sábado, 27 de junho de 2026

O DIABO EM MRS DAVIS (RS)

 


Entre o mito e a presença: as fissuras de O Diabo em Mrs. Davis

    por Diego Ferreira*

    Em tempos de instabilidade para os espaços culturais independentes, a permanência do Teatro Nilton Filho, no bairro Menino Deus, em Porto Alegre, é por si só um ato de resistência. Há anos, o espaço se mantém como um importante ponto de encontro para artistas e espectadores, sustentando uma programação que insiste na presença do teatro como experiência compartilhada. Nesse contexto, a temporada de O Diabo em Mrs. Davis surge como mais uma iniciativa que reafirma a vocação do teatro para a criação e a manutenção de uma cena local ativa, mesmo diante das dificuldades que atravessam a produção cultural contemporânea.

    Dirigido por Nilton Filho, com assistência de Hyro Mattos, o espetáculo propõe um mergulho na trajetória da lendária atriz Bette Davis. A estrutura dramatúrgica coloca o público na posição de jornalistas que participam de uma fictícia entrevista coletiva com a estrela hollywoodiana. A partir desse dispositivo, são revisitados episódios de sua carreira, seus embates profissionais, suas conquistas e contradições. A proposta parte de uma personagem fascinante: uma mulher que desafiou padrões de comportamento em Hollywood, recusou o lugar confortável da heroína idealizada e construiu sua carreira interpretando figuras complexas, muitas vezes moralmente ambíguas.

    A escolha não poderia ser mais pertinente. Bette Davis permanece como uma das grandes revolucionárias da arte de interpretar no cinema. Sua presença física intensa, sua coragem para assumir personagens difíceis e sua recusa em se enquadrar nos modelos femininos esperados pela indústria fizeram dela uma figura singular. O espetáculo reconhece essa importância histórica e busca apresentá-la ao público por meio de suas memórias e reflexões.

    Contudo, a encenação encontra dificuldades justamente na construção dessa aproximação. Antes mesmo que a atriz entre em cena, um longo vídeo apresenta a trajetória de Bette Davis, contextualizando sua vida, seus principais filmes e momentos marcantes de sua carreira. O problema não está na utilização do recurso audiovisual em si, mas em sua função dentro da estrutura do espetáculo. Ao invés de ampliar a experiência ou oferecer novas camadas de leitura, o vídeo antecipa praticamente todas as informações que serão posteriormente revisitadas na cena. O que poderia operar como complemento ou contraponto torna-se uma extensa ilustração prévia, esvaziando parte da descoberta dramatúrgica que deveria acontecer ao vivo.

    A sensação é de assistir duas vezes à mesma narrativa. Primeiro pela via documental da projeção, depois pela reencenação teatral dos mesmos acontecimentos. O recurso, além de alongar desnecessariamente a duração do espetáculo, enfraquece a potência da teatralidade, uma vez que aquilo que deveria emergir da presença da atriz já chega previamente explicado ao espectador. Em vez de criar tensão entre documento e ficção, vídeo e cena acabam disputando o mesmo território narrativo.

    Essa redundância afeta também a construção da personagem. A encenação declara inspiração na técnica de Stanislawski e na busca por emoções autênticas, mas a dramaturgia parece excessivamente comprometida com a transmissão de informações biográficas. O resultado é uma espécie de percurso cronológico que privilegia os fatos em detrimento das zonas de sombra, das ambiguidades e dos conflitos mais profundos que tornaram Bette Davis uma personalidade tão fascinante.

    É nesse terreno que se insere o trabalho de Gisele Faerman, responsável por dar corpo à atriz norte-americana. Sua interpretação encontra momentos de vigor e ganha fôlego ao longo das quase duas horas de apresentação. Há entrega, domínio do texto e evidente comprometimento com a personagem. Entretanto, a construção permanece irregular em alguns momentos, especialmente quando confrontada com a complexidade da figura evocada. Bette Davis era simultaneamente forte e vulnerável, generosa e implacável, vaidosa e profundamente insegura. Uma mulher que construiu sua carreira enfrentando sistemas de poder, mas que também reproduziu diversas de suas contradições.

    Nem sempre essas camadas chegam à cena com a mesma intensidade. Em vários momentos, a interpretação permanece na superfície da personalidade forte e combativa da atriz, sem alcançar plenamente as fissuras emocionais que tornavam sua presença tão singular. O desafio é grande: representar Bette Davis significa habitar uma personalidade marcada por tensões constantes entre fragilidade e dureza, entre controle e descontrole. Quando essas contradições aparecem, o espetáculo encontra seus momentos mais interessantes; quando não, aproxima-se de um retrato mais ilustrativo do que propriamente dramático.

    Ainda assim, O Diabo em Mrs. Davis possui méritos importantes. Há uma admiração genuína pela trajetória da artista homenageada e um desejo evidente de apresentar ao público uma figura fundamental da história do cinema. Mais do que isso, a montagem reafirma a importância de espaços como o Teatro Nilton Filho, que seguem investindo em produções próprias e na continuidade da atividade teatral em Porto Alegre.

    Talvez o espetáculo encontrasse maior potência se confiasse mais na força da cena, na busca de uma teatralidade e menos na necessidade de explicar sua personagem. Afinal, Bette Davis foi uma artista que marcou gerações justamente por aquilo que escapava às definições fáceis. Sua grandeza residia nas contradições. E o teatro, quando abraça essas zonas de incerteza, costuma revelar verdades mais profundas do que qualquer biografia projetada em uma tela.

FICHA TÉCNICA

  • Atuação: Gisele Faerman
  • Texto: Jau Sant'Angelo
  • Direção: Nilton Filho
  • Assistência de Direção: Hyro Mattos


  • *Diego Ferreira é professor de teatro, dramaturgo, crítico e curador. Graduado em Teatro pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), é criador do projeto Olhares da Cena, espaço dedicado à crítica e reflexão sobre as artes da cena. Entre seus trabalhos dramatúrgicos estão Negreiros: História que a História Não Conta — vencedor do Prêmio Açorianos 2024, Corália Brechó, Abdias do Nascimento e Vozes do Lixão: a história de Tugira.