quinta-feira, 25 de setembro de 2014

AS CINCO PONTAS DE UMA ESTRELA TORTA (RS)


Texto criativo em montagem destoante"

" As cinco pontas de uma estrela torta" trouxe poesia imagética para o palco do Montenegro em Cena. O inicio do espetáculo é de uma beleza extraordinária, assim como muitos momentos da peça. A direção do espetáculo consegue ser precisa, pois a peça tem ações e marcações extremamente limpas, num espetáculo belo, porém extremamente rígido em sua composição, a começar pela dramaturgia que em sua concretude não é de fácil entendimento. A narrativa se estrutura a partir da vida de Savine, e sua vida é contada através das três fases de sua vida: infância, adolescência e adulta, sendo que estas três facetas são colocadas em cena de modo separados e em outros momentos estão as três facetas em cena, evidenciando a reflexão poética a cerca da humanidade. O texto é muito bom, pois coloca no mesmo caldeirão reflexões acerca de filosofia, física quântica, ciência e arte. Os diálogos são ásperos as vezes, em outros momentos são depoimentos, contribuindo para a concretização de uma cena que pulveriza questões teatrais contemporâneas. 
A iluminação tem um papel fundamental, pois consegue ser um signo bastante presente na composição da cena, cuidando apenas para em determinados momentos dosar a sua utilização, assim como a trilha sonora, que é linda, porém utilizada de forma demasiada, faltando a peça, momentos de silêncio, onde a cena possa respirar e crescer com isso. 
Outra questão é a linearidade como são tratados os textos, falta criar cores, climas e intensidades diversificadas diferentes das que já foram atingidas. E elenco bom se tem para efetivar isso. Destaco no elenco a presença de Marta Brito, a Savine adulta, pois sua presença em cena é hipnotizante, com ações comedidas e sutis, tem força e presença cênica surpreendente. Ana Sphor e Bruna Johan também tem registros interessantes e Juliano Rangel enquanto urso é um pouco caricato, mudando quando entra como Cristovão. 
"As cinco pontas..." é tocante, bonito e complexo em sua essência e em seus textos bem estruturados, que consegue elevar a qualidade do festival, trazendo um espetáculo com uma outra linguagem, que não é a que estamos acostumados a ver em festivais. Que bom que temos grupos assim, que pesquisam e não se deixam levar por propostas fáceis e de resultados rápidos. 

Duração: 45min Diretor: Maurício Fulber
Autor: Maurício Fulber Classificação etária: 12 anos
Contra-regra: Claudir Fulber
Operador de Som: Maurício Fulber
Criador da trilha sonora: Maurício Fulber
Operação de luz: Casemiro Azevedo
Criador da iluminação: Casemiro Azevedo
Maquiador: o grupo
Criador da maquiagem: André Schenkartkzuk
Figurinista: Vergílio Lopes
Cenógrafo: Vergílio Lopes
Elenco 
Ana Spohr Savine Criança
Juliano Rangel Dante/Cristóvão
Martha Brito Savine Adulta
Bruna Johann Savine Adolescente



LA VITTA É VECCHIA (RS)


REMINISCÊNCIAS DE UMA VELHA SENHORA

"La vitta é vecchia" é um espetáculo solo onde Luise Scherer personifica a figura de Dona Firmina, uma velha senhora que vive solitária em sua casa e para passar o tempo trás a tona suas reminiscências.
Luise consegue sustentar sua figura durante todo o espetáculo, o que falta a montagem é a definição de uma dramaturgia que consiga amarrar as diversas histórietas que estão em cena. Em muitos momentos a narrativa se impõe através de uma descrição, por exemplo: quando ela diz, vou tomar vinho, e o mais interessante seria transformar essa descrição em ação. Outro problema é a direção de Régis D'ávila que tem um material potente em suas mãos, porém não consegue explorá-lo de modo a transformar a encenação em algo que consiga ao mesmo tempo divertir a platéia e mostrar a que veio a personagem. As cenas não conseguem criar uma dramaturgia que auxilie a mostrar as diversas facetas desta figura, são fragmentos soltos que muitas vezes não levam a nenhum lugar. 
Penso ainda que algumas cenas em que abre para a platéia o jogo se fragiliza e não se estabelece. A ideia de passar o biscoito aos seus visitantes é boa, porém dependendo do tipo de plateia o jogo pode não se efetivar, como acontece de certo modo em Montenegro.
As ações de Firmina não são orgânicas e muitas vezes tendem a colocar a figura no esteriótipo da velha. 
O cenário realista ao extremo prende um pouco a atriz, sendo que uma dica fosse o grupo apostar mais na teatralidade da cena, onde cenas como a do rádio possam ganhar mais espaço na peça.  
Penso que este espetáculo possa ganhar muita força ao investir primeiro numa dramaturgia mais redondinha, segundo numa direção que não deixe a atriz tão solta e terceiro que pudesse ser apresentado num espaço mais intimista, com uma platéia reduzida, para que a comunhão possa acontecer efetivamente.

Diretor: Régis D’Ávila
Autor: Luise Scherer e Régis D’Ávila
Classificação etária: 12 anos
Contra-regra: Luciano Gabbi
Operador de Som: Jeferson Ilha
Criador da trilha sonora: Folclore italiano
Operação de luz: Régis D’Ávila
Criador da iluminação: Régis D’Ávila
Maquiador: Camila Borges
Criador da maquiagem: Camila Borges
Figurinista: Cândice Lorenzoni
Cenógrafo: O grupo

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

A MOÇA BONITA DA LINHA DO TREM (RS)


Megera domada dos pampas

"A moça bonita da linha do trem" é o espetáculo de abertura do 3° Montenegro em Cena, e na minha opinião começamos os trabalhos muito bem. O espetáculo traz a cena a história de amor de Maria Helena e Danilo, história essa que tem como pano de fundo a colonização da região de origem do grupo. 
O espetáculo é cheio de méritos a começar pela direção presente e eficiente de Marcos Cardoso, que consegue articular muito bem todos os elementos da encenação, assim como o elenco numeroso (14  jovens atores). 
Quando o espetáculo começa salta aos nossos olhos o imenso cenário, que além de ambientar a peça tem um papel fundamental no andamento da história. Ele auxilia nas trocas de ambientes e climas e tem um serviço de contra-regragem bastante eficiente e preciso, realizado pelos próprios atores. Esta contra-regragem é o momento onde a teatralidade aflora na cena, é o momento em que os atores despojam-se de suas figuras para brincarem de fazer teatro, é o momento da quebra da ilusão, e isso é bastante positivo. O cenário móvel valoriza as cenas de ação e joga com o poder da imaginação do espectador, pois sugere a presença de um trem, provocado apenas pelo movimento de vagões e lanternas, assim como as galinhas dentro da gaiola, ou seja, elementos que estão presentes, mas provocados pelo imaginário criado pelo espetáculo. 
Outro destaque é a dramaturgia que consegue criar uma narrativa que contemple tanto os elementos regionais que é um dos motes de pesquisa do grupo dentro de uma chamada Trilogia Campestre (esta é a segunda parte da trilogia), e consegue contemplar o elenco, distribuindo as figuras criadas, onde cada um tem um papel fundamental dentro da peça.
Como é bom ver um trabalho continuado com atores na faixa de 10 a 17 anos... É engraçado falar isso, trabalhado continuado com pequenos, mas neste trabalho percebemos no palco, as peculiaridades que são advindas desta prática.
A encenação é de uma limpeza na sua concretização, tudo está a serviço da cena conduzidos por um tempo-ritmo ideal para se contar a história. A iluminação é pontual sem grandes movimentações e trocas, assim como a trilha que tem o papel de pontuar as ações e trocas de cenas, as vezes utilizada de forma demasiada, as vezes para tentar provocar através da inserção sonora a emoção do público, fato que é desnecessário, senão vira melodrama, fica over, fato que não chega a comprometer, pois a ação já está me dando estes elementos direto na cena que não seria preciso de interferência sonora.
Os figurinos estão totalmente dentro da proposta da encenação, sem exageros, simples, porém conseguem dizer muito a respeito de cada figura representada. 
As passagens de tempo são de uma sutileza poética que pela forma como são executadas cativam o espectador e voltar com o casal de enamorados ao final do espetáculo dá uma sensação de circularidade, pois aquele casal do final pode ser o mesmo lá do inicio, ou até mesmo pode ser um novo casal, até mesmo seus filhos, pois histórias assim sempre costumam acontecer.
E quanto ao elenco, posso dizer que seguramente é coeso na sua totalidade, todos estão entregues, não há como dizer que ator A é o principal e o B é coadjuvante, pelo fato que a direção consegue equalizar muito bem o jogo e a construção destas figuras, evidenciando o que cada um tem de melhor, e isso é tão bom de se ver em cena, quando todos conseguem brilhar a serviço da encenação. 
O espetáculo está de parabéns, pela proposta de colocar no palco as suas histórias, seus dilemas, suas memórias construindo uma dramaturgia que se alimenta do seu chão, sua terra. O texto tem inspiração em "A megera domada" de Shakespeare, mas apenas parte de inspiração e motes, criando uma história totalmente original e bem diferente da do Bardo, conseguindo um resultado totalmente positivo. Está de parabéns por colocar em cena atores tão jovens (o mais novo tem 10 anos), e tão íntegros e entregues no seu ofício. 
Vida longa ao Deixa Quieto e viva a diversidade cultural e regional!!!
   
Diretor: Marcos Cardoso


Autor: Marcos Cardoso

Contra-regra: o Grupo
Operador de Som: Marcos Cardoso
Criador da trilha sonora: Marcos Cardoso
Operação de luz: Lenin Souza
Criador da iluminação: Dionatan Rosa
Maquiador: Mirella Renner
Criador da maquiagem: Mirella Renner
Figurinista: Marcos Cardoso
Cenógrafo: Marcos Cardoso













segunda-feira, 4 de agosto de 2014

BUKOWSKI - HISTÓRIAS DA VIDA SUBTERRÂNEA (RS)

Foto: Izabel L.

Propriedade e profundidade em transposição teatral

Assim como a obra de Bukowski é minimalista, o espetáculo “Bukowiski – Histórias da vida subterrânea” é extremamente minimalista e detalhista. O grupo Depósito de Teatro faz um mergulho vertical na obra do autor maldito e refaz sua vida através de fragmentos de uma obra estilhaçada e pautada por uma literatura autobiográfica. 
A obra de Bukowiski é de um estilo extremamente livre e imediatista, não transparecendo demasiadas preocupações estruturais. Dotado de um senso de humor ferino, auto-irônico e cáustico. E a encenação do Depósito vai direto neste ponto, sendo extremamente fiel a este universo Bukowiskiano, recriando no Teatro de Arena uma atmosfera que auxilia ao espectador a adentrar no clima da história. A produção espalha por todo o teatro dezenas de garrafas de bebidas, embalagens de cigarros vazias e uma cama que avança pela plateia; além de uma geladeira, responsável por refrigerar as bebidas consumidas pelos atores durante o espetáculo. 
A dramaturgia de Modesto Fortuna é pautada pela fragmentação, utilizando recortes da obra do autor, conseguindo concentrar no espetáculo uma obra que teria diversos caminhos a serem escolhidos, porém penso que a estrutura proposta por Fortuna foi muito acertada, pois trás a cena episódios fragmentados, mas pela forma como foi costurada demostra exatamente um Bukowski humano, com as suas fraquezas e qualidades expostas, trazendo a tona personagens marginais, prostitutas, sexo, alcoolismo, ressacas, corridas de cavalos, pessoas miseráveis e experiências escatológicas através de uma verborragia que dá o tom ao trabalho. 
Após assistir ao espetáculo penso que este projeto pode (senão é?) ser considerado um projeto de vida de seu mentor Roberto Oliveira, pois o resultado é de tamanha propriedade e profundidade que é difícil pensar este projeto sendo executado por outros artistas de Porto Alegre. Digo isso e abro um parênteses para falar que acompanho a trajetória do Roberto frente ao Depósito há algum tempo, e que nas tradicionais Bagasextas já havia ali um pouco deste universo anárquico Bukowskiano, lógico que tratava-se de coisas totalmente diferentes, mas a essência estava ali, assim como nas encenações de Plínio Marcos, outro maldito. Assisti as encenações de “O auto da compadecida”, “O pagador de promessas”, “Hilda Hist in Claustro”, “Medusa de Rayban”, “Grávidas”, “O que seria do vermelho...”, “Solos Trágicos” e “Aquelas Duas” e digo sem pestanejar que “Bukowski” é uma das grandes obras primas do Depósito, juntamente com a “Compadecida”. Isso demonstra minha admiração pelo trabalho do grupo, mas chega de saudosismo e retornamos ao projeto atual que no meu ponto de vista eleva a qualidade dos trabalhos apresentados neste ano em Porto Alegre. 
Roberto Oliveira está soberbo em cena, personificando o velho safado com nuances que demostram as várias facetas, ora é duro, violento, sarcástico, ora é tenro, tranquilo, ora verborrágico, sexual, escatológico, ora pensativo e reflexivo. Oliveira demostra através de sua experiência que tem todas as qualidades que um ator precisa ter para interpretar um personagem como este: complexo e cheio de nuances, e Roberto acerta muito. Como atua e dirige ao mesmo tempo credito parte dos seus méritos a IsandriaFermiano, sua assistente, que deve ter auxiliado muito na construção deste e demais personagens. 
Os demais atores estão muito bem, conseguem alcançar registros excelentes que apoiam a atuação de Roberto Oliveira, que só não é o centro das atenções por se cercar de atores tão bons quanto ele. Marcelo Johann triunfa em suas construções, criando figuras diferentes que auxiliam no desencadeamento da narrativa onde as mulheres são o foco, interpretando a figura de Jimi e o pai. Elisa Heidrich é entregue e sua presença é fundamental no desenvolvimento do espetáculo. Francine Kliemann é intensa e imprime uma verdade nas suas construções. Aline Picetti é uma revelação, não conhecia seu trabalho e surpreende muito com sua Tami. O elenco feminino é ótimo, mas o destaque fica com PittiSgarbi que arrasa nas construções de Jane e Edna, que entrega fantástica, que atriz maravilhosa, que mergulho sensacional, pois consegue construir personagens tão humanos que chegam a hipnotizar tamanha a entrega, revelando uma angústia tão grande que faz um contraponto a figura construída pelo Roberto. 
A produção como um todo está de parabéns, desde a iluminação de Fabiana Santos, a trilha sonora pesquisada de Oliveira e Kliemann, os figurinos de Elisa que auxiliam muito na composição da cena, o cenário que reconstrói o Arena, enfim, tudo está a serviço do espetáculo. 
Destaco também as ótimas ilustrações que são projetadas nas paredes do teatro, assim como os vídeos utilizados em cena, que diferente de outros espetáculos autodenominados pós modernos, são muito bem aproveitados em cena, como demostra no ótimo tempo da cena da Tami com sua amiga conversando com Bukowski ao telefone. 
Enfim, o que mais posso dizer de um espetáculo repleto de méritos, que trás a tona um dos autores mais emblemáticos e celebrados da literatura mundial e que consegue com muito sucesso fazer valer a transposição para a cena de todo o universo do referido autor, e digo mais, se Bukowski vivo fosse, estaria com certeza honrado com tamanha entrega, respeito e propriedade que sua obra está sendo encenada no palco. 

