domingo, 24 de maio de 2026

VELOCIDADE (MG)



VELOCIDADE: o tempo em ruínas e a urgência de existir

por Diego Ferreira*

    O espetáculo Velocidade, do grupo mineiro Quatroloscinco – Teatro do Comum, parte de uma inquietação profundamente contemporânea: a incapacidade de parar. Em cena, o coletivo transforma o cotidiano acelerado das grandes cidades, os afetos fragmentados e a sensação permanente de esgotamento em matéria dramatúrgica. Mais do que narrar uma história linear, a montagem cria um mosaico de vidas atravessadas pelo tempo, pela urgência e pela falência das relações humanas num mundo que exige produtividade contínua.

                A dramaturgia constrói personagens que parecem sempre correr atrás de algo — trabalho, dinheiro, amor, estabilidade, sentido — sem nunca alcançarem plenamente aquilo que buscam. Há no espetáculo uma dimensão quase sufocante, pois a velocidade proposta não se limita ao deslocamento físico; ela invade a linguagem, os silêncios interrompidos, as mudanças abruptas de cena e a própria respiração do elenco. O grupo compreende que viver em velocidade constante produz corpos cansados, subjetividades adoecidas e vínculos frágeis.

    O Quatroloscinco demonstra, mais uma vez, sua habilidade em trabalhar um teatro de investigação social sem abrir mão da delicadeza poética. A encenação evita soluções espetaculares e aposta numa construção cênica precisa, onde a palavra, o corpo e o espaço dialogam organicamente. O espetáculo não precisa de excessos para provocar impacto; sua força nasce justamente do reconhecimento. O público se vê refletido naquele acúmulo de pequenas violências cotidianas que se tornam normais dentro da lógica contemporânea.

    A direção cria um fluxo contínuo de acontecimentos, como se os personagens estivessem presos a uma engrenagem impossível de interromper. Em determinados momentos, a cena ganha contornos quase coreográficos, revelando um rigor de composição que transforma o caos urbano em linguagem estética. Ainda assim, Velocidade não romantiza o colapso: evidencia o custo humano de viver sob pressão permanente.

        A iluminação merece destaque especial pela sofisticação com que organiza o espaço cênico e amplia a experiência dramatúrgica do espetáculo. Mais do que simplesmente iluminar a ação, o desenho de luz atua como uma arquitetura invisível que delimita territórios emocionais, cria rupturas temporais e conduz o olhar do espectador com extrema precisão. Em muitos momentos, a iluminação transforma completamente a percepção da cena, instaurando atmosferas de intimidade, tensão ou isolamento sem a necessidade de grandes alterações cenográficas.

            Há uma inteligência estética no modo como a luz acompanha o ritmo da encenação. Os cortes rápidos, os vazios luminosos e as transições sutis dialogam diretamente com a ideia de velocidade e fragmentação proposta pelo espetáculo. A luz cria corredores, aprisiona corpos, expande silêncios e revela a solidão das personagens em meio ao fluxo incessante da vida contemporânea. Trata-se de um trabalho de rara precisão técnica e sensibilidade artística.

    Além disso, a iluminação estabelece um importante elemento de inovação na montagem ao funcionar como dispositivo narrativo ativo. Em vez de ocupar um lugar ilustrativo, ela constrói dramaturgia, reorganiza o espaço constantemente e produz imagens de grande impacto visual. O resultado é uma cena dinâmica e pulsante, onde cada foco luminoso parece carregar também uma dimensão simbólica, reforçando o estado emocional dos personagens e a crítica social presente na obra.

    O elenco sustenta a montagem com grande precisão e sensibilidade. As atuações evitam caricaturas e encontram humanidade mesmo nos instantes mais áridos. Há uma escuta verdadeira entre os intérpretes, elemento fundamental para que o espetáculo alcance sua dimensão emocional. Cada personagem parece carregar não apenas uma história individual, mas um sintoma coletivo de uma sociedade em desgaste.

    Visualmente, a encenação aposta numa estética de trânsito e impermanência. O espaço cênico se transforma continuamente, acompanhando o deslocamento interno das personagens e reforçando a sensação de instabilidade. Já a sonoridade contribui para a pulsação constante do espetáculo, como uma cidade que jamais dorme.

    Entretanto, um dos momentos mais potentes de Velocidade acontece justamente em sua cena final, quando o espetáculo rompe de maneira mais direta a fronteira entre palco e plateia. A participação do público deixa de ser mero recurso de interação e passa a integrar organicamente o discurso da montagem, ampliando a sensação de pertencimento e responsabilidade coletiva diante das questões apresentadas em cena. Ao convidar espectadores para dentro da ação, o Quatroloscinco transforma a experiência teatral em acontecimento compartilhado, fazendo com que o público deixe a posição confortável de observador para ocupar também o lugar de corpo implicado naquela engrenagem social.

    Esse gesto final possui enorme força simbólica porque evidencia que a velocidade, o esgotamento e a urgência tratados ao longo do espetáculo não pertencem apenas às personagens, mas atravessam igualmente quem assiste. A cena cria um instante raro de comunhão, onde teatro e realidade parecem se tocar diretamente. Mais do que encerrar a narrativa, o espetáculo abre uma reflexão coletiva, fazendo do encontro entre artistas e espectadores uma imagem profundamente humana em meio ao caos contemporâneo.

    Talvez a maior potência de Velocidade esteja em sua capacidade de produzir pausa dentro do próprio tema da aceleração. Ao colocar em evidência corpos exaustos e vidas atravessadas pela lógica da urgência, o espetáculo convida o espectador a refletir sobre o modo como administra seu próprio tempo, seus afetos e seus silêncios. É um teatro que não entrega respostas fáceis, mas que instala perguntas necessárias.

    O Quatroloscinco reafirma, com Velocidade, um teatro comprometido com seu tempo histórico, capaz de articular crítica social, sofisticação estética e densidade humana. Em meio ao excesso de estímulos do presente, a montagem surge como um espelho desconfortável — e justamente por isso indispensável.

Ficha Técnica

Elenco: Assis Benevenuto, Ítalo Laureano, Marcos Coletta, Michele Bernardino, Rejane Faria (e stand-in Marina Viana)
Direção: Ítalo Laureano e Ricardo Alves Jr.
Dramaturgia: Assis Benevenuto e Marcos Coletta
Direção de Arte: Luiz Dias
Iluminação: Marina Arthuzzi
Trilha Sonora: Barulhista
Figurino: Caroline Manso
Movimento/Voz: Kenia Dias (movimento) e Ana Hadad (vocal)
Produção/Patrocínio: Quatroloscinco e Banco do Brasil (Lei Federal de Incentivo à Cultura)

*Diego Ferreira é professor de teatro, dramaturgo, crítico e curador. Graduado em Teatro pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), é criador do projeto Olhares da Cena, espaço dedicado à crítica e reflexão sobre as artes da cena. Entre seus trabalhos dramatúrgicos estão Negreiros: História que a História Não Conta — vencedor do Prêmio Açorianos 2024, Corália Brechó, Abdias do Nascimento e Vozes do Lixão: a história de Tugira.