segunda-feira, 13 de agosto de 2012

VENDETTA CORSA - PORQUE MINHA FERIDA É MORTAL (RS)



"Vendetta Corsa - Poque minha ferida é mortal" trouxe qualidade ao Montenegro em Cena. Um espetáculo provocante e extremamente belo. 
A peça é estruturada dentro de uma linguagem contemporânea e faz uso de uma série de elementos que precisa ser destilada em camadas. E esse é o grande mérito da montagem, provocar o espectador a desvelar uma série de códigos e signos impregnados de teatralidade. 
Aplaudi o espetáculo em pé, e aqui louvo a dramaturgia(s), e grifo o termo dramaturgias, assim mesmo, no plural, porque o espetáculo possui várias camadas dramatúrgicas, sendo que dramaturgia não é somente o texto, mas sim a dramaturgia textual, visual, espacial, sonora, corporal. Todas essas formam o grande quebra-cabeças que é Vendetta Corsa. 
O espetáculo é repleto de acertos a começar pelo espaço cênico, uma cenografia nada realista, que já denota o clima da trama. Facas suspensas sob fios vermelhos. Sangue.  Um céu de facas que coloca todos sob o mesmo teto, sob a mesma condição. E isso está lá na cena. Todos os personagens tem o mesmo discurso, todos tem as mãos marcadas pelo sangue. Todos fazem parte do mesmo jogo. 
O texto é pautado pelo corte, pelo fragmento, com diálogos curtos e ágeis, dando o ritmo a ação.  A ação da peça se passa em Porto Alegre e o texto trás uma série de referencias como a Garibaldi, a Farrapos, os imperadores do samba, a voluntários da pátria, dando um referencial geográfico e de espaço a cena. A cena das meninas lésbicas é bonita e provocadora e a cena final impactante unindo o texto e a projeção. Outro aspecto importante é a utilização de atores-narradores que ao mesmo tempo que fazem, narram  e comentam a ação. A iluminação é funcional e correta. A trilha é bem selecionada, funciona no contexto da cena, mas é demasiada, pontua toda a ação, faltando espaço para o silêncio, a pausa, o vazio e deixando de potencializar outros modos de produzir som no espetáculo como por exemplo, a respiração inicial dos atores, os jornais sendo rasgados ou manipulados, a água derramada, o barulho das rodinhas da cadeira ou até mesmo o silêncio que auxiliaria a criar o clima necessário para fisgar o espectador, pois o espetáculo é lindo, é correto, os atores são muito bons, mas o espetáculo não chega a me emocionar, talvez não era para me emocionar mesmo, mas o que é certo é que pude compartilhar uma grande experiencia estética que me  provocou sim, mexeu comigo sim, meus olhos brilharam sim e por isso afirmo que"Vendetta Corsa" é um dos melhores espetáculos que assisti nos últimos tempos. 

Ficha Técnica
Diretor: Júlio Conte
Autor: Júlio Conte
Assistente de Direção: Alessandro Peres
Contra-regra: o grupo 
Sonoplasta: Cristiano Godinho 
Criador da trilha sonora: Júlio Conte (pesquisa de trilha sonora)
Iluminador: Cristiano Adeli
Criador da iluminação: Júlio Conte
Maquiador: o grupo
Criador da maquiagem: Catharina Conte
Figurinista: o grupo
Cenógrafo: o grupo




Diego Ferreira - Comentador crítico do I Montenegro em Cena. 

O VELEIRO DAS ESTRELAS (RS)



"O veleiro das estrelas" do Arena da Arte de Sapiranga foi o primeiro espetáculo da mostra competitiva a se apresentar no palco do Teatro Roberto Athayde Cardona, dentro do Festival de Teatro - Montenegro em Cena. O espetáculo tem texto e direção de Karina Bayer e fala da trajetória do personagem Eduardo e sua capacidade em superar desafios. Todo o enredo é construído sob a ótica da ilusão, num universo que mistura planos: o da realidade e o do sonho. 
E justamente esta mistura de planos que torna o espetáculo confuso, sugiro que a diretora/dramaturga e atriz pudesse explorar mais estes planos, distinguindo o que é realidade? o que é sonho? E a partir desta diferenciação  construir o espetáculo e potencializar o jogo dos atores, da iluminação e não apenas da trilha sonora que teve essa função de secção de planos e na minha opinião não ajuda a construir a narrativa.
O conflito central do texto é bastante interessante, mas o teatro não é apenas texto, mas sim corpo, imagem e ação e é aí que O veleiro das estrelas fica nos devendo, pois os personagens ficam sem ação, o tempo é estendido e linear e a iluminação não auxilia muito, ficando algumas vezes os atores no escuro.
As acrobacias iniciais são boas, mas com um tempo demasiado estendido e logo percebemos que a coreografia serve para a montagem do cenário composto por uma cama e uma cadeira, mas que não acrescenta em nada no desenrolar da história. Por que ao iniciar a peça o cenário não poderia estar já no palco? Outro exemplo é o passeio que Rafael faz com Edu pela platéia, e ainda o faz duas vezes? Creio que isso é desnecessário, podendo ser utilizado uma ação mais simples para mostrar o passeio. 
O grande mérito deste espetáculo é a atuação de Mykael Junior que convence muito na composição de Eduardo, um jovem ator que conseguiu concentrar a ação do personagem, e se o contexto ajudasse poderia ter cenas fortes e tocantes a exemplo da cena final. Outro destaque é a maquiagem que caracteriza os animais. 
O veleiro das estrelas não chegou a me tocar, nem tão pouco a platéia, creio eu, que ficou dispersa em vários momentos, mas se houvesse uma concentração da ação no conflito de Edu, se as cenas oníricas fossem potencializadas o trabalho ganharia muito em densidade e emoção. 

Ficha Técnica: 

Nome da Peça: Veleiro das Estrelas
Diretor: Karina Bayer
Autor: Karina Bayer
Contra-regra: Caroline Silva
Sonoplasta:Felipe Ferreira
Criador da trilha sonora: Karina Bayer
Iluminador:Douglas da Silva
Criador da iluminação:Douglas da Silva
Maquiador: O grupo
Criador da maquiagem:Karina Bayer
Figurinista:O grupo
Cenógrafo:O grupo
Elenco: Mykael Júnior, Karina Bayer, Roger dos Santos, Anderson Freitag, Geisi Souza, Douglas Lopes, Dionatan Ferreira, Diane Novak. 


