domingo, 11 de abril de 2021

QUE PALAVR4 SERÁ?

 


NOVAS POSSIBILIDADES EM BUSCA DE UMA PRESENÇA DIGITAL

por Diego Ferreira*

"Que palavr4 será?" é o primeiro filme produzido pelo GRUPOJOGO dentro da programação do Festival Oxigênio. Digamos que é um retorno ao universo beckettiniano proposto pelo inventivo GRUPOJOGO. Se lá em 2010 assistimos ao excelente "PLAY-BECKETT: Enquanto espero, jogo" onde corpos sujeitos a espera, a degradação física, a falta de sentido lógico nas sucessões banais, a imprecisão histórica e espacial submetidos a crises paralelas do corpo e da máquina pensante da existência, incapazes de comunicar-se como o restante da humanidade. E agora neste projeto ousado de produzir um filme em meio a pandemia e usar Beckett enquanto gatilho disparador para criação da narrativa é simbólico e atual, pois as PALAVRAS disparadas pelos performes são assustadoramente atuais e condizentes com o nosso tempo. Que tempo é esse em que vivemos? Que palavra será essa? Quais caminhos e perspectivas temos para um futuro próximo?
Esse momento de isolamento social tem muito a ver com o universo beckettniano, percebemos a atualidade e a força dos textos em questão e isso espanta, especialmente quando nos deparamos com cenários como esse em que nos encontramos agora: medo, aprisionamento, tensões,fim do mundo, isolamento. E sabemos que tem muito mais coisas a acontecer. Ainda não sabemos quando a pandemia vai acabar e com isso o retorno aos teatros e consequentemente a volta da arte da presença. Mas impossível assistir ao filme e dizer que ali não há presença. Existe presença e potencialidades. O que a pandemia trouxe consigo foi acalentar e refletir sobre as possibilidades de um teatro feito na e para as redes sociais. E em Porto Alegre tem artistas e coletivos que aproveitaram essa tecnologia a seu favor, e o GRUPOJOGO é um deles, talvez um dos poucos que tem obtido sucesso e produções muito bem resolvidas dentro dessas novas possibilidades, por dois motivos: por ser um dos grupos mais antenados, inventivos e com propostas ousadas em praticamente todas suas produções e por entender e aprimorar os mecanismos de produção desta arte digital. Nas produções que tenho acompanhado do GRUPOJOGO na internet não existe apenas um ator e uma camera feito de qualquer modo, o que existe é uma preocupação com todo o material que é entregue ao "tele-espectador". Um dos bons exemplos foi a adaptação do espetáculo "Deus é um DJ" para as redes e agora esse fime "Que palavr4 será?". O filme perspassa questões que englobam arte digital, ciberespaço, telepresença e virtualidade, além de uma narrativa que desvela diferentes camadas para refletir sobre a humanidade ou a falta dela, através de um dispositivo  que combina simultaneidade, profusão de imagens e que em muitas vezes me remeteu a estética de sérias pós-apocalipcticas como "Black Mirror". 
Estética e qualidade de toda a equipe deste filme, desde a presença do elenco, a direção e captação de imagens e trilha sonora que nos catapulta para o tempo/espaço atemporal, mas atual do projeto. Profusão de imagens, e ótimas imagens, elenco bem preparado, vivo e transbordando presença, mesmo que virtual, mas existe uma vida ali naqueles corpos, naquelas bocas que produzem uma enxurrada de palavras, naqueles olhos que através deles conseguimos enxergar a humanidade que muitas vezes está desacreditada, como numa das frases ditas por uma das vozes: "não somos mais nós mesmas, somos qualquer um". 
 Já disse outras vezes e volto a dizer que o GRUPOJOGO é um dos coletivos mais inventivos do estado e sempre nos surpreende com suas pesquisas e propostas estéticas. 

