quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O AVESSO DA PELE (SP)

 

QUANDO A PELE VIRA CENA

por Diego Ferreira*

    Assistir novamente a O Avesso da Pele, do Coletivo Ocutá, permite perceber outras camadas de um espetáculo que, à primeira vista, poderia parecer centrado apenas na transposição para a cena do romance de Jefferson Tenório. Mas há algo mais potente acontecendo: a obra encontra no teatro uma forma própria de elaborar a memória, a identidade e a experiência negra no Brasil.

    Esta é a segunda vez que assisto ao espetáculo e, justamente por isso, algumas escolhas parecem ganhar novos contornos. Se na primeira experiência a narrativa já se impunha pela força de sua temática, agora se evidencia ainda mais a maneira como o Coletivo Ocutá transforma essa narrativa em acontecimento cênico.

    Publicado em 2020, O Avesso da Pele, de Jefferson Tenório, tornou-se uma das obras importantes da literatura brasileira contemporânea ao abordar, a partir da trajetória de Pedro e de sua relação com o pai, Henrique, as marcas produzidas pelo racismo estrutural, pela violência e pelo apagamento das subjetividades negras. O romance parte de uma experiência íntima para alcançar uma dimensão coletiva: falar de um homem negro é também falar de tantos outros corpos atravessados por uma sociedade que insiste em determinar seus lugares, seus limites e até mesmo a forma como devem existir.

    É justamente essa dimensão que permanece tão contundente na atualidade. Em um país onde o racismo continua produzindo desigualdades, violências e mortes, O Avesso da Pele não se apresenta apenas como uma história sobre o passado de uma família. É uma obra que nos devolve ao presente.

    Na montagem do Coletivo Ocutá, essa experiência ganha corpo por meio de um elenco extremamente versátil. Os atores transitam por diferentes personagens, situações e registros, construindo uma narrativa que não depende da naturalização absoluta da representação. Ao contrário: eles brincam em cena, revelam o jogo teatral, deslocam-se entre personagens e situações e, muitas vezes, parecem convidar o espectador para dentro do próprio mecanismo da encenação.

    A quarta parede é rompida e, com ela, também se rompe a ideia de que estamos diante de uma história que deve simplesmente ser reproduzida. O espetáculo assume sua condição de teatro. Os atores jogam, comentam, transformam e compartilham com o público a construção da narrativa. Há uma espécie de prazer no ato de fazer teatro que atravessa a montagem e impede que a densidade do tema se transforme em uma encenação pesada ou excessivamente ilustrativa.

    Essa escolha é particularmente significativa porque permite que a experiência negra esteja presente não apenas no que é contado, mas também na maneira como a história é contada. O corpo negro não aparece somente como objeto de uma narrativa sobre racismo e violência. Ele é sujeito da cena, produtor de linguagem, de memória, de humor, de jogo e de imaginação.

    É aí que a atuação se torna um dos grandes méritos da montagem. O elenco demonstra domínio dos diferentes registros propostos pelo espetáculo, alternando momentos de intimidade e confronto, delicadeza e tensão, humor e dor. Essa versatilidade contribui para que a narrativa avance sem perder sua dimensão humana.

    Há também uma produção esmerada, em que os elementos da encenação parecem trabalhar a favor da narrativa sem disputar protagonismo com ela. A montagem revela cuidado nos detalhes e uma compreensão de que a excelência de uma produção não está necessariamente na quantidade de recursos colocados em cena, mas na capacidade de fazer com que cada escolha estabeleça uma relação coerente com aquilo que se pretende dizer.

    Talvez seja esse um dos aspectos mais interessantes de O Avesso da Pele: o espetáculo não parece interessado apenas em contar a história de Henrique e Pedro. Ele quer pensar o que significa contar essa história através do teatro.

    E o teatro, aqui, não aparece como simples veículo para uma narrativa literária. Ele é linguagem. É jogo. É presença. É corpo. É relação direta com o espectador.

    Ao retornar à obra pela segunda vez, percebo com ainda mais clareza que a força da montagem está justamente nesse equilíbrio entre a potência do material de origem e a liberdade de criar uma experiência cênica própria. Jefferson Tenório oferece uma literatura marcada pela memória e pela urgência de olhar para aquilo que tantas vezes foi silenciado. O Coletivo Ocutá, por sua vez, encontra no palco uma maneira de fazer essa memória circular entre corpos, vozes e espectadores.

    Talvez o “avesso” do título esteja também aí: virar a pele do teatro pelo lado de dentro. Expor seus mecanismos, revelar o jogo, aproximar atores e público e transformar uma história particular em experiência compartilhada.

    O Avesso da Pele é, portanto, um espetáculo sobre memória, racismo, paternidade e identidade, mas é também uma afirmação de que narrativas negras precisam ocupar o centro da cena não apenas para falar sobre a violência que as atravessa, mas para produzir outras formas de imaginar, brincar, lembrar e existir.

    E quando o teatro consegue fazer isso sem abrir mão da teatralidade, talvez esteja justamente encontrando uma das suas funções mais urgentes: não apenas representar o mundo, mas criar condições para que possamos enxergá-lo de outro lugar.


FICHA TÉCNICA

Realização: Coletivo Ocutá
Direção: Beatriz Barros
Assistência de direção: Vitor Britto
Elenco: Alexandre Ammano, Bruno Rocha, Marcos Oli e Vitor Britto
Dramaturgia: Beatriz Barros e Vitor Britto
Direção Musical: Felipe Oládélè
Preparação corporal e direção de movimento: Castilho
Preparação vocal: Malú Lomando
Concepção e criação do desenho de luz: Gabriele Souza
Figurino: Naya Violeta
Cenografia: Wanderley Wagner
Operação de luz: Nayka Alexandre
Operação de som: Samuel Gambini
Cenotecnia: Luis Felipe Machado
Direção de produção: Jennifer Souza
Produção: Corpo Rastreado – Jack dos Santos


Diego Ferreira é professor de teatro, dramaturgo, crítico e curador. Graduado em Teatro pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), é criador do projeto Olhares da Cena, espaço dedicado à crítica e reflexão sobre as artes da cena. Entre seus trabalhos dramatúrgicos estão Negreiros: História que a História Não Conta — vencedor do Prêmio Açorianos 2024, Corália Brechó, Abdias do Nascimento e Vozes do Lixão: a história de Tugira.