domingo, 30 de agosto de 2026

CASAMENTO ABERTO, QUASE ESCANCARADO (RS)

 



CASAMENTO ABERTO, HUMOR FECHADO

    Há uma diferença importante entre uma obra falar sobre o machismo e uma obra conseguir fazer do machismo um objeto de reflexão. Essa diferença parece pequena, mas é justamente nela que Casamento Aberto, Quase Escancarado encontra algumas de suas maiores dificuldades. Anunciado como uma comédia e apresentado como uma adaptação de Coppia Aperta, Quasi Spalancata, de Dario Fo e Franca Rame, o espetáculo chega ao palco com uma responsabilidade considerável: revisitar uma dramaturgia reconhecida internacionalmente por colocar em cena, com humor e contundência, as contradições das relações amorosas e, sobretudo, a desigualdade existente dentro delas.

    Na sessão em que assisti ao espetáculo, entretanto, o que deveria provocar o riso provocou, na maior parte do tempo, silêncio. A plateia raramente reagiu às situações propostas e algumas das piadas parecem chegar ao palco já sem força suficiente para produzir o efeito pretendido. O problema, portanto, não está apenas em uma ou outra escolha de humor. Está na dificuldade da montagem em construir um ritmo cômico capaz de sustentar a dramaturgia.

    Casamento Aberto, Quase Escancarado parte de uma situação bastante conhecida: um homem e uma mulher vivem um casamento desgastado e decidem abrir a relação. A proposta, feita pelo marido, parece inicialmente representar uma possibilidade de liberdade. Mas existe uma condição implícita: a liberdade funciona enquanto estiver sob seu controle. Quando a mulher efetivamente encontra outro homem, o marido entra em desespero.É justamente aí que está a potência do texto de Dario Fo e Franca Rame.

    Escrita em 1983, Coppia Aperta, Quasi Spalancata integra uma produção dramatúrgica que frequentemente utilizava o humor, a sátira e a farsa como instrumentos para desestabilizar estruturas de poder. Dario Fo, dramaturgo, ator e diretor italiano, construiu uma obra marcada pela crítica social e política, pela tradição da commedia dell'arte e pela utilização do riso como ferramenta de enfrentamento. Franca Rame, atriz, dramaturga e importante militante feminista, teve participação fundamental na construção dessa dramaturgia e na perspectiva crítica sobre as relações entre homens e mulheres. Essa informação não é periférica. É fundamental para compreender a peça.

    Em Casamento Aberto, o relacionamento amoroso não é apenas um pretexto para produzir situações engraçadas. A relação do casal funciona como uma espécie de microcosmo das estruturas de poder entre homens e mulheres. O homem reivindica liberdade para si, mas não suporta a possibilidade de a mulher exercer a mesma liberdade. A aparente abertura do casamento revela, portanto, uma estrutura profundamente desigual. O que parece liberdade é, na verdade, privilégio.

    E talvez seja justamente aí que a montagem porto-alegrense pudesse encontrar uma discussão muito potente para os dias atuais. Afinal, se os modelos de relacionamento se transformaram, se as formas de amar e de estabelecer acordos afetivos estão cada vez mais diversas e se os aplicativos modificaram profundamente as possibilidades de encontro, algumas estruturas de poder continuam surpreendentemente familiares.

    O problema é que, nesta montagem, falta uma reflexão mais consistente sobre o próprio texto que se pretende revisitar. A adaptação parece partir do material original sem conseguir encontrar uma perspectiva suficientemente clara sobre aquilo que deseja dizer hoje. Não se trata necessariamente de atualizar a dramaturgia ou de transformá-la em outra obra, mas de estabelecer uma leitura: por que montar Casamento Aberto em 2026? O que essa dramaturgia ainda nos revela? O que mudou desde 1983 e o que permanece assustadoramente igual Essas perguntas poderiam alimentar a encenação. No entanto, ficam pouco desenvolvidas.

    A crítica ao machismo, que poderia ser um dos principais motores do espetáculo, muitas vezes não consegue se estabelecer como crítica. Em diversos momentos, as falas e situações de tom machista parecem simplesmente ocupar o palco, sem que a encenação consiga produzir uma camada suficientemente evidente de ironia, distanciamento ou elaboração. Quando a piada não funciona, aquilo que deveria ser revelado como absurdo corre o risco de ser recebido apenas como uma piada machista sem graça. E essa é uma diferença fundamental.

    O espetáculo parece querer escancarar as contradições de uma relação marcada pelo machismo, mas acaba, por vezes, escancarando o próprio machismo que pretendia colocar em questão. Isso se torna ainda mais problemático quando a montagem é apresentada como uma comédia. O humor exige precisão. Exige ritmo, escuta, pausa, surpresa, construção de expectativa e, principalmente, uma relação muito afinada entre atores e público. Uma situação pode estar escrita para provocar o riso e, ainda assim, não ser engraçada em cena. É o palco que precisa transformar a palavra em acontecimento. Nesta montagem, esse acontecimento parece raramente se concretizar.

    As interpretações de Cris Viegas e Regius Brandão demonstram disposição e entrega às situações propostas, mas encontram dificuldades em escapar de uma construção demasiadamente superficial dos personagens. Falta, sobretudo, uma maior variação de estados, intenções e energias. O casal permanece durante boa parte do espetáculo em uma mesma frequência, o que reduz o impacto das mudanças que a própria dramaturgia propõe. Em uma comédia de relacionamento, isso pesa especialmente.

    O conflito precisa crescer, recuar, explodir, surpreender. O público precisa perceber quando uma situação está prestes a sair do controle. Precisa acompanhar a escalada do absurdo. Precisa rir não apenas porque uma frase foi escrita para ser engraçada, mas porque o corpo dos atores, o tempo da cena e a relação estabelecida entre eles tornam aquela situação irresistivelmente cômica.

    Aqui, falta ritmo. E quando falta ritmo à comédia, o texto fica excessivamente exposto. As pausas se prolongam, as situações perdem potência e aquilo que deveria ser uma escalada de acontecimentos transforma-se em uma sucessão de falas e episódios que não conseguem adquirir a necessária dimensão teatral.

    Há ainda uma questão que pode ser observada a partir da própria ficha técnica e que merece ser colocada menos como acusação e mais como reflexão sobre os processos de criação teatral. Regius Brandão concentra em si uma parcela bastante significativa das funções da montagem: é responsável pela adaptação, direção, atuação, cenografia, figurinos, direção de produção, produção executiva e ainda integra a realização do espetáculo.

    É preciso reconhecer que essa concentração de funções não é uma particularidade desta produção. Ela faz parte, muitas vezes, da própria realidade de grupos e artistas independentes, que precisam acumular tarefas diante da precariedade estrutural, da falta de financiamento e das dificuldades concretas de produção do teatro brasileiro. Fazer teatro, especialmente fora dos grandes circuitos, frequentemente significa fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Mas reconhecer essa realidade não impede que se observe também o possível impacto artístico dessa concentração.

    O teatro é, por natureza, uma arte do encontro. E encontro também significa confronto de ideias, escuta, discordância, colaboração e possibilidade de outros olhares interferirem no processo. Quando um mesmo artista concentra funções tão diferentes, existe o risco de que determinadas escolhas permaneçam sem o necessário tensionamento externo. Uma segunda leitura dramatúrgica, outro olhar sobre a direção, uma direção de atores independente ou mesmo a participação mais efetiva de outros profissionais nas escolhas estéticas poderiam, talvez, contribuir para ampliar as possibilidades da montagem.

    Não se trata de afirmar que dividir funções produziria automaticamente um espetáculo melhor. Tampouco de diminuir o esforço de quem assume tantas responsabilidades para conseguir colocar uma obra de pé. Trata-se de reconhecer que, em determinadas criações, ter alguém de fora olhando, questionando e propondo pode ser tão importante quanto ter alguém dentro fazendo.