Diego Ferreira - Comentador crítico do I Montenegro em Cena. 


sábado, 11 de agosto de 2012

AMORES SURDOS (MG)


Amores Surdos
“Nós temos que aprender a conviver com situações novas!”

No Brasil, ainda se fala muito na crise da dramaturgia. Muitos consideram o teatro contemporâneo como o grande vilão, chamando-o de vazio, pueril, sem conteúdo.  E o que precisaria acontecer para tornar “este teatro” interessante? Antes de tudo acredito que o teatro, seja ele qual for, pode e deve falar de questionamentos internos, relevantes, que por mais simples que possam ser, esses sim, serão atemporais e universais. Tudo isso para falar de Amores Surdos de Grace Passô, dramaturga do Grupo Espanca! de Minas Gerais. Sua escrita se alimenta na própria contemporaneidade, nesta relação cada vez mais estranha entre o homem, o seu tempo e tudo aquilo que o cerca. A violência, as incertezas e os caminhos da vida. Mostrando que é possível sim, fazer um teatro interessante, renovador, onde não só a dramaturgia é o trunfo do projeto, mas todo o tratamento dado a encenação que trata de temas cotidianos, simples, do homem do nosso tempo.
Amores Surdos fala de uma família, pai, mãe, quatro irmãos e uma irmã. Estes personagens não se ouvem, não se enxergam, não se percebem, construindo uma metáfora da passagem para a vida adulta e, conseqüentemente, a perda da inocência. O mergulho executado pelo grupo para narrar à história de uma família aparentemente comum, partindo de situações bem corriqueiras, atitudes como não dormir bem, esquecer as chaves de casa, preparar o café, deixar a torneira aberta e cuidar de um animal doméstico. No entanto, num mundo em que todas as histórias parecem já terem sido contadas, o grupo sugere que há mais para ver e sentir por trás de um quadro imperfeito, repleto de situações e de sentimentos.
  Logo no início, um dos rapazes nos revela que no final um telefonema informará que o irmão mais velho, que mora num país distante, suicidou-se. Mas logo depois alguém nos diz que o rapaz é sonâmbulo e aí ficamos sem saber se o que ele disse foi verdade ou sonho. O irmão mais novo, criança ainda, é asmático e o outro sofre de uma síndrome de pânico. A Irma por sua vez, fala sempre aos berros por causa dos fones de ouvido de que jamais se separa. A mãe, de tempos em tempos, reúne todos na sala para um ritual familiar: executarem juntos, coreograficamente, um número de sapateado. Nessas ocasiões, tentam achar o pai, mas ninguém sabe onde ele está. No final uma enxurrada de lama toma conta do palco, as pessoas escorregam e caem imundas. É quando o filho mais novo revela que há cinco anos, mais ou menos, havia trazido do zoológico um filhotinho de hipopótamo que guardou no quarto do irmão que havia viajado. Desde então, o hipopótamo vive lá. E, lamentavelmente, havia devorado o pai. Quando um dos irmãos decide matar o animal, a mãe, pateticamente, grita: “Nós temos que aprender a conviver com situações novas!” – e repete histericamente a frase enquanto o telefone toca,toca, toca e ninguém atende.
No ponto de vista da encenação, o espetáculo é extremamente minucioso em todos os aspectos. No palco temos uma cenografia que nos remete a uma sala, onde acontece a ação da peça. Temos paredes confeccionadas com um material parecido com uma renda, que reflete através desta transparência o interior de cada personagem, nos revelando o que ocorre por trás de cada um. O elenco dirigido por Rita Clemente é ótimo, pois cumpre com brilhantismo a tarefa de interpretar personagens que vão se revelando aos poucos, sublinhando os estados de alma dos personagens e o calor das relações geralmente conturbadas entre eles, em interpretações verdadeiramente apaixonantes.
A encenação é surpreendente, pois agarra o espectador logo no início quando um personagem dirige-se diretamente ao público e já anunciando o que irá acontecer, que o telefone irá tocar e que receberá uma notícia de suicídio do irmão. O que ele prevê realmente acontece, mas o mais surpreendente é o que acontece antes do que já sabemos acontecer. Situações vão se revelando e se encaixando para no final surpreender o espectador com uma lama que invade a sala, a descoberta de um hipopótamo que vive no quarto e engole o pai, a mãe que grita incessantemente e dança sapateado. A direção se utiliza disso, de um bom texto, de bons atores, da simplicidade, de um número de sapateado, de ações e gestos exatos e que provoca no espectador um misto de fervor, imaginação (um hipopótamo no quarto!), beleza e poesia visual. Uma revelação de dramaturgia num espetáculo áspero. E como o personagem da mãe grita ao final: “Nós temos que aprender a conviver com situações novas!”, aproveito e digo, temos que aprender a conviver com o novo, com grupos, atores, dramaturgos e diretores novos, desde que tenha qualidade, como comprovou o Grupo Espanca! no auge dos seus quatro anos. Nada de Zé Celso ou de Peter Brook (os quais admiro muito), o Em Cena deste ano me emocionou com o novo. Temos que aprender a conviver com o novo!

domingo, 29 de julho de 2012

O MENINO DO DEDO VERDE (RS)



