GEPPETTO - FABULAÇÃO, SOLIDÃO E PRECISÃO NO TEATRO DE MÁSCARAS
Assistir "Geppetto", do Grupo Máscara Encena, é também acompanhar a maturidade de um coletivo que, ao longo de sua trajetória, tem se dedicado com afinco à investigação das potencialidades do uso da máscara na cena contemporânea. Trabalhos anteriores como "Imobilhados"(2017) e "2068" (2019) já sinalizavam esse percurso de pesquisa, que agora se adensa e ganha novas camadas. Há, nesse caminho, um acúmulo que se revela em cena — não apenas como domínio técnico, mas como pensamento.
Há algo de profundamente inquietante quando a lógica da criação se rompe. Em Geppetto, não estamos diante da conhecida fábula do boneco que deseja tornar-se humano, mas de um deslocamento mais radical: e se o criador já não souber mais o que fez nascer?
A encenação, ao tensionar os papéis entre Geppetto e Pinóquio, não propõe apenas uma releitura — ela instaura um campo de instabilidade. O que está em jogo não é mais a moral da transformação, mas a própria ideia de vínculo. O pai já não é centro. O criador já não é origem segura.
Essa instabilidade se materializa de forma contundente na presença do ator Fábio Cuelli em cena. Aqui, ele não apenas atua: manipula bonecos, opera luz, conduz o som — constrói o espetáculo diante dos olhos do público. Esse gesto desloca a percepção do espectador e radicaliza a linguagem: não há ilusão plena, há exposição. E, ainda assim, há encantamento.
É nesse ponto que o trabalho se inscreve com força no campo do teatro de máscaras e de animação, onde a vida não está no objeto em si, mas na relação. Ao borrar as fronteiras entre quem manipula e quem é manipulado, o espetáculo insinua uma pergunta que atravessa toda a encenação: quem conduz quem? O boneco ganha densidade, o ator se fragmenta, e entre ambos surge uma zona de tensão onde a vida parece acontecer.
A dramaturgia de Nelson Diniz é um dos pontos altos do trabalho. Ao evitar caminhos fáceis ou moralizantes, o texto sustenta a complexidade da proposta e abre espaço para ambiguidades — fundamentais para que a inversão entre criador e criatura não se resolva, mas permaneça como fricção. Essa fricção é conduzida com rigor pela direção de Liane Venturella, que aposta na precisão dos elementos e na economia de recursos para potencializar a cena. Nada sobra. Cada gesto, cada operação técnica, cada silêncio parece milimetricamente articulado, compondo uma encenação que se constrói na exatidão.
Há, no entanto, algo que escapa ao controle — e talvez seja justamente aí que o espetáculo encontra sua força. Porque, ao mesmo tempo em que organiza a cena com precisão, Geppetto nos coloca diante da falência das certezas: o que acontece quando aquilo que criamos passa a nos definir?
Mais do que recontar Pinóquio, o espetáculo desmonta o mito e o reinscreve em um mundo onde vínculos são frágeis, identidades são instáveis e a ideia de origem já não oferece abrigo.
Ficha técnica
Concepção e atuação: Fábio Cuelli
Direção Cênica e Dramaturgia: Liane Venturella
Assistência de Direção: Alexandre Borin
Texto: Nelson Diniz
Direção de Arte: Maurício Casiraghi
Marionete e boneco híbrido: Mario de Ballentti
Construção das cabeças: Fábio Cuelli
Cenografia: Mario de Ballentti e João Luiz Cuelli
Projeto de iluminação: Maurício Casiraghi
Execução do projeto de iluminação: Sandro Martins
Fotos: Doug Trancoso.
Trilha Sonora Original: Beto Scopel
Canção Original (composta e interpretada por Adriano Iurissevich): Dorme figlio mio.
Figurinos: Vitor Pedroso
Produção: Máscara EnCena
Assessoria de Imprensa: Léo Santana.
Realização: Máscara EnCena e Miseri Coloni
Apoio: Secretaria de Cultura de Porto Alegre
Financiamento da montagem: Financiarte 2023 - SMC de Caxias do Sul
