domingo, 26 de abril de 2020

BATE-PAPO OLHARES DA CENA


Prezados leitores, devido a pandemia do COVID 19 nosso blog Olhares da Cena também entrou de quarentena, pois nosso material de trabalho para redigir nossos textos são os espetáculos que estão sem nenhuma atividade prevista e sem previsão de retorno. Então a forma que encontramos de continuar dialogando com os artistas foi através de LIVES no canal do Instagram do @olharesdacena. E hoje publicamos aqui a versão do ator, diretor e dramaturgo Thiago Silva que por questões técnicas não pode participar através da Live, mas gostaria de participar de alguma forma e nos presenteia com um grande (em extensão e conteúdo) bate-papo. A mediação do bate-papo foi realizada por Diego Ferreira*. 

BATE-PAPO OLHARES DA CENA – THIAGO SILVA


Thiago Silva é Ator, professor e dramaturgo experimental. Cinéfilo patológico estudante de Direção Teatral/UFRGS. Mestre em História Cultural/Feevale. Graduado em História/Feevale. É diretor do Coletivo Nômade e foi vencedor do Prêmio Olhares da Cena, na categoria Ator por seu trabalho no espetáculo "Alice - Além da toca do coelho". 


OLHARES DA CENA - Antes de tudo, te agradeço por ter aceitado o nosso convite e já te pergunto, em tempos de pandemia e isolamento, o que tens feito para se manter?
THIAGO SILVA - Muito obrigado pelo convite, fico muito feliz em estar aqui conversando com vocês nesses tempos tão incomuns e difíceis para todos e todas nós. Então, tenho feito muitas coisas para me manter ocupado, sem que o isolamento seja algo que me atinja negativamente. Dentre elas, tenho lido várias obras de literatura que estava me devendo há tempos, assistido muitos filmes (que é algo que naturalmente eu já faço, mas agora é praticamente um hábito diário, o que antes não era possível), escrito muitas coisas novas, além de ter me ocupado em trabalhar à distância com correção de textos diversos como meio de subsistência financeira. Também entrei em dois processos novos de trabalho no Departamento de Arte Dramática, onde trabalharei como dramaturgista, e os encontros seguem acontecendo, mesmo que à distância. Tenho conversado muito com as pessoas, trocado sensações, angústias e experiências. Acredito que esse momento tão atípico possa servir para nos unir de alguma forma, mesmo que estejamos longe uns dos outros.
Como tu entendes e processa o momento atual político do país?
Preocupante. Muito preocupante. É dilacerante responder essa pergunta, sobretudo porque não tenho respostas exatas, ainda que me coloque radicalmente contra uma série de acontecimentos que vem se desdobrando em nosso país. Tenho formação em História, e, com frequência, amigos artistas me perguntam acerca do que penso e de como projeto um cenário político para daqui os próximos meses ou anos. E eu realmente não sei responder com precisão esses questionamentos. É tudo muito instável e incerto. Porém, é inevitável constatar que estamos vivenciando um dos piores momentos políticos na História do Brasil, com o presidente mais vil, despreparado e insensível aos problemas da população que já tivemos. Discursos equivocados, ações em benefício apenas de si próprio e atitudes indignas do cargo que ocupa são constantes em sua manifestação política e me sinto envergonhado por viver em um país assim. Somos um país tão rico e com um povo tão bom… Não merecíamos isso. Entendo esse momento que vivemos de muitas formas, mas, grosso modo falando, não posso qualificá-lo como uma democracia verdadeiramente fortalecida. Não mais. Sei que temos um governo democraticamente eleito, porém, quando esse governo endossa um viés de governabilidade autoritário, censório e que não atende aos interesses da maioria de sua população, penso que não respiramos uma democracia plena e comprometida com o bem estar comum.
Por que teatro?
Por muitos motivos, mas, principalmente, como salvação de mim mesmo. Pode soar como um motivo egocêntrico e egoísta. Mas não é. A arte (e o teatro, especificamente) me salva de todas as maneiras que um ser humano pode ser salvo. Todos os dias. E, salvando a mim mesmo, salvo todos que me rodeiam e trocam comigo: alunos e alunas, colegas, público. A salvação, no sentido mais pleno que essa palavra pode carregar, é sempre coletiva. Teatro é salvação, festa, contestação. Teatro é algo que está marcado em minha pele. Sem ele, nada em mim existe e o outro que me habita também desaparece.
DELINQUÊNCIA ou a lei do olho em alerta
Como foi o processo/trajetória até tu te tornares um ator/diretor/dramaturgo?
Desde a infância eu queria ser escritor. E isso desde a mais tenra idade, pois lembro de mim, aos 4 ou 5 anos, carregando livros e contando histórias para quem quisesse ouvir. Minha mãe conta que eu estava sempre escrevendo, cheio de cadernos e livros em minha volta. E eu me recordo disso com uma força impressionante. Nunca pensei em ser outra coisa nesse período da infância: queria escrever. Aos 9 anos de idade, entrei no grupo de teatro da escola pública na qual eu estudava, no interior gaúcho. Ali, descobri que atuando eu poderia contar histórias por um outro viés: vivenciando-as, me tornando elas. Esse processo foi lindo e, a partir daí, decidi que queria ser ator. Porém, nunca deixei de amar a escrita. Segui atuando, fazendo teatro escolar, depois amador e por fim profissional, mas nunca deixei de escrever muito, simultaneamente a isso. O processo de direção foi o que veio mais tarde. Quando eu tinha 17 para 18 anos, comecei a dar oficinas de Teatro em uma escola pública (cujo trabalho nela eu desenvolvo até hoje) e, a partir daí, percebi que amava pensar a cena, conceber uma peça esteticamente, refletir com carinho e dedicação o processo de direção de elenco, etc. Nesse tempo, eu já estava cursando a faculdade de História e, nos cinco anos seguintes, fui professor de Teatro enquanto estudava com profundidade os processos históricos na graduação. Ser professor de Teatro e me tornar um historiador, ao mesmo tempo, amadureceu a minha vontade de ser um diretor de Teatro. Então, após a faculdade e o Mestrado, decidi cursar Direção Teatral no Departamento de Arte Dramática da UFRGS e me aprofundar nessa área específica. E, com certeza, foi a melhor decisão da minha vida em termos profissionais, pois me abriu um universo de possibilidades que hoje fazem toda a diferença no artista e profissional que me tornei.
Atuar ou dirigir ou escrever ou Atuar/dirigir/escrever?
Todas as alternativas (risos). Sempre me perguntam isso, se eu tenho uma preferência e respondo que depende do momento. Quando estou em cena, atuando, atuar é o que mais amo fazer. Quando estou em casa, escrevendo, isso é o que me dá mais prazer. Mas quando estou em uma sala de ensaio, com um elenco maravilhoso que me desafia e me inspira, quando preciso pensar na mecânica de uma cena ou fazer escolhas na concepção de um espetáculo, ser diretor é o que mais prezo nessa vida. Então, não existe “ou”, mas sempre “e”. E, às vezes, faço todas as coisas junto, embora, cada vez mais, goste de trabalhar apenas com uma delas por vez, a fim de me aprofundar nas especificidades que a função exige.
Comente tua paixão pelo cinema e tua relação com ele e se tens alguma experiência com esta linguagem?
Minha paixão pelo cinema é algo que me acompanha diariamente. Sou cinéfilo desde que me conheço por gente e os filmes dialogam comigo de uma maneira muito próxima e especial. Através dos filmes me inspiro, tiro ideias, faço um paralelo entre eles e as obras que desenvolvo. Sempre apreciei assistir cinema, porém, ao longo do tempo, a linguagem cinematográfica perpassou minha construção artística e hoje faz parte daquilo que sou enquanto artista criador. Na última peça que dirigi, “Velhos Hábitos”, a encenação utilizou conceitos e premissas próprias ao universo cinematográfico em diálogo direto com o campo teatral. Foi uma pesquisa de dois anos, onde cinema e teatro estiveram intimamente ligados. Tenho mais dois projetos que estão em fase de desenvolvimento que também se valem desse diálogo e atualmente estou escrevendo meu projeto de doutorado, no qual pesquisarei Teatro, linguagem cinematográfica e o cinema de horror contemporâneo, continuando a pesquisa que iniciei no meu estágio em Direção Teatral. 
O que é mais difícil para um artista da cena?
Com certeza sobreviver com dignidade de sua arte e não desistir no meio do caminho, quando todos, inclusive o próprio meio artístico, dizem para você abrir mão do que mais ama. Não é uma área fácil. Continuar e não desistir é o maior dos desafios.
Alice - Além da toca do coelho

