quinta-feira, 21 de maio de 2026

FLAMENCO NEGRO (RS)

 


FLAMENCO NEGRO e a Dança Como Território de Resistência

por Diego Ferreira*

    Há espetáculos que nos atravessam pela técnica. Outros, pela beleza estética. Mas há aqueles raros trabalhos que nos atingem em uma camada mais profunda, quase ancestral, onde corpo, memória e política tornam-se inseparáveis. FLAMENCO NEGRO, da La Negra Cia de Dança, pertence a essa categoria.

    O próprio título do espetáculo já anuncia sua dimensão crítica e simbólica. FLAMENCO NEGRO dialoga diretamente com os principais atravessamentos da obra: corpo, memória, negritude e ocupação simbólica da cena. Mais do que nomear um trabalho artístico, o título prepara o espectador para uma experiência que ultrapassa a apreciação estética e compreende a dança como linguagem de enfrentamento, afirmação identitária e resistência.

    Partindo de um não lugar — espaço simbólico de apagamento, deslocamento e resistência — o espetáculo constrói uma narrativa potente sobre a presença negra dentro do universo flamenco, linguagem historicamente embranquecida pelos discursos oficiais, apesar de suas inúmeras conexões afrodiaspóricas. O trabalho não apenas revisita essa história: ele a reivindica através da pele, do suor, do gesto e da pulsação dos corpos em cena.

    Confesso que jamais imaginei me emocionar tão profundamente assistindo a um espetáculo de flamenco. Até porque muitas vezes o Flamenco não é acessível para pessoas negras. E compreendo acessibilidade não apenas como poder financeiro, mas cultural. Talvez porque FLAMENCO NEGRO não se acomode nos limites formais da dança espanhola; ele rompe molduras e transforma o palco em território de denúncia, memória e afirmação identitária. A carga política atravessa todas as camadas da encenação sem perder delicadeza estética. Pelo contrário: é justamente na beleza das imagens construídas que a crítica ao racismo ganha ainda mais força.

    A expressividade das intérpretes Ana Medeiros La Negra, Patrícia Correa, Mima Ruedas e Bianca Benevenutto La Señora impressiona pela presença cênica. Há algo de visceral em seus movimentos. Cada sapateado parece carregar séculos de tensão histórica; cada silêncio do corpo produz discurso. Não se trata apenas de executar uma técnica refinada, mas de fazer do flamenco um campo de disputa simbólica, onde mulheres negras reivindicam seu direito de existir, criar e ocupar espaços tradicionalmente excludentes.

    A direção artística de Everson Silva e Kacau Soares conduz essa travessia com inteligência e sensibilidade, compreendendo que o espetáculo não precisa ilustrar a dor para torná-la presente. Everson vem se destacando na cena gaúcha como um diretor extremamente criativo. A direção emerge da relação entre os corpos, na musicalidade, nos olhares, na expressividade dos corpos e principalmente na poderosa simbologia dos sapatos. Em FLAMENCO NEGRO, o sapato deixa de ser mero elemento técnico para tornar-se objeto de poder, status e pertencimento. Quando os pés descalços surgem em cena, a imagem reverbera a memória brutal de corpos escravizados aos quais o direito ao calçado era negado. O gesto simples de retirar os sapatos transforma-se, então, em manifesto político e poético.

    A iluminação de André Freitas merece destaque especial pela maneira como cria atmosferas densas e sensoriais, desenhando sombras e presenças que ampliam a dimensão emocional da obra. A luz não apenas acompanha a cena: ela constrói estados, evidencia tensões e contribui para essa sensação constante de deslocamento e resistência que atravessa o espetáculo.

    Também é impossível não reconhecer a força da direção geral de Ana Medeiros La Negra, que articula com precisão estética e posicionamento político. Seu trabalho reafirma a potência da representatividade negra dentro da dança flamenca brasileira e evidencia como a arte pode ser instrumento de revisão histórica e transformação social.

    A presença deste espetáculo num circuito de grande relevância como o Palco Giratório amplia ainda mais a potência política e simbólica da obra. Não se trata apenas da circulação de um espetáculo premiado, mas da ocupação de um espaço historicamente legitimador por corpos negros que reivindicam outras narrativas dentro da dança e da cena brasileira. Ao integrar um dos festivais mais importantes do país, a La Negra Cia de Dança não apenas conquista visibilidade: ela tensiona estruturas, amplia repertórios estéticos e reafirma a urgência de trabalhos que discutam raça, memória e pertencimento através da arte. Em tempos em que ainda é necessário disputar espaços de representação, assistir a um espetáculo como FLAMENCO NEGRO ocupando um palco dessa dimensão possui um impacto que ultrapassa o campo artístico — é também um gesto de transformação cultural e política.

    Mais do que um espetáculo de dança, FLAMENCO NEGRO é uma experiência de enfrentamento e reinvenção. Uma obra que devolve ao flamenco parte de suas raízes negras, enquanto projeta novos futuros possíveis para os corpos que historicamente foram silenciados dentro dessa linguagem. Ao final, diante daqueles pés descalços, o palco já não é apenas espaço de apresentação artística — torna-se território de memória, resistência e liberdade. Um espetáculo que encanta e emociona desde o inicio e merece todos os aplausos pela qualidade técnica, estética e política. 

Ficha Técnica

Direção Geral: La Negra Ana Medeiros
Direção Artística: Everson Silva e Kacau Soares
Elenco: La Negra Ana Medeiros, Pati Corrêa La Paloma, Jemima Ruedas, Bianca Benevenutto La Señora e Rose Correa
Cenário: La Negra Ana Medeiros
Figurino: La Negra Ana Medeiros
Confecção de Figurinos: Señora Traje Flamenco
Trilha Sonora: Jef Lima e João La Furia
Luz: André Hanauer
Produção Executiva: Cibele Donato


Diego Ferreira é professor de teatro, dramaturgo, crítico e curador. Graduado em Teatro pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), é criador do projeto Olhares da Cena, espaço dedicado à crítica e reflexão sobre as artes da cena. Entre seus trabalhos dramatúrgicos estão Negreiros: História que a História Não Conta — vencedor do Prêmio Açorianos 2024, Corália Brechó, Abdias do Nascimento e Vozes do Lixão: a história de Tugira.