" O menino do dedo verde" é o espetáculo que me fez conhecer o trabalho do Grupo Ritornelo de Passo Fundo. Mais uma vez os grupos do interior do estado vem comprovar a qualidade dos trabalhos produzidos longe da capital. 
Com seu dedo verde, Tistu carrega a certeza de que tudo pode mudar. Este é seu objetivo, transformar a triste  realidade dos espaços sem vida num ambiente vivo, harmônico e multicolorido. Com essa bonita metáfora o Grupo Ritornelo consegue criar e oferecer ao público um espetáculo repleto de acertos, desde o lindo programa que recebemos na entrada, estendendo aos demais elementos do trabalho. 
A adaptação do livro de Maurice Druon realizada por Yuolo Cezzar é bastante feliz  pois consegue a proeza de transformar o livro em dramaturgia, sem perder a essência, e isso nem sempre é fácil, pois dar conta de demasiados detalhes, cortar, adaptar, reduzir a serviço do espetáculo é bastante complexo, mas o resultado final é bastante satisfatório. 
Os cenários, adereços e bonecos de Patrícia Preiss e Maíra Coelho são estilizados e adequados a proposta da encenação, funcionais dentro do contexto, e esteticamente belos, conseguindo através de sua manipulação, cenas altamente poéticas. A simples presença da lua suspensa trás consigo uma carga dramática a cena. A construção do pônei Ginástico também é outro exemplo de funcionalidade da cena, com este boneco o espetáculo ganha um novo personagem na cena, encantador e lúdico. Não posso esquecer dos painéis, malas e dispositivos da cena criados por Juliano Rossi, lindos e eficientes, conferindo a encenação um tom mágico e de ilusão. 
E por falar em ilusão, a mesma as vezes é rompida, através na narração em primeira pessoa pelos atores-narradores, realizando um comentário da ação dos personagens, retornando logo em seguida ao enredo da peça, uma espécie de fuga, um modo brechtiano de comentar a ação dos personagens, e que funciona muito bem dentro da proposta da encenação. 
A direção de Marcio Bernardes é precisa e altamente criativa, potencializando cada detalhe da cena, exprimindo de cada elemento o máximo de teatralidade. Marcio soube conduzir o brilhante elenco de forma coerente, e seria injusto destacar algum ator, pois todos conseguem alcançar grandes momentos através da construção de diversos tipos e figuras engraçadas, com exceção do papel título que consegue se afastar dos tipos, mergulhando mais a fundo na construção humana do personagem, que toca a fundo no espectador. Mas é claro que as demais construções se destacam pelo carisma que cativa muito, desfilam personagens como Sr. Papai e Dona Mamãe, o jardineiro Bigode, o Sr. Trovões. Outro destaque é a trilha sonora executada ao vivo por Tarso Olivier Heckler e pelo elenco dando um colorido especial a toda ação. 
Um único porém que observei foi a iluminação, sendo que determinadas cenas ficavam pouco iluminadas, alternando momentos belos, com projeções de sombras, a outras cenas que poderiam ser melhor aproveitadas. Fato que não chega a atrapalhar a fruição do espetáculo. 
Um dos grandes méritos do projeto foi o de se cercar dos melhores profissionais das artes cênicas do estado, o que resultou num dos melhores espetáculos dedicados ao público infanto-juvenil apresentados neste ano na capital. Parabéns a toda equipe técnica. E vida longa a este inesquecível trabalho. 


Mais sobre o Grupo Ritornelo em BLOG e SITE.


Diego Ferreira - Graduado em Teatro/UERGS.
Escreve para o blog OLHAR(ES) DA CENA e VÁLVULA DE ESCAPE

PS:Não posso deixar de mencionar também o patrocínio dos Correios, que viabilizou o projeto e quando visualizei a chancela da empresa fiquei bastante feliz, pois além de trabalhar na área teatral também sou funcionário público dos Correios e é bastante gratificante saber que a empresa na qual trabalho ajuda na viabilização de projetos com méritos como este. 

quarta-feira, 7 de março de 2012

I - MUNDO (RS)

Foto: Daiane Goessling Ferreira. 

"É difícil perceber de que maneira o teatro pode se reinventar hoje. Ao mesmo tempo que é difícil, é fundamental perceber isso. Nenhuma arte sobrevive sem se reinventar permanentemente." 
(Roberto Alvim)

"I-Mundo" é a nova produção do Grupo Mototóti e esta me faz pensar que o grupo traz uma nova possibilidade para o teatro feito na rua. O espetáculo vem pela contramão do que geralmente assistimos no âmbito das produções pensadas para a rua, onde são empregados o exagero, o grandiloquente, o colorido, muitos objetos e figurinos, lógico e necessário para alcançar e atrair a atenção dos transeuntes. Mas aqui temos a síntese, ou seja, os atores utilizam o mínimo necessário para se criar e recriar possibilidades, outras realidades pertencentes a manifestação teatral. Com o mínimo se consegue construir um espetáculo potente e rico em significados, e assim como já acontecia com "O Vendedor de Palavras", que levantava temas que estão sempre em voga como o incentivo a leitura, aqui temos como eixo a preservação da natureza e a relação dos humanos com o mundo e demais seres, mas sem ser demagógicos ou panfletários, e sim teatrais, mérito do texto de Carlos Alexandre  e direção de Juliana Kersting que consegue amarrar muito bem todos os elementos do espetáculo. Fernanda Beppler também tem grande mérito pela criação da trilha sonora genial que se utiliza de instrumentos que provocam ruídos e interferências sonoras, além de idealizar os figurinos, todos pretos, soturnos e funcionais, repleto de detalhes, enriquecendo muito a montagem. 
Outra novidade é a utilização de Kangoo Jumps, substituindo as pernas de pau (que geralmente são utilizadas neste tipo de manifestação), que além de ser um diferencial, exige dos atores um maior disponibilidade corporal. Esta disponibilidade é potencializada através do jogo entre atores e platéia, o que resulta num espetáculo de grande capacidade de diálogo com plateias de todas as idades pelos aspectos visuais, espacial, sonoro e narrativo. 
Os atores são ótimos, e fazem a engrenagem funcionar muito bem, desde a chegada dos seres alienígenas "Obs" e "Abs" no nosso Imundo planeta com um dialeto, até mesmo em cenas onde envolvem o público, chamando um espectador para dentro da roda, e nesta apresentação o espectador jogou junto não apenas respondendo aos estímulos dos atores, o que necessita de grande concentração e improvisação por parte do elenco. 
No seu segundo trabalho do Grupo, fica a certeza de que estão realizando um trabalho muito competente e  com seriedade e que podemos aguardar os próximos passos para podermos nos divertir e emocionar. 



Ficha Técnica
Concepção e atuação: Carlos Alexandre e Fernanda Beppler
Dramaturgia: Carlos Alexandre
Direção: Juliana Kersting
Trilha Sonora e Criação de Figurinos: Fernanda Beppler
Execução: Carol Puccini, Geluza Tagliaro e Sônia Krug.
Fotorafias: Tiemy Saito
Identidade Visual, Produção e Realização: Grupo Mototóti


Você poderá ler este texto também no blog Válvula de Escape.


*este espetáculo integra o Prêmio FUNARTE Artes Cênicas na Rua 2010


Maiores informações no SITE e no BLOG do Grupo Mototóti. 