Thiago, tua atuação no espetáculo Alice nos surpreendeu pelo fato de te enxergarmos mais enquanto dramaturgo e diretor, como foi esta experiência e de ter recebido o Prêmio Olhares da Cena por este trabalho?
Fiquei honrado e muito feliz com o Prêmio Olhares da Cena de Melhor Ator, sobretudo porque não estava esperando. Mas também porque estava concorrendo com atores maravilhosos, que desenvolvem um trabalho maduro e potente que admiro muito. Rodrigo Waschburger, Guilherme Fêrrera, Lauro Fagundes, Jardel Rocha que é meu colega no Coletivo Nômade e que desenvolve um trabalho lindo como Junho Frank… Todos os indicados mereciam muito. Então, meu respeito a todos e minha enorme gratidão por ter recebido esse prêmio. Fico feliz, especialmente, por ter recebido o reconhecimento pelo meu trabalho em “Alice”, que é um espetáculo pelo qual tenho um imenso carinho e que fala sobre tantos assuntos que são essenciais serem discutidos com o público infantil. Ser reconhecido em um trabalho assim torna tudo ainda mais especial. Obrigado.
Como você (sobre) vive na arte?
De muitas maneiras: dando aula de Teatro, atuando, escrevendo em várias frentes, dando assessoria de escrita, realizando oficinas de Teatro em espaços diversos e tudo mais o que for necessário fazer em termos de artes cênicas. Infelizmente, nem sempre é possível apenas atuar, escrever ou dirigir. No país em que vivemos, é necessário se reinventar a todo instante para sobreviver de nossa arte. Amo tudo o que faço, mas sinto falta de um tempo maior para desenvolver projetos com mais tranquilidade. Isso seria o ideal para todo artista.
O que está faltando (se está faltando) para que o teatro gaúcho tenha uma estabilidade, qualidade e notoriedade e que consiga uma projeção maior?
Oportunidades e um olhar mais cuidadoso por parte do poder público. Temos um Teatro de muita qualidade no estado, grupos que produzem coisas maravilhosas com pouquíssimos recursos. Porém, muitas pessoas desistem e não seguem na carreira por causa da falta de incentivos. É preciso mais espaço e investimento, bem como ter um olhar mais respeitoso com jovens artistas que estão começando e desenvolvem um trabalho tão bom quanto quem já está na estrada há tempos. Sinto que, principalmente em Porto Alegre, muitas vezes não existe confiança com o trabalho de artistas jovens, o que faz com que muitas pessoas simplesmente vão embora do estado e desenvolvam suas carreiras em outro lugar. Isso é triste, porque poderíamos ter uma pluralidade e uma riqueza artística muito maior. Tem sim espaço pra todo mundo. Basta oportunizá-lo.
Como é o teu processo de trabalho em cada especificidade (ator, diretor, dramaturgia)?
São processos bem diversificados, em cada uma dessas áreas. Tudo
depende das especificidades do trabalho no qual estou envolvido. No caso do meu trabalho como dramaturgo, vai depender se é uma dramaturgia própria ou coletiva, se é um texto que escrevo em casa ou que nasce do processo de ensaio, etc. Mas, sempre sou atravessado por questões, temáticas e provocações que me inspiram. O cinema me ajuda muito, nesse sentido, gosto muito de promover esse diálogo entre filmes e teatro na minha escrita. No caso da direção, depende do projeto e, principalmente, do elenco com o qual estou trabalhando. Sou um diretor que ama trabalhar com pessoas e construir arte junto com elas. Obviamente existe uma concepção de direção, um projeto de encenação sempre. Mas jamais trabalho de forma despótica e alicerçada apenas em visões minhas. Atores, atrizes, músicos, iluminadores... Toda a equipe sempre terá espaço para propor e construir junto comigo. No caso da atuação, acredito que eu tenha um processo um pouco mais individual, ainda que sempre em diálogo com meus e minhas colegas de elenco. Gosto de pesquisar muito sobre o personagem que estou fazendo, gosto de buscar inúmeras referências para ver o que serve ou não, gosto de discutir, debater e me debruçar de forma
intensa sobre o meu trabalho. Sou assim, gosto de ir bem fundo, acho bom e divertido ser dessa maneira. E isso só depende de mim, por isso considero esse um processo mais individual que o de escrever ou dirigir, embora também seja coletivo, de certa forma.
JUNHO - Uma aventura imaginária
E o Coletivo Nômade? Como se caracteriza a criação e vivência em
grupo? Quais os projetos e influências que norteiam o trabalho de vocês e se tem projetos novos?
O Coletivo Nômade é um grupo lindo e inspirador que me fortaleceu e me projetou como artista e pesquisador da área cênica. É um grupo de vivências e trocas coletivas, portanto, de referências e fontes diversas. Se cada um dos membros fosse falar sobre sua própria experiência com Teatro, teríamos inúmeras trajetórias e referenciais. Mas, com certeza, algumas das nossas grandes referências são os professores e professoras do Departamento de Arte Dramática da UFRGS, uma vez que o nosso coletivo nasceu e prosperou dentro desse espaço. Tudo o que aprendemos tem ligação com esse lugar e com as trocas que fizemos nele. Quanto aos projetos novos, temos um em processo, que é uma peça sobre a vida e obra da cantora Nina Simone, e outro em estado de concepção, que é uma nova peça infantil. Em breve divulgaremos mais a respeito.
Posso te dizer que te conhecia mais enquanto dramaturgo e diretor através
dos teus trabalhos: “Desterro: sobre restos que não importam mais” e “Junho: uma aventura imaginária” e ano passado através do espetáculo “Velhos Hábitos”, e gostaria que tu comentasse sobre a pesquisa dramatúrgica destes trabalhos e a forte relação com a história que é o teu outro campo de formação.
