sexta-feira, 13 de setembro de 2019

ABOBRINHAS RECHEADAS - DANCE A LETRA (RS)


ABOBRINHAS RECHEADAS COM MOLHO DE INOVAÇÃO E CRIATIVIDADE

por Diego Ferreira*

É possível hoje criar algo novo na dança contemporânea? 
Ainda é possível se desvencilhar de códigos e convenções batidos e já ultrapassados? 
Sim, é possível ainda se utilizar da criatividade e inovação na dança para criar novos mecanismos, e para isso acontecer é necessário retroceder para avançar na construção de novos paradigmas quando tratamos de criação em dança.
A obra "Abobrinhas Recheadas - Dance a Letra" se constrói com diversos vocabulários corporais e apresenta um espetáculo repleto de elementos cômicos, apresentados de forma teatral, levando ao público uma série de coreografias em duplas, solos e em grupos, fazendo referência a cultura pop mas com alta sofistificação criativa e inventiva. 
Assim se dá uma dança-rapsódia-infernal irreverente, brincalhona, provocadora, indecente, furiosa, astuciosa e sensual. Uma dança emanada por um corpo carregado de outros, de contradições, ambiguidades, bens e males, ou seja, um corpo humano, de gente, da nossa gente e ainda ri de si e de nós. O mais interessante é a pesquisa ddança com o humor e o quanto isso acarreta na qualidade do trabalho. Para fazer rir é necessário ser sério antes, é é justamente essa seriedade que percebo no trabalho da Macarenando Dance Concept, nas suas ações e modos de produção e como isso acarreta nos modos de sobrevivência do seu trabalho e a interferência na cultura local.  
O espetáculo é bastante simples se o espectador desavisado atentar apenas para as coreografias que codificam literalmente as letras de música do nosso cancioneiro popular, porém penso que o trabalho é consistente justamente por fomentar as discussões sobre estereótipos em diversos tipos de dança e isso não é tão simples como parece, pois é preciso pensar, experimentar para conseguir desconstruir e construir novos paradigmas no cenário da dança. E o grande mérito da Macarenando é esse, pois apresenta um trabalho autoral, coerente e extremamente engraçado. Diego Mac e Gui Malgarizi foram muito feliz na concepção do espetáculo e Daniela Aquino, Diego Mac, Juliana Rutkowski e Nilton Gaffree são brilhantes em suas composições, através dos seus gestos e coreografias conseguimos nos identificar com o demonstrado em cena. Todos os bailarinos destilam competencia para criar pequenos números de dança neste grande picadeiro e destilam humor e capacidade de extrair de seus corpos em movimento graça e comunicação direta com o espectador. 


FICHA TÉCNICA  
 Direção e coreografia: Diego Mac e Gui Malgarizi  Bailarinos: Daniela Aquino, Diego Mac, Juliana Rutkowski e Nilton Gaffree  Produção: Sandra Santos  Assistência de produção: Giulia Baptista Vieira e Arthur Bonfanti  Iluminação: Gui Malgarizi e Sandra Santos  Operação de som: Dani Dutra  Fotos: Gui Malgarizi e Dani Dutra  Arte gráfica: Diego Mac  Duração: 75 minutos  Classificação etária: livre  Realização: Macarenando Dance Concept 


*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

sábado, 7 de setembro de 2019

VIRA E REVIRA - NA COZINHA TUDO VIRA POESIA (RS)