QUE PALAVR4 SERÁ
Inspirado nas obras de Samuel Beckett
HOJE ÀS 20 HORAS
no canal @grupojogo no Youtube (link na bio)
QUE PALAVR4 SERÁ?
ELENCO: @ninaalves.cabral , @cristine_patane @juliaamoreira e @pebspoa
Sinopse: A humanidade será descartada, assim como seus pensamentos e suas memórias, nada vai restar, isso é um fato. Procuramos apenas um adjetivo para conceitualizar o momento que estamos vivendo.
Direção @alexandredill e @@gabrielrpontes
Direção de fotografia/ desenho de som/ Iluminação e mixagem: @riquelstrieder
Montagem/ efeitos visuais e coordenação de pós produção: @gabrielrpontes
Direção de arte e Trilha Sonora Pesquisada @alexandredill
Preparação de elenco: @@guilhermeconrad
Produção: GRUPOJOGO
Trabalho de conclusão da oficina de Criação e Montagem do @grupojogo 2/2020

*Diego Ferreira é Dramaturgo, Diretor, Professor e Crítico Teatral. Graduado em Teatro UERGS/2009. Estudou Letras na FAPA/2002.  Coordena o Núcleo de Dramaturgia do Espaço do Ator. Editor do blog Olhares da Cena. Participou do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É integrante da GiraDramatúrgica - Grupo de Estudos em Dramaturgia Negra coordenado por Carlos Canarin. Professor da escola Espaço do Ator e da UNISINOS.

sábado, 10 de abril de 2021

CURSO FORMAÇÃO DE ATORES ESPAÇO DO ATOR

 



SOBRE O CURSO

 

Mais do que formar grandes atores e atrizes, o Curso de Formação de Atores preocupa-se em preparar seus alunos para viver como artistas, o que requer atenção, compromisso, disponibilidade, rigor e criatividade. O trabalho no Curso pauta-se pela formação de profissionais qualificados tecnicamente, artistas autônomos, comprometidos ética e politicamente com o mundo em que vivem capazes de articular questões importantes de seu tempo em sua produção artística e contribuir, à sua maneira, para a invenção de novas formas de viver no mundo. A Formação de Atores é um curso com duração de dois anos. Esse curso profissional de Formação de Atores tem parceria com o Sated-Rs e ao final do curso possibilita ao aluno o DRT - Registro Profissional Provisório de Ator.

 

DISCIPLINAS

INTERPRETAÇÃO TEATRAL

Consiste em um estudo teórico – prático sobre a interpretação teatral.

 

TEORIA E HISTÓRIA DO TEATRO

Estudo da história do teatro desde a antiguidade até os dias atuais com especial atenção ao trabalho do ator nas principais tradições teatrais.

 

JOGO E IMPROVISAÇÃO TEATRAL.

Estudo de técnicas corporais de reconhecimento individual, espacial e da relação do coletivo.

 

INTRODUÇÃO A PRODUÇÃO TEATRAL

Introdução a produção de espetáculos desde a escolha do texto até a finalização de um projeto.

 

GÊNEROS TEATRAIS

Abordagem teórica e prática de diversos gêneros teatrais ao longo da história.

 

INTRODUÇÃO DRAMATURGIA

Estudo teórico-prático para o entendimento do texto teatral e a estrutura de cenas.

 

MAQUIAGEM, CARACTERIZAÇÃO E MAQUINARIA DO TEATRO

Permite ao aluno o contato intenso e aprofundado com uma técnica de maquiagem e acessórios cênicos para ser utilizada nos espetáculos. Estudo sobre a maquinaria e efeitos especiais de luz, sonoridades e palco.

 

TEORIAS DO TRABALHO DO ATOR

Estudo teórico- prático sobre o ator criador no século XX.


MINISTRANTE

Professor: Diego Ferreira[1] e Cândida Bazanella²   

Horário: Terças e Quintas das 19:00 as 22:00 hs                           

EMENTA

Uso da improvisação teatral, corporal e vocal para a elaboração de um processo criativo em teatro. Este primeiro módulo da formação de atores partirá do uso da improvisação e jogos teatrais para a integração da turma e seus desdobramentos na elaboração de um processo criativo. Realização de um exercício teatral para ser apresentado no final do semestre.

OBJETIVOS

- Realizar um exercício teatral a partir de improvisações dos alunos.

- Experimentar o uso de técnicas vocais.

- Experimentar o uso de técnicas corporais.