    No caso de Casamento Aberto, Quase Escancarado, essa interlocução poderia ter sido especialmente produtiva. Uma dramaturgia construída a partir do confronto entre dois autores que conheciam profundamente a potência política da farsa pede uma leitura que vá além da simples atualização de situações e falas. A direção poderia investigar com maior rigor onde está o absurdo, onde está a ironia, onde está a crítica e, principalmente, de que maneira o público contemporâneo deve ser colocado diante dessas contradições.

    A estrutura de Coppia Aperta, Quasi Spalancata permite pensar não apenas sobre casamento e ciúme, mas sobre posse, masculinidade, liberdade, desejo e os critérios diferentes utilizados para julgar homens e mulheres dentro das relações. O que Fo e Rame fazem é revelar o ridículo de uma lógica segundo a qual a liberdade masculina pode ser celebrada enquanto a liberdade feminina se transforma em ameaça.

    Mais de quatro décadas depois de sua estreia, a questão permanece atual. Talvez por isso a montagem também provoque uma pergunta que ultrapassa o espetáculo: o que significa montar hoje uma obra de 1983 cuja crítica ao comportamento masculino continua reconhecível? A resposta não precisa necessariamente estar em atualizar todas as referências do texto. Pode estar simplesmente em encontrar uma maneira contemporânea de fazer com que o público perceba o absurdo daquilo que está vendo. E esse é um trabalho que a encenação parece não conseguir realizar plenamente.

    O resultado é uma experiência teatral pouco potente, especialmente quando confrontada com a expectativa criada pela divulgação. A distância entre o espetáculo anunciado — uma “célebre tragicomédia”, uma obra capaz de “desconstruir com precisão as hipocrisias e contradições da tradicional união” e fazê-lo “com muito bom humor” — e aquilo que efetivamente acontece em cena é considerável.

    Não se trata de exigir que uma comédia provoque gargalhadas do início ao fim. Nem toda comicidade precisa ser explosiva. Há o humor amargo, o constrangimento, a ironia, o riso nervoso, o silêncio que também pode ser uma resposta. Mas, quando praticamente nenhuma dessas possibilidades se estabelece, torna-se difícil sustentar a classificação do espetáculo como uma experiência efetivamente cômica.

    Casamento Aberto, Quase Escancarado acaba sendo mais interessante pelo que poderia discutir do que pelo que consegue realizar em cena. E talvez essa seja a maior frustração.

    Diante de uma dramaturgia escrita por dois artistas tão importantes para o teatro político e para a discussão das relações de gênero — e diante, ainda, da possibilidade de revisitar esse material em um momento em que as formas de relacionamento estão sendo novamente questionadas — esperava-se uma montagem capaz de encontrar no texto não apenas suas piadas, mas sua inteligência. O casamento está aberto. A questão é saber o que a montagem consegue escancarar. Nesta experiência, infelizmente, escancara-se muito pouco além das fragilidades da própria encenação.



FICHA TÉCNICA

Autores: Dario Fo e Franca Rame
Tradução: Roberto Vignatti e Michele Piccoli
Adaptação e direção: Regius Brandão
Elenco: Cris Viegas e Regius Brandão
Assistente de direção e produção: Félix Beck
Cenografia: Regius Brandão
Desenhos nos cenários: Pena Cabreira
Iluminação e operação de luz: Luiz Acosta
Figurinos: Regius Brandão e Cris Viegas
Direção de produção: Regius Brandão
Fotos e programação visual: Nilton Santolin
Produção executiva: Regius Brandão e Cris Viegas
Assessoria de imprensa e redes sociais: Cris Viegas
Realização: Regius Brandão, Cris Viegas e Abre A Cortina
Direitos autorais internacionais: ABRAMUS



*Diego Ferreira é professor de teatro, dramaturgo, crítico e curador. Graduado em Teatro pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), é criador do projeto Olhares da Cena, espaço dedicado à crítica e reflexão sobre as artes da cena. É também criador da Escola Livre de Artes da Cena. Entre seus trabalhos dramatúrgicos estão Negreiros: História que a História Não Conta — vencedor do Prêmio Açorianos 2024 —, Corália Brechó, Abdias do Nascimento e Vozes do Lixão: a história de Tugira.