A BOA COMÉDIA ESTÁ VIVA
Há espetáculos que chegam sem fazer muito alarde e acabam se revelando algumas das melhores surpresas de uma temporada. SKYLAND — O CÉU VAI TREMER foi, para mim, uma dessas gratas surpresas.
Começo pelo lugar. O Bar Ocidente, espaço icônico da noite porto-alegrense, é mais do que cenário: sua história, sua atmosfera e sua vocação para o encontro parecem conversar diretamente com a proposta do espetáculo. Levar para aquele espaço uma comédia musical que brinca com céu, inferno, religiosidade, morte e ressurreição é uma escolha que amplia a experiência e estabelece, desde o início, uma relação muito particular entre cena e público.
Mas há algo ainda mais interessante: SKYLAND é realizado por jovens artistas que parecem saber exatamente o que estão fazendo. E isso se percebe na segurança das escolhas, na construção das cenas e, principalmente, na capacidade de sustentar um espetáculo que exige muito de seus intérpretes.
Vivemos um momento em que as boas comédias estão cada vez mais raras. E faço questão de estabelecer a diferença: não falo daquelas obras que se anunciam como comédia, mas nas quais o público precisa quase cumprir a função de encontrar a graça. Falo da comédia que efetivamente provoca o riso, que compreende o tempo da cena, a construção do gag, o jogo com o público e a inteligência necessária para não transformar humor em facilidade. Nesse aspecto, SKYLAND acerta em cheio.
A dramaturgia e a direção de Alexei Goldenberg demonstram domínio do material e, sobretudo, do ritmo. Eis um espetáculo que tem ritmo ágil. A história de Diego, que morre inesperadamente durante o próprio chá revelação e descobre, no além, que morreu “na hora errada”, oferece um terreno fértil para o absurdo. A partir daí, sua jornada em busca de Jesus transforma o paraíso em uma espécie de parque de diversões metafísico, povoado por figuras sagradas, satânicas e humanas.
O mérito está em não deixar que essa premissa seja apenas uma sucessão de situações engraçadas. Há uma dramaturgia que organiza o caos e entende que cada elemento precisa cumprir uma função. Números musicais, coreografias, personagens, mudanças de registro e situações absurdas não parecem inseridos apenas para preencher a cena. Nada é gratuito.
E talvez esse seja um dos maiores méritos do espetáculo: o ritmo não cai. Em uma peça repleta de músicas, coreografias e mudanças de atmosfera, seria fácil perder a pulsação. Isso não acontece. A direção musical de Everton Rodrigues, as músicas autorais de Alexei Goldenberg e Rafaela Lima e a coreografia de Andi Goldenberg contribuem para construir uma dramaturgia que se movimenta permanentemente.
O elenco também demonstra uma compreensão muito precisa da linguagem proposta. Alexei Goldenberg, Andi Goldenberg, Eduardo Segato, Nina Braga, Rafaela Lima e Paula Quirino encontram soluções para uma quantidade considerável de personagens, situações e registros, sem perder a unidade do espetáculo. Há entrega, jogo e disponibilidade para o ridículo — qualidade fundamental para uma comédia que não quer se levar excessivamente a sério.
O elenco é ótimo, mas, por justiça, preciso destacar Andi Goldenberg, jovem artista que vem se destacando em outros trabalhos, seja no teatro ou na dança. Existe em sua atuação um delicioso equilíbrio entre deboche, sarcasmo e verdade. Seus personagens não são simplesmente caricaturas: há uma espécie de cumplicidade com o público que faz com que o humor nasça justamente do reconhecimento. Andi parece compreender que, muitas vezes, quanto mais verdadeiramente se sustenta uma situação absurda, mais engraçada ela se torna.
Há também algo que considero importante destacar: mérito artístico não precisa ser reivindicado; precisa aparecer em cena. Em um ambiente em que, por vezes, a repercussão nas redes sociais parece ocupar mais espaço do que aquilo que efetivamente acontece no palco, SKYLAND faz o caminho inverso. Não precisa transformar a própria existência em manifesto de injustiça. O espetáculo simplesmente sobe ao palco, faz o que se propõe a fazer — e entrega ao público razões concretas para ser reconhecido.
SKYLAND — O CÉU VAI TREMER também merece atenção por aquilo que revela sobre uma nova geração de artistas da cena. Existe aqui uma juventude que não parece pedir licença para ocupar espaços, experimentar linguagens e construir um teatro popular sem abrir mão da inteligência. É um espetáculo que não subestima seu público e tampouco teme divertir. E creio que justamente aí que esteja sua maior potência.
Em tempos em que frequentemente confundimos seriedade com profundidade e humor com superficialidade, SKYLAND lembra que fazer rir também exige dramaturgia, precisão, técnica e pensamento. O espetáculo sabe brincar com suas referências, sabe construir seu universo e, sobretudo, sabe o que pretende provocar. No fim, o céu pode até tremer. Mas uma coisa parece certa: a boa comédia está viva.
Ficha técnica
*Diego Ferreira é professor de teatro, dramaturgo, crítico e curador. Graduado em Teatro pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), é criador do projeto Olhares da Cena, espaço dedicado à crítica e reflexão sobre as artes da cena. Entre seus trabalhos dramatúrgicos estão Negreiros: História que a História Não Conta — vencedor do Prêmio Açorianos 2024, Corália Brechó, Abdias do Nascimento e Vozes do Lixão: a história de Tugira.