quinta-feira, 14 de maio de 2026

LIGEIRAMENTE VERTICAL (RS)




LIGEIRAMENTE VERTICAL: A POÉTICA DO DESEQUILIBRIO COMO RESISTÊNCIA

por Diego Ferreira*

    Há algo de profundamente humano em observar um corpo prestes a cair. Talvez porque toda existência seja também uma tentativa contínua de sustentar-se diante das forças que nos atravessam. Em Ligeiramente Vertical, espetáculo da Cia Gema, a dança contemporânea surge como um campo de investigação sobre essa instabilidade permanente da vida. Mais do que uma coreografia sobre equilíbrio, a obra constrói uma metáfora sensível sobre vulnerabilidade, resistência e transformação.

    Desde os primeiros movimentos, percebe-se que o espetáculo não busca a estabilidade clássica do corpo virtuoso. Pelo contrário: interessa-se justamente pelo desvio, pela inclinação, pelo instante em que o corpo abandona o eixo seguro e se entrega ao risco. A verticalidade aqui não é uma condição fixa, mas um estado transitório, quase utópico. Os bailarinos parecem existir nesse limite delicado entre resistir e ceder, como quem compreende que permanecer de pé exige também aprender a cair.

    A pesquisa corporal desenvolvida pela Cia Gema impressiona pelo rigor técnico e pela organicidade dos movimentos. Os corpos não executam apenas sequências coreográficas; eles parecem negociar constantemente com a gravidade, criando imagens que evocam crescimento, desgaste, fragilidade e renascimento. Há momentos em que os intérpretes se enraízam no chão como árvores ancestrais; em outros, parecem flores que se curvam ao vento antes de inevitavelmente murcharem. O espetáculo traduz os ciclos da vida sem recorrer à literalidade, permitindo que a dança produza imagens poéticas abertas à experiência sensível do público.

    Um dos aspectos mais potentes da obra está justamente na forma como transforma o desequilíbrio em linguagem estética. A queda deixa de representar fracasso para tornar-se impulso criativo. Cada deslocamento do centro de gravidade inaugura uma nova possibilidade de movimento, como se a instabilidade fosse não uma ameaça, mas uma condição inevitável da existência. Nesse sentido, Ligeiramente Vertical dialoga profundamente com o tempo contemporâneo, marcado por incertezas, rupturas e pela necessidade constante de reinvenção.

    A composição visual do espetáculo contribui decisivamente para intensificar essa atmosfera de suspensão e desequilíbrio. O impressionante resultado estético começa já no cenário: um grande tecido estendido, ligeiramente vertical, simples em sua concepção, mas de enorme potência imagética. A partir do excelente desenho de iluminação de Gui Malgarizi, o tecido ganha novas dimensões e transforma-se continuamente em paisagem, superfície, abismo e extensão dos próprios corpos. Em diversos momentos, cenário, luz e bailarinos se fundem de maneira tão orgânica que produzem imagens de forte impacto poético, quase pictóricas.

    A cenografia concebida por Kyrie Isnardi e Juliana Abbud encontra na simplicidade um potente campo imagético, enquanto a orientação de figurino de Betina Scholl exerce papel fundamental nessa construção estética. Inicialmente marcados pelo branco e por tons neutros, permitem que a luz desenhe os corpos dos intérpretes como se cada gesto fosse uma tela em movimento. Posteriormente, a entrada de tons terrosos amplia a sensação de organicidade da obra, aproximando os bailarinos de elementos ligados à terra, ao desgaste, à matéria e aos ciclos naturais que atravessam toda a dramaturgia corporal do espetáculo.

    Outro destaque importante é a direção de Dani Cezar, que demonstra sensibilidade e rigor ao conduzir um grande elenco sem cair nas armadilhas do excesso. Em muitos espetáculos de dança contemporânea, o virtuosismo técnico frequentemente ocupa o centro da experiência cênica; aqui, no entanto, a escolha parece ser outra. Dani Cezar retira dos corpos aquilo que poderia soar apenas como exibição técnica para revelar algo mais sofisticado: a inteligência sensível dos intérpretes. A coreografia não está desenhada para impressionar pelo virtuosismo, mas para evidenciar corpos que compreendem a essência do movimento e da presença.