A História é uma referência essencial, um atravessamento forte em meu trabalho com dramaturgia e direção. Mesmo quando, aparentemente, não exista uma relação direta com ela nas peças que desenvolvo, a ciência histórica me orienta em muitas decisões, principalmente no que tange ao processo de pesquisa. Os estudos históricos me ensinaram a ter disciplina no meu trabalho e a me debruçar profundamente sobre questões sociais, políticas e humanas. E isso no Teatro é essencial. Assim, em “Velhos Hábitos”, por exemplo, o processo de composição da dramaturgia esteve intimamente ligado com a pesquisa histórica que desenvolvi sobre o impacto cultural do livro de Robert Bloch (que foi a base da nossa dramaturgia) e o levantamento acerca de assassinos seriais, doentes psicóticos, casos de matricídio, etc. Esses dados ajudaram a planejar ensaios onde o elenco desenvolvia um material rico com base nessas informações, que serviram para a escrita do texto final da peça. Já em “Junho: Uma Aventura Imaginária”, por exemplo, a pesquisa sobre obras literárias que tinham como temática a perseguição ao conhecimento, me ajudaram a pensar em uma dramaturgia voltada para o público infantil que tivesse uma base sólida em relação aos temas que eu queria abordar. Já em “DESTERRO: sobre restos que não importam mais”, a História esteve ainda mais presente, uma vez que se trata de um espetáculo de Teatro Documentário que fala sobre as ditaduras militares na América Latina. Ou seja, de um modo ou de outro, a História continua me acompanhando nos caminhos da ficção.
Desterro - sobre restos que não importam mais
As coisas estão fluindo como havias planejado? Aonde tu queres chegar?
Estão fluindo no tempo delas, eu acho (risos). Nunca fui uma pessoa que me desespero com as coisas, apesar de ser bastante disciplinado e focado nos objetivos que quero alcançar... Onde quero chegar? Dificílima essa pergunta, mas, basicamente, quero continuar trabalhando com Teatro por muito tempo e viver dignamente fazendo aquilo que amo.
Alguma vez já pensou em desistir?
Muitas. Mesmo. Mas amo o que faço e não seria feliz se desistisse.
Qual o papel da universidade na formação de um artista?
Um papel essencial, não apenas de formação técnica e teórica, mas também de formação humana. Na universidade conheci diversas pessoas fundamentais na minha formação, artistas incríveis que contribuíram demais para eu ser o artista que me tornei e me torno a cada dia. Acredito que o espaço acadêmico seja um universo rico onde a prática artística, a teoria e as parcerias que construímos estão inevitavelmente interligadas. É um ambiente rico de discussão, troca e construção de conhecimento, basta aproveitar ao máximo o que ele tem pra te oferecer.
Quais profissionais gaúchos e nacionais tu destacaria, que contribuem para um teatro mais forte e engajado? (Ator/atriz, diretores, teóricos, etc...)
Eu acho que destacar um nome ou mesmo vários seria injusto, nesse sentido. Acredito que a simples escolha de fazer teatro em um país como o nosso já é um posicionamento político forte e engajado. Claro que existem pessoas, grupos e profissionais que possuem uma trajetória de luta e engajamento maravilhosa que merecem todo o respeito e consideração, porém, são muitos e, não destacando ninguém, acabo por destacar a todos, inclusive aqueles e aquelas que nunca são lembrados.
Qual a tua opinião a respeito das parcas e cada vez mais raras leis de incentivo do estado, da ação inexistente do ministério da cidadania em relação a incentivos as artes cênicas na secretaria de cultura?
Acho uma falta grave. Em um país como o nosso, onde a maioria dos e das artistas não conseguem sobreviver sem esses incentivos, ter um ministério da cidadania que ignora esses números é cruel e inaceitável. É triste perceber que muitos grupos maravilhosos simplesmente desistem no meio do caminho pela falta de incentivo. Que tipo de país não incentiva a própria cultura? Acho importante pensar sobre isso e cobrar medidas que modifiquem essa situação.
E dos prêmios outorgados a melhores do ano, qual tua opinião?
Primeiramente, é preciso ressaltar que a concessão de um prêmio é sempre algo subjetivo. “Melhor” ou “Pior” nem sempre é compatível com a real natureza do produto artístico que está em evidência. Tanto é que, ao acompanharmos qualquer premiação, é comum presenciarmos debates apaixonados em defesa ou em contrariedade a esse ou aquele filme, livro, música, artista ou peça. Isso porque a arte sempre mexe de forma diferente com as pessoas, justamente porque temos visões diferentes do mundo e, consequentemente, daquilo que assistimos. Sendo assim, um prêmio, ainda que importante para o/a artista que o recebe, nunca é um atestado de validade ou invalidade da trajetória artística de ninguém. Cada trabalho possui a sua particularidade e quem avalia sempre leva em conta o seu próprio julgamento. Ou seja, são olhares e não validações de obra ou artistas.
VELHOS HÁBITOS
Duas questões: Como você vê o papel da crítica e como você recebe as premiações, se puder divida conosco os prêmios já recebidos por ti e pelo grupo, e como estes prêmios redimensionam a tua carreira?
