FRANKINH@ E A INTELIGÊNCIA ESTÉTICA DAS INFÂNCIAS
por Diego Ferreira*
O espetáculo "Frankinh@ – Uma história em pedacinhos" do Coletivo GOMPA fez a abertura Nacional do Festival Palco Giratório em Porto Alegre. E diante da obra a reflexão que faço é que nem tudo precisa ser inteiro para fazer sentido, assistindo o trabalho pela terceira vez . Assistir a um espetáculo três vezes não é um gesto casual — é um sintoma. Há obras que se esgotam na primeira fruição e há aquelas que, ao contrário, parecem se reorganizar a cada encontro. Frankinh@ – Uma história em pedacinhos, do Coletivo GOMPA, pertence a esse segundo grupo: um trabalho que insiste, que se reconfigura, e que revela, pouco a pouco, a sofisticação de sua construção.
Inspirado livremente em Frankenstein, de Mary Shelley, o espetáculo desloca o eixo da narrativa original para o território da infância e da formação subjetiva. Aqui, a criação da criatura deixa de ser apenas um gesto científico para se tornar também uma metáfora do crescimento, do encontro com o outro e, sobretudo, do confronto com aquilo que escapa ao nosso controle. Victor cria não apenas um corpo, mas uma relação — e é nessa relação que o espetáculo encontra sua força, ao evidenciar que nem tudo precisa ser inteiro para fazer sentido.
Ao longo de sua trajetória, o Coletivo GOMPA vem consolidando uma linha estética bastante consistente ao direcionar suas produções às infâncias, como já se percebe em trabalhos como O Pequeno Príncipe, Chapeuzinho Vermelho, A Menina dos Olhos d’Água e Amazônia. No entanto, seria um equívoco compreender esse direcionamento como simplificação. Há, no trabalho do grupo, uma aposta rigorosa na capacidade da criança de operar sentidos, de lidar com ambiguidades e de habitar zonas de indeterminação. Em outras palavras, trata-se de reconhecer o espectador-criança como sujeito de fragmento e elaboração em cena.
Em Frankinh@, essa perspectiva se materializa por meio de uma linguagem híbrida que articula narração, ilusionismo, teatro, dança, artes visuais e trilha sonora original. A fragmentação anunciada no título não é apenas um recurso formal, mas um princípio organizador da experiência. Corpos, imagens e ações se apresentam em pedaços, exigindo do espectador um papel ativo na construção de sentido. Não se trata de entregar uma narrativa pronta, mas de instaurar um campo de montagem.
Essa operação ganha corpo em imagens que permanecem. As cenas de ilusionismo, conduzidas com precisão, instauram um jogo entre revelação e ocultamento que dialoga diretamente com a própria ideia de criação e incompletude. A presença de Liane Venturella como narradora não apenas conduz a história, mas imprime ritmo e densidade ao percurso, tensionando o limite entre contar e fazer acontecer. Ao lado dela, Fabiane Severo e Thiago Ruffoni sustentam um trabalho de rigor corporal notável, onde gesto e tempo são organizados com exatidão, compondo uma fisicalidade que nunca é ilustrativa, mas estrutural.
Essa confiança na inteligência do espectador se sustenta também no rigor técnico que atravessa a encenação. A direção de Camila Bauer articula com clareza os diferentes elementos da cena, em diálogo com a dramaturgia construída junto a Marco Catalão e com a colaboração dramatúrgica de Liane Venturella. A direção de movimento de Carlota Albuquerque se evidencia na precisão dos corpos em cena, enquanto a ótima iluminação de Ricardo Vivian desenha atmosferas que potencializam os estados da narrativa sem sobrecarregá-los. A cenografia de Élcio Rossini, em conjunto com os adereços assinados por ele e por Liane Venturella, constrói um espaço de invenção que dialoga diretamente com o universo fragmentado da obra.
A sonografia de Álvaro RosaCosta, somada aos pianos e à voz de Simone Rasslan, estabelece uma camada sensorial que amplia a experiência, enquanto o figurino de Daniel de Lion e a maquiagem de Marília Ethur contribuem para a composição visual sem recorrer a soluções óbvias. Trata-se de uma engrenagem precisa, onde cada elemento opera em função do todo, sem perder sua singularidade.
É justamente nesse equilíbrio que o espetáculo encontra sua dimensão mais potente. Ao abordar temas como solidão, diferença e aceitação, Frankinh@ evita caminhos fáceis ou moralizantes. Em vez disso, aposta na experiência — no encontro entre corpos distintos, na fricção entre desejo e realidade, na beleza que emerge do que não se encaixa perfeitamente. Há, nesse gesto, uma afirmação potente: a beleza do que não se encaixa.
Ao final, o que permanece não é apenas a história de Victor e sua criatura, mas a percepção de que somos todos feitos de pedaços — e que é na relação com o outro que encontramos formas possíveis de nos recompor. Rever Frankinh@ é, portanto, aceitar esse convite à remontagem de uma ou mais partes. E talvez seja por isso que o espetáculo não se esgote: porque, a cada nova vez, somos nós também outros diante dele.
Ao longo de sua trajetória, o Coletivo GOMPA vem consolidando uma linha estética bastante consistente ao direcionar suas produções às infâncias, como já se percebe em trabalhos como O Pequeno Príncipe, Chapeuzinho Vermelho, A Menina dos Olhos d’Água e Amazônia. No entanto, seria um equívoco compreender esse direcionamento como simplificação. Há, no trabalho do grupo, uma aposta rigorosa na capacidade da criança de operar sentidos, de lidar com ambiguidades e de habitar zonas de indeterminação. Em outras palavras, trata-se de reconhecer o espectador-criança como sujeito de fragmento e elaboração em cena.
Em Frankinh@, essa perspectiva se materializa por meio de uma linguagem híbrida que articula narração, ilusionismo, teatro, dança, artes visuais e trilha sonora original. A fragmentação anunciada no título não é apenas um recurso formal, mas um princípio organizador da experiência. Corpos, imagens e ações se apresentam em pedaços, exigindo do espectador um papel ativo na construção de sentido. Não se trata de entregar uma narrativa pronta, mas de instaurar um campo de montagem.
Essa operação ganha corpo em imagens que permanecem. As cenas de ilusionismo, conduzidas com precisão, instauram um jogo entre revelação e ocultamento que dialoga diretamente com a própria ideia de criação e incompletude. A presença de Liane Venturella como narradora não apenas conduz a história, mas imprime ritmo e densidade ao percurso, tensionando o limite entre contar e fazer acontecer. Ao lado dela, Fabiane Severo e Thiago Ruffoni sustentam um trabalho de rigor corporal notável, onde gesto e tempo são organizados com exatidão, compondo uma fisicalidade que nunca é ilustrativa, mas estrutural.
Essa confiança na inteligência do espectador se sustenta também no rigor técnico que atravessa a encenação. A direção de Camila Bauer articula com clareza os diferentes elementos da cena, em diálogo com a dramaturgia construída junto a Marco Catalão e com a colaboração dramatúrgica de Liane Venturella. A direção de movimento de Carlota Albuquerque se evidencia na precisão dos corpos em cena, enquanto a ótima iluminação de Ricardo Vivian desenha atmosferas que potencializam os estados da narrativa sem sobrecarregá-los. A cenografia de Élcio Rossini, em conjunto com os adereços assinados por ele e por Liane Venturella, constrói um espaço de invenção que dialoga diretamente com o universo fragmentado da obra.
A sonografia de Álvaro RosaCosta, somada aos pianos e à voz de Simone Rasslan, estabelece uma camada sensorial que amplia a experiência, enquanto o figurino de Daniel de Lion e a maquiagem de Marília Ethur contribuem para a composição visual sem recorrer a soluções óbvias. Trata-se de uma engrenagem precisa, onde cada elemento opera em função do todo, sem perder sua singularidade.
É justamente nesse equilíbrio que o espetáculo encontra sua dimensão mais potente. Ao abordar temas como solidão, diferença e aceitação, Frankinh@ evita caminhos fáceis ou moralizantes. Em vez disso, aposta na experiência — no encontro entre corpos distintos, na fricção entre desejo e realidade, na beleza que emerge do que não se encaixa perfeitamente. Há, nesse gesto, uma afirmação potente: a beleza do que não se encaixa.
Ao final, o que permanece não é apenas a história de Victor e sua criatura, mas a percepção de que somos todos feitos de pedaços — e que é na relação com o outro que encontramos formas possíveis de nos recompor. Rever Frankinh@ é, portanto, aceitar esse convite à remontagem de uma ou mais partes. E talvez seja por isso que o espetáculo não se esgote: porque, a cada nova vez, somos nós também outros diante dele.
FICHA TÉCNICA
Elenco: Fabiane Severo, Liane Venturella e Thiago Ruffoni
Direção: Camila Bauer
Direção de movimento: Carlota Albuquerque
Dramaturgia: Camila Bauer e Marco Catalão
Colaboração dramatúrgica: Liane Venturella
Sonografia: Álvaro RosaCosta
Pianos e voz: Simone Rasslan
Cenografia: Elcio Rossini
Adereços: Elcio Rossini e Liane Venturella
Iluminação: Ricardo Vivian
Figurino: Daniel de Lion
Maquiagem: Marília Ethur
Colaboração artística: Douglas Jung, Jéferson Rachewsky, Luana Zinn, Pedro Bertoldi e Renan Villas
Psicóloga convidada: Camila Noguez
Arte gráfica: Jéssica Barbosa
Direção de produção: Fabiane Severo
Realização e Produção: Projeto Gompa
Financiamento: Prêmio SESC de Artes Cênicas
Elenco: Fabiane Severo, Liane Venturella e Thiago Ruffoni
Direção: Camila Bauer
Direção de movimento: Carlota Albuquerque
Dramaturgia: Camila Bauer e Marco Catalão
Colaboração dramatúrgica: Liane Venturella
Sonografia: Álvaro RosaCosta
Pianos e voz: Simone Rasslan
Cenografia: Elcio Rossini
Adereços: Elcio Rossini e Liane Venturella
Iluminação: Ricardo Vivian
Figurino: Daniel de Lion
Maquiagem: Marília Ethur
Colaboração artística: Douglas Jung, Jéferson Rachewsky, Luana Zinn, Pedro Bertoldi e Renan Villas
Psicóloga convidada: Camila Noguez
Arte gráfica: Jéssica Barbosa
Direção de produção: Fabiane Severo
Realização e Produção: Projeto Gompa
Financiamento: Prêmio SESC de Artes Cênicas
*Diego Ferreira é dramaturgo, professor, crítico e curador. Sua atuação transita entre criação, reflexão e mediação cultural no campo das artes cênicas. É autor das peças Negreiros: Histórias que a História Não Conta (Prêmio Açorianos de Dramaturgia 2024), Corália Brechó, Abdias do Nascimento e Vozes do Lixão: a história de Tugira. Criador do portal Olhares da Cena, dedica-se há mais de quinze anos à escrita crítica e à construção da memória das artes cênicas contemporâneas.