Quando o teatro anima memórias, fronteiras e sonhos
por Diego Ferreira*
Celebrar quarenta anos de trajetória artística não é apenas um feito de permanência. É, sobretudo, a demonstração de uma capacidade rara de reinvenção, pesquisa e compromisso com a linguagem escolhida. O Grupo Sobrevento, referência incontornável do teatro de animação brasileiro, chega a essa marca histórica apresentando Para Mariela, espetáculo que sintetiza muitas das qualidades que fizeram do coletivo um dos mais importantes grupos do país: rigor estético, delicadeza narrativa, excelência técnica e uma profunda atenção às questões humanas.
Ao longo de quatro décadas, o Sobrevento construiu uma obra que ampliou as possibilidades do teatro de formas animadas no Brasil, rompendo a falsa ideia de que bonecos, objetos e máscaras pertencem exclusivamente ao universo infantil. Em seus espetáculos, a animação sempre foi uma poderosa ferramenta para falar da memória, da ausência, da identidade e das fragilidades da existência. Em Para Mariela, essas características reaparecem de maneira particularmente sensível.
Inspirado em histórias de crianças bolivianas imigrantes, o espetáculo aborda os deslocamentos geográficos e afetivos que atravessam a experiência migratória. Contudo, não se trata de uma narrativa construída a partir do sofrimento ou da denúncia direta. O que vemos em cena é um delicado mosaico de lembranças, sonhos e descobertas, onde a infância se torna o território a partir do qual se compreende a complexidade das fronteiras.
A dramaturgia de Sandra Vargas encontra na simplicidade uma de suas maiores forças. Não há excesso de explicações nem discursos didáticos. A narrativa é construída por imagens, sons, objetos e ações que permitem ao espectador preencher lacunas com suas próprias memórias. É justamente nesse espaço de imaginação compartilhada que o espetáculo encontra sua potência.
A cultura boliviana atravessa toda a encenação de maneira orgânica e respeitosa. As músicas executadas ao vivo criam uma atmosfera vibrante e profundamente afetiva. Os sons do charango, da quena, da zampoña e da percussão não aparecem como elementos decorativos, mas como parte fundamental da dramaturgia. Eles carregam paisagens, evocam histórias e ajudam a construir uma geografia emocional que conecta passado e presente.
A presença dos músicos em cena amplia a sensação de que estamos participando de uma celebração coletiva da memória. Há momentos em que a música parece conduzir os bonecos; em outros, são os bonecos que parecem fazer nascer a música. Essa integração entre linguagens produz uma experiência sensorial de rara beleza.
Os bonecos, máscaras e objetos cênicos revelam mais uma vez a maestria do Sobrevento na arte da animação. Cada figura possui uma presença singular. Não são apenas elementos manipulados; tornam-se personagens carregados de humanidade. A precisão dos gestos, a expressividade das formas e a habilidade dos intérpretes criam uma relação imediata de empatia com o público.
Um dos aspectos mais impressionantes de Para Mariela seja sua cenografia. A terra e a areia ocupam o espaço cênico não apenas como matéria visual, mas como elementos simbólicos. A sensação é de que estamos diante de um território constantemente em transformação. Casas surgem e desaparecem. Pequenas construções são erguidas e destruídas repetidamente diante dos nossos olhos. Essa ação contínua produz uma imagem poderosa sobre a condição migrante: a necessidade constante de reconstruir pertencimentos, recomeçar trajetórias e reinventar a própria ideia de lar.
Há algo profundamente comovente em observar essas pequenas moradias sendo criadas com tanto cuidado para, logo depois, serem desmontadas. O gesto simples adquire uma dimensão política e poética. Fala sobre deslocamentos, mas também sobre a impermanência que atravessa todas as vidas.
A participação do público é outro elemento que merece destaque. O Sobrevento não busca transformar a plateia em protagonista nem recorrer a estratégias espetaculares de interação. O convite é mais sutil. Aos poucos, espectadores tornam-se parte daquele universo compartilhado, colaborando para a construção de uma experiência coletiva que dissolve as fronteiras tradicionais entre palco e plateia. Essa aproximação reforça a dimensão comunitária da narrativa e cria um ambiente de acolhimento que dialoga diretamente com os temas abordados.
Em um tempo marcado por discursos que erguem muros e reforçam fronteiras, Para Mariela escolhe o caminho contrário. O espetáculo constrói pontes. Aproxima culturas, histórias e experiências humanas. Fala da imigração, mas também fala da infância, dos sonhos e da busca por pertencimento — experiências que atravessam qualquer pessoa, independentemente de sua origem.
Ao celebrar seus quarenta anos com uma obra tão delicada e necessária, o Grupo Sobrevento reafirma sua relevância artística e política. Mais do que revisitar sua trajetória, o grupo demonstra que continua produzindo um teatro capaz de encantar, provocar reflexão e ampliar nossa capacidade de imaginar o outro.
Para Mariela é um espetáculo que toca profundamente porque compreende que a memória não é um lugar fixo. Ela é feita de areia, de terra, de casas provisórias, de canções que atravessam fronteiras e de sonhos que insistem em permanecer vivos.
Ficha Técnica
Criação: Grupo Sobrevento
Direção: Luiz André Cherubini e Sandra Vargas
Dramaturgia: Sandra Vargas
Elenco: Sandra Vargas, Luiz André Cherubini, Maurício Santana, Agnaldo Souza, Liana Yuri e Daniel Viana
Músicos: Goyo (charango), Lolo (quena e zampoña) e Juan Cusicanqui (percussão)
Iluminação: Renato Machado
Figurino: João Pimenta
Assistente de Figurinos: Jaqueline Lima e Sofia Duarte
Cenografia, Direção Musical, Letras e Adaptação das Canções: Luiz André Cherubini
Cenotecnia: Agnaldo Souza
Máscaras e Adereços: Agnaldo Souza, Liana Yuri e Mandy
Bonecos: Agnaldo Souza e Luiz André Cherubini
Assistência de Confecção Bonecos e Máscaras: Mosaico Cultural e Giulliana Pellegrini
Supervisão Música, Dança e Cultura Bolivianas: Juan Cusicanki
Técnico de Iluminação: Marcelo Amaral
Técnico de Som: Vinícius Soares
Programação Visual: Ato Gráfico
Fotografia: Lauro Medeiros
Registro Audiovisual e Teaser: Icarus Filmes
Diego Ferreira é professor de teatro, dramaturgo, crítico e curador. Graduado em Teatro pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), é criador do projeto Olhares da Cena, espaço dedicado à crítica e reflexão sobre as artes da cena. Entre seus trabalhos dramatúrgicos estão Negreiros: História que a História Não Conta — vencedor do Prêmio Açorianos 2024, Corália Brechó, Abdias do Nascimento e Vozes do Lixão: a história de Tugira.