariana Silveira, Rita Spier, Thiago Silva e Jennifer Ribeiro

Figurinos: Jardel Rocha

Iluminação: Henrique Strieder

Produção: Coletivo Nômade de Teatro e Pesquisa Cênica


*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle.