Evandro Santiago e a Arte da Transformação
por Diego Ferreira*
Encerrando a programação do Palco Giratório Sesc, Sozinho com Romeu e Julieta, da curitibana Trupe Ave Lola, apresentou ao público um espetáculo que encontra na simplicidade de seus recursos uma potência rara. Partindo de um dos textos mais conhecidos da dramaturgia universal, a montagem cria um caminho próprio ao transformar a tragédia de Shakespeare em um monólogo que reflete, simultaneamente, sobre o amor, a memória e o próprio fazer teatral.
A premissa é instigante: um ator permanece sozinho em um ateliê esquecido de um teatro fechado por razões políticas. Cercado por bonecos, máscaras, figurinos e objetos abandonados, ele decide reviver as cenas do último espetáculo que ensaiava antes da interrupção das atividades: Romeu e Julieta. A partir desse gesto aparentemente simples, a encenação constrói uma delicada reflexão sobre a persistência da arte diante das tentativas de silenciamento.
O teatro interditado deixa de ser apenas um espaço físico e torna-se uma poderosa metáfora. O palco vazio, os materiais deixados para trás e a ausência dos demais artistas evocam momentos recentes da história brasileira em que a cultura precisou reafirmar sua importância diante de ataques, cortes e desvalorização. Nesse contexto, a decisão do personagem de continuar ensaiando sozinho ganha um significado político: fazer teatro passa a ser um ato de resistência.
O grande eixo da montagem é o trabalho impressionante de Evandro Santiago. Sozinho em cena durante toda a apresentação, o ator demonstra uma versatilidade admirável. Canta, dança, interpreta múltiplos personagens, manipula máscaras, objetos e elementos cenográficos com precisão e inventividade. Seu desempenho nunca se reduz a uma demonstração técnica; ao contrário, cada recurso empregado está a serviço da narrativa e da construção poética do espetáculo.
Há, contudo, algo ainda mais admirável no trabalho de Evandro Santiago: sua extraordinária força criadora. Mais do que interpretar, o ator inventa continuamente a cena diante dos olhos do público. Cada máscara ganha uma alma, cada objeto encontra uma nova função dramatúrgica, cada gesto parece inaugurar uma possibilidade narrativa inédita. Trata-se de um verdadeiro tour de force, daqueles que revelam não apenas o domínio técnico de um intérprete, mas sua capacidade de transformar a imaginação em acontecimento cênico. Santiago transita com fluidez entre o trágico e o cômico, entre a delicadeza e a exuberância, construindo uma presença magnética que mantém o público permanentemente envolvido. Em suas mãos, o palco vazio nunca é vazio: torna-se castelo, praça, baile, varanda e campo de batalha. É uma demonstração vigorosa do poder inventivo do ator e da potência do teatro quando sustentado pelo talento, pelo rigor e pela entrega artística.
Transformar Romeu e Julieta em um monólogo é um desafio que poderia facilmente resultar em simplificações excessivas ou em uma narrativa fragmentada. O mérito da direção de Ana Rosa Genari Tezza está justamente em encontrar soluções rigorosas e criativas para essa adaptação. A encenação compreende que não é necessário reproduzir integralmente a obra original para preservar sua essência. Em vez disso, cria um jogo teatral em que a imaginação do público é constantemente convocada para preencher espaços, reconhecer personagens e acompanhar as mudanças de situação.
A presença dos objetos e das máscaras não funciona apenas como recurso estético, mas como linguagem dramatúrgica. Cada elemento ganha vida pelas mãos do ator e passa a integrar uma engrenagem cênica que amplia as possibilidades narrativas do espetáculo. É um trabalho que dialoga diretamente com a pesquisa da Trupe Ave Lola, reconhecida por sua capacidade de construir universos visuais sofisticados sem abrir mão da humanidade dos intérpretes.
Outra grata surpresa da montagem é a participação dos músicos Arthur Jaime e Breno Monte Serrat. Muito além de um simples acompanhamento sonoro, a dupla ocupa um lugar dramatúrgico fundamental na cena. A execução da trilha ao vivo cria atmosferas, estabelece ritmos e intensifica as emoções da narrativa. Em diversos momentos, a música se torna uma personagem silenciosa que dialoga com o ator e conduz o público pelos caminhos da história. Há ainda um número protagonizado pelos músicos que amplia a dimensão lúdica da encenação e evidencia a qualidade artística da dupla.
O espetáculo também revela uma compreensão profunda da relação entre memória e teatro. Ao revisitar um espetáculo interrompido, o personagem busca não apenas recuperar uma obra inacabada, mas também preservar uma parte de sua própria existência. Nesse sentido, a montagem fala sobre a fragilidade da arte, mas também sobre sua extraordinária capacidade de sobrevivência. Mesmo quando os teatros fecham, quando os elencos se dispersam ou quando os projetos são interrompidos, algo permanece vivo na lembrança dos artistas e do público.
Sozinho com Romeu e Julieta emociona justamente porque compreende o teatro como um espaço de encontro entre passado e presente. Shakespeare está ali, mas filtrado pela experiência contemporânea de um artista que insiste em continuar criando. O resultado é uma encenação sensível, inventiva e profundamente afetiva, capaz de dialogar tanto com quem conhece a obra original quanto com aqueles que se aproximam dela pela primeira vez.
Ao encerrar a programação do Palco Giratório, a Trupe Ave Lola oferece uma espécie de declaração de amor ao teatro. Um amor que se manifesta na dedicação dos artistas, na precisão da encenação e na crença de que contar histórias continua sendo uma necessidade humana fundamental. Em tempos de incerteza, o espetáculo reafirma que a arte permanece viva enquanto houver alguém disposto a ocupar o palco — mesmo que esteja sozinho.
Ficha Técnica
Autor: William Shakespeare
Tradução: Bárbara Heliodora
Direção: Ana Rosa Genari Tezza
Elenco: Evandro Santiago
Assistente de Direção: Ane Adade
Direção Musical e Composição de Arranjos: Arthur Jaime e Breno Monte Serrat
Músicos: Arthur Jaime e Breno Monte Serrat
Coreografia e Preparação Corporal: Ane Adade
Iluminação: Beto Bruel e Rodrigo Ziolkowski
Cenário: Daniel Pinha
Figurino: Eduardo Giacomini
Montagem e Operação de Luz: Alexandre Leonardo Luft
Ilustrações e Projeto Gráfico: Gabriel Rschbieter
Fotografias: André Tezza
Comunicação: Beatriz Galindo e Lucian Woytovicz (Agência Momo)
Assistente de Comunicação: Cesar Matheus
Produção: Alyssa Riccieri e Flavia Longo
Direção Executiva: Entre Mundos Produções Artísticas
Direção de Produção: Dara van Doorn, Elza Forte da Silva Carneiro e Laura Tezza
*Diego Ferreira atua na intersecção entre criação, crítica e curadoria, com foco nas artes cênicas no sul do país. É professor de teatro, dramaturgo, crítico e curador. Graduado em Teatro pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), é criador do projeto Olhares da Cena, espaço dedicado à crítica e reflexão sobre as artes da cena. Foi curador da 18ª edição do Palco Giratório Sesc/RS. Entre seus trabalhos dramatúrgicos estão Negreiros: História que a História Não Conta — vencedor do Prêmio Açorianos de Dramaturgia 2024, Corália Brechó, Abdias do Nascimento e Vozes do Lixão: a história de Tugira.