quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

MEDIDA POR MEDIDA (RJ)



Esteve em cartaz dentro da programação do V Palco Giratório e esteve no palco do TRAC em Montenegro a comédia de Shakespeare "Medida por medida". A tradução de Barbara Heliodora é moderna e ágil, mas não poderia ser diferente, sendo ela uma estudiosa dos textos do grande mestre do teatro inglês. É bem verdade que eu e outros colegas tivemos uma dificuldade inicial de entrar na história, e entendê-la. Mas, sem sombra de duvidas, Shakespeare consegue pegar a atenção da platéia por sua ironia, seu sarcasmo, em um texto que até hoje é atual (como a maioria das suas peças), falando sobre corrupção, chantagem, mandos e desmandos de subalternos. Ou seja, discutindo a ética. E foi por aí que a direção pegou o fio da meada da historia. Fez de Shakespeare uma válvula de escape para discutir ética. E nada mais oportuno que discutir sobre esse assunto colocando a narrativa da peça ambientada em uma espécia de boate gay.  Colocou a ética numa ótica chocante. A essa direção, Gilberto Gawronsky poderia e deveria ter ousado muito mais, no sentido de que se tem TUDO para se ter um bom espetáculo e não temos, pelo fato de que as músicas (que contava com Cindy Lauper e Madona) apenas serviram para os atores executarem passinhos de dança bagaceiros, o espaço (o que era o espaço) maravilhoso e super mal aproveitado e os atores perdidos, sem energia, falando quase numa linguagem televisiva. O figurino é a melhor coisa do espetáculo. É impressonante a capacidade da dupla Antônio Medeiros e Cao Aluquerque de transformar a roupa utilizada no sécio XVI (1564) , de desconstruir uma época ao mesmo tempo em que apresenta claras referências à época. Além de ser um figurino engraçadíssimo, porém sempre voltado para o mundo do sexo hardcore para os homens, com utilização de couro, plástico, fivelas, e tiras, muitas tiras de tecidos. Gosto também dos adereços de cabeça e da maquiagem, mas, reparem, tudo é muito drag queen pra o medieval. O Cenário de Maria Sarmento e Beanka Mariz nao ambienta os lugares, mas consegue ser neutro o suficiente para que o diretor possa brincar com os espaços, e com a historia. A unica coisa desnecessária é a abertura da peça, com aquele pano branco escondendo o cenário e a projeção de uma suposição de Shakespeare escrevendo a peça que iríamos ver. Nao vejo necessidade dos numeros de tecido. So atrapalha os atores em cena, além de serem mal executados.
Aos atores, todos homens, os que representam as mulheres (Sergio Maciel e Rafael Leal, e participação de Rodolfo Botino) se saem bem melhor do que os que representam os homens. Embora todos se comportando como Drag Queens. Luis Salém é Luis Salém, nem duque, nem frei.
Confesso que gosto deste abuso, de tirar os cânones do pedestal e virá-los do avesso, desde que com algum propósito em vista. Não sou adepto de se chocar só por chocar, mas quando as coisas tornam-se uma unanimidade, é preciso coragem para levantar sua voz no meio da multidão e dizer uma não-obviedade.
De minha parte, digo logo que Gawronski se saiu muito bem! Mas não é à toa que o que mais se desarmoniza com sua proposta de encenação seja a tradução, que em sua rigidez canônica não dialoga com os outros elementos, tão inusitadamente lúdicos. O problema é que ela nos obriga a fazer um esforço a mais para entender o que é dito, e parece obrigar os atores também, pesando algo que deveria ser leve: um jogo de disputas que, à luz dessa encenação, parecem até infantis, como um espelho que mostra o ridículo a quem se sinta seduzido demais pelo poder (o que não é pouca gente hoje em dia). E talvez justamente por essa inadequação de estilos entre a palavra e a imagem, o elenco esteja pouco coeso, dando margem a interpretações de estilos bem diferentes. Nota-se isso, por exemplo, na linguagem de cada um dos atores que faz os papéis femininos (ah sim, esqueci de dizer que o elenco só tem homens): alguns mais realistas e outros mais caricatos, sem nenhum juízo de valores quanto a uma coisa ou outra, e apenas atestando tal discrepância. E também na sensação de que as boas atuações da peça dependem mais do brilho pessoal de alguns atores que de uma direção que trouxesse todos a um mesmo jogo.
O saldo que tirei da peça foi o de que um diretor reconhecido consegue alavancar verba para fazer uma produção grandiosa, mas absolutamente vazia, somente com a pretensão de entreter o público. É uma pena, pois tinha de tudo para ser maravilhosa, e não foi!
Texto postado originalmente no Blog Válvula de Escape em Maio de 2010.


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