Direção: Roberto Salerno de Oliveira
Assistência de Direção: Isandria Fermiano
Dramaturgia: Modesto Fortuna
Elenco: Roberto Oliveira, Marcelo Johann , Elisa Heidrich, Francine Kliemann, Pitti Sgarbi e Aline Armani Picetti.
Iluminação: Fabiana Santos
Cenário: Modesto Fortuna 
Figurinos: Elisa Heidrich
Orientação coreográfica: Andrea Spolaor 
Produção Áudio Visual: Pátiovazio
Fotografia e Arte Gráfica: Jéssica Barbosa 
Assessoria de Comunicação: Liane Strapazzon
Divulgação nas redes sociais: Fernanda Fávero
Produção Executiva: Joice Rossato
Produção Geral: Depósito de Teatro
Classificação: 18 anos


#Viva Bukowski vivo! Viva o bom teatro! 
#vivaobomteatro


quarta-feira, 28 de maio de 2014

MARCHA PARA ZENTURO (SP/MG)


marcha
Foto: Guto Muniz






ARREBATADOR JOGO DE TEMPOS E APARÊNCIAS

"Marcha para Zenturo" é um espetáculo arrebatador! Arrebatador e complexo em suas diversas interfaces. A começar pela dramaturgia de Gracê Passô, que mais uma vez impressiona pela qualidade e ousadia. O texto demostra que Passô segue sua inquietante pesquisa na dramaturgia contemporânea e aqui realiza um jogo onde evidencia a questão do tempo. Os personagens da narrativa não conseguem se comunicar, ao se encontrar após 18 anos para comemorar o réveillon de 2441. Poderíamos dizer que trata-se de um espetáculo futurista, com temática a frente do nosso tempo, porém o comportamento dos personagens detona que o enfoque é muito atual, pessoas que se encontram mas não conseguem se comunicar, conversam mas não se entendem, mas o texto vai muito além disso. Consegue articular elementos complexos e arrojados tratando-se de dramaturgia. Poderia dizer que o texto é o grande destaque da  encenação, mas "Marcha para Zenturo" é um grande espetáculo em sua totalidade, a direção de Luiz  Fernando Marques é magnifica, pois consegue articular diversos elementos contidos na dramaturgia e em virtude disso, a cena teatral pulveriza a percepção e dá ênfase a aspectos que no texto teatral seriam considerados irrelevantes. Informações desconexas, ações desencontradas, tempos e contratempos. Tudo isso é colocado em cena de forma teatralizada, articulada e inovadora, mostrando que o teatro para nos emocionar realmente é necessário que esteja ao mesmo tempo distante e próximo, assim como os personagens da trama, seja algo inesperado e esperado, e todo tempo isso é colocado em jogo.
Quanto ao elenco, é um coletivo tão coeso que é difícil destacar alguém. Mérito do diretor. Mérito dos atores que se colocam no tempo/espaço da narrativa, disponíveis e entregues ao projeto, ninguém destoa do todo. E isso é possível graças ao trabalho de grupo e aqui é o trabalho de dois grupos, dois dos mais inventivos do atual teatro brasileiro. O coletivo atravessa todo o trabalho e isto evidencia a qualidade da interpretação. Grace, Gustavo, Janaína, Juliana, Marcelo, Paulo, Rodolfo e Ronaldo tornam Zenturo um grande jogo de tempos e aparências em que o espectador tem que ter a disponibilidade de entrar e jogar. Um misto de angústias, revelações, metáforas e desencontros que me fazem pensar: é isto mesmo que estou assistindo ou meu relógio está errado? 
O cenário evidencia estes aspectos acimas abordados, colocando todos num espaço reduzido, pois o palco delimita o espaço da ação, todos estão muito perto uns dos outros e ao mesmo tempo muito longe. A presença do elemento gelo em cena, além de ser um elemento esteticamente interessante, brinca com uma metáfora, pois o gelo é o estado sólido da água, sua densidade é inferior a da água, e seu ponto de fusão é de 0 ºC a uma atmosfera de pressão. A mesma massa de água em estado líquido ou sólido tem volume diferente. Ao meu ver, os personagens representam exatamente estes estados do gelo, mergulham em densidades diferentes, ora se diluem, ora se constituem, congelam aparências e se desmancham diante situações limites, e ao final o que resta são situações liquidas, diluídas onde não há espaços para se esconder, não há espaço para se desencontrar, afinal o tempo é o agora e não podemos fugir disso. 
Tarefa difícil discorrer sobre este trabalho tão belo e tão complexo em sua essência. Espetáculo instigante e imperdível! 

#palcogiratoriors

Concepção: Grupo XIX de Teatro e espanca!
Direção: Luiz Fernando Marques
Dramaturgia: Grace Passô
Elenco: Grace Passô (Nina), Gustavo Bones (Gordo), Janaina Leite (Noema), Juliana Sanches (Lóri), Marcelo Castro (Patalá), Paulo Celestino (Bóris), Rodolfo Amorim (Marco) e Ronaldo Serruya  (Konstantin)
Iluminação: Guilherme Bonfanti
Projeto Áudio-visual: Pablo Lobato
Treinamento de View Points: Miriam Rinaldi
Oficina de Interpretação: Ana Lúcia Torre
Cenário: Luiz Fernando Marques, Marcelo Castro, Paulo Celestino e Rodolfo Amorim
Figurino: Gustavo Bones, Janaina Leite, Juliana Sanches e Ronaldo Serruya
Trilha Sonora: Luiz Fernando Marques
Técnicos e Operadores de Luz: Amanda Magrini e Edimar Pinto
Assistente de Ensaios: Thiago Wieser
Produção: Aline Vila Real (espanca!) e Graziela Mantovani (grupo XIX)
Duração: 90 min
Classificação: 14 anos

espetáculo realizado com recursos do projeto “Co-Habitação”, do Grupo XIX de Teatro – patrocinado pela PETROBRAS através do Programa PETROBRAS Cultural.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

PEEP CLÁSSIC ÉSQUILO (SP)


NOVOS PARADIGMAS DO TEATRO BRASILEIRO

Nos dias de hoje, em função da diluição da fábula e da desconstrução de sentidos, o reconhecimento da dramaturgia clássica cede lugar, na dramaturgia moderna e pós-moderna, ao reconhecimento do espectador com base no seu horizonte de expectativa. 
Roberto Alvim através de sua estética em “Peep Clássic Ésquilo” pode ser considerado um reformador do teatro contemporâneo, mas indo além, dado a importância e a amplitude de suas proposições. 
O projeto compreende a encenação de todas as tragédias de Ésquilo, através da radicalidade que é transpor estes clássicos para nossos dias, mas Alvim e sua Club Noir vão muito além, por transgredir códigos teatrais e textuais. Em lugar da peripécia da dramaturgia clássica, tem-se no confronto do espectador com o novo proposto em cena, uma série de peripécias de intenções e sentidos, o espectador reconhece o texto clássico, porém a encenação propõe uma eclosão de sentidos ao propor através do minimalismo uma grande gama de sentidos. 
A chamada pós-modernidade teatral articulou novos padrões de encenação, requisitando do espectador uma percepção centrada nas sensações, ora desconstruindo a fábula e evitando qualquer significado racional, ora centrando a experiência estética no traço mítico ou performático da representação. Mas em “Peep Clássic Ésquilo” o que surpreende é justamente o fato de contemporizar uma série de tragédias, mas sem cair em clichês pós-modernos, pois Roberto Alvim propõe ao espectador uma reinvenção teatral através de uma perspectiva que retira o espectador da sua zona de conforto, e o coloca em uma zona de confronto com a poética empregada em cena. 
Adentramos no teatro e temos apenas um cubo vazado, uma luz branca que permite que o espectador apenas enxergue a silhueta dos atores que quase imóveis destilam seus textos, e aqui o texto é potente, é forte, é a força que move a encenação. Os atores ficam imobilizados e quando se movem é de modo imperceptível, são corpos falantes, e o texto é ação. A palavra é ação. A palavra é intenção. A palavra é coração, É pulsante, é viva. 
Enquanto espectador, nos momentos iniciais fiquei incomodado com a proposta do Club Noir, tentava ver o rosto dos atores, queria ver movimentação, queria ver ação, queria ver teatro. Mas isso não durou muito tempo, pois logo em seguida, fechei os olhos e me deixei ser levado pelo novo, e o novo sempre assusta e incomoda. A partir deste momento percebi que diante de mim estava acontecendo algo diferente e que enquanto espectador de uma sociedade contemporânea, eu deveria estar aberto para conseguir fruir uma nova possibilidade estética. E a partir desta abertura pude então me maravilhar com o projeto, que eu não precisava ver o rosto do ator, que eu não precisava de grandes movimentos de luz, que tampouco precisava de uma trilha sonora para ter uma experiência teatral verdadeira. 
O espetáculo se constrói através de uma linha tensa, através das presenças intensas dos atores. E nunca se falou tanto em “presença” no teatro feito na atualidade, e aqui não vemos o ator e sua expressão facial, mas temos a presença viva e orgânica deste elenco vigoroso, que demostra que para estar vivo no palco, é desnecessário uma série de acrobacias e pirotecnias corporais, mas o uso certo e potente das vozes, a palavra concreta, levada as últimas consequências para provocar o espectador e não apenas emocioná-lo. 
O diretor do espetáculo constrói determinados paradigmas por meio de vários sistemas de significação da cena, mas creio que é a abertura do espectador que faz com que este projeto se torne tão significativo diante do oásis que está o atual teatro brasileiro, necessitando de propostas como esta para se tornar inventivo e representativo diante de tantas banalidades contemporâneas. 
Salve Roberto Alvim e o elenco da Club Noir por proporcionar a plateia de Porto Alegre uma obra potente e radical. Recomendaria o espetáculo, mas me parece que Porto Alegre foi a última estação deste projeto tão necessário que contribui efetivamente na construção de novos paradigmas no teatro brasileiro.

