quinta-feira, 28 de maio de 2026

O MOTOCICLISTA NO GLOBO DA MORTE (RJ)



A palavra em alta rotação

por Diego Ferreira*

    Há espetáculos que se sustentam na grandiosidade visual, na maquinaria cênica ou na multiplicidade de signos que disputam a atenção do público. O Motociclista no Globo da Morte escolhe o caminho oposto. E é justamente nessa recusa ao excesso que reside sua potência mais contundente. A montagem dirigida por Rodrigo Portella aposta radicalmente na dramaturgia como motor absoluto da experiência teatral. Tudo parte do texto. Tudo retorna a ele.

    Leonardo Netto escreve uma obra que não busca respostas fáceis para a violência contemporânea, tampouco se acomoda em discursos moralizantes. Sua dramaturgia opera como uma investigação inquieta sobre os limites da civilidade, sobre a fragilidade daquilo que entendemos como humanidade e sobre a assustadora proximidade entre o homem comum e o gesto extremo. O texto avança como uma espiral sufocante, conduzindo o espectador por zonas de desconforto que dispensam qualquer artifício espetacular. A palavra, aqui, é suficiente. Mais do que suficiente: é avassaladora.

    A encenação compreende isso com inteligência rara. Rodrigo Portella elimina distrações e deposita no verbo e na presença do ator toda a responsabilidade da cena. Não há excessos cenográficos, nem trilha sonora invasiva, tampouco uma iluminação que queira disputar protagonismo. Tudo parece deliberadamente reduzido ao essencial para que a imaginação do espectador complete os vazios. O espetáculo acontece, sobretudo, dentro da cabeça de quem assiste.

    E talvez esteja justamente aí uma das maiores forças do trabalho de Portella: sua impressionante capacidade de transitar entre linguagens e estéticas radicalmente distintas sem perder rigor autoral. Nos últimos meses, ao assistir Tom na Fazenda, (Um) Ensaio sobre a Cegueira e agora O Motociclista no Globo da Morte, torna-se evidente por que o diretor é hoje um dos nomes mais festejados do teatro brasileiro. Cada uma dessas montagens opera por mecanismos completamente diferentes — seja pela fisicalidade intensa, pela dimensão imagética ou pela radical economia de recursos —, mas todas revelam um encenador atento à pulsação do material dramatúrgico e profundamente comprometido com a experiência do espectador. Em O Motociclista no Globo da Morte, Portella demonstra maturidade ao compreender que qualquer excesso enfraqueceria o impacto da escrita de Leonardo Netto. Sua direção escolhe a precisão em vez do ornamento.

    Essa escolha exige um intérprete capaz de sustentar sozinho a tensão dramatúrgica de um texto denso, árido e profundamente humano. Eduardo Moscovis realiza essa tarefa de maneira impressionante. Seu trabalho não busca a histeria nem o virtuosismo gratuito; ao contrário, constrói um homem aparentemente banal, reconhecível, cotidiano. E é justamente dessa aparente normalidade que nasce o horror. Moscovis compreende a pulsação interna da escrita de Leonardo Netto e a transforma em presença cênica contínua, hipnótica e precisa. Sua atuação não ilustra o texto: ela o encarna.

    O resultado é um espetáculo que reafirma algo por vezes esquecido em tempos de excesso imagético: o teatro ainda pode ser sustentado por um grande ator e uma grande dramaturgia. O Motociclista no Globo da Morte encontra sua força justamente nessa simplicidade radical. Sem ornamentos, sem concessões e sem distrações, a montagem transforma a palavra em impacto direto — como um motor acelerando incessantemente dentro do espectador.


Ficha Técnica

Atuação: Eduardo Moscovis
Texto: Leonardo Netto
Direção: Rodrigo Portella
Assistência de Direção: Milla Fernandez
Trilha Musical: André Muato
Iluminação: Ana Luzia de Simoni
Figurino: Gabriella Marra
Direção de Movimento: Tony Rodrigues
Estudos Visuais em IA: Zezinho Mancini
Produção Executiva: João Eizô Y Saboya
Direção de Produção: Sérgio Saboya e Silvio Batistela
Produção Geral: Eduardo Moscovis e Sérgio Saboya


Diego Ferreira é professor de teatro, dramaturgo, crítico e curador. Graduado em Teatro pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), é criador do projeto Olhares da Cena, espaço dedicado à crítica e reflexão sobre as artes da cena. Entre seus trabalhos dramatúrgicos estão Negreiros: História que a História Não Conta — vencedor do Prêmio Açorianos 2024, Corália Brechó, Abdias do Nascimento e Vozes do Lixão: a história de Tugira.