- Experimentar o trabalho relacionado ao estado de jogo, prontidão, disponibilidade e imaginação.

- Aprofundar o trabalho do ator nas questões relacionadas a teoria e prática.

Analisar e experimentar a ação física.

 

CONTEÚDO PROGRAMÁTICO

 

Aulas de caráter prático com exercícios coletivos e individuais, onde serão abordados os seguintes conteúdos: jogo e brincadeira, improvisação, estado de jogo, canções... Aulas teóricas, seminários expositivos, aulas com professores especialistas convidados.

PUBLICO ALVO

Pessoas a partir dos 14 anos.

DIAS, HORÁRIO E CARGA HORÁRIA

Data de início: 15 de Abril /2021.

 

Data de término: 15 de Dezembro/2022.

 

Dias de aula: 160 aulas.

Carga horária: 480 h/aula

 

 

 

 

 

 

 

 

 

VALOR

R$ 50,00 Taxa de Matrícula

R$ 180,00/mês

Taxa de produção: R$ 200 / cada 5 meses/ destinado a produção de cada espetáculo.

 

 

LOCAL

Espaço do Ator – Rua Veador Porto, 241 Bairro Santana junto ao Sindicato dos Gráficos.

 

INFORMAÇÕES E INSCRIÇÕES 

Espaço do Ator E8scola de Teatro – Rua Veador Porto, 241 Bairro Santana.

Telefone: (51) 996.628.688 watsapp

E-mail: contatoespacodoator@gmail.com ou pelo www.espacodoator.com

 

Ministrantes:

Diego Ferreira – DRT 10706

Graduado em Teatro na UERGS/2009. Dramaturgo, Crítico e Professor de Teatro. Integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. Integrante da GIRADramatúrgica: Grupo de Estudos em Dramaturgia Negra, coordenado por Carlos Canarin. Coordenador do Núcleo de Dramaturgia do Espaço do Ator. Professor das disciplinas de Expressão Corporal I e II no Unilasalle (Canoas), Professor no Curso “Desibinição através do Teatro” na Unisinos (São Leopoldo), professor no Curso de Formação de Atores do Galpão de Artes (Canoas). Professor do Curso de Formação de Atores no Espaço do Ator. Foi crítico convidado do Festival de Teatro de Montenegro nas edições de 2012 e 2014. Em 2013 foi integrante da Comissão do Prêmio Mais Teatro, concedido pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Iniciou a sua trajetória no teatro em Porto Alegre em 1995, desde então vem aprimorando seus conhecimentos na área teatral. Dirigiu vários espetáculos teatrais dentre os quais: “Essa propriedade está condenada” 2014/2015, “Tempos Perdidos” 2011, “Assovio no vento escuro” em 2010, baseado na obra de Clarice Lispector, “Wilma e Elza” em 2009 que circulou por 25 cidades do Rio Grande do Sul, “Travessia” (2010). Dedica-se também aos blogs Válvula de Escape e Olhares da Cena, um espaço virtual dedicado as artes cênicas do estado, além de fazer a cobertura de festivais de teatro exercendo a função de crítico teatral. Recentemente foi indicado ao Prêmio de Melhor Ator Coadjuvante no Festival de Gravataí por sua atuação em “A filha da escrava”. O mesmo espetáculo foi o grande vencedor do festival de Osório nas categorias Melhor Espetáculo, atriz, atriz coadjuvante, figurino e iluminação. Em 2015 o espetáculo “Essa propriedade está condenada” obteve 9 indicações no Festival de Osório vencendo nas categorias Atriz e Iluminação. Em 2016 dirige a esquete “CICATRIZ” apresentada no Congresso da Feessers. (IN)SÔNIA, PLUFT, A MALDIÇÃO DO VALE NEGRO E PLATAFORMA K.

