QUANDO A DRAG NÃO PEDE LICENÇA PARA SENTIR
Abigail Foster — criação do ator Gengiscan — não entra em cena para sustentar uma ilusão de glamour. Ela surge como ruína elegante. Como alguém que transforma excesso em linguagem. Viúva de incontáveis maridos, atravessada por remédios, memórias e afetos mal resolvidos, Abigail faz do palco uma espécie de confessionário profano onde rir e sofrer deixam de ser experiências opostas.
E talvez seja essa a grande inteligência do espetáculo: compreender que o melodrama nunca esteve distante da tragédia.
A dramaturgia construída por Gengiscan, costurada por fragmentos de autores diversos, poderia facilmente se perder em uma colagem arbitrária de referências. Mas o espetáculo encontra unidade justamente na figura de Abigail. Tudo passa por ela. Tudo é contaminado pela sua presença.
Não importa se o texto é canônico, contemporâneo ou autoral: Abigail mastiga cada palavra como quem transforma literatura em cicatriz. Há uma dimensão muito particular no modo como o espetáculo utiliza o lipsync. Em muitos contextos, a dublagem pode surgir apenas como demonstração estética ou reprodução de um imaginário pop. Quando Abigail dubla Elis Regina ou Marilyn Monroe, não há tentativa de imitação fiel. O que aparece é outra coisa: uma espécie de corpo atravessado por vozes que parecem maiores do que ele. E isso produz momentos de enorme força cênica.
Porque o espetáculo entende algo essencial da arte drag: identidade também é montagem. Também é citação. Também é ruína de outras vozes acumuladas dentro de um mesmo corpo.
A encenação intimista intensifica essa sensação de encontro direto. Não há proteção possível entre artista e plateia. Abigail nos encara como quem exige cumplicidade, mas também confronto. E quando um espectador é convidado a integrar a cena, o espetáculo rompe definitivamente a fronteira entre palco e público. O jogo teatral deixa de ser apenas observado e passa a ser compartilhado. Há algo de imprevisível nessa aproximação, algo que reforça a vulnerabilidade da própria personagem e o risco da cena ao vivo.
Em muitos momentos, o espetáculo flerta perigosamente com o excesso — e felizmente não recua. O excesso aqui, não é erro. É método. O excesso é triunfo.
A economia de cenário é outro elemento que revela inteligência cênica. Sem recorrer a grandes aparatos, o espetáculo compreende que sua força está na presença e na palavra. O espaço vazio não empobrece a encenação; ao contrário, amplia a sensação de intimidade e faz com que cada gesto, cada pausa e cada olhar ganhem peso. Tudo parece concentrado no corpo de Abigail e naquilo que ela convoca imaginariamente diante de nós.
Nesse contexto, a iluminação de Leo Mello assume papel fundamental. Mais do que simplesmente “iluminar” a cena, a luz cria dimensões emocionais paralelas. Há momentos em que Abigail parece confinada em sua própria solidão, quase como uma figura perdida num camarim mental; em outros, a luz explode em atmosferas de cabaré decadente, deslocando o espetáculo para um território entre memória, delírio e performance. O desenho de luz compreende as mudanças de temperatura emocional da obra e contribui para transformar o palco em um espaço constantemente mutável, como se diferentes versões da personagem surgissem e desaparecessem diante do público.
Gengiscan constrói uma personagem que se move entre o ácido, o romântico e o devastado sem pedir coerência psicológica. Abigail contradiz a si mesma o tempo inteiro. Ri quando deveria chorar. Exagera quando poderia silenciar. E talvez seja justamente nessa instabilidade que ela se humaniza.
A operação de som de Roberta Eltz sustenta com precisão as transições entre memória, música e discurso, permitindo que o espetáculo deslize entre diferentes registros sem romper sua organicidade.
Mas o que mais me atravessa em Textos e Canções de Amor, Vingança e Morte é perceber como Abigail Foster transforma a própria ideia de exagero em estratégia de sobrevivência. E talvez seja por isso que o espetáculo emociona tanto.
Porque por trás do humor ácido, das dublagens e das histórias absurdas, existe alguém tentando desesperadamente reorganizar os próprios destroços diante do público. Não para encontrar redenção, mas para continuar falando, para continuar existindo, continuar ocupando.
Produção: Ally Anller
Iluminação: Leo Mello