segunda-feira, 13 de agosto de 2012

EU TE AMO (RS)


"Eu te amo!" é uma adaptação do texto "Quando as máquinas param" de Plínio Marcos realizada pelo Grupo Balança mas não cai. Confesso que textualmente a proposta decepciona e muito, pela ousadia de  Allan Klaus negar o texto de um dos melhores dramaturgos brasileiros ao lado de Nelson Rodrigues. Se eu retiro o que o Plínio me dá de melhor, qual o sentido de montar um texto seu? Nenhum! 
Quando as máquinas parar tem um discurso que projeta uma realidade social, onde a poética de sua dramaturgia está associada a marginalização e a denúncia da degradação e miséria humana e o Grupo Balança mas não cai ignora isso e constrói um espetáculo correto, porém injusto com o propósito de levar Plínio para o palco. Adaptações e experimentações acercas de obras conhecidas e consagradas são sempre bem vindas desde que o cerne seja mantido, desde que eu, enquanto artista queira se utilizar da voz de determinados autores para estar colocando a minha visão acerca daquela obra, daquele contexto, mas ora pegar um texto como este e dar uma conotação romântica dos anos 40? Realmente não consigo entender o que levou Allan a fazer isso. É até aceitável que a história seja interessante, mas para mim o mais importante são os conflitos existentes na obra e isso passa quase batido. 
Enquanto encenação a direção que também é do Allan consegue construir um espaço interessante, naturalista, assim como a construção das personagens, um figurino equilibrado, com exceção da touca de dormir utilizada por Lola que provoca o riso da platéia numa cena que eu considero não ser engraçada, justamente por estar fora de contexto. A trilha sonora além de ser mal operada, não auxilia na construção de climas, e as vezes é de extremo mau gosto, como no caso da trilha incidental do filme "O mágico de Óz" , que deixa a cena piegas e a extensão é demasiada e acaba na cena em que Lola está rezando, tornando-a desinteressante e a música acaba não criando a densidade necessária a cena. Outra questão é que a trilha não precisa servir de referencia para entrada e saídas dos personagens, pois quando ocorre um erro como aconteceu hoje o ator não estará preso a está marca. 
E por falar em densidade, creio que falta uma profundidade na construção do personagem Lola, está muito boazinha, limpinha nos gestos e fala, creio que precisaria sujar mais o comportamento desta personagem, criar uma personagem mais humana e menos heroína e atentar para as mãos crispadas e sem ação. Já a construção de Antônio é forte e mais intensa, acredito bastante na figura de Allan que acaba deslizando apenas no final com a consumação da tragédia, mas está inteiro e verdadeiro e também não sabendo muito onde colocar as mãos, sendo que as vezes quer colocar no bolso e não acha os bolsos ficando no meio do caminho
O grupo precisa repensar os buracos criados na cena, vários momentos o palco fica sozinho, sem nada acontecendo, talvez nem precisasse sair de cena para solucionar esses vácuos. O biombo preto serve como uma coxia para troca de figurinos, mas fiquem atentos pois tem uma cena acontecendo com Allan no foco, mas o meu olhar desvia para atrás deste biombo pois se consegue enxergar a atriz trocando de roupas e não é nem a personagem quem troca e sim a atriz, detalhes que podem ser repensados para melhor apresentar o espetáculo. 
Em suma, se tem um espetáculo interessante, que tem uma força, se sustenta, mas o problema maior é a traição ao Plínio Marcos, inaceitável pela forma como foi executada, pois se fosse me dito, este espetáculo foi escrito por fulano e ponto, eu não teria a referencia do Plínio entende? Eu não estaria comparando e querendo saber o que aconteceu com o texto original, mas partiria do zero, o que não posso ignorar aqui. Outros detalhes que se forem trabalhados de forma consciente podem render bons frutos ao grupo. 

Grupo: Cia de Artes Cênicas Balança mais não cai
Peça: Eu te amo
Cidade: Campo Bom
Direção: Allan Klaus

Este espetáculo integra a programação do: