quarta-feira, 29 de setembro de 2021
CLASSE CORDIAL (RS)
quinta-feira, 19 de agosto de 2021
CIDADE AO MAR (RS)
*Diego Ferreira é Dramaturgo, Diretor, Professor e Crítico Teatral. Graduado em Teatro UERGS/2009. Estudou Letras na FAPA/2002. Curador local do 28º Porto Alegre em Cena/2021.Coordena o Núcleo de Dramaturgia do Espaço do Ator. Editor do blog Olhares da Cena. Participou do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É integrante da GiraDramatúrgica - Grupo de Estudos em Dramaturgia Negra coordenado por Carlos Canarin/UNESPAR. Professor do Espaço do Ator e da extensão na UNISINOS. Produziu “Três tempos para a dramaturgia negra no RS” contemplado no edital Diversidade nas Culturas da Fundação Marcopolo.
domingo, 18 de julho de 2021
ZULEKA E O TESOURO DO PIRATA CARECA (RS)
PRODUÇÃO INTELIGENTE DIRECIONADA AOS PEQUENOS
por Diego Ferreira*
"Zuleka e o tesouro do pirata careca" é uma produção do Laboratório Escola de Arte Popular e é uma grata surpresa na seara das produções digitais em tempos pandêmicos. Por se tratar de uma produção voltada as crianças e pelo fato da mesma abordar temas atuais, o coletivo conseguiu criar uma experiência viva e lúdica aproximando-se da realidade das crianças de hoje. O espetáculo virtual consegue utilizar de modo louvável uma série de plataformas como o you tube, o instagram, o whattssapp para colocar em cena as aventuras de Zuleka no mundo real. Aqui não existe o mundo das maravilhas, fadas ou duendes, pelo contrário, os temas abordados são os que estão todos os dias nos noticiários como pandemia, fake news, isolamento, o medo, o genocídio, a vacina e a relação com familiares separados pelo distanciamento. O que torna a experiência diferente é justamente a forma como foi apresentado, a começar pela dramaturgia e edição dos quadros apresentados no programa de entrevistas apresentado pela Zuleka. Apesar de a produção ser dirigida aos pequenos existe um discurso político e social bastante claro e apurado. A narrativa não fica em cima do muro e propõe uma reflexão interessante acerca dos temas abordados, mas a forma que esse discurso se manifesta é construído de modo lúdico e inteligente. Não é tarefa fácil dialogar com a infância atual por uma série de ideologias que infelizmente dominam a sociedade brasileira. Mas é importante falar. É importante dialogar. É salutar evidenciar qualquer tipo de tema, principalmente os que estão em alta na sociedade e que interfere diretamente na vida dos pequenos e suas respectivas famílias para assim tentar construir uma sociedade que busque um equilíbrio no campo das idéias. A dramaturgia de "Zuleka e o tesouro do pirata careca" é espetacular, destaco por exemplo a cena/quadro do formigueiro que estabelece uma relação direta com o governo. Outra cena que destaco é a da avó de Zuleka após ser vacinada se transformar em jacaré. São cenas/quadros muito bem construídos e divertidos. O elenco é um destaque a parte, pois consegue construir figuras interessantes e hilárias como o impagável Tio Miro e sua sereia Elvira que Rodrigo Reis nos brinda perfeitamente, assim como a personagem título Zuleka personificada pela Pam Magalhães, que tem uma tarefa difícil que é criar corpo/voz a uma personagem infantil, o que acontece de modo natural, pois quanto mais avança o espetáculo mais acreditados na sua construção da menina Zuleka. Vinicius Lima como o Avô e o pirata também está muito bem e seguro na personificação destas figuras que no caso de Vinicius percebo um tempo ótimo principalmente no avô falastrão, assim como Carini Pereira que no papel da avó consegue ser hilária e pontual agregando qualidade no projeto. Os personagens são fora do padrão de um universo infantil romantizado e isso faz com que consigam dialogar com a nossa realidade. O coletivo assim como Bruno Prandini estão de parabéns pela qualidade e principalmente pela resistência de seguir produzindo trabalhos com muita qualidade dentro da chamada região metropolitana de Porto Alegre. Que este trabalho possa chegar nas escolas e ser um bom exemplo de teatro que faz uma ótima reflexão da criança da atualidade aliada a diversão.
FICHA TÉCNICA
Montagem Coletiva do Laboratório-Escola de Arte Popular
Criação da Dramaturgia, Pesquisa de Referências, Elementos Cenográficos, Figurinos, Trilha Sonora: O Coletivo
Direção Artística: Bruno Flores Prandini
Elenco: Carini Pereira, Pam Magalhães, Rodrigo Reis e Vinicius Lima
Criação de Material Audiovisual: Rodrigo Reis e Pam Magalhães
Edição de Vídeo Espetáculo Digital: Renato Chama
Após a transmissão do espetáculo, haverá uma live no Youtube com toda a equipe artística. Para acompanhar acesse o Youtube do Laboratório-Escola de Arte Popular
Este espetáculo integra o projeto “Mostra 10 Gigabytes de História - Vacina para Corpos Digitais” sendo este um Projeto realizado com recursos da Lei nº 14.017/2020.
*Diego Ferreira é Dramaturgo, Diretor, Professor e Crítico Teatral. Graduado em Teatro UERGS/2009. Estudou Letras na FAPA/2002. Coordena o Núcleo de Dramaturgia do Espaço do Ator. Editor do blog Olhares da Cena. Participou do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É integrante da GiraDramatúrgica - Grupo de Estudos em Dramaturgia Negra coordenado por Carlos Canarin/UNESPAR. Professor do Espaço do Ator e da extensão na UNISINOS. Produziu “Três tempos para a dramaturgia negra no RS” contemplado no edital Diversidade nas Culturas da Fundação Marcopolo. Curador do 28º Porto Alegre em Cena/2021.
domingo, 11 de julho de 2021
DESFAZENDA - ME ENTERRE FORA DESSE LUGAR (SP)
domingo, 27 de junho de 2021
DERROTA (RS)
DIMENSÕES ÍNTIMAS E SUBJETIVAS NO CENTRO DA NARRATIVA
por Diego Ferreira*
A peça-filme “Derrota” a partir do texto de Dimítris Dimitriádis evidencia aspectos subjetivos no embate das contradições humanas. Parte de um universo minimalista para dialogar com questões macro, principalmente neste momento que vivemos. E esta obra e texto serem trazidos a tona neste momento é um dos grandes méritos do projeto, principalmente por evocar dimensões íntimas e subjetivas colocando a palavra no centro da narrativa. A palavra enquanto possibilidade de comunicação, extremamente elaborada e materializada através do corpo e voz de Liane Venturella, o que produz no espectador uma espécie de catarse, como se fossemos voyeur da intimidade daquela mulher. Penetramos em “Derrota” através do mundo das palavras, e através delas empreendemos a própria metamorfose da narrativa. Através da palavra dita e internalizada, construímos e reconstruímos o universo daquela mulher que sozinha em seu quarto fuma e divaga sobre suas derrotas, desejos, perdas e sonhos e isso tudo nos conecta nos provocando a criar outras dimensões sobre limites e fronteiras psíquicas e emocionais que estamos sujeitos em nosso cotidiano. E se esse cotidiano for o Brasil atual essas palavras criam outras dimensões que potencializam o discurso do texto, pois parte da materialidade do texto de Dimítris para aprofundar temas que hoje no Brasil são extremamente caros a todos nós como o caos político e sanitário. É o momento perfeito para dar uma pausa e refletir sobre nossas precariedades. Esse diálogo é necessário, é salutar, é urgente, até mesmo como uma válvula de escape, uma fuga frente ao caos.
“Derrota” é uma
parceria do Coletivo Gompa e Cia Incomode-te e evidência o notável trabalho de
Liane Venturella como grande atriz que é, tendo como possibilidade de criação a
sua presença e toda sua capacidade de articulação através de pausas, silêncios
e uma apropriação do texto que a primeira vista parece simples, mas a simplicidade
nem sempre é algo fácil de acessar, e aqui sua atuação neste experimento é
magistral. Assim como o trabalho de Camila Bauer que a cada trabalho se
reinventa enquanto encenadora, seja na linguagem, poética ou estética, mas
sempre inovando e trazendo o novo para os palcos, ou para a tela como é neste
experimento. Uma produção intima, reveladora e instigante que provoca o nosso
imaginário através da ótima utilização da palavra materializada no corpo e voz
de uma grande atriz.