    Essa opção estética fortalece ainda mais a dimensão humana da obra. Os bailarinos não surgem como máquinas de precisão, mas como corpos atravessados por fragilidades, tensões e estados internos. Talvez justamente por isso, um aspecto que ainda poderia ser mais trabalhado esteja relacionado às expressões faciais dos intérpretes. Alguns performers conseguem integrar o rosto à dramaturgia corporal de maneira profundamente expressiva, compreendendo que o rosto também é corpo e, portanto, linguagem. Em outros momentos, porém, certas expressões parecem menos elaboradas, o que enfraquece parcialmente a intensidade emocional de algumas cenas. É um detalhe pequeno diante da força da obra, mas que pode ampliar ainda mais a potência comunicativa do espetáculo.

    A trilha sonora pesquisada pela própria Cia Gema acompanha as oscilações emocionais da coreografia sem sobrepor-se aos intérpretes, criando uma ambiência que potencializa a experiência imersiva do espetáculo. Outro grande destaque — e também uma bela surpresa da encenação — é a presença da cantora Paola Kirst. Sua participação imprime ao espetáculo uma camada adicional de sensibilidade e magnetismo cênico. Com uma voz marcante e sedutora, Paola não apenas canta: ela ocupa a cena com presença física e emocional, dando corpo e voz a um dos momentos mais singulares da obra. Sua intervenção amplia o caráter sensorial do espetáculo e reforça a dimensão ritualística e poética presente na montagem.

    Há também uma dimensão filosófica muito interessante na obra: a compreensão de que ceder não significa necessariamente desistir. Em muitos momentos, os corpos parecem descobrir novas formas de permanência justamente quando abandonam a rigidez. A flexibilidade torna-se sobrevivência. A inclinação transforma-se em caminho. E talvez seja exatamente essa a grande força simbólica do espetáculo: reconhecer que a fragilidade também produz potência.

    Ao final, Ligeiramente Vertical deixa no espectador uma sensação de delicada inquietação. A obra não oferece respostas prontas, mas provoca uma percepção mais sensível sobre nossos próprios desequilíbrios cotidianos. A Cia Gema constrói um espetáculo de grande beleza estética e densidade poética, reafirmando a dança contemporânea como linguagem capaz de traduzir aquilo que muitas vezes escapa às palavras.

    Em tempos em que o mundo exige firmezas absolutas, Ligeiramente Vertical nos lembra da beleza — e da coragem — contida nos corpos que insistem em continuar mesmo quando tudo parece prestes a desabar.

Ficha Técnica

Direção: Dani Cezar
Elenco: Andressa Salem, Bianca Bueno, Bruno Manganelli, Diogo Paixão, Fabrini Alves, Isadora Franco, Julia Matos, Julia Oliveira, Juliana Johann, Jordana Inda, Lia Souza, Milena Christo, Patrícia Larentis, Rafaela Kijner, Sérgio Felício e Matheus Mazarem Teixeira.
Iluminação: Gui Malgarizi
Voz: Paola Kirst
Cenografia: Kyrie Isnardi e Juliana Abbud
Orientação de Figurino: Betina Scholl
Trilha Sonora Pesquisada: Cia Gema
Fotografia: Daniela Berwanger
Produção: Casa Salto e Flavio Aquino
Realização: Cia Gema


Diego Ferreira é professor de teatro, dramaturgo, crítico e curador. Graduado em Teatro pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), é criador do projeto Olhares da Cena, espaço dedicado à crítica e reflexão sobre as artes da cena. Entre seus trabalhos dramatúrgicos estão Negreiros: História que a História Não Conta — vencedor do Prêmio Açorianos 2024, Corália Brechó, Abdias do Nascimento e Vozes do Lixão: a história de Tugira.