domingo, 26 de abril de 2026

OUTRAS DANÇAS PARA CHOPIN (RS)



OUTRAS DANÇAS PARA CHOPIN: ENTRE A ESCUTA E A FRATURA


Por Diego Ferreira*

    Há um risco inicial que não consigo ignorar: recorrer a Chopin é sempre flertar com uma memória já carregada de emoção. A música chega antes da cena. Já nos atravessa antes mesmo do primeiro gesto. O perigo, portanto, é evidente — coreografar o já sentido.

    Outras Danças para Chopin, da Plural Cia de Dança, parece consciente dessa armadilha. E, ao invés de contorná-la, decide tensioná-la por dentro. A estrutura do espetáculo — solo, dueto, trio, quarteto e quinteto — poderia facilmente se organizar como uma progressão formal, quase didática. Mas o que se instaura é outra coisa: uma espécie de cartografia instável de relações. Cada formação reorganiza não apenas o espaço, mas o modo como o corpo escuta. E escutar, aqui, não é obedecer.

    A música ao vivo, executada pelo pianista Eduardo Knob, desloca qualquer possibilidade de rigidez. O piano não acompanha: ele interfere. Há uma respiração que não pode ser prevista, um tempo que escapa. Isso obriga o corpo a sair do automatismo e entrar em estado de atenção real. Nem sempre confortável. Nem sempre resolvido.

    Mas há também um outro plano que me atravessa com força: o da imagem. O cenário, composto por peças de roupas brancas e pretas, instaura de imediato uma leitura alegórica — como se estivéssemos diante de um piano expandido no espaço. As teclas deixam de ser apenas som e passam a ocupar o campo visual, contaminando o chão, o ar e, inevitavelmente, os corpos. Essa escolha não é apenas estética. Ela reorganiza a percepção do espectador. Porque, à medida que os bailarinos atravessam, vestem, deslocam ou se relacionam com essas peças, algo se insinua: não são apenas teclas. São vestígios. São presenças ausentes. Como se aqueles tecidos guardassem a memória de outros corpos que já “dançaram Chopin” antes — em outros tempos, outras cenas, outras histórias. Ou seja, carregada de memórias. Há, portanto, uma sobreposição: o corpo que dança agora e os corpos que já dançaram. O gesto presente nunca está sozinho.

    Essa dimensão de memória amplia o que está em jogo. Já não se trata apenas da relação entre música e corpo, mas de uma cadeia de repetições e deslocamentos. Dançar Chopin, aqui, não é um ato inaugural — é um gesto que carrega fantasmas. E talvez seja por isso que, em alguns momentos, sinto os bailarinos à beira — não de um erro técnico ou algo parecido, mas de um desajuste mais profundo. Um corpo que tenta responder não só ao piano ao vivo, mas a tudo o que essa música já foi e o que cada coreografo se propôs enquanto disparador criativo. 

    Os cinco olhares coreográficos — Airton Rodrigues, Andressa Pereira, Gislaine Sacchet, Igor Zorzella e Milton Coatti — não se diluem numa unidade pacífica. E isso é um acerto. Há fricção. Há mudança de regime de corpo. Há, inclusive, momentos em que parece que um trabalho “interrompe” o outro, como se recusasse continuidade. Essa descontinuidade não fragiliza o espetáculo — ela o expõe.

    A direção artística de Maurício Miranda sustenta essa escolha sem tentar domesticar as diferenças. E isso tem um custo: o espetáculo não oferece uma experiência homogênea. Porque o que mais me interessa está justamente no oposto: quando o corpo falha em ser “belo” nos termos da música. Quando ele pesa, hesita, interrompe, escapa. Quando não traduz — mas contradiz. E essa contradição em não dançar literalmente a música de Chopin, mas sim friccionar a música clássica com a dança contemporânea, com o mover-se desses corpos do hoje, do agora. 

    Ainda assim, é impossível ignorar a força estética do conjunto. Há imagens que permanecem — corpos atravessando esse “teclado expandido”, como se tocassem e fossem tocados ao mesmo tempo. Como se o palco inteiro vibrasse entre som, matéria e memória.

    Há algo de potente na forma como as diferentes formações (do solo ao quinteto) organizam essa tensão. No solo, a escuta parece mais íntima, quase inevitável. No coletivo, ela se torna conflito: escutar o piano, escutar o outro, escutar o espaço. 

Saio do espetáculo com uma sensação ambígua — e produtiva. Há momentos em que desejo mais radicalidade, mais ruptura com a herança romântica que Chopin carrega. Mas há também instantes em que o trabalho consegue, de fato, produzir desvio.

E quando isso acontece, algo raro emerge: o piano deixa de ser memória e volta a ser acontecimento. E o corpo, ao invés de ilustrar, passa a negociar — com o som, com o tempo, com o risco e, agora também, com aquilo que já foi.

    Talvez seja isso que Outras Danças para Chopin me deixa: a percepção de que escutar é um campo de disputa. E dançar, diante de uma música tão carregada de passado, pode ser menos um gesto de harmonia e mais um ato de fratura — atravessado por presenças que insistem em permanecer. 

Ficha Técnica - Outras Danças para Chopin (Plural Cia de Dança)

Direção Artística: Maurício Miranda.

Coreógrafos: Airton Rodrigues, Andressa Pereira, Gislaine Sacchet, Igor Zorzella e Milton Coatti.

Pianista (Ao Vivo): Eduardo Knob.

Bailarinos (Elenco): Andressa Pereira, Igor Zorzella, Mark Adriano, Greyc Gonçalves, entre outros (conforme material de divulgação oficial).

Design/Identidade Visual: Douglas Barcelos




*Diego Ferreira é dramaturgo, professor, crítico e curador. Sua atuação transita entre criação, reflexão e mediação cultural no campo das artes cênicas. É autor das peças Negreiros: Histórias que a História Não Conta (Prêmio Açorianos de Dramaturgia 2024), Corália Brechó, Abdias do Nascimento e Vozes do Lixão: a história de Tugira. Criador do portal Olhares da Cena, dedica-se há mais de quinze anos à escrita crítica e à construção da memória das artes cênicas contemporâneas.