Vejo a crítica como um diálogo com a obra “criticada”. Uma boa crítica é aquela que saber escutar a obra com a qual dialoga. O papel da crítica, nesse sentido, é estabelecer questionamentos e reflexões, além de analisar tecnicamente uma peça. Um bom crítico ou uma boa crítica de Teatro deve ser, sobretudo, uma pessoa que goste de assistir Teatro, goste de trocar com o outro e que tenha uma boa base de conhecimentos cênicos para isso. Dizer “gostei” ou “não gostei” não basta. No âmbito pessoal, tudo bem ser assim. Mas quando escrevemos uma crítica, é preciso argumentar e gerir todos os aspectos do trabalho para endossar nossos pontos de vista. Por isso, inclusive, acredito que a crítica deveria ganhar mais espaço enquanto uma área específica do conhecimento, para evitar confusões acerca de opiniões pessoais e formulações técnicas sobre uma obra. Mas, no geral, penso que a crítica é importantíssima como meio de um trabalho receber retorno por parte de um espetador qualificado, no caso, o crítico ou crítica de Teatro, o que não quer dizer que a opinião dessas pessoas é a verdade absoluta sobre o trabalho. O que eu disse sobre os prêmios em uma das perguntas anteriores, também vale para as críticas: subjetivo, sempre subjetivo. Pois, mesmo que estejam tecnicamente embasadas, é sempre um olhar específico de quem escreve. Sobre as premiações, já falei um pouco nas perguntas acima o que penso a respeito delas. Sobre os prêmios que recebemos no Coletivo Nômade de Teatro e Pesquisa Cênica, foram vários de 2018 para cá (“Junho” tem quase 50 prêmios recebidos e mais de 60 indicações a vários outros), além dos que os membros do coletivo receberam em outros trabalhos desenvolvidos fora do grupo (como Melhor Ator, Direção, Atriz, Dramaturgia etc.). Recebemos esse reconhecimento
com muita alegria e gratidão, mas sabemos que prêmios não validam ou invalidam o nosso trabalho, que está muito além de qualquer troféu. Eles redimensionam a nossa carreira no sentido de nos abrir portas, onde, sem eles, infelizmente, elas estariam fechadas. Ainda existe muito preconceito e “cara virada” para artistas jovens que se destacam, é como se estivéssemos cometendo algum crime ou tirando o espaço de alguém, quando, como eu sempre digo, existe espaço pra todo mundo.
Como você enxerga a atual cena gaúcha? Quais grupos e cias têm
desenvolvidos projetos bacanas?
Enxergo de um modo positivo e vejo que muitos grupos, jovens e mais antigos, têm desenvolvido muitas coisas interessantes. Nem tudo me agrada enquanto arte, mas reconheço a importância de cada uma delas. Gosto muito do trabalho do Grupo Cerco, a direção da Inês Marroco é uma inspiração pra mim, enquanto jovem dramaturgo e diretor. Uma grande referência, sem dúvida. Acho muito bacana as experimentações estéticas do Coletivo Errática. O trabalho de dramaturgia autoral que a Camila Bauer tem promovido nos últimos anos, dando espaço para muitos jovens que gostam de escrever e possuem um enorme potencial pra isso. E destaco também o trabalho de grupos do interior gaúcho, entre eles o Coletivo Meia Oito e a Cia Você Sabe Quem de Pelotas, que desenvolvem trabalhos lindos e de qualidade sem nenhuma ajuda financeira do pode público. Esses são os que mais me chamam atenção, no momento.
O que tu tens assistido e que tem te provocado de alguma forma e o que não tem curtido muito nas artes cênicas?
Preciso ser honesto em relação a essa questão: enquanto espectador e artista, o cinema tem me inspirado e me fascinado muito mais do que o Teatro. É nele que tenho buscado inspiração e é com ele que meu trabalho tem dialogado com mais veemência. Em termos técnicos e teóricos, muitos autores e autoras das artes cênicas me são caros, mas no que tange a criação e o processo artístico é no cinema que encontro mais respaldo e inspiração ultimamente e, não à toa, meu trabalho acaba sendo influenciado e refletindo isso. Inclusive, algumas das minhas peças teatrais favoritas, como “Tom na Fazenda”, “IN ON IT”, “O Mal Entendido” e “Os Cadernos de Kindzu” são entrecruzadas por muitos elementos da linguagem cinematográfica. Em termos de arte dramática, o cinema asiático de modo geral, o pós-terror norte-americano (principalmente o trabalho de Robert Eggers), os filmes da diretora italiana Alice Rohrwacher e as produções do cinema de horror brasileiro nos anos 2010 são algumas das coisas que mais me inspiram na atualidade. Em termos de dramaturgia brasileira tenho muitos nomes que respeito, mas destaco o nome de Manuela Dias e Grace Passô por uma questão que me toca muito: a forma como essas dramaturgas concebem as suas respectivas dramaturgias de forma densa e acessível, falando de temáticas delicadas acerca da sociedade brasileira que são facilmente compreendidas, embora carregadas de complexidade. Nas Artes Cênicas gaúchas, admiro profundamente o trabalho de direção da Inês Marroco; considero ela a maior diretora gaúcha na atualidade. Também destaco os trabalhos desenvolvidos por grupos do interior que possuem um trabalho de altíssima qualidade e muitas vezes são vistos como “arte menor” por artistas da capital com insegurança criativa e síndrome patológica de superioridade em relação aos demais.
Quais são os cinco espetáculos que não saem da tua memória?
Tom na Fazenda, Valsa nº6, O Mal Entendido, Os Cadernos de Kindzu e IN ON IT.
E especificamente em relação a produção gaúcha, quais os cinco espetáculos que não saem da tua memória? 
Os espetáculos gaúchos que mais me marcaram, por diferentes motivos, foram: O Sobrado (dirigido por Inês Marroco), O Mal Entendido (dirigido por Daniel Colin), Aos Sãos (dirigido por Thais Andrade), Valsa nº 6 (dirigido por Bianca Flores), Norma (dirigido por Thalles Echeverry e Eduarda Bento) e Cartão Postal (dirigido por Lucas Ribeiro Galho). 
Futuro?
Seguir apresentando peças pelas quais tenho um carinho grande e me dão muito orgulho, como “Junho: Uma Aventura Imaginária”, “Velhos Hábitos” e “Alice”; seguir om meu projeto de doutorado sobre Teatro, Linguagem Cinematográfica e Cinema de Horror; continuar dando aulas; e seguir com projetos novos que já estão a caminho. Basicamente um futuro de arte (risos).
Tem algum recado especial, ou mensagem para deixar por aqui?
Não sou muito afeito de mensagens, mas se pudesse dizer algo para quem faz Teatro hoje, diria apenas: continue e não desista. Você não está sozinho.
Onde o pessoal pode te encontrar?
Uso bastante o facebook como ferramenta de trabalho, então quem quiser pode me encontrar por lá: www.facebook.com/thiagoteatro ou também no Instagram: @thiagocenico.


* Mediação Diego Ferreira - Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. Integrante da GIRADramatúrgica - Grupo de Estudos em Dramaturgia Negra coordenado por Carlos Canarin. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. Jurado e coordenador do Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Espaço do Ator, Unisinos e Unilasalle. 

domingo, 15 de março de 2020

VENCEDORES DO 10 PRÊMIO OLHARES DA CENA


Votaram no 10º Prêmio Olhares da Cena: 
Diego Ferreira
Igor Ramos
José Henrique Alves
e Juliana Johann

PRÊMIO ESPECIAL

CONVERSAS MACARENANDO da Macarenando Dance Concept
A comissão do Prêmio Olhares da Cena concede o Prêmio Especial ao projeto CONVERSAS MACARENANDO da Macarenando Dance Concept pelo projeto da gestão e abertura do diálogo a todos interessados sem hierarquia e formalidade. Um projeto que merece o olhar dos artistas da cidade. O objetivo é simples: a rede, o networking, a conversa, o bate-papo e a troca entre todos os interessados, sem hierarquia e formalidade, mas não dispensando o comprometimento e a sensibilidade necessários para um diálogo construtivo.Foram realizadas oito CONVERSAS em 2019, em locais diferentes e com variadas temáticas.


MAQUIAGEM


Elison Couto - MILHÕES CONTRA UM

DESIGN GRÁFICO


Teatro Sarcáustico - A ÚLTIMA PEÇA

FOTOGRAFIA DE CENA


Regina Peduzzi Protskof - A MULHER ARRASTADA

TRILHA SONORA


Caio Amon – 2068

ILUMINAÇÃO


Casemiro Azevedo - MILHÕES CONTRA UM  

CENÁRIO


Jony Pereira - ELAS


FIGURINO

Antônio Rabadan – EM CHAMAS

ATRIZ COADJUVANTE


Bruna Casali – 90 ceias

ATRIZ

Aline Marques – LÊ BUFE

ATOR COADJUVANTE


Maurício Schneider – 90 ceias

ATOR


Lauro Fagundes – EM CHAMAS
 

DRAMATURGIA

Aline Marques e Eduardo d'Avila - LÊ BUFÊ

DIREÇÃO


Gabriela Poester – A ÚLTIMA PEÇA


ESPETÁCULO

A MULHER ARRASTADA



MAQUIAGEM


Jennifer Ribeiro e Jardel Rocha - JUNHO – UMA AVENTURA IMAGINÁRIA

DESIGN GRÁFICO / IDENTIDADE VIRTUAL


André Varela e Suzana Witt - EXPEDIÇÃO MONSTRO

FOTOGRAFIA DE CENA


Adriana Marchiori e Tom Peres - EXPEDIÇÃO MONSTRO

TRILHA SONORA


Álvaro RosaCosta – CHAPEUZINHO VERMELHO

ILUMINAÇÃO


Thais Andrade - CHAPEUZINHO VERMELHO 

CENÁRIO


Coletivo Órbita - MACBETH E O REINO SOMBRIO


FIGURINO


Daniel Lion – ALICE – ALÉM DA TOCA DO COELHO

ATRIZ COADJUVANTE

Danuta Zaghetto – EXPEDIÇÃO MONSTRO

ATRIZ


Camila Pasa – MACBETH E O REINO SOMBRIO

ATOR COADJUVANTE


Roger Santos – JUNHO – UMA AVENTURA IMAGINÁRIA

ATOR


Thiago Silva – ALICE – ALÉM DA TOCA DO COELHO

DRAMATURGIA


Matheus Melchiona e grupo - EXPEDIÇÃO MONSTRO

DIREÇÃO


João Pedro Decarli – MACBETH E O REINO SOMBRIO

ESPETÁCULO


JUNHO - UMA AVENTURA IMAGINÁRIA 



MAQUIAGEM


Projeto GOMPA – FRANKENSTEIN 

DESIGN GRÁFICO / IDENTIDADE VISUAL


Mônica Kern - DAS AMARRAS DELA

FOTOGRAFIA DE CENA


Maciel Goelzer - SAMBARACOTU

FIGURINO


Antônio Rabadan - AS VEZES EU KAHLO

CENÁRIO


Alex Sander dos Santos – CLLÃ

ILUMINAÇÃO

Gui Malgarizi e Sandra Santos – DANCE A LETRA – CAETANO

TRILHA SONORA

Thiago Ramil e Loua Oula Djembé – VAGA

BAILARINA

Lauren Laurent – CLLÃ

BAILARINO

Douglas Jung – FRANKENSTEIN

DIREÇÃO


Maria Waleska van Helden – VAGA 

ESPETÁCULO


CLLÃ

segunda-feira, 2 de março de 2020

NOTA SOBRE A ENTREGA PRÊMIO OLHARES DA CENA

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Prezados, é com grande alegria que divulgamos que a revelação dos vencedores do Prêmio Olhares da Cena 2019 será realizada no dia 15 de março, mas é com grande pesar que divulgamos que a revelação se dará apenas de modo virtual através de uma live no Instagram do Olhares da Cena. Nesta edição festiva onde comemoramos 10 anos de história tinhamos o desejo de realizar uma cerimônia digna para a reunião da classe teatral, e já existia até reserva no teatro de Arena, portanto não conseguimos nenhum apoio público ou privado e nossa campanha no Catarse não atingiu os valores que necessitavamos para realizar uma festa DIGNA a todos os profissionais envolvidos. Em tempos onde valores são invertidos e educação, arte e cultura são totalmente desvalorizados a resistência é necessária e por isso entendemos que nossa classe merece RESPEITO e por isso não vamos fazer qualquer coisa. Fica nosso respeito e admiração a todos os espetáculos inscritos, todos os profissionais da arte e todos os indicados e deixo aqui um agradecimento especial aos nossos apoiadores do CATARSE, que serão reembolsados com o valor apoiado, mas que merecem nossos aplausos: 
Felipe Evangelista
Maria Waleska van Helden
Camila Vergara
Jaques Machado
Gustavo Lops Susin
Elisete Marques
Fabiane Severo
Susete Castro Martinez
Mauricio Schneider
Alvaro RosaCosta
Roberto Mendes

A vocês o nosso aplauso.
E convidamos a todos a acompanhar a revelação dos vencedores no próximo dia 15/03 na live do instragram. 


