sábado, 22 de agosto de 2026

O PROFETA LOUCO (RS)

 


ENTRE O PROFETA E O LOUCO: 
O HOMEM


*por Diego Ferreira

    O Profeta Louco, montagem dirigida e adaptada por Suzi Martinez, a partir do texto do dramaturgo e roteirista espanhol Paco Bernal, o espetáculo encontra no corpo e na presença de Juliano Passini o lugar onde suas perguntas sobre fé, humanidade, sofrimento psíquico, identidade e loucura podem reverberar.

    O que mais chama atenção em Passini é a sua presença cênica. Em um monólogo de aproximadamente uma hora, não há a possibilidade de esconder-se atrás de um elenco, de uma movimentação excessiva ou de uma sucessão de acontecimentos. O ator está exposto. E justamente por isso sua disponibilidade para a cena se torna um dos grandes méritos da montagem. Passini compreende que interpretar não é apenas dizer um texto, mas permitir que o corpo seja permanentemente atravessado por aquilo que se diz.

    Sua atuação também se sustenta na versatilidade. O personagem transita entre diferentes estados e identidades, aproximando Jesus e Manuel, o sagrado e o humano, aquilo que é visto como transcendência e aquilo que a sociedade frequentemente prefere esconder sob o rótulo da doença ou da loucura. Passini não transforma essas passagens em demonstrações virtuosísticas. Ao contrário, encontra diferentes qualidades de presença para construir um sujeito fragmentado, vulnerável, contraditório e, sobretudo, profundamente humano.

    Há uma entrega do ator que sustenta o espetáculo mesmo nos momentos em que a palavra poderia assumir o protagonismo absoluto. Passini oferece ao texto uma dimensão física: seus gestos, pausas, deslocamentos, mudanças de energia e estados corporais colaboram para construir uma dramaturgia que não está apenas no que é dito, mas também naquilo que o corpo revela. É uma atuação de grande disponibilidade, capaz de escutar a cena e reagir a ela permanentemente. Talvez, justamente por essa entrega tão intensa, ainda haja espaço para que o ator explore com maior liberdade os momentos de humor, ironia e sarcasmo presentes no texto, permitindo que essas mudanças de registro ganhem mais força e contraste dentro da experiência cênica.

    E talvez esteja aí uma das maiores forças do espetáculo: a recusa em tratar Jesus apenas como uma figura religiosa. A dramaturgia de Paco Bernal aproxima essa personagem de suas dores, seus afetos, suas relações familiares, seus desejos e suas fragilidades. O profeta deixa de ser monumento e torna-se pessoa. A operação é potente porque desloca o olhar do espectador: em vez de contemplarmos uma figura idealizada, somos convidados a reconhecer alguém que sofre, ama, hesita e busca algum sentido para sua existência.

    A dramaturgia trabalha, portanto, em uma zona de fronteira. Há humor, ironia, dor e desconforto. Há uma pergunta sobre a fé, mas também uma pergunta muito mais ampla sobre a maneira como lidamos com aqueles que escapam dos padrões que estabelecemos para a normalidade. A loucura, nesse sentido, não aparece simplesmente como um tema, mas como uma espécie de espelho que devolve ao público suas próprias certezas.

    O texto de Paco Bernal é particularmente feliz ao aproximar o extraordinário do cotidiano. Ao colocar uma figura associada ao sagrado diante de questões profundamente humanas, o dramaturgo produz uma espécie de curto-circuito: aquilo que normalmente observamos à distância passa a estar diante de nós em sua vulnerabilidade. O profeta pode ter sido transformado em símbolo, mas a personagem que encontramos em cena carrega dúvidas, afetos, contradições e sofrimento.

    Visualmente, a montagem encontra no cenário de Marco Fronckowiak e Rafa Silva um importante parceiro para essa investigação. O espaço cênico, que transita entre uma capela e uma sala psiquiátrica, materializa a ambiguidade central do espetáculo. Dois lugares aparentemente distintos passam a compartilhar o mesmo território. O sagrado e o institucional, a fé e o diagnóstico, a transcendência e o confinamento podem estar mais próximos do que imaginamos.

    Essa escolha espacial é especialmente feliz porque não funciona apenas como ambientação. O cenário participa da dramaturgia. Ele contribui para instaurar uma atmosfera de instabilidade e faz com que o espectador também permaneça em uma espécie de zona intermediária: afinal, onde estamos? Diante de um profeta? De um homem em sofrimento? De alguém que inventa uma identidade para sobreviver? Ou diante de todas essas possibilidades simultaneamente?

    A direção de Suzi Martinez conduz esse material sem retirar dele sua dimensão de estranhamento. A utilização das máscaras, a pesquisa corporal e a cena sonora ampliam a teatralidade da proposta e impedem que o espetáculo se transforme simplesmente em uma exposição verbal de ideias. Há uma construção de linguagem que faz questão de lembrar ao público que estamos diante de teatro — um teatro interessado não em oferecer respostas, mas em produzir fissuras.

    Nesse sentido, O Profeta Louco é uma experiência que aposta na contradição. É um espetáculo sobre um homem que pode ser visto como louco, mas que talvez seja justamente aquele que enxerga aquilo que os outros não querem enxergar. É uma obra que fala de Jesus sem necessariamente pedir ao espectador que acredite em Jesus. Fala de saúde mental sem reduzir a experiência humana a um diagnóstico. E fala de loucura sem estabelecer com facilidade quem, afinal, está fora ou dentro dela.

    No centro de tudo está Juliano Passini. Seu corpo, sua voz, sua escuta e sua disponibilidade fazem do palco um território de transformação. O ator não parece buscar simplesmente representar uma personagem: ele permite que diferentes dimensões desse homem apareçam e desapareçam diante de nós. É uma atuação que exige entrega e, sobretudo, presença — aquela qualidade rara que faz o espectador perceber que algo está acontecendo no instante em que acontece.

    Talvez seja essa a maior provocação de O Profeta Louco: quando retiramos de uma figura o peso do mito, o que resta? Um homem. E quando retiramos da loucura o nosso preconceito, o que encontramos? Outro ser humano. E é nesse lugar, entre o sagrado e o profano, entre a lucidez e o delírio, entre a capela e a sala psiquiátrica, que a montagem encontra sua força. Não para explicar o louco, o profeta ou o homem, mas para nos lembrar de que talvez essas três figuras nunca tenham estado tão distantes umas das outras.


FICHA TÉCNICA

Espetáculo: O Profeta Louco
Texto: Paco Bernal
Direção e adaptação: Suzi Martinez
Elenco: Juliano Passini
Figurinos: Ajeff Ghenes
Máscaras: Samara Barros
Cenário: Marco Fronckowiak e Rafa Silva
Preparação corporal: Carlota Albuquerque
Luz: Maurício Moura
Cena sonora: Álvaro RosaCosta
Participação: Paola Kirst
Identidade visual: MainQuest
Assessoria de imprensa: C2 Comunica – Adriano Cescani 
Fotos: Dani Hill
Duração: 60 minutos


*Diego Ferreira é professor de teatro, dramaturgo, crítico e curador. Graduado em Teatro pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), é criador do projeto Olhares da Cena, espaço dedicado à crítica e reflexão sobre as artes da cena. Entre seus trabalhos dramatúrgicos estão Negreiros: História que a História Não Conta — vencedor do Prêmio Açorianos 2024, Corália Brechó, Abdias do Nascimento e Vozes do Lixão: a história de Tugira.