 

 

  CÂNDIDA BAZANELLA – DRT 6640

Atriz, desde 1997, iniciou sua carreira como atriz em Lajeado. Onde fez parte dos grupos: Boca de Cena e Sem Nome; Só Teatro com diversas montagens. Em Porto Alegre, participou de oficinas com: Oi Nóis Aqui Traveis, Celso Frateschi, Ligia Rigo, Paulo Flores, Daniel Terra, Fernando Kike Barbosa entre outros. Em 2007 ganhou prêmio de melhor atriz no festival de Estância Velha com a Cia Renascença, com o espetáculo Ana Fierlig adaptação do texto Mãe Coragem de Bertold Brecht. Em 2008 participou da oficina O Corpo como Fronteira com Renato Ferracini e em 2011 o curso de Mimese Corpórea com Raquel Scotti Hirson ambos do grupo LUME, em Campinas – SP. Trabalhou por dois anos na Casa de Cultura Mario Quintana. Graduada em teatro: licenciatura na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS). Fundou, em 2012, o grupo, Cia Oníricos de Teatro, no qual foi diretora da peça Edward: O Retorno, com diversas premiações no Festival Art In Vento e indicação de melhor direção e atriz no Prêmio Açoriano de Porto Alegre. Lecionou em projetos sociais como o Projovem Adolescente e a Cufa (Central Única das Favelas). Lecionou teatro na Escola Nossa Senhora do Cenáculo, Casa Cultural Tony Petzhold, Galpão das Artes, ONG Coletivo Feminino Plural, Clube de Cultura, Estação Musical, onde roteirizou e dirigiu o musical, Estação do Rock. Atualmente leciona e dirige espetáculos na escola de teatro, Espaço do Ator, escola fundada por ela, em 2016. Espetáculos dirigidos “O Julgamento do Palavrão”, “Conte-me sobra a Capital”, “Holocausto do Amor”, “O feitiço da Bruxa má”, “O Bulling e suas ofensas”.

 

 

 

 

 

 

 



[1] DRT nª 10706. Graduado em Teatro pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul - UERGS. Em 2012 e 2014 foi o crítico do Festival Montenegro em Cena – Professor de teatro no Galpão de Artes e na Unisinos. Coordenador do Núcleo de Dramaturgia do Espaço do Ator.

² DRT n° 6640. Graduada em Teatro pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul- UERGS. Atriz desde de 1997, professora e diretora teatral em diversas escolas e projetos sociais. Atualmente professora, diretora e fundadora da escola de teatro Espaço do Ator.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

TROPEÇO - Resenha do livro de Anderson Feliciano

 


“Tropeçando em pequenos amontoados de terras”