BOA RESSIGNIFICAÇÃO DE OBJETOS NO TEATRO DE ANIMAÇÃO

*Diego Ferreira


O espetáculo "Vira e revira - na cozinha tudo vira poesia" coloca em cena dois cozinheiros que estão meio amargurados da vida e encontram um renovo entre os utensílios da sua cozinha. O espetáculo se utiliza de várias linguagens para exaltar a poesia cênica como o teatro de animação de objetos, a linguagem clownesca,  o teatro físico aliado a uma língua inventada e a participação da platéia. Em sua essência a produção é bastante simples em todos os aspectos, mas a relação com os objetos é potencializada através do deslocamento da sua função original  e conferindo-lhes novos significados, sem transformar, porém, a sua natureza, explorando uma dramaturgia que se vale de figuras de linguagem, em detrimento da importância da manipulação propriamente dita. Dentro deste conceito, novos significados foram dados a colheres e utensílios que todos temos na nossa cozinha, sem transformar a sua natureza, por meio de associações que se podem dar pela forma, pelo movimento, pela cor, pela textura, pela função do objeto. Neste aspecto o Teatro Nó Cego consegue grande êxito que é o de dar vida a objetos inanimados. No aspecto das figuras clownescas penso que o grupo juntamente com a direção poderia aprofundar um pouco mais a essência do clown, uma linguagem que coloca em cena o ridículo das relações calcado na verdade do intérprete. As vezes o jogo estabelecido é rompido pelo fato das figuras potencializarem a caricatura ao invés de uma energia característica da linguagem do palhaço. Mas Morgana Rosa e Alexandre Malta tem segurança, empatia e domínio do trabalho e conseguem apresentar um espetáculo cativante. Outros elementos como cenário, figurinos, iluminação e trilha sonora são extremamente simples mas cumprem sua função dentro do espetáculo que tem como destaque a participação ativa do espectador, que embarca na poesia criada através do mundo dos objetos. Um espetáculo leve, divertido e indicado a todas as idades.

FICHA TÉCNICA:
Direção: Juliano Canal
Elenco: Alexandre Malta e Morgana Rosa
Apoio técnico: Brenda Fernandez
Classificação: Livre
Duração: 50 minutos

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

5 MARIAS (RS)


RESGATE DE BRINCADEIRAS EM ESPETÁCULO INFANTIL

por Diego Ferreira*


"5 Marias" é um espetáculo bastante simples voltado ao público infantil que retrata no palco a perda da inocência da criança e implica no ato de suspensão da brincadeira. A começar pelo título a produção resgata o valor da brincadeira na infância através da arte teatral através de um pequenino trabalho. A dramaturgia da peça se constrói através de uma linguagem não verbal, numa lingua inventada, uma espécie de gromelô e versa sobre o ato de brincar. Como o espetáculo é sem palavras o elenco poderia se permitir a brincar mais em cena, potencializando o jogo através de brincadeiras e a utilização de um gestualidade que se comunicasse melhor com o espectador. O cenário e iluminação são belíssimos e conseguem provocar o espectador a adentrar neste outro universo lúdico. Cabe também a necessidade de criar atmosferas que aproximem o público da proposta do trabalho.

Já que o espetáculo trás as brincadeiras a tona de uma maneira muito lúdica, uma dica seria a de perceber o pequeno espectador na platéia, não fechando a quarta parede, pelo contrário ver em que momento incluir ele na brincadeira pois na sessão que fui tinham crianças que estavam ávidas para participar, porém o elenco estava fechado e por isso perde-se a possibilidade de incluir o pequeno espectador no ato de brincar e se o trabalho se propõe a isso, o interessante seria estar atento as reações da platéia. Outra questão que vale ressaltar no espetáculo é quanto ao elenco formado apenas por atrizes que representam uma diversidade, colocando em cena atrizes que já tem uma grande experiência e estão ali, disponíveis embarcando na grande aventura teatral.
A direção consegue perceber as possibilidades que seu elenco oferece e transforma tudo em poesia e brincadeiras.
Mas no geral o espetáculo é lindo em sua essência, carecendo aprofundar a relação do brincar com as atrizes, e estarem atentas ao pequeno público.



Ficha Técnica:
Direção e Dramaturgia: Leticia Kleemann
Assistência de Direção: Italo Cassará
Atuação: Danielle Salmória, Elizabeth d ́Avila Seadi, Maria Schwertner, Maria Cacilia Sandri e
Maria Cristina D Schuler
Cenografia: Coletivo Tramando Arte
Sonoplastia: Adriano Kleemann
Técnica de Áudio: Pedro dos Santos
Criação de Luz: Leandro Gass
Operação de Luz: Veridiana Matias
Figurino: Grupo
Arte e Fotografia: Jean Pierre Kruze
Assessoria de Comunicação: Amanda Hamermüller
Produção: Valeska Barcellos
Assistência de Produção: Everson Silva
Realização: Nós - Cia de Teatro

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

domingo, 1 de setembro de 2019

INIMIGOS NA CASA DE BONECAS (RS)


TRANSPOSIÇÃO ATUAL DE IBSEN NA CENA CONTEMPORÂNEA BRASILEIRA

por Diego Ferreira*


"Inimigos na casa de bonecas" do Projeto Gompa é uma livre transposição para a cena contemporânea dos textos "Um inimigo do povo" e " Uma casa de Bonecas" de Ibsen. Na história atual do Brasil vivemos num tempo de incertezas, retrocessos e todos os dias somos bombardeados com notícias sobre os esquemas de corrupção, manipulação da opinião pública, jogos e armações políticas e as notícias falsas sobre o triste cotidiano que estamos vivenciando. E baseados nestes fatos o projeto consegue encontrar paralelos na obra de Ibsen que ressoam muito na realidade do Brasil pois tanto a obra do autor quanto a dramaturgia criada para o espetáculo chamam a atenção pela sua atualidade ao destacar a preocupação com a fragilidade de um sistema político que muitas vezes se pauta na opinião de massa e no caso de Ibsen muito antes do uso das "fake news". A dramaturgia de Marco Catalão, Pedro Bertoldi e Camila Bauer é efetiva na medida em que consegue encontrar esses pontos de ressonância com a nossa realidade e faz ecoar na cena pautada pela fragmentação, procedimento apropriado para uma dramaturgia que busca uma visão integrada de mundo através de um processamento dialético do conhecimento e que reflete diretamente num modelo experimental da prática cênica,como se verifica na encenação que se apoia no texto, mas tem forte utilização da performance, dança, música, além de forte apelo estético. A dramaturgia ainda se pauta no procedimento da revelação das contradições, despedindo-se  da narração linear e do realismo para investir em narrativas que enfatiza o discurso e tensões que estamos vivendo agora. O fragmento em "Inimigos na casa de bonecas" é visto como texto que pode variar no tocante à extensão, gênero ou tipo de linguagem cênica, funcionando como "unidades em si", onde são apresentados minidramas, imagens, cenas alegóricas e metafóricas e visões que unificam a obra de Ibsen ao Brasil. Com isso a dramaturgia do espetáculo é forte pois torna-se um produtor de conteúdos, abrindo-se a subjetividades do espectador, pois se assistirmos ao espetáculo com a expectativa de entendimento de uma linha de tempo linear, ou até mesmo buscar encontrar o cerne do drama de Ibsen talvez ocorra uma frustração, pois a lógica aqui é outra, na minha visão o texto de Ibsen é utilizado apenas como pretexto e mola propulsora para enfocar uma série de conflitos éticos e divergências políticas que movem tanto nosso país como a dramaturgia do autor noruegues. 
No que tange a encenação de Camila Bauer, o espetáculo parte de cruzamentos das diferentes artes do espetáculo e tem forte apelo estético se pautando na performance, fisicalidade, música, projeções e iluminação, assim como os figurinos e mascaras que com suas cores e texturas conseguem expandir o campo de fruição. Assim como a criação sonora de RosaCosta que sempre é efetiva e dialoga diretamente com a obra.
Destaque para o elenco de peso que o projeto conseguiu reunir encabeçado por Sandra Dani, Nelson Diniz, Liane Venturella, Lauro Ramalho, Janaína Pelizzon, Fabiane Severo (que com sua presença física cria subjetividades e atemporalidades na obra, cavando espaços para manifestar o que palavras não dão conta), Alvaro RosaCosta e Pedro Bertoldi destacando os dois últimos que com propriedade colocam em cena relatos fortes sobre temas atuais, mas todo o elenco é coeso e consegue colocar em cena toda a provocação estética e que possibilita diferentes camadas de leituras dentro de um contexto contemporâneo de proposição teatral, mantendo a coerência que a encenadora Camila Bauer vem desenvolvendo ao longo dos anos.

Ficha técnica
Elenco:

Sandra Dani

Janaina Pelizzon

Nelson Diniz

Liane Venturella

Lauro Ramalho

Álvaro RosaCosta

Fabiane Severo

Pedro Bertoldi

Direção: Camila Bauer

Dramaturgia: Marco Catalão, Pedro Bertoldi e Camila Bauer, a partir das obras Uma Casa de Bonecas e O Inimigo do Povo, de Henrik Ibsen (tradução Leonardo Pinto Silva), em colaboração com o elenco.

