domingo, 15 de março de 2026

OLHARES DA CENA — POR QUE ESCREVER CRÍTICA HOJE?


por Diego Ferreira

Escrever crítica hoje é um gesto de permanência e de resistência. Olhar a cena hoje é um ato de resistência. 

Num tempo atravessado pela velocidade das opiniões e pela circulação instantânea de imagens, parar para pensar a cena pode parecer um ato quase anacrônico. Mas é justamente nessa suspensão do tempo que a crítica encontra sua potência: olhar para o teatro com atenção, escutar suas camadas e devolver à experiência artística um campo mais amplo de reflexão.

Ao longo das últimas décadas, os espaços dedicados à crítica foram desaparecendo dos jornais, das revistas culturais e dos meios de comunicação. A lógica da velocidade e da promoção substituiu lentamente o espaço da reflexão. Em muitos casos, o que resta são apenas registros apressados ou textos que se confundem com divulgação.

Mas o teatro — justamente por ser uma arte do encontro e da presença — precisa ser pensado.

A crítica não existe para determinar vencedores ou derrotados. Sua função não é produzir sentenças definitivas sobre uma obra. A crítica existe para ampliar a experiência da cena, para investigar seus sentidos, para tensionar suas escolhas estéticas e para inscrevê-la no debate cultural do seu tempo.

Sem crítica, o teatro corre o risco de desaparecer duas vezes: primeiro quando o espetáculo termina, depois quando ninguém mais se dispõe a pensar sobre ele.  E a escrita torna-se, então, uma forma de prolongar esse encontro, de registrar suas tensões, suas perguntas e suas possibilidades de sentido.

O Olhares da Cena nasceu desse desejo: criar um espaço onde o teatro pudesse continuar existindo também como pensamento.

Ao longo de mais de quinze anos, o portal acompanhou espetáculos, festivais, artistas e processos criativos que atravessam a cena contemporânea. Nesse percurso, tornou-se também um exercício de escuta: escuta das obras, dos criadores, dos contextos culturais e das transformações que atravessam o campo das artes cênicas.

A crítica, para mim, não é um tribunal. É um lugar de investigação.

Investigar o que uma obra propõe, que imaginários mobiliza, que formas inventa, que discursos tensiona. Investigar também os modos como o teatro se relaciona com seu tempo, com suas urgências políticas e com as histórias que insistem em atravessar o presente.

Escrever sobre a cena é aceitar que nenhuma análise será definitiva. Cada espetáculo abre perguntas que continuam reverberando para além do palco.

O Olhares da Cena segue existindo porque ainda acreditamos que o teatro merece ser pensado. Que a crítica pode ampliar a experiência estética. E que olhar para a arte é também uma forma de olhar para o mundo.

Enquanto houver cena, haverá também a necessidade de olhar para ela. Num momento em que a crítica parece cada vez mais rara, insistir em olhar o teatro com rigor e sensibilidade torna-se um gesto necessário. Olhares da Cena segue existindo por essa razão. Olhar a cena é, antes de tudo, recusar o silêncio.


Olhares da Cena é um portal dedicado à reflexão crítica sobre as artes cênicas, criado pelo dramaturgo e pesquisador Diego Ferreira. Há mais de quinze anos, o projeto acompanha espetáculos, festivais e processos criativos, contribuindo para a construção da memória e do pensamento crítico sobre o teatro contemporâneo.