Ficha técnica


Direção, tradução e adaptação: Roberto Alvim / Texto: Ésquilo / Elenco: Juliana Galdino, Paula Spinelli, Gabriela Ramos, Martina Gallarza, Bruno Ribeiro, Fernando Gimenes, Marcelo Rorato, Renato Forner e Ricardo Grasson / Figurino: Juliana Galdino / Iluminação: Roberto Alvim / Produção Executiva: Marcelo Rorato / Recomendação etária: 16 anos / Duração: 50 minutos (cada dia)

sábado, 12 de abril de 2014

O RINOCERONTE (RS)

Foto: Alisson Fernandes





O esfacelamento das aparências

Ao assistir “O Rinoceronte” na Usina do Gasômetro, me veio à mente outro espetáculo que eu assisti este ano, "Medida Provisória", pelo fato que este trabalho trazia à tona a questão das políticas públicas sobre o projeto Usina das Artes, e sobre a questão precária do espaço público destinado a cultura. E a questão do espaço em “O Rinoceronte” é muito latente, principalmente em dois aspectos. O primeiro é relacionado à questão do espaço físico, do espaço destinado à representação, o espaço da Sala 309, que por questões de infiltrações e de segurança não pode contar com iluminação teatral, sendo que a produção teve que improvisar uma iluminação parca e precária para dar conta da peça, sendo que os profissionais tiveram que trabalhar com mínimas condições para não cancelar o espetáculo, como aconteceu com outros trabalhos no inicio do ano em vários teatros da cidade. 
O outro aspecto é relacionado ao espaço da encenação teatral, da boa utilização da sala 309, sendo que a medida que a narrativa avançava, o cenário ia sendo destruído e re-construído, a cada novo espaço, desvelando sob a ótica absurda comportamentos banalizados de uma sociedade conformista. 
Guadalupe Casal através de sua direção consegue dar ao trabalho uma abordagem inusitada e contemporânea, conseguindo retirar do texto de Ionesco uma série de questões atuais, principalmente as metáforas relacionadas ao questionamento de velhos hábitos e comportamentos enraizados, e da própria condição humana, possibilitando a apresentação da realidade sob um ponto de vista inusitado, incitando um pensamento crítico sobre o ser humano e sobre o mundo. 
O elenco é coeso e está a altura da proposta de renovar o texto de Ionesco através de uma abordagem contemporânea, característica do grupo Sarcáustico que potencializa a fisicalidade dos atores e sua disponibilidade. Todos estão entregues e submersos no universo paquiderme, porém destaco a cena final entre Rafael Becker e Amanda Novinski, pois justamente ali, temos a síntese de toda a peça, ou seja, a transformação de hábitos e pensamento de toda uma sociedade, o esfacelamento das aparências. 
Trata-se de um bom espetáculo, demostrando que para se fazer teatro é preciso uma direção criativa, um elenco disponível que abrace a concepção e um público receptivo, se puder contar com uma bela iluminação, ok, se não puder contar, conto com ideias criativas, e isso se tem muito neste grupo. 


Elenco: Amanda Novinski, Carla Gasperin, Daniela Reis, Débora Maier, Heloisa Medeiros, Lucas Schmitt, Paula Souza, Rafael Becker e Thaize Ribeiro. 
Direção: Guadalupe Casal.
Colaboração cênica: Ricardo Zigomático.
Iluminação: Maíra Prates. 

sábado, 29 de março de 2014

DESCRIÇÃO DE UMA IMAGEM (RS)

Foto: Rique Barbo


Heiner Müller e a Poesia Imagética

IMAGINE... É a primeira palavra dita em cena... e é assim que eu tentei me comportar diante do espetáculo "Descrição de uma imagem"... Imaginando... Imaginando e me deliciando através da profusão de imagens propostas pela concepção do Grupo Barraquatro. 
O teatro de Heiner Müller ultrapassa o drama através de rupturas, e o que ele escreve já não pode ser considerado uma peça dramática, mas sim uma peça teatral, e é justamente isso a que assistimos nesta encenação sob a direção de Júlia Rodrigues, não temos um espetáculo que toma para si o texto controverso de Müller, mas sim uma concepção que se utiliza da teatralidade e de uma multiplicidade de imagens que não procura a literariedade do texto aberto de Müller, mas sim o potencial teatral da obra. 
A direção de Júlia Rodrigues foi precisa justamente neste sentido, conseguiu explorar os signos da obra sem ser piegas, através de repetições e variações,conseguiu criar uma "poesia imagética" que ao mesmo tempo é bela, é bruta, é surreal, é atemporal, é sexual, mas acima de tudo é humana. Pois o espetáculo mexe com nossos sentidos, nos trás um universo onírico que nos reporta a outros lugares, e é justamente aí que a iluminação de Bathista Freire é extremamente eficiente e bela, pois auxilia na composição deste universo, construindo climas e atmosferas que conferem a cena uma beleza impar. 
A trilha sonora de Ricardo Pavão, além de linda e executada parcialmente ao vivo, nos coloca lado a lado daqueles seres. São melodias, notas, sussurros e sobressaltos que não destoam do todo, pelo contrário, me aproxima da narrativa. Já o cenário de Élcio Rossini que trás poucos elementos, ratifica esse universo e acentua através de suas construções essa vertente que faz do signo e da metalinguagem o seu chão. São elementos cenográficos que ganham vida através da manipulação dos atores. 
O elenco composto por Thiago Pirajira, Kayane Rodrigues e Kyky Rodrigues conseguem através de seus corpos construir um belíssimo espetáculo, repleto de imagens lindas, pois é bastante acentuada a fisicalidade da cena. Seus corpos é que montam este painel de imagens poéticas. O ator e sua presença é que nos reportam a outros espaços. A construção explora muito bem esse ator que não mergulha na psicologia do personagem, pelo contrário, se utiliza da forte presença física para compor o espetáculo. Coeso e muito bem dirigidos, triunfam em cena e tornam esse encontro com Heiner Müller uma experiencia teatral única e inesquecível. 

