sábado, 23 de maio de 2026

HA! (MG)


Entre o sonho e o colapso do descanso: 

a experiência imagética de “HA!

Por Diego Ferreira*

    Integrando a programação do Palco Giratório Sesc RS, o espetáculo HA!, do Grupo Artilharia Cênica, apresenta ao público uma experiência cênica que encontra na imagem, no som e no movimento suas principais ferramentas narrativas. Em um tempo marcado pelo excesso de estímulos, pela hiperconectividade e pela dificuldade coletiva de repousar, a montagem transforma uma situação cotidiana — a insônia de uma criança atravessada pelas telas — em matéria poética e sensorial.

    Sem recorrer à palavra como eixo dramatúrgico, HA! constrói uma narrativa repleta de histórias. A ausência de texto falado não significa vazio narrativo; ao contrário, evidencia a potência dramatúrgica das imagens. O espetáculo aposta na visualidade como linguagem principal e, nesse percurso, confirma a maturidade estética do Grupo Artilharia Cênica, que articula teatro, dança, manipulação de bonecos e performance visual em uma encenação de forte impacto plástico.

    A dramaturgia parte de uma experiência contemporânea bastante reconhecível: uma criança incapaz de dormir passa a madrugada diante do celular até ser vencida pelo sono apenas ao amanhecer. Quando finalmente adormece, mergulha em um universo onírico habitado por criaturas de areia, labirintos compostos por olhos e engrenagens humanas. O espetáculo abandona qualquer linearidade tradicional para conduzir o público por um território de sensações, onde sonho e realidade se confundem continuamente.

    Há em HA! uma confiança radical na capacidade do espectador de construir sentidos a partir da experiência sensível. As cenas não explicam; evocam. As imagens surgem como fragmentos de um sonho estranho e familiar ao mesmo tempo, abrindo espaço para múltiplas leituras. Nesse aspecto, a montagem revela uma dramaturgia sofisticada justamente por compreender que nem toda narrativa precisa ser verbalizada para alcançar profundidade.

    A direção de Eros P. Galvão demonstra rigor na composição imagética e no ritmo da encenação. Cada quadro parece cuidadosamente desenhado para provocar estados de percepção específicos, fazendo com que o espetáculo oscile entre delicadeza, estranhamento e inquietação. A dramaturgia criada coletivamente pelo Grupo Artilharia Cênica e Eros P. Galvão reforça a organicidade da obra. Em cena, Bruno Maracia, Igor Fonseca e Raniele Barbosa transitam entre a dança, a manipulação e a presença física com precisão, construindo atmosferas mutáveis e imagens de grande força simbólica.

    Um dos aspectos mais marcantes da montagem é justamente sua beleza plástica. Os elementos visuais não aparecem como mero adorno, mas como estrutura dramatúrgica essencial. Bonecos, máscaras, objetos e corpos se fundem em composições que evocam pinturas em movimento, transformando o palco em um espaço de constante metamorfose. A relação entre luz, figurino e cenografia cria paisagens oníricas que transportam o espectador para dimensões que escapam ao cotidiano.

    Nesse universo imagético, merece destaque a construção dos bonecos e máscaras concebidos por Eduardo Santos e executados por Tim Santos e Leandro Marra. As figuras criadas para a encenação possuem uma dimensão simultaneamente artesanal e fantasmagórica, ampliando a atmosfera de sonho e estranhamento que atravessa o espetáculo. Há uma expressividade singular nesses elementos, capazes de comunicar emoções e estados sem necessidade de palavras. O animatrônico surge como outro ponto de fascínio da montagem: sua presença híbrida entre máquina e organismo intensifica a sensação de inquietação e maravilhamento, reforçando o diálogo da obra com um imaginário tecnológico e distópico. Mais do que recursos técnicos, bonecos, máscara e animatrônico tornam-se extensões dramatúrgicas do próprio espetáculo. 

    O trabalho do elenco também merece especial atenção pela entrega física e pela precisão com que sustenta a dimensão sensorial da encenação. Bruno Maracia demonstra grande domínio corporal e presença cênica, conduzindo o espectador por estados que transitam entre vulnerabilidade e estranhamento. Igor Fonseca se destaca pela expressividade física e pela capacidade de construir imagens de forte impacto visual através do movimento e da manipulação. Já Raniele Barbosa imprime delicadeza e intensidade às ações, compondo uma presença que articula sensibilidade e potência cênica. Juntos, os intérpretes revelam um trabalho rigorosamente afinado, no qual dança, teatro físico e manipulação se encontram de maneira orgânica, reafirmando a força coletiva do Grupo Artilharia Cênica.

    A trilha sonora original de Ivo Ivo Ivo desempenha papel fundamental nessa imersão. O desenho sonoro não apenas acompanha as ações, mas tensiona e amplia a experiência sensorial da cena. Em diálogo direto com a iluminação de Tim Santos e os figurinos concebidos por Maia Flores e Victor Medeiros, o som cria camadas de atmosfera que atravessam o público de maneira quase física. Tudo em HA! parece operar em conjunto para produzir uma experiência de atravessamento.

    Ao abordar questões como o excesso de telas, o colapso do descanso e a fragilidade do sono na contemporaneidade, o espetáculo evita discursos didáticos. Sua força reside justamente na escolha pela metáfora, pela imagem e pela experiência sensorial. O Grupo Artilharia Cênica cria uma obra que comunica muito sem precisar explicar tudo, apostando na inteligência poética do público.

    Mais do que contar uma história, HA! convida o espectador a sonhar — ou talvez a confrontar os próprios pesadelos produzidos por uma sociedade que já não consegue dormir.


Ficha Técnica
Direção: Eros P. Galvão
Dramaturgia: Grupo Artilharia Cênica e Eros P. Galvão
Elenco: Bruno Maracia, Igor Fonseca e Raniele Barbosa
Contrarregra e Operador do Animatrônico: Gefter Rayan
Desenho de Luz e Operação: Tim Santos
Concepção de Figurino: Maia Flores e Victor Medeiros
Assistente de Figurino: Amanda Silva Lopes
Confecção do Figurino: Júlia Alves
Trilha Sonora: Ivo Ivo Ivo
Operação de Som: Tim Santos
Cenário, Adereços e Animatrônico: Tim Santos
Boneco: Tim Santos e Leandro Marra
Assistente de Cenografia, Adereços e Boneco: Rodrigo Pimentel
Concepção dos Personagens/Bonecos: Eduardo Santos


*Diego Ferreira é professor de teatro, dramaturgo, crítico e curador. Graduado em Teatro pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), é criador do projeto Olhares da Cena, espaço dedicado à crítica e reflexão sobre as artes da cena. Entre seus trabalhos dramatúrgicos estão Negreiros: História que a História Não Conta — vencedor do Prêmio Açorianos 2024, Corália Brechó, Abdias do Nascimento e Vozes do Lixão: a história de Tugira.