sábado, 8 de fevereiro de 2020

DE LA MANCHA - O CAVALEIRO TRAPALHÃO (RS)




ADAPTAÇÃO LITERÁRIA IRRETOCÁVEL EM TEMPOS DE CENSURA AOS LIVROS

por Diego Ferreira*

ESPECIAL PORTO VERÃO ALEGRE 2020



Resgatar a obra de Cervantes e trazer a tona questões intrínsecas contidas em Dom Quixote já é um grande mérito na nova peça da Rococó Produções. Enxergamos no palco um espetáculo esteticamente bem apurado e politicamente bastante estruturado, apesar da produção ser dirigida aos pequenos percebo um discurso político bem claro e definido. O espetáculo se utiliza de metáforas e humor e não fica em cima do muro, pelo contrário, faz uma reflexão inteligente sobre o momento atual que nosso país passa. A tarefa não é nada fácil de adaptar a obra de Miguel de Cervantes com mais de 400 anos e transpor a narrativa aos dias de hoje, mas a dramaturgia de Guilherme Ferrêra vence a dificuldade e consegue um verdadeiro milagre pois a adaptação por si já é algo difícil, mas nesse caso, trata-se de uma versão para a cena e com apenas dois atores e pelo resultado final conseguimos ter o cerne da obra de Cervantes viva e pulsante. "De la Mancha - o cavaleiro trapalhão" é um espetáculo que explora o campo da teatralidade e do jogo cênico. A teatralidade funciona no espetáculo como um processo no qual os atores modificam a perspectiva das coisas afim de obrigar o espectador a 'vê-las de maneira diferente'. Ela implica a existência de uma defasagem entre a vida e a cena, entre a ação natural e a ação teatralizada. A dualidade cênica proposta pelos dois atores é calcada nas convenções do teatro épico proposto por Brecht onde a todo o momento o jogo é construído e destruído afim de quebrar a quarta parede junto ao espectador e isso imprime no espetáculo um ritmo que não anestesia o espectador, pelo contrário, o público se conserva intelectualmente capaz de assumir o que é mostrado no palco, ou seja, uma postura crítica em relação ao trabalho e sobre o que o ocorre na sociedade atual. Confesso que quando assisti ao espetáculo pensei sobre qual o alcance que teria junto ao público infanto-juvenil devido a transposição da obra junto a um forte apelo político ( eu sinceramente amei todas as críticas contidas no espetáculo relacionadas ao atual governo pelo o que eu defendo e acredito enquanto artista e cidadão), porém fiquei pensando que em tempos de censura, um espetáculo como esse pode ser uma faca de dois gumes, pois existe uma forte patrulha ideológica e fiz o exercício de imaginar "De la mancha" sendo apresentado dentro de uma escola ou feira de livro onde o público é mais heterogêneo, e através disso imaginar a reação das plateias que são a favor do governo atual, fiquei curioso de saber qual seria a reação delas frente a obra apresentada. Por outro lado, justamente pelo momento que vivemos temos que falar sobre política(s), apartidária, mas é necessário chegar a estas plateias, muitas vezes pouco habituadas a estes temas, e neste sentido esta produção é ideal, pois trata de política sem ser didático, com humor e principalmente não mascara a complexidade que é se posicionar hoje.  
No palco não há bons nem maus, não há capitalistas versus comunistas – antes se levam reflexões para cima do palco, olhando a forma como vivemos 
e nos relacionamos em sociedade e, com preocupação, a forma como vêm aumentando os discursos nacionalistas. E hoje o que precisamos é justamente uma responsabilização individual perante o que nos rodeia. As soluções do futuro ainda não 
as pensámos, são as crianças 
que as vão encontrar. "De la mancha" 
é literalmente para elas e para todos nós que sonhamos com dias melhores. Das questões estéticas o espetáculo é irretocável pois parte do texto e direção primorosa de Guilherme Ferrêra, a atuação literalmente épica de Ferrêra e Henrique Gonçalves que é de uma precisão e preciosidade, de um modo artesanal e ético de encarar a profissão, e percebo que nos últimos anos esta dupla tem encarado grande desafios e a cada novo trabalho somos surpreendidos e arrebatados por suas criações. Aplausos a toda equipe técnica do trabalho pois os elementos da cena estão todos jogando na mesma sintonia. A trilha sonora pulsante e caliente, a iluminação com precisão e novas possibilidades de texturas na cena, o funcional e belo figurino, assim como todos os adereços e o cenário que ambientam o espaço da ação. Portanto, diante de tudo isso, e em tempos de censura de obras literárias, "De la mancha - o cavaleiro trapalhão" é um espetáculo indispensável para quem gosta de literatura, gosta de Cervantes, gosta de bom teatro e quer ir ao teatro e posteriormente dialogar e tecer reflexões sobre a obra apresentada junto ao seu filho. Um grande trabalho!Viva a liberdade de expressão! Viva a literatura e não a censura!