FICHA TÉCNICA
Texto: Dimítris Dimitriádis
Direção: Camila Bauer
Elenco Liane Venturella
Direção Sonora: Álvaro RosaCosta
Vídeo: Júlio Estevan
Fotos: Claudio Etges
Orientação de figurino: Fabiane Severo
Iluminação: Ricardo Vivian
Assessoria de Imprensa: Léo Sant´Anna
Produção: Letícia Vieira
Coordenação de Produção: Primeira Fila Produções
Realização: Projeto Gompa e Cia. Incomode-Te.
*Diego Ferreira é Dramaturgo, Diretor, Professor e Crítico Teatral. Graduado em Teatro UERGS/2009. Estudou Letras na FAPA/2002. Coordena o Núcleo de Dramaturgia do Espaço do Ator. Editor do blog Olhares da Cena. Participou do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É integrante da GiraDramatúrgica - Grupo de Estudos em Dramaturgia Negra coordenado por Carlos Canarin/UNESPAR. Professor do Espaço do Ator e da extensão na UNISINOS. Produziu “Três tempos para a dramaturgia negra no RS” contemplado no edital Diversidade nas Culturas da Fundação Marcopolo.
sábado, 22 de maio de 2021
HIPERGAIVOTA (RS)
SUSPENSÃO DO COTIANO ATRAVÉS DE VIVÊNCIA INTERATIVA
por Diego Ferreira*
HIPERGAIVOTA é uma experiência
digital, um desdobramento do espetáculo “Dispositivo Gaivota” do Coletivo
Errática. Trata-se de uma plataforma que o espectador vai explorando através
dos seus próprios gestos e cliques. “Hipergaivota” é uma das melhores experiências
artísticas dos últimos tempos pela inventividade, inovação e por permitir ao
navegador desbravar outras searas, através de uma vivência interativa e
criativa.
Uma peça de teatro
desse tempo, para esse tempo, diz o texto de abertura, e de fato se configura
dessa forma. Um experimento sobre o tempo. Sobre o espaço, mesmo questionando
que espaços são estes, espaços fugazes e efêmeros. Nossos dedos passeiam
nervosos por salas, e cada clique abre-se uma nova possibilidade estética, uma
nova visão de um pequeno mundo que se agiganta diante de nós. Fragmentos de textos,
imagens, performances, sons e uma infinidade de possibilidades de juntar partes
de um grande quebra-cabeça emotivo, afetivo e sensorial. O nosso papel enquanto
espectador é ir entrando nas salas, absorvendo e sentindo cada proposta,
brincar, se divertir e a partir daí se colocar também no jogo, enquanto peça
fundamental. Diante de todas as incertezas que vivemos no mundo diante de uma
pandemia, quando não sabemos do dia de amanhã, ainda surgem projetos e
propostas artísticas que te tiram do eixo, que provocam uma suspensão no seu
cotidiano. “Hipergaivota” é um mergulho para dentro, pois enquanto se volta
para os dramas e tensões das personagens do universo de Tchekhov, também são
desvelados o universo e estrutura dos performes, fragmentos de um cotidiano em
suspensão, frestas de banheiros, quartos, salas e quintais, travessias que me
reportam de Porto Alegre até Boston, tudo sob um olhar que coloca em evidencia
a máquina do fazer artístico, a nova possibilidade de criação a partir do estar
dentro, do estar apartado de um todo, do seu coletivo, de sua tribo, mas mesmo
assim existe vida, existe criação e existe reverberação potente do lado de cá.
“Hipergaivota” é uma
grande possibilidade de composições a partir das cenas e dos dispositivos e das
ligações que o espectador vai construindo com partes ou com o todo. Impossível
tecer qualquer comentário estilístico ou de atuação quando o projeto requer
apenas EXPERIÊNCIA. Sim, uma experiência viva pautada pela usina criativa e
virtualizada que é essa “Hipergaivota”. Parabéns ao Coletivo Errativa que
juntamente com o Grupojogo não somente agora, mas a algum tempo tem ventilado
as artes cênicas do estado com propostas inventivas e inovadoras mas sem
desconectar do humano, e por isso são projetos universais.
Ficha técnica
Direção e Concepção:
Francisco Gick
Dramaturgia e Código: Francisco
Gick a partir de “A Gaivota” de Anton Tchekhov
Adaptação: Coletivo
Errática
Elenco: Claudio Loimil,
Jezebel De Carli, João Pedro DeCarli, Guega Peixoto, Luan Silveira, Gustavo Dienstmann,
Mani Torres e Nina Picoli
Trilha Sonora: Vitório
O. Azevedo
Figurino: Gustavo
Dienstmann
Concepção e Criação
de plataforma: Francisco Gick
Duração: 60 min
Recomendação etária: 18
anos
quinta-feira, 6 de maio de 2021
A ÚLTIMA NEGRA (RS) - CRÍTICA
COSMOVISÕES E EXISTÊNCIAS NEGRAS
Inicio minhas divagações sobre “A Última Negra” buscando refletir sobre a existência e sua relação entre teatro e negritudes. Primeiro busco pensar o teatro dentro do quadro atual em que nos encontramos e vislumbrar novas possibilidades de existência daqui em diante. A definição do verbo “existir” diz que “é ter existência real, ter presença viva, viver, ser”. Existir fala de presença viva. E PRESENÇA nas artes da cena tem um sentido amplo no que tange a uma presença real, mesmo que virtualizada como é o caso de “A Última Negra”. O mundo já não é mais o mesmo com a atual pandemia. Países de todo o planeta estão sofrendo as conseqüências desta crise, que são econômicas, sociais e também psicológicas. Foi dada uma pausa no cotidiano da humanidade e, compulsoriamente, cada indivíduo é levado a pensar sobre sua forma de existir no mundo: o trabalho, as relações, a maneira como utilizamos nossos recursos (ou a falta deles), o que se espera de fato da classe política, como gerir pessoas em vulnerabilidade social, e tantos outros desafios. São diversos problemas para serem resolvidos em um curto período de tempo e cada escolha pode determinar a vida e a morte de milhares de pessoas. No meio disso tudo, está também à classe artística, que lida há tempos com vários tipos de ataques e falta de investimentos. Na nossa sociedade, muitos partem da idéia da arte como algo supérfluo, dispensável ou até mesmo um hobby. Há, portanto, um preconceito estrutural (assim como o racismo estrutural abordado no espetáculo) em relação às artes, provavelmente atrelado à crença do valor mercadológico das profissões, no sentido de que há algumas mais importantes e "úteis" que outras. Com a pandemia, novas formas de “existência” têm sido pensadas para os artistas, não sem controvérsias e polêmicas, já que temporadas de espetáculos foram todos cancelados. Em meio a uma crise que escancara a insuficiência de políticas públicas para todos os setores da sociedade, os espetáculos teatrais, que tanto dependem do público (presença), tem estado parados. Para alguns artistas, uma alternativa tem sido as transmissões ao vivo através de plataformas virtuais. “A última negra” consegue se apropriar da definição de “existir” perfeitamente e trabalhar com ressignificações conceituais em relação à estrutura, a forma de compartilhar narrativas e sua relação com o espectador. O Coletivo Projeto Gompa consegue criar uma experiência viva que se aproxima muito de uma experiência teatral, pois se utiliza das plataformas, mas faz o evento teatral acontecer como a divulgação, a bilheteria, pré-estréia, estréia e a fruição da produção através do youtube. É possível afirmar que a emergência de outro mundo está fazendo com que artistas literalmente se reinventem cada vez mais, e se coloquem na fronteira de uma criação híbrida e criem abismos e arestas de novas possibilidades.
A produção cultural negra tem feito irromper novas linguagens insurgentes ao processo da padronização cultural que ainda se deixa respingar com culturas eurocentradas. Parecem surgir outros processos vitais para o diálogo entre culturas. Uma nova régua para indicar outro compasso para um humanismo além do eixo europeu. Ineditismos culturais advindos de um olhar cosmopolita e subversivo vivenciado nas redes de comunicação artística das margens contemporâneas. Muitos artistas e influenciadores digitais negros conseguiram ganhar status de celebridade e grande projeção através das redes sociais, fato que nas mídias tradicionais jamais conseguiriam “existir” ainda por causa dessa estrutura racista que perdura na sociedade.
Isso também tem a ver com a cosmovisão africana, uma maneira subjetiva de ver e entender o mundo, principalmente as relações humanas e os papéis dos indivíduos na sociedade, assim como respostas a questões filosóficas básicas, como a finalidade da existência humana. Ou seja, seguimos falando de “existências” e de como respondemos as questões do nosso tempo. “A Última Negra” se apresenta como espetáculo virtual e se pauta na criação de uma história original, em todos os sentidos, desde o argumento até a concretização do projeto e o modo de compartilhamento e fruição. A começar pela dramaturgia de Pedro Bertoldi que nos provoca acerca de como é ser a última pessoa negra no Brasil. No texto 100 anos após o incêndio do Museu Nacional, uma arqueóloga encontra o corpo de uma mulher negra congelada. Inexplicavelmente, Dandara (entendedores entenderão a escolha deste nome) sobreviveu a mais de um século abaixo de zero grau e sua sobrevivência em um Brasil onde há muitos anos não existem vestígios de pessoas negras, faz reacender as discussões sobre o racismo institucional existente no país. É interessante essa abordagem que nos desloca para um Brasil distópico, até mesmo absurdo, para refletir sobre o racismo, evidenciando que mesmo num mundo distante ainda perduram as chagas provocadas pela estrutura racial. A narrativa trata o preconceito racial com um humor refinado e crítico. Aponta para a ferida, sem tocar diretamente nela. Constrói fricções entre o universo real e ficcional. Propõe uma reflexão sobre o lugar do negro na sociedade contemporânea e isso é feito a partir de uma visão irônica e, algumas vezes, até cômica, como pode ser observado na cena do repórter, por exemplo, na construção de um humor ácido e crítico.
A experiência virtual se desdobra em tempos e janelas distintos. É uma brincadeira, uma crítica aos inimigos institucionalizados, uma proposta para entender se realmente são inimigos ou se isso é fruto de uma manipulação promovida pela estrutura social.Podemos também fazer uma leitura afrofuturista que flerta com uma estética que combina elementos de memória, ficção científica e histórica, fantasia, arte africana e arte da diáspora africana, com cosmologias negras para criticar não só os dilemas atuais da estrutura racial, mas também para revisar, principalmente revisar, interrogar e reexaminar os eventos históricos do passado que aqui remete ao congelamento de uma mulher negra durante 100 anos.
A narrativa evita, conseqüentemente,
elementos folclóricos clichês que o sistema estabelece. A dramaturgia não se detém
nos aspectos geralmente comuns quando se trata de narrativas negras. O texto de
Pedro Bertoldi desvela várias reflexões que são caras para o teatro negro brasileiro
e, sem sombra de dúvida, merece ser lido, assistido, estudado e divulgado por
aqueles que se dedicam aos estudos afro-brasileiros. Sem dúvida um texto que
mesmo numa experiência virtual te coloca dentro da situação proposta. E lógico
que exaltar o texto de Bertoldi é necessário, porém ressaltar a trilha sonora
original de Álvaro RosaCosta é dizer que ela é um dos elementos que me fazer
mergulhar na fruição do trabalho, pois é presente em muitos momentos, e a música funciona para dizer coisas na cena sem ser tão óbvio e
colocar o espectador e sua atenção em outros lugares. Música é dramaturgia. É
pausa. É signo. É existência e
presença. Embora muitas vezes não seja notada pelo espectador,
a trilha sonora é fator narrativo que integra a obra cênica. Assim como a direção
de imagens e edição de Júlio Estevan que faz com que a experiência seja feliz e
potente. Percebemos que não é apenas um teatro filmado, ou imagens captadas de
qualquer modo, pelo contrário, imagens com muita qualidade que evidenciam cada
personagem e seus espaços dentro da narrativa. E produzir hoje uma leitura
sobre um espetáculo virtual é destacar esse profissional que geralmente num
espetáculo presencial não teria tamanha importância, mas nesse caso é, tão ou
mais importante como os demais profissionais do trabalho.
Hayline Vitória está à
frente do elenco e seu trabalho é sensacional, pois a câmera revela ângulos,
detalhes, expressões, pulsações que no teatro não percebemos. A relação com a
câmera é diferente da relação com um espectador no teatro presencial e esse
trabalho fica evidente aqui. Hayline personifica Dandara, a última negra que
ficou congelada nos últimos 100 anos. Mas todo o elenco está muito bem dentro
desta proposta. Álvaro RosaCosta, Fabrício Zavareze, Guilherme Ferrêra, Fabiane
Severo e Henrique Gonçalves cada um no seu quadrado desenvolvem um ótimo
trabalho que difere do trabalho que já conheço nos palcos e isso é bom, por se
tratar de outra linguagem. Confesso que quando vi o início das divulgações e percebi
que o Projeto Gompa estava produzindo um novo trabalho pautado em questões
raciais e que trazia em sua equipe técnica a maioria de artistas não negros
isso de certa forma me provocou, fiquei feliz por um lado e intrigado por
outro. Mas depois de assistir ao trabalho, constatei a necessidade dos artistas
não negros na concretização do trabalho e principalmente a presença de Silvana
Rodrigues na co-direção juntamente com Camila Bauer, pois sabendo da
competência e força criativa de Bauer constatada em outros trabalhos, mas que
no que diz respeito a questões raciais, era necessária a presença de uma
artista tão competente como a citada Bauer, mas que pode contribuir com outros
olhares e com uma “vivência preta” acerca da obra que assistimos. Não é que seja
proibido coletivo ou artistas não negros pautarem a negritude em suas
propostas, pelo contrário, é necessário e salutar dialogar cada vez mais sobre
a negritude na arte, mas deve-se cuidar para que as propostas não sejam
esvaziadas de sentidos e principalmente do discurso, o que não é o caso deste
projeto. Espero que não seja mal compreendido, porém é necessário refletir
sobre o esvaziamento na hora de se apropriar de elementos culturalmente ligados
a negritude, que já é algo complexo por si só, mas que é importante refletir
sobre isso. Por se tratar de uma experiência virtual creio que a produção
voltará a ser exibida e merece ser assistida pela qualidade e principalmente pela
reflexão provocada pelo texto de Bertoldi.
Ficha Técnica:
História original e dramaturgia: Pedro Bertoldi
Direção: Silvana
Rodrigues e Camila Bauer
Elenco: Hayline
Vitória, Álvaro RosaCosta, Fabrício Zavareze, Guilherme Ferrêra, Fabiane
Severo, Henrique Gonçalves.
Direção de imagens e
edição: Júlio Estevan
Trilha sonora original
e edição de som: Álvaro RosaCosta
Orientação de figurino:
Fabiane Severo e Guilherme Ferrêra
Designer gráfico: Mitti
Mendonça
Fotografia e criação de
teasers: Júlio Estevan
Assessoria e produção
de conteúdo de mídias: Tainã Rosa
Assessoria de imprensa:
Thais Silveira
Produção de vídeo:
Júlio Estevan
Produção musical:
Álvaro RosaCosta
Produção
administrativa/cultural: Hayline Vitória
Produção executiva:
Silvia Duarte
Realização: Projeto
GOMPA
Financiamento: Pró
Cultura RS - Lei de incentivo e Fundo, Secretaria da Cultura - Governo do
Estado do Rio Grande do Sul
Apoio: EntreAtos
*Diego Ferreira é Dramaturgo, Diretor, Professor e Crítico Teatral. Graduado em Teatro UERGS/2009. Estudou Letras na FAPA/2002. Coordena o Núcleo de Dramaturgia do Espaço do Ator. Editor do blog Olhares da Cena. Participou do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É integrante da GiraDramatúrgica - Grupo de Estudos em Dramaturgia Negra coordenado por Carlos Canarin/UNESPAR. Professor do Espaço do Ator e da extensão UNISINOS.
domingo, 11 de abril de 2021
QUE PALAVR4 SERÁ?