Direção Júlia Rodrigues
Atuação Thiago Pirajira e Kayane Rodrigues
Participação: Kyky Rodrigues
Figurinos Letícia Pinheiro e Isadora Fantin
Cenário Elcio Rossini
Iluminação Bathista Freire
Trilha Sonora Ricardo Pavão
Preparação Corporal Dagmar Dornelles
Produção Executiva Dani Dutra e Kyky
Direção de Produção: Cecília Daut – Cristallo Produções
Realização Grupo Barraquatro

segunda-feira, 24 de março de 2014

UM PRÍNCIPE CHAMADO EXUPÉRY (SC)

Se o ator é o elemento fundamental no teatro, ele não poderia existir sem um espaço onde se desenvolver. Podemos definir o teatro como um espaço em que estão juntos os que olham e os que são olhados, e a cena como o espaço dos corpos em movimento. E quando este espaço é direcionado ao trabalho que contempla atores-manipuladores e teatro de animação à questão do espaço torna-se mais importante. A Cia. Mútua entende isso muito bem e traduz no espetáculo “Um príncipe chamado Exupéry” sua pesquisa que extrapola o teatro de animação e constrói um teatro que contempla a questão espacial, criando um espaço tridimensional e que o espectador está inserido dentro do espaço teatral. Adentramos no espaço e somos convidados a entrar do espaço ficcional, ou seja, somos convidados a entrar no hangar onde fica o Correio da narrativa e ali, dentro deste espaço que se desvela as aventuras deste aviador. 
O espaço confere a cena uma força poética, pois enquanto espectadores, estamos no centro da ação, onde vislumbramos aviões sobrevoando nossas cabeças, ventanias produzidas com efeitos de fumaças e ventiladores, provocando imagens que nos remetem a outros lugares. Isso tudo é construído sem a utilização de palavras, pois a dramaturgia do espetáculo é construída apenas com a manipulação dos bonecos, objetos e adereços de cena, e esta manipulação é realizada de um modo despojado e teatral, ou seja, os manipuladores não se preocupam em ocultar sua persona atrás dos bonecos, pelo contrário, dialogam com os mesmos, e este jogo é bastante interessante. Conseguem através desta interação imagens poéticas e que emocionam. Mônica Longo e Guilherme Peixoto são bastante pontuais em suas manipulações precisas e despojadas, porém a direção de Willian Sieverdt é elogiosa por conseguir amarrar muito bem todos os elementos do projeto, e são muitos, como a própria criação e manipulação dos bonecos, aviões e esculturas da cena, assim como o próprio espaço, a iluminação precisa e delicada que em muitos momentos fala por si só, (como esquecer os pontos de luz ao fundo, formando as estrelas da noite escura, lindo!), além dos cenários e trilha sonora que pontua e se faz um personagem na peça. 
Trata-se de um projeto lindo, com uma arte gráfica caprichada, voltado a todas as idades, que faz do silêncio poesia. Trabalho de uma simplicidade que torna o ato teatral pura poesia, poesia para ser guardada na memória e no coração. Bravo Cia. Mútua!

Ficha técnica
Roteiro/Dramaturgia: Mônica Longo, Guilherme Peixoto e Willian Sieverdt
Elenco: Mônica Longo e Guilherme Peixoto
Direção: Willian Sieverdt
Cenografia: Jaime Pinheiro
Mecanismos de Bonecos e Cenários: Paulo Nazareno
Sonoplastia e Trilha Sonora Original: Guilhermo Santiago e Paulo Zanny
Engenharia de Iluminação: Giba de Oliveira
Desenhos: Marcos Leal
Figurinos: Lenita Novaes
Escultura dos Bonecos: Mônica Longo
Confecção dos Bonecos: Mônica Longo e Guilherme Peixoto
Operação de Luz: Laura Correa
Operação de Som: Luis Melo
Produção de palco: Fernando Honorato
Designer Gráfico: Leandro De Maman
Pintura de Estrutura Cênica: Luis Melo
Pintura de Bonecos: Luis Carlos Vigarani
Pintura de Cenários: Guilherme Peixoto e Mônica Longo
Preparação de Atores: Ângela Finardi
Consultoria de Pesquisa: Mônica Cristina Corrêa
Pesquisa, Produção e Realização: Cia Mútua

domingo, 23 de fevereiro de 2014

EROS IMPURO (BRASÍLIA)


Superficialidade diante de tema tabu

"Eros Impuro" antes de ser um espetáculo que trate da questão do abuso sexual infantil, trata da questão ética na arte e seus desdobramentos acerca da relação que norteia criação e criatura, e isso é interessante na peça. 
A sexualidade é abordada de forma escancarada, mas parece que o discurso do espetáculo tem a pretensão de provocar o espectador, digo "pretensão", pois não consegue me provocar ao ponto de mergulhar na história de Andrei, um pintor que traz em si uma série de complexos. A encenação tem um rico cenário, uma iluminação funcional, um diálogo interessante com o vídeo, até mesmo com as cenas desnecessárias de sexo projetadas, pois penso que teriam como abordar o assunto de outra forma, o vídeo surge como uma alteridade desnecessária, pelo simples fato de chocar,  mas acaba se tornando extremamente de mau gosto.  
A ator Jones de Abreu não consegue atingir um trabalho de interpretação que de conta da complexidade do personagem. Sua criação evidencia uma superficialidade que não auxilia na construção da narrativa. Tem bons momentos, mas fica frágil principalmente quando ocorre a troca de personagens, se utilizando de tipos rasos, marcados por reações previsíveis. Sua respiração ofegante e sua gargalhada me remetem a caricatura. 
Sérgio Maggio consegue criar uma encenação atraente e rica esteticamente com ótimas soluções e surpresas, porém peca na condução do ator e a dramaturgia que se apresenta como mote principal a questão do abuso sexual infantil, mas que durante grande parte da narrativa apresenta divagações sexuais do personagem central divididas em níveis de alucinação e realidade, o que acaba confundindo a fruição do espectador. 

DIREÇÃO E TEXTO – SÉRGIO MAGGIO. COM JONES DE ABREU. PRODUÇÃO EXECUTIVA: CLAUDIA CHARMILLOT. ILUMINAÇÃO: VINICIUS FERREIRA E JULIANA DRUMMOND. 


domingo, 26 de janeiro de 2014

MEDIDA PROVISÓRIA: SETE DRAMAS SOBRE A FALTA DE ESPAÇO (RS)