Ficha Técnica

Livremente inspirado na obra de Miguel Cervantes
“Dom Quixote de La Mancha”

Adaptação e Direção: Guilherme Ferrêra
Elenco: Guilherme Ferrêra e Henrique Gonçalves
Trilha Sonora Original: Pedro Borghetti e Guilherme Ceron
Produção Musical: Guilherme Ceron | Toca do Graxaim
Provocação coreográfica: João Raphael de Paula
Iluminação: Roger Santos
Sonoplastia: Vinicius Soares
Figurino: Lúcia Machado
Maquiagem: Suzana Machado
Cenografia: Rococó Produções
Adereços de arame: Jairo Teixeira artesão
Fotografias: Tom Peres
Viodeomaker: Julio Estevan
Identidade Visual: Jéssica Barbosa
Apoio Cultural: Riatitá Flamenco
Assistente de Produção: Alessandra Bier

Produção e Realização: Rococó Produções Artísticas e Culturais



*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado e coordenador do Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

OS SALTIMBANCOS - EM BUSCA DA LIBERDADE (RS)

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MUSICAL CERTEIRO SOBRE OPRESSÕES E LIBERDADES

por Diego Ferreira*


"Os Saltimbancos - em busca da liberdade" marca a passagem dos 20 anos do Grupo Teatral Leva Eu da cidade de Viamão e na minha visão marca também um avanço na pesquisa do grupo, pois pude acompanhar outras montagens do coletivo e nesta nova produção percebe-se que a maturidade tras ótimos resultados ao grupo e revela um espetáculo extremamente bem acabado. 
Em tempos onde nossa liberdade está sendo todo dia colocada a prova, onde ocorre o desmantelamento da cultura e da arte por um governo que é contra toda e qualquer forma de expressão artística e cultural, a escolha do Leva Eu, pela obra "Os Saltimbancos" é um tiro certeiro, pois além de ser um clássico do teatro brasileiro desvela uma narrativa que fala sobre opressão e liberdades, que este trabalho já traz estampado no sub-título "em busca da liberdade". A obra é uma adaptação da versão do Chico Buarque que também é uma adaptação de um conto dos irmãos Grimm. A fábula trata da vida de quatro animais que cansados de serem explorados por seus donos, fogem para a cidade para tentar a vida como músicos. Aqui já podemos traçar uma analogia com o que é ser artista hoje num país que não constrói nada culturalmente enquanto estado, apenas destrói o que artistas levaram muito tempo para consolidar e coloca o Brasil no mapa cultural do mundo pela qualidade que existe.  Pensado o espetáculo como uma alegoria política a Galinha representa a classe operária, o Jumento representaria os trabalhadores do campo, o Cachorro os militares e a Gata representaria os artistas. O Barão, que no espetáculo é representado por bonecos de grandes proporções (excelente trabalho de Niltamara Gomes), que é inimigo dos animais, poderia ser a personificação das elites que através de dispositivos criados no atual panorama brasileiro está conseguindo modos "legítimos" de explorar as classes operárias.  Contudo isso o clássico ganha muito através do Grupo Leva Eu, essa abordagem política, que trata de temas como este, mas se utilizando de metáforas e de uma linguagem artística apropriada aos pequenos e aos adultos. Trata-se de um musical que esteticamente é impecável a começar pela criação de toda identidade visual de Vergílio Lopes, que é rica em detalhes e extremamente de bom gosto. Seguindo pela palheta de cores do espetáculo que consegue criar um trabalho com um forte apelo visual desde os cenários criados pelo grupo e executados por Luiz Antonio Bassedoni, pela pontual iluminação proposta por Patrick Simões, pela maquiagem criada por Tuti Kerber que sem exageros auxilia muito na personificação dos animais e nos figurinos de Laura Bauermann que brinca com cores e texturas que são belos e funcionais. 
Muitas vezes não consigo compreender como diretores conseguem dirigir um trabalho e ao mesmo tempo atuar, pois cada função isolada já demanda muito trabalho, mas neste caso Igor Ramos está de parabéns pelas duas funções executadas pois nenhuma das duas deixa a desejar, porém creio que o destaque maior recai sobre sua direção que é precisa pois temos um espetáculo limpo, onde cada elemento tem seu lugar, cada ação, coreografia e canção, tudo  muito bem organizado pela direção, principalmente o coletivo de atores formado pelo próprio Ramos juntamente com Juliana Johann, Gabriele Motta e Renata Severo que dão vida aos animais, além de cantarem, dançarem e realizar a manipulação de bonecos e todos os objetos de cena. O elenco joga junto e isto é ótimo, pois ninguém se sobressai ao outro colega de cena, todos trabalham em uníssono, de modo harmônico e todos estão muito bem em cena. 
O único porém da produção, é que por se tratar de um musical, justamente a questão do canto talvez seja o ponto ainda a ser trabalhado do espetáculo, não que a direção musical de Mádhava Turynan não tenha sido eficiente, pelo contrário, pois os atores e toda a construção musical está de acordo dentro da produção, até por se tratar de um musical em que a maioria das músicas já são conhecidas por todos de antemão,  mas o que ocorre, é que alguns casos a emissão vocal nas canções é dentro de um registro baixo, compreensível até certo ponto pois tentam adequar ao registro de cada ator, e percebe-se o esforço de executar o canto da melhor forma possível, mas em algumas canções o volume baixo acaba interferindo no ritmo do próprio espetáculo, mas isso com certeza pode e deve ser ajustado a medida que o próprio espetáculo vai amadurecendo. De toda forma, a trilha sonora é essencial e funciona muito bem, apenas atentar para a questão da emissão e ritmo e tudo estará de acordo, neste espetáculo extremamente lindo do Grupo Leva Eu, que merece nosso aplauso pela trajetória, resistência de sobreviver fora da capital e claro pelo trabalho "Os Saltimbancos - em busca da liberdade", que é atual e cuidadoso em todos os detalhes. 



Ficha técnica:
Elenco: Gabriele Motta, Igor Ramos, Juliana Johann e Renata Severo | Texto: Sergio Bardotti | Trilha Sonora: Luis Enrique Bacalov | Tradução: Chico Buarque | Criação de Identidade Visual: Vergílio Lopes | Figurino: Laura Bauermann | Criação de maquiagem: Tuti Kerber | Criação de cenografia: Grupo Leva Eu | Construção de Cenografia: Luiz Antonio Bassedoni da Silva | Iluminação: Patrik Simões| Operador de som: Juliano Félix | Orientação cênica de teatro animado e confecção de bonecos: Niltamara Gomes | Fotografia: Artecolor | Produção Executiva: Arih Lopes – Raiar Produções | Direção Musical: Mádhava Turyan | Direção Coreográfica: Juliana Johann | Direção Geral: Igor Ramos

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado e coordenador do Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

CUNHÃS (RS)

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ALEGORIA TEATRAL RETRATA MULHERES FORTES

por Diego Ferreira*

“No dia em que nasci, as pessoas da nossa aldeia tiveram pena da minha mãe, e ninguém deu parabéns a meu pai. Vim ao mundo durante a madrugada, quando a última estrela se apaga. Nós, pachtuns, consideramos esse um sinal auspicioso. Meu pai não tinha dinheiro para o hospital ou para uma parteira; então uma vizinha ajudou minha mãe. O primeiro bebê dos meus pais foi natimorto, mas eu vim ao mundo chorando e dando pontapés. Nasci menina num lugar onde rifles são disparados em comemoração a um filho, ao passo que as filhas são escondidas atrás de cortinas, sendo seu papel na vida apenas fazer comida e procriar.” 


O fragmento acima é um depoimento de Malala Yousafzai e dá o tom de "Cunhãs - Histórias de mulheres que inspiram" espetáculo do Coletivo Panapaná de Canoas. O espetáculo retrata histórias de mulheres fortes que a seu modo marcaram a história justamente por suas lutas em diversas áreas. Além de Malala surgem outras mulheres fortes como Frida Kahlo, Maria da Penha e Domitila de Chungara, e se mostra um trabalho forte, de pesquisa embasada que mergulha na vida e obra destas mulheres. Etimologicamente "Cunhã" significa mulher, esposa, companheira e o Panapaná se propõe a buscar, ressignificar e expressar a voz muitas vezes caladas destas mulheres. Partindo disso, o espetáculo se torna uma celebração festiva, política e reflexiva que oscila entre momentos que celebramos a vida como na cena de Frida Kahlo, onde vivenciamos uma festa dos mortos com música, bebidas e comidas típicas e cenas tensas como a cena de Maria da Penha, que tem forte apelo dramático, (uma das cenas que mais gosto da produção pelo equilíbrio na interpretação de Janete Costa). Outro ponto produtivo é a abertura que o trabalho tem em relação a participação do público na cena, onde em vários momentos mulheres da plateia são convidadas a participar da cena através de olhares, toques, e afetividades como o trançar o cabelo de uma espectadora, marcar a pele com uma pintura, ou até mesmo elaborar uma pintura na cena da Frida, e isso tudo é muito interessante na forma como é conduzida. "Cunhãs" me tocou profundamente de um modo bastante particular pela pesquisa e entrega das atrizes Janete Costa e Raquel Amsberg que estão de parabéns pelo trabalho consistente. A produção trabalha com várias camadas que partem de cenas alegóricas para falar de genero e política mas de um modo teatralizado e ritualístico que em muitos momentos me reporta ao trabalho desenvolvido pelo grupo Ói nóis aqui traveiz, na utilização do canto, do rito, da cena alegórica, do contexto político e nas interpretações exacerbadas, no partilhar de alimentos e bebidas e na celebração do teatro como um encontro verdadeiro de vida e arte. 
Por se tratar de um espetáculo de mulheres fortes "Cunhãs" tem um aspecto negativo que é a presença masculina do ator Gabriel Gonçalves por duas razões: a primeira é que o andamento do espetáculo já estava bastante adiantado e o espectador já estava ambientado com a sequência de história de mulheres e que até então as duas atrizes comandavam a cena, na minha opinião, a presença masculina é dispensável do painel que retrata mulheres, a participação da platéia nas intervenções é de mulheres, e o espetáculo é das mulheres, que a cena em que tanto o mineiro quanto o sindicalista aparece não agrega nada a dramaturgia feminista que o espetáculo prega, penso que Janete e Raquel tem capacidade suficiente para amarrar essa dramaturgia e apenas com suas presenças dar conta de contar a história, e segundo que a presença do ator enfraquece a narrativa pois sua interpretação é dura, enrijecida, forçada o que acaba puxando o tom da encenação para baixo diferente de Raquel e Janete que estão totalmente entregues em suas representações. Sugiro que a direção trabalhe com o ator como conseguir alcançar sutilezas no modo de se expressar, pois assim conseguirá se equiparar ao tom poético que todo o espetáculo consegue alcançar. Outra questão é que o espetáculo é demasiado longo e de como o coletivo possa resolver para conseguir prender a atenção do público durante quase duas horas de encenação. Destaque para a presença de Karine Cunha que com seu canto contagia todos os espectadores, e que quem acompanha seu trabalho sabe que através de seu canto consegue lutar também por todas as mulheres, assim como as mulheres retratadas na peça. Diante de tudo isso, quando tiver a oportunidade, "Cunhãs" merece ser assistido pelo cuidado e profissionalismo da produção e a certeza de que o Coletivo Panapaná é uma das gratas surpresas que surge na cidade de Canoas, o que exalta o bom teatro realizado na cidade que tem como representantes grupos como o "De pernas pro ar", "Grupo TIA", Khaos Cênica, Galegos e Frangalhos e o Panapaná. 


FICHA TÉCNICA:

Elenco:
Janete Costa -   Malala, Maria, Fridinha, Domitila, Mulher 1, Maria da Penha
Raquel Amsberg -  Malala, Frida, Norberta, Capitalista, Maria Degolada, Mulher 2 Sindicalista
Deborah Gonzalez - Político (na cena dos capitalistas)
Gabriel Gonçalves - Sindicalista - mineiro
Direção: Coletiva
Música “Cunhãs”:  Karine Cunha

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado e coordenador do Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle.