sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O INSPETOR GERAL (RS)

 


QUANDO O INTERIOR OCUPA A RUA E O CENTRO DA CENA

Por Diego Ferreira*


    Há um preconceito ainda persistente no teatro brasileiro: a ideia de que aquilo que é produzido fora dos grandes centros, especialmente no interior dos estados, seria necessariamente menor, menos sofisticado ou tecnicamente inferior. Como se a distância geográfica dos grandes circuitos culturais determinasse também a qualidade artística de uma obra. Essa é uma falácia que o próprio teatro insiste em desmentir, e O Inspetor Geral, do Grupo de Teatro Aquiagora, de Três Coroas, é mais um exemplo contundente de que a qualidade da cena não está condicionada ao CEP de quem a produz.

    A montagem parte de O Inspetor Geral, clássico de Nikolai Gogol, escrito em 1836, mas encontra uma maneira de aproximá-lo da realidade brasileira. Na adaptação assinada por Marcelo Manique e Bianca Lazzaretti, a pequena cidade russa desaparece para dar lugar a uma pequena cidade em algum lugar do interior do Brasil. A visita anunciada de um inspetor enviado da capital desencadeia uma sucessão de situações em que corrupção, fraude, medo e hipocrisia assumem o protagonismo.

    A mudança de contexto não dilui a força da obra original. Pelo contrário: evidencia sua impressionante atualidade. Gogol constrói uma sátira em que o poder se desnuda justamente quando acredita estar sendo observado. As autoridades, aterrorizadas diante da possibilidade de uma investigação, revelam sua própria culpa antes mesmo que qualquer investigação aconteça. A corrupção, o oportunismo, a burocracia, a mentira e o medo de perder privilégios fazem com que os personagens se movimentem em torno de uma figura que sequer é aquilo que imaginam. É um mecanismo dramatúrgico que permanece assustadoramente reconhecível.

    E talvez seja justamente essa aproximação com o Brasil que faça a montagem encontrar sua potência. O Inspetor Geral não se apresenta como uma peça de museu, preservada pela importância de seu autor. O clássico é colocado em movimento, em contato com um imaginário brasileiro e, sobretudo, com uma realidade política e social que ainda reconhece nos mecanismos de poder retratados por Gogol muito mais do que gostaria.

    Dirigido por Marcelo Manique, o espetáculo encontra no teatro de rua o território adequado para essa sátira. E aqui está uma das suas principais qualidades: a encenação compreende que, para ocupar a rua, é preciso antes de tudo ocupar o espaço com o corpo e com a voz.

    Sem depender de grandes elementos cenográficos, a montagem aposta essencialmente nos atores. Uma escolha que poderia ser interpretada como limitação transforma-se em princípio de linguagem. O espaço público não é preenchido por estruturas cenográficas grandiosas, mas pela presença dos intérpretes. A rua se transforma em palco porque os atores conseguem fazê-la acontecer.

    E há uma coesão impressionante no elenco formado por Amanda Batista, Bianca Lazzaretti, Bianca Mosheer, Joe Jonathan, Kailaine Teixeira, Marcelo Manique, Pedro Lima e Thiago Tomazini. Não existe uma presença que pareça trabalhar em uma chave completamente diferente das demais. O conjunto é compreendido como força dramatúrgica.

    Todos demonstram grande projeção vocal, presença física e disponibilidade para o jogo. São características fundamentais para o teatro de rua, linguagem em que o ator precisa disputar a atenção com tudo aquilo que acontece ao seu redor. O público pode se dispersar, uma conversa pode atravessar a cena, um ruído pode interromper uma fala, alguém pode simplesmente decidir seguir seu caminho. É preciso, portanto, criar uma presença capaz de afirmar: olhe para cá. E o elenco de O Inspetor Geral faz isso.

    A trajetória de Marcelo Manique também ajuda a compreender algumas dessas escolhas. Sua busca por formação em Porto Alegre, junto à Terreira da Tribo, importante espaço de investigação e resistência do teatro gaúcho, parece encontrar ressonância direta na construção de uma cena que entende o ator como elemento central da experiência teatral.

    Não se trata de esconder a ausência de recursos, mas de transformar a economia de meios em linguagem. A força da montagem está justamente em não tentar compensar a simplicidade de seus elementos com excesso.

    A maquiagem expressiva amplia os corpos e contribui para a construção de uma teatralidade que não precisa ser realista. A trilha sonora executada ao vivo acrescenta outra camada de presença, estabelecendo uma relação mais orgânica entre cena, atores e público. A própria configuração do espetáculo parece compreender que, no teatro de rua, cada elemento precisa colaborar para a construção de uma presença cênica capaz de sustentar o encontro.

    Há, portanto, uma espécie de coerência entre forma e conteúdo. Uma obra que fala sobre instituições corrompidas, autoridades ridículas e estruturas de poder é apresentada por uma companhia que aposta naquilo que talvez seja a instituição mais antiga do teatro: o encontro entre ator e espectadorE talvez esteja aí uma das maiores virtudes da montagem. O Inspetor Geral não precisa de uma máquina cênica para demonstrar sua força. Precisa de atores. E os tem.

    É também por isso que o espetáculo merece ser observado para além da própria experiência de assisti-lo. Ele recoloca em discussão o lugar do teatro produzido no interior. Não como uma espécie de exceção que “surpreende apesar de vir de Três Coroas”, mas justamente como parte legítima e necessária da diversidade da produção teatral brasileira.

    O interior não é um lugar de onde o teatro precisa sair para finalmente se tornar relevante. Há pensamento, pesquisa, formação, experimentação e excelência artística também fora dos grandes centros. Talvez seja necessário, inclusive, inverter a perspectiva: em vez de perguntar por que um espetáculo de Três Coroas alcançou determinado nível de qualidade, perguntar por que ainda insistimos em imaginar que isso seria surpreendente.

    O Grupo de Teatro Aquiagora demonstra, com esta montagem, que o teatro feito no interior não precisa pedir licença para ocupar a cena. E mais: pode ocupar a rua com domínio técnico, rigor e uma compreensão muito clara das especificidades de sua linguagem.

    O Inspetor Geral encontra em Gogol uma matéria dramatúrgica ainda viva, encontra na adaptação brasileira uma possibilidade de aproximação com o presente e encontra no trabalho dos atores sua principal força. O resultado é um espetáculo que não precisa reivindicar importância: conquista-a pela cena.

    Ao expor a pequenez dos poderosos, Gogol continua falando sobre nós. E, ao levar essa história para a rua, o Grupo de Teatro Aquiagora reafirma algo que o teatro brasileiro conhece há muito tempo, embora nem sempre queira reconhecer: a cena não acontece apenas onde existem grandes teatros, grandes orçamentos ou grandes centros culturais. Ela acontece onde existem artistas dispostos a fazê-la existir. E, em Três Coroas, ela está muito viva.


FICHA TÉCNICA

Elenco: Amanda Batista, Bianca Lazzaretti, Bianca Mosheer, Joe Jonathan, Kailaine Teixeira, Marcelo Manique, Pedro Lima e Thiago Tomazini.

Direção: Marcelo Manique.

Texto adaptado: Marcelo Manique e Bianca Lazzaretti, a partir do clássico de Nikolai Gogol.

Arte do cartaz: Pedro Lima.

Fotografia: Érica Rafaela, Versal Média e Arthur Gross.



*Diego Ferreira é professor de teatro, dramaturgo, crítico e curador. Graduado em Teatro pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), é criador do projeto Olhares da Cena, espaço dedicado à crítica e reflexão sobre as artes da cena. Entre seus trabalhos dramatúrgicos estão Negreiros: História que a História Não Conta — vencedor do Prêmio Açorianos 2024, Corália Brechó, Abdias do Nascimento e Vozes do Lixão: a história de Tugira.