Radicalidade cênica em forma de protesto
Medida provisória começa rompendo com a percepção tradicional, exigindo uma participação física da platéia, por meio de inserção no espaço cênico totalmente branco, onde a mistura entre atores e público auxilia, a priori, a descondicionar o olhar dos espectadores e a partir daí instaurar uma nova perspectiva, a de espectador-testemunha. A partir daí somos convidados a testemunhar um espetáculo que destila teatralidade calcada numa dramaturgia que mescla ficção e realidade. Segundo Pavis, a teatralidade é a espacialidade, a visualidade e a expressividade da cena. E acrescento que a teatralidade em Medida Provisória é a fissura provocada pela leitura do diretor Madureira, com a dramaturgia de Liberano. Não existe ilusão, tudo está lá, são pouco elementos, todos muito bem articulados a serviço da denúncia. Mas não se trata de denúncia panfletária, com discursos mofados, pelo contrário, é um espetáculo político assim como toda a arte deve ser política, mas não uma política vazia, trata-se de uma denúncia necessária que serve como alerta, até mesmo para o elenco que está dando seus primeiros passos no teatro, mas que já vem com esse olhar desglamourizado acerca de sua profissão.  
O espetáculo é repleto de metáforas, a começar pelo espaço branco, oco, vazio, justamente num trabalho que trata sobre a "falta" de espaços públicos dedicados a arte. Mas se a estética brinca com a questão da precariedade, a relação com a ética é encharcada de um discurso atual e necessário pelo qual a cidade, mas principalmente os artistas sediados na Usina do Gasômetro estão enfrentando. Trata-se de um grito no qual todos devemos ouvir com atenção, principalmente os governantes e administradores dos espaços destinados a arte. 
Medida provisória tem uma estrutura polifônica: a imagem de uma representação sem unidade, formada por diversos elementos em oposição: a unidade é justamente o discurso político potente acerca das políticas públicas da cidade de Porto Alegre (ou qualquer outra cidade do país, pois o descaso referente a politicas públicas culturais é o mesmo). 
Diogo Liberano nos propõe um teatro político, ou uma política no teatro, mas sem levantar bandeiras partidárias, sem ser panfletário, sem ser chato. Poderia dizer que Liberano é um estrangeiro referente as "nossas" politicas culturais, pois ele é carioca e como conseguiria escrever sobre as mazelas que assolam o teatro gaúcho? Mas posso dizer que o texto triunfa e é extremamente atual, pois aponta e atira nos alvos certos, citando nomes e situações pertinentes dentro da politica pública, inclusive o secretário de cultura Roque Jacoby. E na verdade, não se trata de escrever sobre as nossas políticas públicas, mas sobre a "falta" delas no Brasil. E isso independe de região, pois é comum a falta de espaços no Rio Grande do Sul ou no Rio de Janeiro. Diogo Liberano se utiliza de uma estrutura fragmentada buscando referencias em textos clássicos como Hamlet de Shakespeare, A Gaivota de Tchekov ou Entre quatro paredes do Sartre, aliados a um texto espetacular que mostra a realidade dos profissionais de teatro e as agruras que perpetuam o oficio. Na minha opinião, Liberano é uma dos destaques na safra de dramaturgia, sendo que já havia assistido outros trabalhos seus como Sinfonia Sonho e Maravilhoso. 
Já João Pedro Madureira que atua no projeto como diretor convidado constrói determinados paradigmas por meio de vários sistemas de significação da cena, principalmente através da fisicalidade dos atores, mas o interessante é que cada espectador faz e refaz sua leitura através dos estímulos provocados pela autonomia da representação, implicando na construção do não dito do texto dramático, ou seja, são duas construções na cena: uma que parte do texto de Liberano e a outra que vai além do texto, nos apresentando uma cena não realista, através de partituras expressivas que potencializam a teatralidade da cena mostrando-se como uma conjunção dos signos e manifestando sua confrontação sob o olhar do espectador. A teatralidade é mais do que uma construção, mas sim uma interrogação de  ideias. Madureira propõe uma radicalidade cênica em forma de protesto, e consegue articular muito bem a presença do seu elenco numeroso. 
Quanto ao elenco, é louvável a entrega e presença deste grande coletivo. Impossível destacar nomes, quando existe uma coesão. É perceptível a entrega de todos e o espetáculo exige isso, um ator disponível, que consiga construir e desconstruir o efêmero. Um elenco que tem uma presença física e vigor movido pela paixão. É mérito do Madureira conseguir esse equilíbrio num elenco grande, mas mérito também que merece ser dividido com todos os profissionais envolvidos, a Casa de Teatro, que consegue entregar ao público um espetáculo articulado e com qualidade detalhista, aos demais professores Carlota Albuquerque, Claudia Sachs, Graça Nunes e Zé Adão Barbosa que com certeza marcaram a trajetória destes jovens atores que começam muito bem encaminhados na profissão. 
Fiquem atentos a essa Medida Provisória e sejam também testemunhas deste desabafo necessário.

Ficha Técnica:

Direção: João Pedro Madureira
Dramaturgia: Diogo Liberano
Elenco: Alexandre Azevedo, Arthur Vinadé, Brenda Jobim, Charles Benevenuto, Cissa Madalozzo, Cleia Bertinetti, Elaine Segura, Ewerton Netto, Flavia Reckziegel, Chico Neves, Gustavo Acioli, Henrique Araujo, João Gabriel OM, Jonatan Vanzin, Juliana Luzardo, Letícia Souza, Luana Mendonça, Maiara Fantinel, Murilo Fontoura, Nathalia Lisboa, Ofélia Ferretjans, Priscila Jardim, Renata Ribeiro e Vinícius Magnus
Orientação: Carlota Albuquerque, Claudia Sachs, Graça Nunes e Zé Adão Barbosa
Assistentes de Direção: Jéssica Lusia e Patricia Soso
Iluminação: João Fraga
Figurinos e Cenografia: Antonio Rabadan
Assistente: Kethyene Sperhacke
Cenotécnico: Paulo Pereira
Hairstyle: Hanny Barcellos
Vídeos: Pátio Vazio - produções cinematográficas, artísticas e culturais
Pesquisa de Trilha Sonora: João Pedro Madureira
Design Gráfico: Diogo Liberano
Fotografia: Bethânia Dutra
Assessoria de Imprensa: Marcelo Coelho de Souza, João Pedro Madureira e Casa de Teatro de Porto Alegre
Produção: Iuri Wander
Realização; Casa de Teatro de Porto Alegre

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

PRINCIPES E PRINCESAS, SAPOS E LAGARTOS (RS)


Ao comemorar seus 25 anos de Invenção Teatral a Cia. Stravaganza estreou neste ano mais um trabalho dirigido as crianças. Trata-se de "Príncipes e princesas, sapos e lagartos" baseado no livro homônimo  de Flávio de Souza. Ao sair do teatro fiquei pensando o quão importante é a produção deste coletivo no âmbito teatral gaúcho e em nível nacional. Pude acompanhar diversas montagens como esta, "Ópera Mostra", "A comédia dos erros", "Encontros depois da chuva", "Bebê bum" e "Sacra folia". E o que percebo é que a cada novo espetáculo o grupo não se deixa acomodar-se, pelo contrário, busca sempre novidades e novas linguagens, o que possibilita esta longevidade e inovação que é marca registrada do grupo. 
Em "Príncipes e princesas" não é diferente, trata-se de um espetáculo que tem uma concepção bastante simples e despojada, porém ao tratar de fábulas de um modo contemporâneo acerta em cheio, ao trazer uma linguagem direta que consegue dialogar com a realidade dos pequenos de hoje. 
A trama do espetáculo apresenta uma série de histórias curtas que são independentes, mas dialogam com o todo, trazendo personagens cômicos e engraçados que são interpretados pelo trio de atores, Duda Cardoso, Fernanda Petit e Áquila Mattos, que usam e abusam de diversos figurinos e adereços de cena. Os três atores são ótimos e conseguem materializar em cena os diversos tipos que fazem parte das histórias.  
Com um resultado simples o espetáculo encanta justamente por atualizar as histórias clássicas trazendo a tona uma linguagem ágil e que dialoga diretamente com as crianças de hoje. 


Elenco: Duda Cardoso, Fernanda Petit e Áquila Mattos 
Trilha sonora original: Ricardo Severo 
Cenografia: Adriane Mottola e Duda Cardoso (que também assina o figurino) e Fernanda Petit 
Iluminação e operação de luz: Ricardo Vivian 
Programação visual: Rodrigo Mello 
Texto de Flávio de Souza
Direção de Adriane Mottola.  

domingo, 24 de novembro de 2013

EU, ÁLVARO DE CAMPOS (RS)


O espetáculo “Eu, Álvaro de Campos” foi o primeiro trabalho a participar do novo projeto da Coordenação de Artes Cênicas da Prefeitura de Porto Alegre. O projeto em questão é o “Teatro na Cia” realizado sempre as quintas feiras na Cia. de Arte.
Trata-se de um monólogo interpretado pelo ator Júlio Lhenardi do Grupo Artes e Letras dirigido por Gabriel Motta. Já tinha falado por aqui da importância deste grupo no cenário gaúcho em que se propõem a encenar textos de autores clássicos da literatura, neste caso um heterônimo de Fernando Pessoa.
Trata-se de um solo onde temos um ator empenhado que domina a cena, porém penso que há um problema na questão da transposição do literário para o teatral, pois vemos um homem atormentado com questões existenciais, porém na maior parte do tempo assistimos ao ator declamar um texto/poema entrecortado de algumas canções interpretadas pelo próprio ator e nada mais que isso. Penso que a concepção do espetáculo peca justamente em tentar traduzir um poema para o teatro, porém não consegue ultrapassar esta barreira, pois o trabalho é quase uma declamação de poemas, sendo que isso não é demérito, pelo contrário, pois Júlio tem um domínio vocal interessante, porém não alcança uma qualidade teatral justamente por não existir uma linha dramática, uma ação que justifique a presença daquele homem no espaço.
Júlio Lhenhart tem boa presença cênica e uma voz potente, porém sua interpretação se desenvolve através de uma linearidade que faz com que o espectador não adentre no universo da narrativa. Falta colorir mais o texto, recheá-lo de intensões, abusar mais de pausas e silêncios para que isso gere ações no ator e uma suspensão no espectador. Lhenhart se utiliza muito de gestos periféricos e movimenta-se de um lado para o outro enquanto experimenta gravatas e ternos, mas isso não chega a configurar uma ação teatral condizente com seu personagem. Não fica muito claro quem é este homem, onde ele está e porque tem a necessidade de dizer aquelas coisas.
Os elementos cênicos, assim como a iluminação e trilha sonora são limpos e pontuais, apenas uma ressalva a trilha sonora que poderia ser um pouco mais econômica em suas inserções, pois às vezes sua utilização serve apenas para preencher a cena e não auxilia na criação de climas para a peça. Uma sugestão seria a utilização de silêncios e barulhos do mar.
Apesar de tudo o espetáculo deve sim ser assistido e recomendado justamente aquelas pessoas que gostem de poesias, gostem de Fernando Pessoa ou que desconhecem a obra de Pessoa e que gostaria de conhecê-la, pois o trabalho reafirma o poder didático que o grupo Artes e Letras tem se proposto, a trazer para o palco grande autores da literatura.
FICHA TÉCNICA
Dramaturgia: Júlio Lenhardi
Colaboração: Altair Martins
Concepção Cênica e Atuação: Júlio Lenhardi
Direção Musical e Trilha Sonora: Marcelo Schultes
Sonoplastia e Iluminação: Kariny Schoenfeldt e Gabriel Motta
Figurinos e Cenografia: J. Alceu e Allex Manzônia
Direção: Gabriel Motta
Fotos: André Pares
Arte Gráfica: Uecla Oiluj

domingo, 11 de agosto de 2013

NÓS (EM OFF!)


SURPREENDENTE!
Nós (em off!) é um espetáculo surpreendente. Primeiro porque é uma grande homenagem ao teatro. Segundo porque é uma grata surpresa conhecer o trabalho de novos profissionais e de novos grupos que estão surgindo na cidade, como a Cia Teatro Levem-nos para casa. O espetáculo tem dramaturgia de Everson Silva, livremente inspirada no texto “Noises Off” de  Michael Frayn que já conta com algumas montagens pelo mundo afora. A montagem que assistimos, prima pelo detalhe, demostrando o conhecimento e boa utilização da carpintaria teatral. 
O mote do espetáculo é bastante simples: um grupo de teatro que tenta sobreviver ao caos e à loucura de uma montagem de um espetáculo. Assim, a insanidade escondida dos bastidores ganha vida cênica. E é justamente esta “vida cênica” que faz com que “Nós (em off!) agrade em cheio a plateia. O espetáculo é dividido em três partes: na primeira assistimos ao ensaio geral de um grupo de teatro, com direito a interferência do diretor, que está na plateia dando as coordenadas. Aqui ocorre várias situações bastante peculiares aos trabalhadores da arte. No segundo momento o público é convidado a conhecer os bastidores do ensaio do grupo, subimos ao palco e assistimos ao ensaio da mesma peça do primeiro momento, porém atrás do cenário. Para mim este foi um dos grandes trunfos do espetáculo, pois como um “voyer”, espiamos tudo o que acontece “em off” no teatro, ou seja, conhecemos as marcas, os erros, entradas e saídas de cena, confusões e até mesmo os romances que ocorrem nos bastidores, enquanto lá no palco, o grupo segue ensaiando a mesma peça que já havíamos assistido. Mas o mais genial é que na terceira parte, voltamos para a plateia e assistimos a estreia do espetáculo, porém ficamos sabendo como toda aquele caos dos bastidores interfere na cena apresentada. 
O espetáculo é muito bem ajustado e articulado, a começar pelo belíssimo cenário de Rodrigo Shalako, que é extremamente funcional e necessário para o bom andamento do espetáculo. Figurinos, iluminação e trilha estão na medida para auxiliar no desenvolvimento da peça. 
Elenco e direção são os grandes responsáveis pelo sucesso do trabalho. A direção de Everson Silva soube explorar muito bem as potencialidades de cada ator, sendo que suas interpretações oferecem um jogo à cena que movimenta a narrativa, trazendo sempre surpresas que fazem o ritmo da encenação não cair. O elenco (que inclui o próprio diretor) está coeso, jogando limpo, com sinceridade e honestidade, brincando e se divertindo, e isso ecoa diretamente na plateia que adere facilmente a proposta do grupo e se diverte muito. Os atores constroem tipos e figuras que fogem dos clichês, e se revelam muito mais nas cenas de bastidores, onde a ação requer um ritmo frenético e pulsante. Todos os atores, sem exceção estão de parabéns pelo trabalho desenvolvido, e a opção de colocar a figura do diretor em cena é interessantíssima. 
Um trabalho digno de gente grande, com uma produção bem cuidada, que se preocupou em cada detalhe da peça. Desejo vida longa ao trabalho que merece ser assistido e conhecido por muito mais espectadores. 
Bravo!!!

Ficha Técnica:
Direção: Everson Silva
Assistente de direção: Pedro de Camillis
Dramaturgia: Everson Silva, livremente inspirado no texto “Noises Off” de  Michael Frayn
Produção: Jony Pereira
Elenco: Daniele Carvalho, Rodrigo Shalako, Gustavo Cardoso, Iurqui Pinheiro,  Jony Pereira, Letícia Bottari, Duda Meneghetti e Everson Silva.
Cenografia: Rodrigo Shalako
Iluminação e Operação de Som: Lelê Vilanova
Fotos: Bibi Jukoski
Realização Cia Teatro Levem-nos para casa

domingo, 14 de julho de 2013

LIQUIDAÇÃO (RS)


LIQUIDAÇÃO GRATUÍTA 

O espetáculo “Liquidação” está em cartaz dentro do projeto Teatro Aberto, que tem recebido propostas teatrais que tem foco na experimentação da linguagem teatral. “Liquidação” é um trabalho que se encaixa perfeitamente no projeto, pois está alicerçado no experimento de linguagens teatrais. Mesmo sendo apresentado como experimento, o trabalho não apresenta uma proposta clara e acaba se perdendo num emaranhado de situações e clichês que não conseguem se sustentar enquanto proposta teatral calcada na performance. 
Quando adentramos no teatro, o espaço nos oferece um ambiente convidativo, uma passarela que tem um céu repleto de pontos coloridos suspensos. No espaço também estão inseridos o iluminador, o técnico de som e vídeo que interferem na ação. 
Não pretendo categorizar “Liquidação”, dizendo se é experimento, teatro, performance, pós-dramático, instalação ou tudo isso ao mesmo tempo, mas enquanto acontecimento espetacular “Liquidação” não acontece e não me provoca enquanto espectador, pelo contrário, é um experimento cansativo. A estrutura fragmentada se utiliza de elementos batidos como o vídeo, farinha, água, chicletes, explosivos, que são apenas lançados em cena, mas que nada significam, pois esses elementos deveriam ser potencializados e re-significados dando um novo sentido à cena. Mas o problema nem são os elementos utilizados em cena, mas a concepção e os intérpretes, que para um trabalho como esse precisariam de uma disponibilidade corporal mais apurada, mais presença em cena, independente do que está se propondo. Seus corpos exibem ações banais, suas máscaras não exprimem absolutamente nada, e algumas expressões soam pedantes. Digo tudo isso por que o performer é o centro da ação, pois o drama inexiste, não há conflitos narrativos, e há poucos textos, que quando vem a cena são truncados e inexpressivos. 
O que falta no trabalho é o elemento surpresa, pois as ações são repetitivas e lineares, por exemplo: um performer atravessa a cena desfilando, o próximo faz a mesma ação, mas nada acrescenta e assim sucessivamente. A única surpresa é o momento em que o primeiro chiclete é arrancado e ingerido, mas depois se segue na mesma linearidade que acompanha todo o trabalho. E eis que me vem à questão: O que está na vitrine em liquidação? Não consegui descobrir.

