terça-feira, 25 de agosto de 2026

SONAR (RS)



SONAR — A BELEZA DE HABITAR O DESCONHECIDO

por Diego Ferreira *

    Há grupos que encontram uma linguagem e passam a repeti-la. E há aqueles que transformam a própria pesquisa em um território permanente de descoberta. É o caso do Máscara EnCena. Acompanho a trajetória do grupo desde Imobilhados, seu trabalho de estreia, e talvez uma das características mais instigantes dessa caminhada seja justamente a recusa em se acomodar naquilo que já domina.

  Em Sonar, essa característica aparece novamente com força. A máscara continua sendo o território de investigação do coletivo, mas não funciona como uma fórmula. Pelo contrário: a cada novo espetáculo, o grupo parece perguntar o que mais essa linguagem pode produzir, que outras possibilidades de presença, narrativa e relação com o espectador ainda podem ser exploradas. O resultado é um trabalho que preserva a identidade do Máscara EnCena ao mesmo tempo em que se permite avançar, experimentar e, sobretudo, surpreender.

   Concebido por Alexandre Borin, com atuação de Borin e Fábio Cuelli, que também assina a direção cênica, Sonar acompanha Ranos, um menino diante das transformações que anunciam a adolescência. O quarto, espaço aparentemente íntimo e cotidiano, transforma-se em território de descobertas, estranhamentos e metamorfoses. É ali que crescer deixa de ser apenas uma passagem de tempo para se tornar uma experiência física, emocional e subjetiva.

   O mais bonito é perceber que essa dramaturgia não está restrita à palavra. Se existem textos gravados que conduzem parte da narrativa, a verdadeira dramaturgia de Sonar parece estar espalhada por toda a cena. Está nos corpos dos atores, nos movimentos, nas máscaras, nos bonecos, nos objetos, no figurino, na cenografia e, de maneira especialmente significativa, na trilha sonora. Tudo parece cuidadosamente articulado para construir uma experiência sensorial e imersiva.

    É um espetáculo em que se pode olhar para um objeto e perceber que ele carrega uma história; acompanhar um movimento e compreender uma transformação; ouvir um som e reconhecer nele uma espécie de chamado para o desconhecido. O título, nesse sentido, torna-se uma chave importante para a leitura da obra: Sonar é aquilo que procura localizar, medir, encontrar; mas também é aquilo que faz soar. O menino está tentando descobrir onde está no mundo enquanto, simultaneamente, começa a descobrir a própria voz.

    Essa construção revela outra qualidade importante do Máscara EnCena: a capacidade de confiar na inteligência do espectador. O grupo não simplifica a adolescência para transformá-la em um conjunto de clichês. Não há uma tentativa de explicar didaticamente o que significa crescer. Há, antes, a criação de um espaço poético no qual o público pode reconhecer sensações, medos, desejos e estranhamentos.

    E talvez aí esteja uma das maiores potências de Sonar. A adolescência ainda é, muitas vezes, uma faixa etária esquecida pela criação teatral. Há uma produção significativa destinada às crianças e outra voltada ao público adulto, enquanto o adolescente frequentemente permanece nesse intervalo em que parece não haver lugar para ele. O Máscara EnCena ocupa esse espaço com respeito e sofisticação, oferecendo um espetáculo que pode ser compartilhado por toda a família, mas que olha particularmente para esse jovem que está deixando para trás um mundo conhecido sem ainda saber exatamente que mundo encontrará pela frente.

    A beleza de Sonar nasce justamente dessa delicadeza. Não é uma beleza decorativa, mas construída pelo encontro entre diferentes elementos da linguagem teatral. Máscaras, bonecos, corpos, objetos, sons e imagens não aparecem como recursos isolados: todos estão a serviço de uma experiência poética sobre a transformação.

    Ao longo de sua trajetória, o grupo vem consolidando uma assinatura artística reconhecível. Mas reconhecer essa assinatura não significa saber antecipadamente o que o grupo fará. E essa talvez seja a maior conquista de uma companhia que pesquisa: fazer com que sua identidade esteja justamente na capacidade de se reinventar.

    Desde Imobilhados, o grupo vem demonstrando que pesquisar máscara é muito mais do que trabalhar com máscaras. É investigar o corpo, o objeto, a imagem, a presença, a materialidade da cena e as possibilidades de contar histórias para além da palavra. Sonar amplia esse percurso e confirma que, quando há rigor, curiosidade e desejo de experimentação, a linguagem não se fecha sobre si mesma — ela continua produzindo novas perguntas.

    E crescer, talvez seja exatamente isso: aprender a ouvir os sons que vêm de dentro e de fora, tentar decifrá-los, encontrar-se no meio do ruído e, pouco a pouco, descobrir a própria frequência. Sonar é um espetáculo que entende essa travessia e a transforma em teatro com delicadeza, invenção e uma extraordinária beleza cênica.


FICHA TÉCNICA

Concepção: Alexandre Borin

Direção cênica: Fábio Cuelli

Atuação: Alexandre Borin e Fábio Cuelli

Cenotécnico: André Gnatta

Comunicação e redes sociais: Mariana Rosa

Design gráfico: Carol Rosa

Vídeos de divulgação: Eroica Conteúdo

Fotografia: Tom Peres

Audiodescrição: OVNI Acessibilidade

Direção de produção: Camila Vergara

Produção e realização: Máscara EnCena

Financiamento: PNAB e CHC Santa Casa


*Diego Ferreira é professor de teatro, dramaturgo, crítico e curador. Graduado em Teatro pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), é criador do projeto Olhares da Cena, espaço dedicado à crítica e reflexão sobre as artes da cena. Entre seus trabalhos dramatúrgicos estão Negreiros: História que a História Não Conta — vencedor do Prêmio Açorianos 2024, Corália Brechó, Abdias do Nascimento e Vozes do Lixão: a história de Tugira.