por Diego Ferreira*


"Tropeço" de Anderson Feliciano lançado pela Editora Javali surge e apresenta-se como um conjunto de textos-ilhas performáticos que os possibilitou pensar sobre a complexidade de estar negro no mundo e fabular outras linguagens. O livro é composto por três textos curtos: “Pequeno tratado amoroso”, “Apologia III” e “Outras Rosas”. O tempo espiralar a partir do conceito da Leda Maria Martins revela um estudo que avalia a temporalidade na filosofia africana. “O tempo ocidental é plasmado nas palavras e tem uma articulação de início-meio-fim. Já no tempo africano o passado e o futuro dialogam resultando num presente”.  E creio que Feliciano dialoga com essa articulação africana aliada aos afetos construídos a partir do projeto apresentado na bela edição que também utiliza a dramaturgia da imagem, através de uma memória fotográfica, mergulhando em registros familiares e agindo como forma de ruptura de uma estrutura aristotélica. A escrita avança enquanto articulação estética e retorna ao passado não como uma tentativa vazia de resgate de memórias, mas na tentativa de apreender o que pedia outro devir. Ainda hoje existe o pensamento equivocado de que a produção de narrativas pretas discorre apenas sobre determinados temas como mazelas sociais, dores e lutas, muitas vezes inserindo essa produção dentro de um folclore estático e histórico, compreendendo que essa produção possui formas e conceitos estéticos rígidos, que uma vez estabelecidos, propagam a falsa acepção do que é ou não dramaturgia negra. "Tropeço" rompe com esse imaginário de construção dramatúrgica que muitas vezes alicerça o texto apenas na construção e sustentação de uma fábula, nos lançando nesse arquipélago de pequenas ilhas e através delas conseguimos mergulhar num oceano de complexidades e afetividades que são materializadas a partir do tecido imagético proposto no livro. E esses textos-ilhas são potencializados quando associo ao legado de Maria Beatriz Nascimento que nos conduz a uma reflexão sobre sua relação com o oceano atlântico, a sua relação com essas pequenas ilhas, esses pequenos amontoados de terras, partindo da idéia de travessia e retorno como maneiras de resgate e conexão com ancestralidades africanas. Cabe aqui pensar na importância do mar para as cosmologias africanas e afro-brasileiras, como esse lugar imenso e portal de energias ancestrais, e essa configuração de "textos-ilhas" ou “pequenos amontoados de terra” apresentada por Feliciano me coloca nesse lugar de ancestralidade, de resgate de suas histórias pessoais, da relação com o pai e suas memórias coletivas. Esses pequenos amontoados de terras funcionam como recortes que não dialogam entre si, mas dialogam com o todo. E assim como temos uma relação ancestral e metafórica com a água, falar de “amontoados de terra” é também falar de lugar ou não-lugar, da terra que nos foi retirada e negada, e com isso essas pequenas ilhas contribuem para o povo negro ser o dono da sua terra, da apropriação da sua narrativa e o mais importante é o modo que essas narrativas são escritas, colocadas no tempo/espaço, pois a escrita de Feliciano surpreende justamente por nos apresentar um texto que se furta de apropriações e reinterpretações de suas próprias memórias, mas vai além como no texto experimental e performático “Outras Rosas” que faz uso da repetição de apenas uma frase “eu não penso que deveria ter que me levantar” que além de ter uma diagramação diferente dos demais textos, faz um paralelo com a vida de Rosa Parks e é de uma potencialidade e tessitura narrativa ímpar e minimalista, pois lida com a questão da repetição, do tempo/espaço, de uma elaborada construção arrojada que se ancora no experimental mas que explode em múltiplas sensações na recepção.  “Pequeno tratado amoroso” é o texto que abre o livro e é altamente poético, um texto construído e dividido enquanto exercícios, mas que não perde na essência poética que dialoga com a primeira pessoa de Anderson, mas que também produz ficções a partir de experimentações do real. Já “Apologia III” traz fragmentos pequeninos de textos, mas imagens de grande potência que constroem esse universo imagético a partir dos registros fotográficos presentes na edição.  

“Tropeço” nasce num tempo onde existe uma disponibilidade para o exercício e fruição de escritas para a cena e soma-se a uma excelente safra de dramaturgos que tem produzido novas possibilidades de escrita para a cena criando novos horizontes para o teatro brasileiro contemporâneo. É poético, plástico, inovador e profundo na mesma medida. Que Anderson Feliciano possa estar nas listas de leitura de muitos artistas e ficamos aguardando seus próximos textos na certeza de mergulhar em terras dantes nunca habitadas.   


*Diego Ferreira é Dramaturgo, Diretor, Professor e Crítico Teatral. Graduado em Teatro UERGS/2009. Estudou Letras na FAPA/2002.  Coordena o Núcleo de Dramaturgia do Espaço do Ator. Editor do blog Olhares da Cena. Participou do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É integrante da GiraDramatúrgica - Grupo de Estudos em Dramaturgia Negra coordenado por Carlos Canarin. Professor da escola Espaço do Ator e da UNISINOS, na extensão.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

REVERB (FIN/BRA)

 


Por Diego Ferreira*

 

Paisagem

Corpos a margem abandonada

Preto

Branco

Preto

Trapiche

Imagem bucólica

Águas

Frio

Lá fora a neve

Contraste

Contraste da neve e o negro dos corpos

Preto e branco

Cabelos

Verde

 