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O VENDEDOR DE PALAVRAS (RS)


Ode a leitura sem cair no mero didatismo

Foto: Vilmar Carvalho

Tive a grata surpresa de assistir ao espetáculo "O Vendedor de Palavras" do Grupo Mototóti de Porto Alegre, em sua apresentação de nº 172, dentro da programação da Feira do Livro de Montenegro. E não poderíamos ter no palco de uma feira de livro, espetáculo mais apropriado do que este. "O Vendedor de palavras" é uma ode ao incentivo a leitura, mas vai muito além disso. Vai além porque poderia ser apenas um espetáculo que tem a leitura como mote e se estruturasse em torno disso, mas não, alerta, provoca e estimula o incentivo a leitura, sem cair no mero didatismo.

Em cena a história de Milho, um amante dos livros que sonha em fazer com que as pessoas leiam por elas mesmas. Ele se dá conta de que há uma grande falta de palavras no mundo, e por isso as pessoas ficam repetindo as poucas que têm. E, se cada palavra equivale a um pensamento novo ele poderia se tornar um vendedor de palavras, e fazer com que as pessoas pensem mais e melhor.
Na trama também estão os avós de milho, Adam, um senhor inglês que vive em conflitos com Odete, a avó alemã. 


O que nos fica é a qualidade teatral alcançada pelos Mototóti, que num espetáculo breve consegue cativar  a nossa atenção.  O cenário a primeira vista é uma biblioteca que aos poucos vai se transformando em vários espaços como um pier, mesa, um trem, etc... Outro atrativo são os figurinos que estampam também idéias que remetem a leitura, permitindo a multiplicidade das personagens e não perdendo o caráter funcional, identificando os vários tipos que aparecem na cena: Adam, o avô inglês, Odete, a avó alemã, Milho e Espiga. Destaque também são os adereços utilizados na cena, que são ricos em detalhes, auxiliando assim a compreensão de todos, um exemplo de teatro popular. 
A montagem é recheada de teatralidade, se utilizando de diversos recursos que evidenciam a cena construída e transformada ali mesmo na cena, sendo que o espectador reconhece que aquilo que estamos presenciando  é teatro, mas ao mesmo tempo consegue embarcar e acreditar na história. Isso tudo se expressa na transformação do cenário, na musicalidade da cena como a sonoplastia do trem e até mesmo na ótima cena feita com a presença de um boneco que confere a esta montagem este universo mágico e poético.
A dupla de atores são o grande mérito de "O Vendedor de palavras" pois conseguem imprimir ritmo e beleza sem cair no pieguismo. Conseguem construir figuras de fácil assimilação popular centrados no trabalho de atores qualificados que são, já comprovados em outros trabalhos e aqui potencializados com o auxilio dos figurinos e máscaras, além da gestualidade ampla e limpa, aliados a um potente trabalho vocal, comprovado na apresentação da feira de Montenegro, onde começaram o espetáculo com microfones e devido a problemas técnicos os mesmos deixaram de funcionar, o que ao meu ver não atrapalhou em nada, pelo contrário, somente veio a somar, alertando que o trabalho de atores bem preparados resulta nisso, mesmo em situações não esperadas, conseguem se superar. As vezes, o casal Milho e Espiga me remete a outro casal famoso: Romeu e Julieta, pela forma poética que são construídas as personagens. Uma história de amor onde a paixão as palavras os remetem a outros mundos, e possibilitando uma reflexão acerca da necessidade da leitura em nossas vidas, mas também a necessidade e manutenção do amor em nossas relações.Destaco a cena do vendedor ambulante que é hilária e a cena do encontro e primeiro beijo do casal Milho e Espiga. 
Parabéns ao dramaturgo Rodrigo Monteiro que transpôs a crônica de Fabio Raynol para o teatro, tarefa quase sempre complicada, que é equacionar linguagens distintas, mas que neste caso resulta numa boa adaptação, num espetáculo curto e bem resolvido. 
E ainda temos a presença de outros profissionais que garantem a qualidade do trabalho como a direção da competente Arlete Cunha, além de Zoé Degani, Coca Serpa entre outros. 

Concepção e Atuação: Carlos Alexandre e Fernanda Beppler
Direção: Arlete Cunha
Dramaturgia: Rodrigo Monteiro
Trilha Sonora Original: Fernanda Beppler
Cenografia: O Grupo com a colaboração de Zoé Degani
Máscaras e Boneco - criação e confecção: Paulo Martins Fontes e Eduardo Custódio - Cia Gente Falante Teatro de Bonecos
Figurinos: Coca Serpa
Desing Gráfico: Carlos Alexandre
Produção e Realização: Grupo Mototóti


Conheça mais sobre o Mototóti em seu BLOG e no SITE. 
Publicado originalmente no Blog Válvula de Escape em 8 de outubro de 2011. 

O REI CEGO (RS)



