quinta-feira, 2 de abril de 2026

GEPPETTO (RS)

 


GEPPETTO - FABULAÇÃO, SOLIDÃO E PRECISÃO NO TEATRO DE MÁSCARAS


por Diego Ferreira*

    

Assistir "Geppetto", do Grupo Máscara Encena, é também acompanhar a maturidade de um coletivo que, ao longo de sua trajetória, tem se dedicado com afinco à investigação das potencialidades do uso da máscara na cena contemporânea. Trabalhos anteriores como "Imobilhados"(2017) e "2068" (2019) já sinalizavam esse percurso de pesquisa, que agora se adensa e ganha novas camadas. Há, nesse caminho, um acúmulo que se revela em cena — não apenas como domínio técnico, mas como pensamento.

    Há algo de profundamente inquietante quando a lógica da criação se rompe. Em Geppetto, não estamos diante da conhecida fábula do boneco que deseja tornar-se humano, mas de um deslocamento mais radical: e se o criador já não souber mais o que fez nascer?

    A encenação, ao tensionar os papéis entre Geppetto e Pinóquio, não propõe apenas uma releitura — ela instaura um campo de instabilidade. O que está em jogo não é mais a moral da transformação, mas a própria ideia de vínculo. O pai já não é centro. O criador já não é origem segura.

    Essa instabilidade se materializa de forma contundente na presença do ator Fábio Cuelli em cena. Aqui, ele não apenas atua: manipula bonecos, opera luz, conduz o som — constrói o espetáculo diante dos olhos do público. Esse gesto desloca a percepção do espectador e radicaliza a linguagem: não há ilusão plena, há exposição. E, ainda assim, há encantamento.

    É nesse ponto que o trabalho se inscreve com força no campo do teatro de máscaras e de animação, onde a vida não está no objeto em si, mas na relação. Ao borrar as fronteiras entre quem manipula e quem é manipulado, o espetáculo insinua uma pergunta que atravessa toda a encenação: quem conduz quem? O boneco ganha densidade, o ator se fragmenta, e entre ambos surge uma zona de tensão onde a vida parece acontecer.

    A dramaturgia de Nelson Diniz é um dos pontos altos do trabalho. Ao evitar caminhos fáceis ou moralizantes, o texto sustenta a complexidade da proposta e abre espaço para ambiguidades — fundamentais para que a inversão entre criador e criatura não se resolva, mas permaneça como fricção. Essa fricção é conduzida com rigor pela direção de Liane Venturella, que aposta na precisão dos elementos e na economia de recursos para potencializar a cena. Nada sobra. Cada gesto, cada operação técnica, cada silêncio parece milimetricamente articulado, compondo uma encenação que se constrói na exatidão.

    Há, no entanto, algo que escapa ao controle — e talvez seja justamente aí que o espetáculo encontra sua força. Porque, ao mesmo tempo em que organiza a cena com precisão, Geppetto nos coloca diante da falência das certezas: o que acontece quando aquilo que criamos passa a nos definir?

    Mais do que recontar Pinóquio, o espetáculo desmonta o mito e o reinscreve em um mundo onde vínculos são frágeis, identidades são instáveis e a ideia de origem já não oferece abrigo.

    No fim, o que permanece não é uma resposta, mas uma imagem: um corpo em cena tentando sustentar aquilo que cria, enquanto aquilo que cria insiste em escapar. E talvez seja justamente nesse intervalo — entre controle e perda — que o teatro acontece. E, diante disso, resta ao teatro o gesto mais potente: o de fabular outros modos de existir.


Ficha técnica

Concepção e atuação: Fábio Cuelli

Direção Cênica e Dramaturgia: Liane Venturella

Assistência de Direção: Alexandre Borin

Texto: Nelson Diniz

Direção de Arte: Maurício Casiraghi

Marionete e boneco híbrido: Mario de Ballentti

Construção das cabeças: Fábio Cuelli

Cenografia: Mario de Ballentti e João Luiz Cuelli

Projeto de iluminação: Maurício Casiraghi

Execução do projeto de iluminação: Sandro Martins

Fotos: Doug Trancoso.

Trilha Sonora Original: Beto Scopel

Canção Original (composta e interpretada por Adriano Iurissevich): Dorme figlio mio.

Figurinos: Vitor Pedroso

Produção: Máscara EnCena
Assessoria de Imprensa: Léo Santana.

Realização: Máscara EnCena e Miseri Coloni

Apoio: Secretaria de Cultura de Porto Alegre

Financiamento da montagem: Financiarte 2023 - SMC de Caxias do Sul

*Diego Ferreira é dramaturgo, professor, crítico e curador. Sua atuação transita entre criação, reflexão e mediação cultural no campo das artes cênicas. É autor das peças Negreiros: Histórias que a História Não Conta (Prêmio Açorianos de Dramaturgia 2024), Corália Brechó, Abdias do Nascimento e Vozes do Lixão: a história de Tugira. Criador do portal Olhares da Cena, dedica-se há mais de quinze anos à escrita crítica e à construção da memória das artes cênicas contemporâneas.