Direção 
Maurício Casiraghi.
Elenco 
Diego Nardi, 
Gabriela Chultz, 
Genises Azevedo e 
Talyta da Rosa.
Iluminação 
Lucca Simas

quinta-feira, 11 de julho de 2013

A NOITE ÁRABE (RS)

Renovação necessária de linguagem
“A noite árabe” do Grupo Jogo é um prato cheio para quem gosta de renovação de linguagem e arte contemporânea. O Grupo Jogo preza pela incessante busca na renovação da linguagem e o que percebemos é de como esta busca tem refletido na qualidade dos seus trabalhos. “A noite árabe” é um espetáculo que tem uma concepção que mescla elementos contemporâneos como o vídeo, o teatro físico, a fragmentação da narrativa, com textos rápidos e corrosivos. 
A encenação consegue seduzir nos primeiros momentos com a performance de João Pedro Madureira e ao longo da montagem vão se acumulando os méritos, a começar pela direção de Alexandre Dill, que consegue articular todos os elementos, encadeando-os todos com excelência. Dill foge de todas as armadilhas e clichês que uma montagem como essa poderia cair, onde justapõe a linguagem audiovisual e o teatro, e a torna limpa, orgânica e empolgante. 
O trabalho dos interpretes está impecável, todos entregues a proposta, hipnotizando a plateia, através de um texto verborrágico e provocante que imprime ao espetáculo um tempo/ritmo eletrizante. João Pedro Madureira surpreende pela comunicação através da corporeidade, está excelente. Thainá Gallo é uma excelente atriz/interprete que transborda verdade, difícil tirar os olhos dela. Emanuele de Menezes tem um olhar magnetizante que seduz o espectador. Igor Pretto e Gabriel Faccini completam o elenco com entrega, porém não atingindo o mesmo desempenho dos três primeiros, mas que não chega a comprometer a encenação. O elenco é o grande responsável por dar corpo e voz a este importante trabalho do teatro gaúcho. 
Todos os elementos estão a serviço do espetáculo e alcançam um resultado fantástico. Iluminação precisa de Igor Pretto, figurinos de Fabrizio Rodrigues estão na medida, o cenário composto por painéis produzem imagens precisas e espaços criativos. 
O espetáculo me impressionou muito, sai extasiado do teatro, e desde então indiquei para vários colegas não perderem a oportunidade de assistir “A noite Árabe” do Grupo Jogo, pois com certeza vão presenciar um espetáculo que esbanja teatralidade aliada a tecnologia que surpreender do inicio ao fim. Vida longa ao trabalho!

FICHA TÉCNICA 
Intérpretes JOÃO PEDRO MADUREIRA, THAINÁ GALLO, EMANUELE DE MENEZES, IGOR PRETTO E GABRIEL FACCINI
Assistente de direção FILIPPI MAZUTTI 
iluminação IGOR PRETTO 
cenário BRUNO SALVATERRA 
trilha sonora original PEDRO ERNESTO PETRACCO 
figurino FABRIZIO RODRIGUES 
preparação vocal LÍGIA MOTTA 
direção de fotografia e vídeo GABRIEL FACCINI E PEDRO HENRIQUE RISSE 
operação de vídeo JONAS BARROS 
arte gráfica LUIZA MENDONÇA 
produção PALCO ABERTO PRODUTORA 
realização INSTITUTO GOETHE PORTO ALEGRE E SECRETARIA DE CULTURA DE PORTO ALEGRE

domingo, 30 de junho de 2013

SONHOS (IM) POSSÍVEIS (RS)

Assistir ao espetáculo “Sonhos (Im) Possíveis” revelou-se um grande prazer, pois trata-se de um espetáculo bastante articulado em sua proposta. O projeto marca a estreia do Grupo Teatro dos Sonhos em Porto Alegre, sendo que a proposta inicial partiu da simples questão: “Qual é o seu sonho?”. A partir desta premissa o grupo investigou os sonhos, desejos e utopias dos relatos coletados e a partir disso construiu um espetáculo que tem um ritmo ágil, através de uma linguagem contemporânea. 
Falar sobre sonhos é bastante comum no campo das artes, mas corre-se o grande risco de cair em narrativas sem sentido, pautadas apenas num universo onírico, mas vazias em seu discurso. 
Mas neste espetáculo o que ocorre é o contrário, o espetáculo é repleto de méritos, a começar pela dramaturgia original, construída por Patrícia Silveira com a colaboração de Natasha Centenaro, pois trata o tema “sonhos” com um viés totalmente novo, abrindo novas perspectivas sem cair em obviedades, tratando-se da narrativa. A dramaturgia é muito interessante, pois parte de um grande sonho das pessoas que é a questão da casa própria, mas constrói a partir disso uma narrativa delirante que empolga e unindo a outros motes sonhados, alcança um resultado de grande mérito. E o texto triunfa através da direção precisa de Patrícia Silveira que consegue muito bem orquestrar todos os elementos da encenação, oferecendo ao público uma experiência imagética, estilizada e interessante. 
A direção também tem o mérito de equalizar a interpretação do elenco, cuidando para que nenhum dos interpretes se sobressaísse mais do que o outro. Anderson Moreira Sales, Fernanda Moreno e Franciele Aguiar oferecem interpretações precisas, demonstrando uma disponibilidade corporal para construir um trabalho que é calcado na fisicalidade do ator. Os três atores são os grandes responsáveis por toda a dinâmica do espetáculo, corporificando as ideias do texto no espaço. 
Quanto aos demais elementos do trabalho, todos estão dentro da proposta, figurinos adequados e funcionais, com uma paleta de cores interessante, iluminação dialogando com o espaço e demais elementos. O cenário minimalista composto por tecidos e a presença de uma única cadeira consegue criar climas, espaços e dimensões, criando possibilidades surrealistas. 
O demérito da produção é o não aprofundamento das imagens potentes que são criadas, os atores criam quadros, imagens esteticamente belas e fortes, porém são destruídas rapidamente, não deixando o espectador fruir daquelas mesmas imagens, eu compreendo que as imagens podem representar os sonhos, que assim como se formam se desmancham rapidamente, momentos efêmeros, porém mesmo assim penso que é preciso um tempo um pouco mais estendido para a fruição. 
Tirando isso, “Sonhos Impossíveis” é com certeza um grande espetáculo e uma grande revelação de novos artistas surgindo na cena teatral da cidade e espero que a trajetória da peça não se estanque por aqui, que o projeto possa ter uma longa vida pela frente. Aplausos merecidos. 

FICHA TÉCNICA
Direção e dramaturgia: Patrícia Silveira
Colaboração dramatúrgica: Natasha Centenaro 
Elenco: Anderson Moreira Sales, Fernanda Moreno & Franciele Aguiar
Trilha sonora e arte gráfica: Daniel Soares Duarte 
Iluminação: Catarino Grosser
Cenografia e figurino: grupo
Produção: grupo
Colaboração: Pâmela Amaro & Tiago Horácio
Fotos: Camila Cunha & Heloísa Silva
Apoio: Cômica Cultural
Blog: https://sonhosimpossiveis.jux.com/
Facebook: https://www.facebook.com/empossiveis

Contato: ciateatrodossonhos@gmail.com