Hoje a tarde, enfim fui conhecer o trabalho dos meus amigos do Teatro do Clã. O trabalho em questão é "O Rei Cego", este é o 1º trabalho do grupo que surpreende muito pela qualidade da produção. Discorrer sobre o acontecimento cênico é algo muito difícil, tratando-se da efemeridade do fato teatral, do instante que perpetua cada ato, gesto ou apresentação. Por isso é muito difícil tecer comentários sobre o fazer teatral, ainda mais quando não somos críticos "de verdade", ainda mais quando falamos do trabalho de colegas e amigos. Mas fica bem mais fácil quando o trabalho é bom e sei o que falar aqui será filtrado e talvez aproveitado pelos colegas. É o que acontece com o Clã. 
"O Rei Cego" é um espetáculo indicado a todas as idades e apropriado para ser apresentado em diversos locais, rua, palco, praça, galpão, enfim, onde o público estiver. A platéia de hoje era formada por crianças de escolas públicas da cidade e alguns transeuntes, o que dá credibilidade a produção. 
O primeiro fato a ser destacado é que este espetáculo foi contemplado com o FUMDESC, um fundo de apoio a cultura de Montenegro, e o que vemos é que os recursos foram muito bem empregados. O espetáculo é rico esteticamente, nos figurinos, cenários, adereços e maquiagem. A concepção e elaboração destes elementos foram precisas e criativas, todas a serviço da cena. Os figurinos são um destaque, pela beleza, simplicidade e utilização, ponto para a escolha do tom das cores, que perpassa todos os elementos da cena. O cenário é prático, belo e funcional, destacando a disposição das escadas e cubos que se transformam em outros espaços de acordo com o solicitado na cena. Os adereços transpõem o espectador a outros espaços como a utilização das malas que se transformam em cavalos (bela sacada!), ou as saias azul que são as ondas (bela sacada!), demostrando a criatividade e inventividade que o teatro de rua pede para chamar a atenção da platéia. E não podemos deixar de destacar o trabalho da assistente de produção Jenifer Berlitz que estava realmente assessorando o grupo.
Vamos a história: "O Rei Cego" é a história de um jovem príncipe que enfrenta inúmeros perigos para trazer a visão de seu pai de volta. Logo no início somos apresentado a trupe de atores que contarão esta narrativa através de atores/contadores de histórias. Este recurso do ator/narrador é muito bem utilizado na cena, onde acontece um revezamento entre os atores que ora contam, ora personificam os personagens da peça, criando assim um ritmo que não deixa a narrativa cair num marasmo, pelo contrário, o espetáculo é repleto de acrobacias, rupturas e surpresas que provocam o olhar do espectador a ficar atento ao que está acontecendo no centro da arena, ou no centro do semi-círculo, espaço que o grupo escolheu como palco para contar a sua história. 
Quanto a espacialidade, penso que o teatro de rua tem uma especificidade que somente a rua oferece: um espaço urbano que não é o projetado para a manifestação teatral, mas que é tomado e transformado em palco para alguns momentos de magia e ilusão. O Clã escolheu muito bem o seu palco na Estação da Cultura, embaixo das árvores e montou a sua semi-arena, bem equipada, delimitada e com seus lindos cenários, porém, penso que poderia explorar um pouco melhor a espacialidade contemplando um pouco mais os espectadores que não estão dispostos frontalmente. Explorar a lateralidade do espaço, abrindo um pouco mais a cena, jogando com os espectadores que não estão no centro da roda, descentralizando a ação que aqui não está no palco italiano, mas sim na rua, onde tem espectadores por todos os lados. Isso acontece no desenrolar do espetáculo, mas timidamente, podendo potencializar a relação com o espectador, criando assim, uma maior cumplicidade com o público, pois entre o elenco a cumplicidade já está tão latente, sugiro que esta cumplicidade seja compartilhada com a gente, mas quando digo dividir a cumplicidade com o público, não me refiro a piadas ou ações cômicas (que não é o caso deste espetáculo), mas sim através de um simples olhar de cumplicidade.
O elenco da montagem é coeso e cúmplice e funciona muito bem. Coeso porque é funcional: canta, dança, representa, narra, anda sobre perna-de-pau, faz acrobacia e contorcionismo e muito mais em cena. Tuti Kerber, Marcos Cardoso, João Pedro Decarli e Júlio Schuster dominam a cena com maestria e dão vida a nove personagens. A eficiência do elenco se dá pelo fato de que os atores conseguem transitar entre o representar e o narrar sem resvalar em interpretações grandiloquentes, optando pela simplicidade que funciona muito bem ao espetáculo. O elenco é parelho, mas João Pedro Decarli se sobressai um pouco dos demais e é destaque pela disponibilidade corporal, ideal para o teatro de rua, mas não somente por isso, e sim pela verdade e facilidade que transita entre seus personagens com graça e competência, é muito bom vê-lo em cena. Cardoso e Kerber tem estofo e experiência com a linguagem da rua, demostrando segurança e belas composições e Júlio é uma revelação como ator, com potencial e com um belo caminho a ser trilhado, que está muito bem em cena, devendo cuidar somente a respiração que demostra o cansaço e a triangulação com o espectador. 
Por fim, destaco o trabalho de direção de Cassiano Azeredo que ao  eu ver é uma revelação. Consegue transformar um conto popular em um espetáculo redondo, simples mas ousado, colocando o Teatro do Clã, já em seu primeiro trabalho, num dos grupos mais promissores do estado. Digo isso baseado no que vi, mas também porque conheço todo o empenho e dedicação deste jovem grupo que está em permanente transformação. O que fica é a profissionalização deste grupo que merece a nossa atenção. 
Cássio consegue amarrar os elementos estéticos e nos presentear com um espetáculo bonito e muito bem acabado. O que assistimos é um trabalho que foi pensado em todos os detalhes, da concepção a concretização, vemos a mão do diretor, das idéias como o "gigante" que se transforma ao nosso olhar, ao ator que some dentro de uma caixa, a chuva de prata que é linda e surpreendente, são atrativos que prendem a atenção do espectador e evidencia um diretor em grande desenvolvimento. Para encerrar esta minha odisseia sobre "O Rei Cego" destaco dois pontos que podem ser ajustados ao longo da temporada: 1º A transposição do conto para o teatro de rua, tem algo ali no texto, na dramaturgia, que não consegui captar e isso faz com que eu não embarque totalmente na história, no drama, diferente da encenação que com seus ricos recursos faz com que embarcamos por inteiro, de imediato, mas é a história mesmo, me perdi no enredo, talvez pela troca rápida de papéis, fiquei meio perdido, as vezes sem saber quem é quem e o que está fazendo? No final consigo esclarecer um pouco, mas durante a peça algumas questões ficaram pendentes, talvez porque o meu olhar ficou encantado com o visual que me desatentei ao enredo e precisarei assistir novamente para captar esta outra camada da encenação. E 2º é a musicalidade  da peça, que ao meu ver está ainda em desenvolvimento, conforme o Cássio me confidencia. Penso que a rua necessita de potência musical, e temos tudo ali, instrumentos musicais, atores treinados e disponíveis e um diretor atento a tudo, mas vejo que falta desabrochar esta musicalidade que já está presente ali, só falta deixar acontecer de forma menos formal e mais visceral. 
Contudo volto a afirmar que "O Rei Cego" é um trabalho digno de aplausos, um dos destaques da cena gaúcha, que ainda vai dar muito o que falar, pela profissionalização, criatividade e entrega do coletivo. Escrevam o que estou dizendo, este trabalho vai estar nas principais mostras de teatro do País.  