Há muita simbologia neste REVERB, no rio que passa e não volta e nos corpos que correm e voltam. Existe muito afeto na relação destes corpos com o espaço e isso é muito forte e representativo. Corpos negros dançando na neve é muito representativo. É político. Dialoga com a performance anterior de “Corpos Ditos” com a idéia do passaporte  e das pessoas em mover-se. É importante se mover.  A vídeo-performance utiliza uma estética sem cor e isso reflete justamente na cor. Os corpos tem cor. O espaço tem cor. É o corpo negro se deslocando num espaço branco repleto de neve. Percebe as múltiplas possibilidades que uma única obra pode possibilitar? E isso é fantástico. “Reverb” é tão poético e belo. Ancestral e simbólico. Quando assisto a performance me permito a senti-la ao invés de tentar encontrar justificativas racionais que venham a dar conta de efêmero que acontece ali.  O rio passa, mas os corpos permanecem. E permanecem dançando, o que de fato é um ato político. Reverb fez o encerramento da mostra Cura de forma grande. Uma performance que me provocou e deixou na minha memória uma série de caminhos a trilhar no campo das artes.

 

 

Direção:Ana Paula Mathias

Coreografía:Mario Lopes e Malu Avelar

Trilha Sonora: Erica Navarro

Gravação e Mixagem:Adonias Souza Júnior

Gravação e Mixagem:Adonias Souza Júnior

Desenho Sonoro:Ruben Valdes

Intérpretes: Mario Lopes e Malu Avelar

Formato de realização: Videodança

Duração:60 minutos

Duração:10 minutos

Classificação:Livre

 

                                                                                                                                                                           

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve críticas no blog Olhares da Cena. Integrante da GIRADRAMATÚRGICA – Grupo de Estudos em Dramaturgia Negra. Integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. Foi jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle.                                                                                                                     

 

CORPOS DITOS (RS)

 


Por Diego Ferreira*

Quando comecei a estudar sobre o negro no teatro, ainda dentro da universidade a principal dificuldade era encontrar bibliografia e referências a respeito do tema e principalmente vislumbrar na cena corpos negros em ação. De minha parte, havia um total desconhecimento dessa história e da complexidade que ela encerrava. Essa compreensão só veio se dando na construção de sentidos no tempo e espaço. E em Porto Alegre no que se refere a teatro negro o Caixa Preta é um dos coletivos que abriram portas a muitos artistas que hoje exercem o seu trabalho e na atualidade o Pretagô é uma forte e agradável referencia por se engajar na luta do enfrentamento ao racismo a partir de vozes e corpos que trazem novos ângulos ao discurso negro nas artes cênicas, o que se constitui numa excelente oportunidade para aprofundar reflexões.

Por essa razão, considero “Corpos Ditos” uma afronta a tudo o que temos passado neste ano pandêmico. Trata-se de uma reunião de pretos celebrando nossos discursos. A partir da investigação de elementos que caracterizam a performance arte em acordo com a poética desenvolvida pelo Pretagô, os performers exploram imagens e áudios captados através de seus smartphones e criam cenas motivadas por um discurso escolhido por eles. E isso provoca um grande impacto, pois cada ator provocados por estímulos que desconhecemos criam uma performance a partir do seu lugar de fala e “de casa”. E cada quadro nos provoca a partir das imagens propostas e dos textos e narrativas que existem em cada ação. Cosmovisões negras que firmam territórios de embates e sutilezas. “Corpos Ditos” é de uma singeleza e ao mesmo tempo de uma potência aterrorizante, como aparece num dos quadros essa palavra: “aterrorizada”, no sentido de perder as esperanças. Ao acompanhar e assistir o Pretagô minha esperança é renovada pois existe um trabalho muito sério e muito atual.

“Mover-se é um milagre”

“Mover-se dói.”

É bastante representativo o quadro em que o Bruno aparece com um passaporte e seu discurso fala de mover-se. É representativo. É triste e feliz ao mesmo tempo justamente pela questão de mobilidade  e as possibilidades que temos em mover-se pelo país e mundo. Assim como toda a proposta tem uma dimensão do que é ser negro no Brasil. E do que representa ser artista negro no Brasil. Sons, textos, discursos, imagens, corpos. Negros. Corpos negros em deslocamento. Corpos negros se movendo. Corpos negros se movendo para curar toda e qualquer dor que esses corpos carregam. A parformance tem humor, ancestralidade, sustentabilidade, metáforas que constroem leituras pretas do momento que vivemos. E tudo tem poesia, beleza e embate. Tem diversidade. Afeto. Sutileza. Liberdade. “Corpos Ditos” é uma pausa em nosso cotidiano para parar, sentir e refletir sobre o nosso lugar dentro da sociedade. Um momento belo para celebrar a vida através dos corpos ditos e também dos malditos. O importante é celebrar e isso o Pretagô tem feito.

 

 

 

Direção:Bruno Fernandes e Silvana Rodrigues

Autoria: Pretagô, baseado em discursos de diversos autores

Elenco:Bruno Cardoso, Camila Falcão, Kyky Rodrigues, Laura Lima, Manuela Miranda e Thiago Pirajira

Trilha Sonora: João Pedro Cé e Vini Silva

Direção e edição de imagem: Marina Kerber - Macumba Lab

Fotografia: Anelise De Carli

Produção e Realização:Grupo Pretagô

Duração:36 minutos

Classificação: 14 anos

                                                                                                                                                                           

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve críticas no blog Olhares da Cena. Integrante da GIRADRAMATÚRGICA – Grupo de Estudos em Dramaturgia Negra. Integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. Foi jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle.                                                                                                                     

ORI ORISTÉIA – UM RITO SACRIFICAL (RS)

 


Por Diego Ferreira*

 

A presença do grupo Caixa Preta na CURA é bastante significativa por se tratar de um grupo que abriu portas e possibilidades da representatividade de muitos artistas negros da cidade Porto Alegre se enxergarem no palco e ver que é possível estar nesse espaço também e ser representativo. O Caixa Preta também foi o responsável de realizar o Matriz - Encontro de Arte de Matriz Africana em Porto Alegre, importante encontro que promoveu encontros, espetáculos e reflexões que com certeza teve desdobramentos que muitas vezes não conseguimos nem mensurar mas o que é possível perceber que a cena gaúcha está mais negra e isso é reflexo destas iniciativas. Assistimos “Ori Oristéia” por questões técnicas que impediram de acontecer outra ação agendada. Rever o trabalho faz resgatar toda teatralidade que é muito característica nos trabalhos do grupo dirigido por Jessé Oliveira. Assistimos o espetáculo em formato digital numa gravação com uma câmera fixa e de um plano geral, o que para o espectador que não assistiu a montagem de modo presencial impede de perceber expressões e nuances dos atores que no presencial são fantásticos e que envolve o espectador justamente por isso. Mas neste formato percebemos o pulso forte que Jessé tem enquanto encenador e vislumbramos toda a engrenagem cenográfica que utiliza vários planos. Conseguimos captar também o canto forte do elenco e uma gama de imagens que recriam o universo da trilogia Orestéia recriadas aqui por um universo pop aliados ao universo dos ritos de matriz africana. Esteticamente é potente e extremamente atual e espero ansioso que o Caixa Preta retorne aos palcos juntamente com toda a sua pesquisa séria de linguagem que faz dele um dos grupos mais emblemáticos do nosso teatro.

 

Direção:Jessé Oliveiras

Assistente de direção:Juliano Barros

Elenco / Performers:Adriana Rodrigues, Diego Nayà, Éder Rosa, Glau Barros, Juliano Barros, Marcelo de Paula, Mariana Marmontel, Pâmela Amaro, Viviane Juguero e Wagner Madeira

Dramaturgia:Viviane Juguero

Argumento: Jessé Oliveira

Consultoria teórica:Barbara Kastner (Alemanha)

Trilha sonora original:Viviane Juguero e Grupo Caixa Preta

Colaboração nos arranjos e sonoplastia:Wagner Madeira e Diego Naià

Consultoria musical: Álvaro RosaCosta

Cenário:Rodrigo Shalako

Artista Gráfico:Waldemar Max

Iluminação:José Luis Fagundes Kabelo

Assistência em preparação corporal:Éder Rosa

Direção de Produção e Elaboração do Projeto:Jessé Oliveira Produção

Produção:Silvia Abreu

Duração:1h55 min

Classificação: 14 anos

 

 


*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve críticas no blog Olhares da Cena. Integrante da GIRADRAMATÚRGICA – Grupo de Estudos em Dramaturgia Negra. Integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. Foi jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle.