Mãe Preta de Todas as Artes: quando a força da narrativa ancestral supera os limites da encenação
por Diego Ferreira*
Em um cenário teatral ainda marcado pela sub-representação de narrativas negras, Mãe Preta de Todas as Artes, produção do Grupo Timbre de Galo em parceria com a Cia da Cidade, surge como um gesto importante de afirmação cultural e política. Ao trazer para o centro da cena uma lenda de matriz afro-brasileira que exalta a força, a resistência e a ancestralidade da mulher negra, o espetáculo contribui para ampliar repertórios e reafirmar a urgência de histórias que durante séculos foram silenciadas ou marginalizadas.
A narrativa acompanha a trajetória de uma mãe que, diante da dor da perda, transforma seu sofrimento em vida. De suas lágrimas nasce uma fonte de água, imagem carregada de simbolismo que sintetiza a capacidade de resistência e reinvenção presente na experiência histórica de tantas mulheres negras. A água, elemento fundamental para a existência, surge como metáfora de continuidade, renovação e esperança. Nesse sentido, a lenda da Mãe Preta não fala apenas sobre um acontecimento mítico; ela evoca a memória ancestral, a relação com a natureza e a potência de uma feminilidade negra capaz de converter a dor em força coletiva.
É justamente nessa riqueza simbólica que reside a principal virtude do espetáculo. A história possui densidade poética, relevância cultural e um potencial imagético capaz de mobilizar diferentes gerações de espectadores. Ao recuperar elementos da tradição oral e das narrativas ancestrais afro-brasileiras, a montagem reafirma a importância dos saberes transmitidos pela palavra, pela memória e pela presença.
Grande parte dessa potência encontra sustentação na atuação de Mara Cavalheiro, que ocupa o palco com firmeza, carisma e expressividade. Sua presença cênica é, sem dúvida, o principal motor da encenação. A atriz demonstra domínio da narrativa, estabelece comunicação direta com o público e consegue imprimir humanidade e emoção aos acontecimentos narrados. Há verdade em sua condução da história e uma capacidade de criar imagens através da palavra que frequentemente supera os recursos externos empregados pela montagem.
Contudo, se a atriz encontra caminhos para sustentar o interesse da plateia, o mesmo não se pode dizer da dramaturgia de João Batista Leite e de algumas escolhas de encenação conduzidas por Alan Rocha. O texto apresenta uma estrutura excessivamente simplificada, limitando as possibilidades de aprofundamento dos conflitos, dos símbolos e das camadas históricas que a própria narrativa sugere. A dramaturgia parece confiar demasiadamente na força da história original sem desenvolver plenamente suas complexidades, o que resulta em uma construção dramática por vezes previsível e pouco desafiadora.
A encenação também encontra dificuldades ao recorrer constantemente ao uso de projeções em vídeo. Em vez de expandir sentidos, criar contrapontos ou estabelecer novas camadas de leitura, as imagens projetadas acabam desempenhando uma função meramente ilustrativa. O vídeo frequentemente repete aquilo que já está sendo dito pela atriz, reforçando visualmente informações que o texto e a performance já comunicam de maneira suficiente. Essa redundância enfraquece a experiência teatral, uma vez que reduz o espaço da imaginação do espectador e subutiliza uma ferramenta que poderia contribuir para a construção de atmosferas, tensões ou perspectivas complementares.
Paradoxalmente, quanto mais a montagem recorre às imagens projetadas, mais evidente se torna a força da intérprete. Em diversos momentos, surge a sensação de que o espetáculo encontraria maior potência se confiasse integralmente na figura da contadora de histórias. A tradição dos griôs africanos — guardiões da memória coletiva e transmissores de conhecimento através da oralidade — parece oferecer uma pista valiosa para a própria encenação. Mara Cavalheiro possui recursos expressivos suficientes para conduzir sozinha a jornada da Mãe Preta, mobilizando o imaginário do público por meio da palavra, do gesto e da presença.
Talvez uma direção mais coesa, capaz de depurar os elementos visuais e concentrar o foco na narrativa oral, encontrasse caminhos mais eficazes para potencializar a riqueza simbólica da história. Menos ilustração e mais evocação; menos explicação e mais confiança na capacidade da atriz de fazer emergir imagens através da cena. O espetáculo parece alcançar seus momentos mais interessantes justamente quando permite que a palavra ancestral ocupe o centro da experiência teatral.
Ainda que apresente fragilidades estruturais, Mãe Preta de Todas as Artes mantém sua relevância por reafirmar a necessidade de narrativas negras nos palcos brasileiros. Sua maior contribuição talvez não esteja na sofisticação formal de sua realização, mas na escolha de contar uma história que celebra a força da mulher negra, a memória ancestral e a capacidade de transformar sofrimento em esperança. Em tempos em que a disputa pelas narrativas também é uma disputa por existência, a presença dessa lenda em cena já constitui um ato significativo de resistência.
Apesar de suas irregularidades dramatúrgicas e cênicas, a iniciativa do Grupo Timbre de Galo e da Cia da Cidade merece destaque por apostar na valorização de narrativas afro-brasileiras e por colocar em evidência uma história que celebra a ancestralidade, a resistência e a potência transformadora das mulheres negras.
Ao final, permanece a imagem da água que nasce da dor. Uma metáfora poderosa que atravessa o espetáculo e que, apesar das limitações, continua ecoando na memória do espectador como um convite à reflexão sobre ancestralidade, natureza, justiça e permanência.
Ficha Técnica
Espetáculo: Mãe Preta de Todas as Artes
Elenco: Mara Cavalheiro
Direção: Alan Rocha
Texto: João Batista Leite
Direção Musical: Marcelo Neves
Preparação Vocal: Bárbara Canuto
Coreografia: Naiadjy Cavalheiro
Direção de Produção: Naiara Cavalheiro
Iluminação: Edgar Jr.
Produção Executiva: Timbre e Cia
Baseado na obra de: Ivaldino Tasca
Diego Ferreira é professor de teatro, dramaturgo, crítico e curador. Graduado em Teatro pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), é criador do projeto Olhares da Cena, espaço dedicado à crítica e reflexão sobre as artes da cena. Entre seus trabalhos dramatúrgicos estão Negreiros: História que a História Não Conta — vencedor do Prêmio Açorianos 2024, Corália Brechó, Abdias do Nascimento e Vozes do Lixão: a história de Tugira.