FICHA TÉCNICA
Direção: Cassiano Azeredo
Assistente de Produção, Divulgação e Mídia: Jenifer Berlitz
Elenco: 
Marcos Cardoso 
Júlio César Schuster 
Tuti Kerber 
João Pedro Decarli 
FIGURINOS: Raquel Cappelletto 
ADEREÇOS: Lúcia da Motta e grupo 
CRIAÇÃO E ORIENTAÇÃO DE MANIPULAÇÃO DE BONECOS: Alice Ribeiro e Rita Spier
ORIENTAÇÃO VISUAL: João Carlos Machado (Chico Machado) 
CENOGRAFIA: O grupo 
CONCEPÇÃO: Cassiano Azeredo e Marcos Cardoso
PRODUÇÃO EXECUTIVA: Marca Produções Culturais 
DURAÇÃO:45 minutos 

Conheça o BLOG do Teatro do Clã. 
Publicado originalmente no BlogVálvula de Escape em  29 de setembro de 2011.


R e J SHAKESPEARE - JUVENTUDE INTERROMPIDA (RJ)


DRAMATURGIA X TEATRALIDADE

Ainda estou digerindo ao que assisti na semana passada no palco do Teatro Roberto Athayde Cardona em Montenegro. R&J Shakespeare - Juventude Interrompida. Gostaria de começar a analisar o espetáculo sob dois aspectos. Dramaturgia e Teatralidade.
Sob o ponto de vista dramatúrgico, diria que o texto do bardo é o principal atrativo, pois bem, diria, mas no caso desta montagem, existem várias possibilidades de dramaturgia(s): a dramaturgia do texto, que tem como interface a intertextualidade, mesclando a história doas amantes de Verona a história de quatro jovens alunos de uma rígida escola católica. O texto de Joe Calarco é uma recriação inventiva do texto de Shakespeare, que me faz relembrar a montagem que a Cia. dos Atores fez recriando outro texto de Shakespeare, "Hamlet", o espetáculo era "Ensaio.Hamlet", uma desconstrução e apropriação do texto do bardo inglês. Em Hamlet tínhamos uma recriação do texto, uma loucura com muitas possibilidades onde o texto do Shakespeare foi um pretexto para a criação de um espetáculo ousado, genial e criativo. Uma das montagens que eu mais gostei. Aqui, em "R&J..." Shakespeare triunfa, assim como toda a produção. O mote é o texto, mas as opções não se esgotam nele, pelo contrário, o texto é preenchido com ricas possibilidades cênicas, o "teatral" se instala na cena, de tal modo que o espectador embarca na proposta e se permite a compartilhar com aqueles alunos uma experiencia cheia de magia e rupturas. A teatralidade está em todos os detalhes da montagem, na proposta de desnudar a ilusão da cena, ou seja, sabemos que aquilo que estamos assistindo é teatro, são quatro alunos que estão representando os personagens de "Romeu e Julieta" e somos alertados a todo tempo desta condição meta-teatral, seja nas rupturas, nas transformações de um personagem para outro, nas inserções musicais ou até mesmo na utilização do belíssimo cenário. A teatralidade é muito latente, quando uma régua vira máscara, folhas de papel viram as flores do casamento, réguas são espadas e eu como espectador acredito, acredito e muito naquilo tudo, e se acredito é porque há VERDADE! E por falar em verdade, tem que se destacar o excelente elenco, os quatro atores são bárbaros e fazem milagre em cena. Mas não sei se serei injusto em destacar  o trabalho de Rodrigo Pandolfo, que faz o personagem de Julieta, além de outros personagens. O trabalho dele é impecável e intenso, alcançando uma verdade e coesão que seria difícil de algumas atrizes imprimir a esta personagem, pela força poética e entrega, sem exageros na interpretação. Todos os atores tem grandes momentos, mas Pandolfo rouba a cena. Tanto que o espetáculo foi quatro vezes aplaudido em cena aberta e ovacionado no final. O ator que faz a ama também tem grandes e divertidos momentos, assim como os demais. 
Mas não poderia encerrar sem parabenizar o diretor João Fonseca que soube explorar ao máximo todas as possibilidades da cena, uma encenação criativa, limpa, repleta de signos, mas, o mais significativo é que consegue colocar Shakespeare no seu devido lugar: nas graças do povo. Consegue manter um clima leve e potente na maior parte do espetáculo culminando na tragédia dos amantes de Verona, numa montagem eletrizante. Um dos melhores espetáculos dos últimos anos. 
Publicado originalmente no Blog Válvula de Escape em 27 de setembro de 2011.

AQUELES DOIS (MG)



Esvaziando as gavetas do preconceito
Minas Gerais tem se destacado em suas produções na área das artes cênicas. Prova disso é o Festival do Teatro Brasileiro - Cena Mineira que encerra suas apresentações neste final de semana. Da terra mineira já assisti a trabalhos do Grupo Galpão, referencia nacional de criatividade, ao Grupo Espanca!, e sua dramaturga Grace Passô, o qual pude assistir o maravilhoso “Amores Surdos”, as Cias de dança, Grupo Corpo, Quasar Cia de dança, e 1º ato, destacando também o Grupo Giramundo.
Desta vez tive o enorme prazer de conhecer o trabalho da Cia Luna Lunera, com seu espetáculo “Aqueles Dois” baseado no conto homônimo do gaúcho Caio Fernando Abreu. O espetáculo esteve em Porto Alegre no ano passado, mas não consegui assistir. A repercussão foi ótima e eis que agora através do SESC-rs o referido espetáculo foi apresentado em Montenegro.
São muitos os aspectos que fazem de “Aqueles Dois” um dos melhores espetáculos que já assisti. Começo então pela adaptação do conto de Caio Fernando Abreu para o teatro, pois este mesmo conto já foi adaptado para o cinema. O espetáculo é uma grande homenagem ao nosso grande poeta, pois Caio está lá, presente e vivo, seja através do seu texto, que está praticamente na integra, ou seja, através do referencial do autor, pois a escrita de Caio desvela diversas referencias de livros, cinema, artistas e personalidades que permeiam sua escrita. E tudo isso está em cena. Referencias que vai desde a atriz Audrey Hepburn a Carlos Gardel, de Jane Fonda, Van Gogh a Dalva de Oliveira e Almodovar. Estas referencias criam a base dos personagens do conto e a Cia Luna Lunera potencializa com maestria esse referencial e multiplica tudo isso em cena. A começar pelo espaço cenográfico que expõe uma séria de gavetas de variados tamanhos, onde são guardados os objetos de cena, e são muitos, tudo bem organizado, a exemplo de uma repartição pública, cenário da estória da peça. Dentro destas gavetas vemos telefones, maquinas de escrever, copos, garrafas, rolhas, canetas, papéis, livros, etc. O espaço limpo se transforma num caos, onde todos falam juntos, instaurando um atribulado dia de trabalho da rotina d’aqueles dois. Raul e Saul são novos funcionários numa repartição pública. A relação entre os dois inicia de forma burocrática, mas, no entanto acaba gerando incômodo nos demais colegas de profissão.
O tema da peça (ainda) é tabu, pois trata da relação entre dois homens, mas o modo como a escrita e a encenação é apresentada, se torna altamente poética e tocante, o que em outra situação poderia resvalar e se tornar um monte de clichês. A peça é engraçada (cena em que um dos personagens começa a cantar no microfone numa espécie de karaokê, aplaudida em cena aberta), é emocionante (cena da morte da mãe, quando um vestido é desengavetado) e extremamente teatralizada, pois dialoga muito com os códigos teatrais, criando a todo tempo a ilusão em que o espectador adentra no universo daqueles personagens e a quebra da mesma, pois o espetáculo trabalha o tempo todo com a dualidade, onde quatro atores representam durante todo o tempo os personagens “Raul” e ‘Saul”. Dentro desta teatralidade a Cia Luna Lunera usa e abusa com autoridade das convenções teatrais, através de seus atores-narradores, que comentam e interferem durante toda a peça. A construção do TEMPO também é muito valorizada, a exemplo de que a história é contada duas vezes de forma diferenciada. Durante o espetáculo cartas de Caio, são lidas ao microfone, interferindo e complementando a ação.
Outro destaque é a trilha musical, operada pelos próprios atores, dá todo o clima da peça e trás clássicos do cancioneiro popular brasileiro e latino. Desfilam músicas de Marisa Monte, Maria Bethânia, Nana Caymi, além da canção que permeia toda a peça “El dia que me quieras”. Percebi que em muitos momentos a platéia cantarolava baixinho as canções junto com a peça, inclusive eu, que adoro a seleção da trilha.
A iluminação é praticamente operada em cena pelos atores, que manipulam luminárias que são utilizadas de várias maneiras. Básica e essencial.
“Aqueles Dois” foi dirigido a cinco mãos e o elenco é primoroso.
Aqueles dois + aqueles outros dois = TRABALHO EXTRAORDINÁRIO, impecável onde o trabalho físico e vocal é evidente e ótimo.
A cena final onde os dois esvaziam suas gavetas e vão embora, com aquelas figuras de olhos vazados observando a despedida é muito tocante.
O espetáculo é lindo, sutil e necessário nestes tempos (ainda) de preconceitos.

Diego Ferreira
Grupo Válvula de Escape

Acesse o BLOG  da Cia Luna Lunera 
Publicado Originalmente no Blog Válvula de Escape em 15 de julho de 2011. 

EDWARD - O RETORNO (RS)



Nasce uma nova diretora!

Ontem, apesar do tempo feio, uma combinação de frio e chuva, fui ao teatro prestigiar o trabalho de Direção Teatral de Candida Santi Bazanella na Uergs em Montenegro. O clima chuvoso que perdurava do lado de fora do teatro tinha tudo a ver com a estética da peça "Edward - o retorno". O espetáculo é uma livre adaptação da obra "Crimes Delicados" de José Antônio de Souza e coloca em cena a absurda história do casal Hugo e Lila, colocando em cheque as relações de poder entre patrão versus empregado e uma reflexão sobre o modismo e suas consequências. É uma noite chuvosa na casa do casal. Uma onda de crimes assola a cidade, gerando mais uma moda: "matar". Lila entediada com sua pacata vida resolve seguir a moda, e começa agindo pelos animais, convencendo o marido a matar o seu empregado "Edward". E é justamente a partir daí que a peça tem o seu grande trunfo, pois nem tudo o que eles planejam sai conforme o esperado. A peça é recheada de situações absurdas num clima nonsense, lembrando a estética dos filmes de Tim Burton e dos filmes de horror, onde sua diretora conseguiu com maestria articular os diversos elementos da cena, como a direção dos atores, a concepção dos figurinos, cenários e elementos de cena, como as ótimas próteses de silicone (acho que é de silicone?), que representam as partes esquartejadas da vítima. Candida consegue uma encenação ágil, hermética, envolvente, engraçada, revelando uma sofisticação visual, dentro de uma poética própria.  Consegue também um ótimo resultado com as projeções e animações utilizadas na cena. Os atores estavam muito bem em cena, mérito também da diretora que conseguiu equalizar o seu elenco, onde os três conseguem se destacar em medidas iguais como acontece com a atriz Morgana Rodrigues, que cria um modo estilizado e melodramático para sua Lila, pontuando sempre seus gestos e ações físicas (como por exemplo, o gesto de arrumar o cabelo) criando assim uma atmosfera sarcástica e absurda, mas condizente com o universo de sua personagem. Rodrigo Azevedo consegue sustentar seu personagem através de sutilezas, que vai num crescendo, até chegar em ações amplas e melodramáticas, o que me chamou atenção no Rodrigo, foi o seu olhar, que em muitas situações falava muito mais que todo o seu corpo. Rodrigo Mello como Edward é surpreendente, pois vai desvelando seu personagem de acordo com as situações, se utilizando muito bem do seu potencial corporal. 
Este é um trabalho realizado em ambiente acadêmico, pois trata-se do resultado da Disciplina da Prática de Encenação Teatral do curso de teatro da Uergs, orientado pela Profª Jezebel de Carli, mas mesmo assim, não deixa de apresentar um resultado profissional, uma entrega de todos os envolvidos e espero que este trabalho possa ser apresentado outras vezes alcançando outros públicos fora da academia, Cândida e equipe, pensem nisso, siga trabalhando neste projeto, pois ele deve ser assistido por mais pessoas, pois vejo que teve um empenho muito grande e o resultado final foi muito feliz. Foi muito bom ver este trabalho da Cândida, já que eu acompanhei quase toda a sua trajetória dentro da Uergs e sei por quantas incertezas e dificuldades ela passou, mas aqui neste trabalho demostra que acertou o rumo e que futuramente poderia pensar em seguir nos trilhos da direção, sendo mais uma pupila da Jezebel. Eu sei que eu só elogiei, mas realmente gostei do trabalho. 
Parabéns!!!
PS: Meu filho Matheus, de cinco anos, adorou muito o trabalho, se divertiu bastante, coisa que as vezes ele não consegue fazer quando assiste trabalhos para a idade dele, portanto é um trabalho indicado para todas as idades.
Publicado originalmente no Blog Válvula de Escapeem  2 de Julho de 2011.

ÓPERA MONSTRA (RS)

Ontem fui conferir "Ópera Monstra" da Cia. Stravaganza de Porto Alegre. E como esta montagem é dirigida aos pequenos levei comigo o meu filhote Matheus, que ficou vidrado com o espetáculo. 
O musical da Cia. Staravaganza é um espetáculo repleto de acertos, pois tratando-se de um melodrama consegue criar um enredo simples, repleto de reviravoltas cheias de ritmo e interpretações calcadas na grandiloquência e no exagero, natural ao melodrama. São muitos os méritos da produção, pois além de ser um musical dirigido as crianças, além de ser um melodrama (que quando bem feito não é fácil de ser executado), ainda se utiliza de uma série de recursos tecnológicos como projeções impecáveis e precisas.  No melodrama as personagens recebem um tratamento moralista e maniqueísta - existe o grupo dos bons e dos maus, dos heróis e dos vilões – e o senso de justiça é exacerbado – o vício será punido e a virtude recompensada. E aqui não é diferente, existem os personagens bons e os maus, neste caso o mau é representado pela múmia Dom Skelector, que ao final será punido, mas também recompensado com o casamento com a Mama Lupina. Mesmo acontecendo este embate entre o bom e o mau, a figura do mau é representada de modo exagerado que acaba se tornando uma figura simpática que não chega a causar MEDO (ahhhhh!). A idéia era justamente a de desmitificar o medo, e conseguem e vão um pouco além, pois apresentam uma trama divertidíssima, cheia de idas e vindas, reviravoltas e revelações de mistérios. Parabéns ao Ricardo Severo, autor e diretor musical do espetáculo. 
A encenação prima pela qualidade em todos os aspectos, desde a concepção do cenário, aparentemente simples, uma espécie de um palco dentro do palco separado por uma tela de filó, onde são projetadas as animações, contando ainda com a entrada de uma mesa para a cena do banquete (linda a cena!) e de outros adereços, tudo muito bem utilizado e empregado a serviço da cena. Os figurinos são belíssimos, além de serem muito funcionais e auxiliar na imersão dos espectadores ao mundo cheio de ilusão e terror, juntando a caracterização principalmente dos personagens "Frank", com seus mega-sapatos mirabolantes e seu aspecto monstruoso, e a composição de "Kastorf", que é excelente. A caracterização da múmia é outro destaque, pois dava a impressão de que realmente estava em decomposição, num figurino com efeitos belos. 
Os atores formam um elenco coeso e brilhante, mas tenho que destacar o ator Rodrigo Mello (Franky), pelo virtuosismo (característica melodramática), e disponibilidade corporal empregada ao personagem, sua figura chama muito a atenção não somente pela a altura, mas pela desenvoltura empregada em cena. Outro destaque é o criado mudo (Kastorf), interpretado pelo ator Duda Cardoso, que ofusca nossos olhares com sua presença, (para que texto se temos "presença"?), uma presença recheada de intenções que ecoam através dos olhos e do corpo expressivo do ator, adorei a forma como o personagem transita em cena, tarefa difícil quando vivemos numa tradição da oralidade e verbalização. Cito estes dois, mas é lógico que não posso desmerecer os demais atores que estão ótimos em cena como o Lauro Ramalho que constrói uma múmia vilã extremamente engraçada e que por isso cativa aos espectadores, a cena em que a múmia dança interagindo com suas próprias imagens projetadas e um dos pontos altos da peça, adoro o trabalho do ator Lauro Ramalho, que consegue sempre trazer as suas criações boas doses de humor sem cair nos clichês, sinônimo de um profissional inteligente como é. E a presença das atrizes não desaponta em nenhum momento, Janaína Pelizon com sua potência grandiosa é fundamental para o sucesso deste trabalho, além de ser muito carismática e competente. Sofia Salvatori como "Condessa Valéria Dracul" é a que mais consegue presentificar o tom melodramático em cena, até pelo fato de ser a mocinha da trama, mas seus gestos são grandes e exagerados, assim como toda a sua performance, destacando sua linda e afinada voz. 
Por falar em voz, destaque para toda a trilha sonora que trabalha com bases  de guitarras, tornando as canções com uma levada pop, com melodias alegres e envolventes e dançantes. Saí do espetáculo com a música "A dança da Skelectite" na cabeça e na ponta da língua que minha esposa que adorou as músicas e adquiriu o CD com a trilha do espetáculo que é maravilhosa. Uma única ressalva ao espetáculo é a utilização de microfones e trilha sonora com os atores dublando as cantigas, lógico que entendo que é necessário pela amplitude vocal e adaptação ao grande espaço, mas no inicio me incomodou, mas ao final vi o quão necessário foi, e a participação da platéia durante a peça, que se fosse feita por um elenco despreparado poderia ser prejudicial, o que não é este caso.  
Adriane Mottola é quem dirigi este trabalho e a CIA STRAVAGANZA, com sucesso e dedicação incrível,  e que empregou nesta encenação uma linguagem inovadora, repleta de criatividade e tecnologia que sustenta o trabalho. Mottola demostra que é preciso inovar sempre, não se acomodar a estabilidade de uma cia. conhecida e propor sempre novidades, que é o que acontece com os trabalhos que já acompanhei do Stravaganza.
Parabéns a toda a ficha técnica que contribuiu para o sucesso do trabalho. E parabéns a Fundarte que ao comemorar seus 38 anos dando a população mais este presente.  
Agora fico aqui curtindo a deliciosa trilha sonora de "Ópera Monstra".
Publicado originalmente no Blog Válvula de Escape em  9 de junho de 2011.