OS DESAFIOS DE ADAPTAR ALFRED JARRY
por Diego Ferreira*
Há títulos que, antes mesmo de a cena começar, já convocam o espectador a tomar posição. O Supermacho é um deles. Em um país que convive diariamente com índices alarmantes de feminicídio e com a persistência de discursos misóginos, anunciar um espetáculo com esse nome desperta inevitável curiosidade, mas também certo receio. O que significa revisitar, hoje, uma obra escrita por Alfred Jarry no início do século XX? Como uma sátira à masculinidade, à burguesia e ao culto ao progresso científico pode dialogar com as urgências do presente?
A escolha da Cambada de Teatro em Ação Direta Levanta FavelA... é, nesse sentido, pertinente. Livremente inspirada no romance de Jarry, a montagem busca atualizar questões presentes no texto original, aproximando-as de debates sobre machismo, relações humanas, tecnologia e inteligência artificial. O autor francês, frequentemente reconhecido como um dos precursores do Teatro do Absurdo, construiu em O Supermacho uma crítica mordaz à obsessão moderna pelo desempenho, pela ciência e pela ideia de superioridade masculina. Seu protagonista transforma o próprio corpo em máquina, confundindo desejo, poder e performance.
Transportar essa escrita para a cena contemporânea, contudo, exige encontrar um delicado equilíbrio entre irreverência, crítica e organização dramatúrgica. É justamente nesse ponto que a montagem encontra suas maiores dificuldades.
A encenação aposta na profusão de personagens, situações, referências, músicas e registros de atuação. Há momentos em que essa diversidade encontra ressonância na comicidade física e na caricatura próprias do universo "jarryano", produzindo imagens interessantes e instantes de humor. São cenas em que a crítica social emerge com clareza e a sátira alcança seu objetivo. Esses momentos, entretanto, aparecem de forma irregular. A narrativa avança com dificuldade, interrompida por sucessivas situações que nem sempre fortalecem o desenvolvimento dramatúrgico. A sensação é de uma encenação que acumula elementos sem encontrar um eixo capaz de articulá-los. Há uma diferença importante entre o absurdo como procedimento estético e a ausência de unidade. Em Jarry, o caos é rigorosamente construído; aqui, ele frequentemente se aproxima da dispersão.
Sem esse centro, a multiplicidade de linguagens deixa de enriquecer a cena e passa a fragmentá-la. Se em uma sala de teatro essa dispersão já compromete a experiência, na rua ela se torna ainda mais evidente. O espaço público impõe ao espetáculo uma disputa permanente pela atenção do espectador, que compartilha sua escuta com o trânsito, os ruídos da cidade, a circulação de pessoas e os acontecimentos imprevisíveis do ambiente urbano. Nesse contexto, uma dramaturgia excessivamente pulverizada não potencializa o caráter popular da encenação; ao contrário, dificulta a construção de um fio condutor capaz de manter o público implicado na narrativa. O resultado é que o espectador, mais do que ser lançado ao absurdo proposto por Alfred Jarry, acaba frequentemente perdido entre sucessivas situações, personagens e signos que não encontram um eixo comum de organização.
A música executada ao vivo reforça a dimensão popular da montagem e dialoga com a tradição do teatro de rua, uma marca importante da trajetória da Cambada. Entretanto, sua execução revela fragilidades, especialmente na afinação, comprometendo momentos que poderiam ampliar a potência coletiva da encenação. Há ainda uma escolha musical que provoca um desconforto particular. Em determinado momento, uma canção afirma que "negros são gostosos", estabelecendo uma metáfora entre o corpo negro e o chocolate. A questão não está apenas na imagem utilizada, mas na forma como ela aparece na dramaturgia. Sem qualquer elaboração crítica que a contextualize ou a coloque em tensão, a música surge como um elemento deslocado do conjunto da obra. O estranhamento aumenta porque não há sequer a presença de corpos negros em cena que permita compreender essa evocação a partir de uma experiência encarnada ou de uma discussão sobre representação. Assim, a referência parece gratuita, correndo o risco de reproduzir justamente aquilo que poderia estar criticando: a objetificação e a fetichização do corpo negro. Em vez de ampliar os sentidos da adaptação, a cena interrompe o fluxo dramatúrgico e produz um constrangimento que permanece sem elaboração.
Ao final, O Supermacho permanece mais interessante pelas perguntas que suscita do que pelas respostas cênicas que oferece. O título continua sendo sua primeira e mais potente provocação. Revisitar Alfred Jarry em um tempo marcado pelo recrudescimento da violência de gênero e pelas transformações das relações entre corpo, tecnologia e poder é uma escolha pertinente e necessária. No entanto, para que essa provocação alcance toda a sua potência, é preciso que a encenação encontre um centro dramatúrgico capaz de organizar sua diversidade de linguagens e transformar o excesso em pensamento. É justamente essa unidade que, nesta montagem, permanece em aberto.
Ficha Técnica
Direção Coletiva
Elenco:
Sandro Marques
Pâmela Bratz
Alexandre Malta
Deise Gomes
Cássia Salgado
*Diego Ferreira é professor de teatro, dramaturgo, crítico e curador. Graduado em Teatro pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), é criador do projeto Olhares da Cena, espaço dedicado à crítica e reflexão sobre as artes da cena. Entre seus trabalhos dramatúrgicos estão Negreiros: História que a História Não Conta — vencedor do Prêmio Açorianos 2024, Corália Brechó, Abdias do Nascimento e Vozes do Lixão: a história de Tugira.