S!NT3T1C05 E A COREOGRAFIA DA URGÊNCIA CONTEMPORÂNEA
por Diego Ferreira*
A Cia Uthopia de Dança apresenta em S!NT3T1C05 um retrato coreográfico do sujeito contemporâneo, atravessado pela velocidade, pela hiperprodutividade e pela fragmentação da experiência humana. O espetáculo parte de uma questão bastante reconhecível para quem vive o século XXI: a sensação de estar permanentemente em movimento, respondendo a demandas, acumulando tarefas e perseguindo metas que, muitas vezes, sequer são compreendidas em sua real necessidade. Entre as danças urbanas e a dança contemporânea, a montagem procura materializar em cena corpos submetidos a esse fluxo incessante de estímulos.
Antes mesmo de o espetáculo começar, seu título já oferece uma chave de leitura importante. S!NT3T1C05 substitui letras por números e sinais gráficos, produzindo uma escrita que remete imediatamente à linguagem digital, aos códigos algorítmicos, às senhas e às formas de comunicação mediadas pela tecnologia. Trata-se de uma grafia que desafia a leitura convencional e sugere uma espécie de humanidade reprogramada, onde o orgânico e o artificial coexistem de maneira inseparável. O título funciona, portanto, como um comentário visual sobre o próprio tema da obra: a transformação dos indivíduos em sujeitos constantemente conectados, processados e atravessados por sistemas de informação.
Essa dimensão conceitual encontra eco na composição visual do espetáculo. A iluminação e os figurinos constituem alguns de seus maiores acertos. Há um cuidado estético evidente na construção das imagens, capaz de criar atmosferas que transitam entre o tecnológico e o humano. A luz desenha volumes, destaca presenças e organiza espacialmente os corpos, enquanto os figurinos colaboram para a criação de uma identidade visual coerente com a proposta da montagem. O resultado é um espetáculo de grande impacto plástico, que frequentemente produz quadros de forte beleza cênica.
Outro aspecto que merece destaque é a composição do elenco. A presença de corpos diversos e dissidentes não surge como mero gesto de representatividade, mas como parte constitutiva da dramaturgia corporal proposta pela companhia. Em uma obra que discute as tensões do sujeito contemporâneo, a pluralidade dos corpos amplia as possibilidades de leitura e reafirma a existência de múltiplas formas de estar no mundo. Cada intérprete carrega singularidades que enriquecem a cena e contribuem para que o espetáculo se afaste de uma ideia homogênea de humanidade.
Entretanto, se a proposta conceitual se mostra instigante e a dimensão visual revela grande consistência, a construção coreográfica nem sempre alcança o mesmo grau de complexidade. Em diversos momentos, a movimentação parece se apoiar excessivamente na pulsação, e de certo modo na trilha sonora. Os gestos frequentemente acompanham ou traduzem o ritmo musical de maneira bastante direta, criando uma relação previsível entre som e movimento. A repetição de determinadas células coreográficas e a recorrência de padrões gestuais acabam produzindo certa linearidade, reduzindo as possibilidades de surpresa e deslocamento.
Tal escolha não compromete a qualidade técnica dos intérpretes nem a energia presente em cena, mas limita o potencial de risco que a própria temática sugere. Um espetáculo que se propõe a discutir as contradições do sujeito contemporâneo poderia encontrar caminhos mais ousados justamente nas rupturas: nos silêncios, nas interrupções, nos desvios e nos atritos entre corpo e música. Em alguns momentos, a coreografia parece ilustrar a trilha quando poderia tensioná-la, contradizê-la ou mesmo subvertê-la.
Talvez por isso uma das passagens mais potentes da montagem seja justamente aquela em que a música desaparece. Na cena construída apenas pelos sons produzidos pelos corpos, o espetáculo encontra um espaço de respiração e escuta. O ruído dos movimentos, das quedas, dos contatos e das presenças transforma-se em matéria dramatúrgica. Sem o suporte da trilha, os intérpretes passam a produzir sua própria paisagem sonora, revelando nuances que frequentemente permanecem encobertas pela intensidade musical. É nesse momento que a obra parece tocar com maior profundidade sua reflexão sobre a presença e sobre a possibilidade de reconexão consigo mesmo.
Há algo de paradoxal nessa escolha, e talvez seja justamente aí que resida sua força. Em um espetáculo que fala sobre excesso de estímulos, o instante de maior potência emerge da ausência deles. Quando o ruído tecnológico se reduz, o corpo finalmente pode ser ouvido.
Ao final, S!NT3T1C05 se estabelece como uma obra visualmente sedutora e conceitualmente alinhada às inquietações do nosso tempo. Seus melhores momentos surgem quando permite que os corpos transcendam a função de acompanhar a música e passem a produzir sentidos próprios, revelando fissuras na lógica acelerada que a própria obra critica. Mesmo quando a coreografia se aproxima de certa previsibilidade, a força do elenco, a qualidade da composição visual e a relevância dos temas abordados garantem ao espetáculo uma presença significativa no cenário da dança contemporânea, convidando o público a refletir sobre os modos de existência que temos construído em uma sociedade cada vez mais veloz, conectada e, paradoxalmente, distante de si mesma.
Ficha Técnica
Direção Geral, Artística e Coreográfica: Jade Correa e Matheus de Almeida
Intérpretes-Criadores: Andi Goldenberg, Arthur Simionato, Camila Valadão, Isadora Schmidtt, Jade Correa, José Vitor Alves, Kiara Sant’anna, Laura Pinho, Luis Enrique da Rosa, Matheus de Almeida, Mari Morais
Identidade Visual: Isabelle Nedel
Figurino e Trilha Sonora: Jade Correa e Matheus de Almeida
Equipe Técnica: Carol Zimmer (iluminação) e Vigo Cigolini (som)
Produção: Jade Correa
*Diego Ferreira é professor de teatro, dramaturgo, crítico e curador. Graduado em Teatro pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), é criador do projeto Olhares da Cena, espaço dedicado à crítica e reflexão sobre as artes da cena. Entre seus trabalhos dramatúrgicos estão Negreiros: História que a História Não Conta — vencedor do Prêmio Açorianos 2024, Corália Brechó, Abdias do Nascimento e Vozes do Lixão: a história de Tugira.