Direção coreográfica: Carlota Albuquerque            

Composição e desenho sonoro: Álvaro RosaCosta

Iluminação e videografia: Ricardo Vivian

Cenografia: Elcio Rossini

Figurinos e maquiagem: Liane Venturella

Desenhos e pinturas figurino: Lipe Albuquerque

Criação e confecção de máscaras: Fábio Cuelli

Mídias sociais e criação de memes em vídeo: Laura Hickmann

Assessoria de imprensa: Lauro Ramalho

Arte gráfica: Jéssica Barbosa

Fotografia: Adriana Marchiori

Realização e produção:
Projeto Gompa


*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 





sábado, 24 de agosto de 2019

O GATO DE BOTAS E BOMBACHAS (RS)



CUIDADOSA PRODUÇÃO DEDICADA AOS PEQUENOS (E AOS GRANDES TAMBÉM)


por Diego Ferreira*


O espetáculo "O gato de botas e bombachas" da Cia Vento Minuano é surpreendente pelo cuidado e zelo em todas as etapas da produção, desde a divulgação até a estética da proposta. A obra que assistimos é uma adaptação do famoso conto de Charles Perrault numa dramaturgia original de Charles Ferreira que revela um texto todo construído em rima para contar a história de um gato de estimação que usa botas e bombachas e mora no interior do Rio Grande do Sul. A narrativa do espetáculo é cheia de trapalhadas para desvendar uma série de roubos de gados de um fazendeiro gaúcho, e é rica em detalhes e se utiliza de humor e musicalidade para se comunicar com o espectador. 
A produção está impecável e como é bom assistir ao bom teatro dirigido a infância, pois auxilia muita na formação das platéias futuras. Airton de Oliveira foi muito feliz ao escolher sua equipe técnica pois se cercou de profissionais que souberam explorar o melhor de cada unidade da produção. Airton na direção consegue explorar o melhor de um elenco redondo com um naipe de atores que sabem cada qual utilizar suas melhores potencialidades em cena e a direção também tem êxito em articular todos os elementos estéticos que consegue traduzir de ótima forma as cores e sons do interior do Rio Grande do Sul sem cair em clichês. 
O cenário de Marcos Buffon e todos elementos são belíssimos e funcionam muito bem em cena, associados a iluminação de Nara Lucia Maia que consegue imprimir na cena uma paleta de cores que parece uma tela de pintura, assim como os belos e funcionais figurinos de Claudio Benevenga que agregam muito na produção. Por se tratar de um musical a trilha sonora é destaque e muito bem executada ao vivo pelos atores, e por ser muito bem executada gostaria de ver o elenco tocar mais em cena, ao invés de passagens onde música de estúdio são executadas, talvez essa seja a única exceção do trabalho, de valorizar ainda mais este elenco que domina o canto e os instrumentos, sendo que a trilha gravada não atrapalha a produção, mas por se tratar de um musical poderia privilegiar ainda mais a execução ao vivo. 
O elenco foi escolhido a dedo e está ótimo formado pelos atores Dejayr Ferreira, Fabrizio Gorziza, Luciano Pieper, Rodrigo Waschburguer e Tom Peres e estão muito bem em cena, cantando e representando esta história campeira. Todos, sem exceção, estão entregues e inteiros em cena, um elenco coeso e dentro do jogo e da proposta creditando o mérito disso a direção de Airton que tem um grande aproveitamento dos atores. 
É muito bom ver um espetáculo com a temática regional ganhar um status de bom teatro principalmente por valorizar e resgatar nossa cultura através das músicas e vestimentas e por nos fazer rir de um gato trapaceiro que ganha os nossos corações. Que a produção tenha uma longa trajetória e possa ganhar a estrada de outras paragens para que conheçam o bom trabalho produzido no estado. 

Ficha técnica:


Elenco: Dejayr Ferreira, Fabrizio Gorziza, Luciano Pieper, Rodrigo Waschburguer e Tom Peres
Texto: Charles Ferreira
Direção: Airton de Oliveira
Assistente de direção: Sandra Loureiro
Direção musical e trilha sonora gravada: Arthur Barbosa
Músicos na trilha gravada: Arthur Barbosa (violino e regente), Dhouglas Umabel (viola e violino), Diego Silveira (percussão e bateria), Eduardo Knobe (piano), Henrique Amado (flauta e flautín), José Milton Vieira (trombone), Matheus Kleber (acordeon) e Rafael Honório (violoncelo).
Gravação da trilha sonora: Estúdio Porta da Toca
Técnico de gravação: Bruno Klein
Trilha sonora acústica: Dejayr Ferreira (percussão), Fabrizio Gorziza (acordeon), Luciano Pieper (violão), Rodrigo Waschburguer (violão e bombo leguero) e Tom Peres (violão e percussão)
Criação do figurino: Claudio Benevenga
Criação e execução do cenário: Marcos Buffon
Criação de luz: Nara Lúcia Maia
Coreografias: Sayonara Sosa
Preparador vocal: Márcio Buzatto
Programação visual: Bento Abreu
Confecção de figurino: Naray Pereira
Administração e produção executiva: Marcos Buffon
Diretor de produção: Airton de Oliveira
Montagem: Cia Vento Minuano
Realização: Telúrica Produções

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

CLLÃ (RS)


CELEBRAÇÃO EM ESPETÁCULO REFINADO E INVENTIVO


por Diego Ferreira*

O espetáculo "CLLÃ" reúne e celebra a amizade de 18 anos dos bailarinos Luciana Dariano, Alex Sander dos Santos e Lauren Lautert e nos brinda com um espetáculo brilhante. CLLàinspira-se no universo do cineasta Wes Anderson e é embalado pela música de Gustav Mahler. No palco, assistimos a situações desconexas, desoladoras e sarcásticas à medida que rearranjam a mobília de uma sala de estar. O espetáculo é uma grata surpresa pois consegue retratar através de suas influências um cotidiano que flerta com um universo absurdo, nonsense e que brinca com o movimento de uma forma que foge das convenções que geralmente assistimos nos espetáculos de dança, aqui os bailarinos que tem uma vasta experiencia e carregam isso em seus corpos, conseguem colocar a sua técnica a serviço de uma construção que está a serviço da cena e de uma convenção cênica que consegue construir a dramaturgia dos corpos e isto dialoga diretamente com os espectadores. Graças ao trabalho rigoroso dos três bailarinos não assistimos apenas a virtuose dos corpos, mas um espetáculo em que o bailarino está dentro de uma concepção estética que esbanja teatralidade a começar pela paleta de cores dos figurinos e objetos de cena, assim como a iluminação que foi muito bem pensada para evidenciar apenas o que é necessário deste cotidiano inóspito destes três seres e outros mais que surgem durante a cena. A sensação é que todo espetáculo foi concebido pensando na comunhão com o público, pois a cena é leve, as vezes cômicas e muitas vezes surreais, numa trama repleta de sutilezas e poesia corpórea. "Cllã" é um espetáculo inventivo e tem uma técnica refinada que evidencia a maturidade artística dos seus criadores, inovando no que tange a poética da dança. Um espetáculo singular e de alta capacidade de comunicação com o espectador. Aplausos para o trio de bailarinos e toda a equipe do trabalho que merece retornar aos palcos. 

FICHA TÉCNICA

Criadores Intérpretes: Alex Sander dos Santos, Luciana
Dariano e Lauren Lautert
Olhar externo: Carlota Albuquerque
Trilha sonora, Edição e Composição: Aldo D’Ibaños
Iluminação: Fernando Ochoa
Figurino: Margarida Rache
Fotografia: Lívida Dávalos e Leo Zimmer Saldanha
Produção Arthur Bonfanti e equipe
Colaboradores: Fernando Mendonça e José Fernando Ibaños

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

domingo, 18 de agosto de 2019

MARILYN, O MUSICAL (RS)


MUSICAL EQUIVOCADO SOBRE MARILYN

por Diego Ferreira*

"Marilyn, o Musical" é uma produção do "Música e Cena" de São Leopoldo, livremente inspirada em Bombshell de Smash ótima série que assisti e que retrata os bastidores da criação de um musical sobre a vida e obra de Marilyn Monroe. O espetáculo é um musical cheio de equívocos infelizmente, a começar pela escolha ousada do grupo em produzir um musical sobre a vida e obra de Marilyn, grande ícone que mudou normas, inverteu estruturas, enfrentou de frente seus fantasmas e viveu numa linha tênue entre vida/morte. O Grupo se lança em tal empreitada sem ter condições financeiras e principalmente técnica para viabilizar tal feito, a começar pelo numeroso elenco que demonstra um despreparo, carecendo de uma direção que explore as potencialidades vocais, corporais e expressivas dos atores/cantores/bailarinos. O problema que detecto não é a escolha do tema, que é louvável, mas a forma como chega ao público através de uma boa divulgação a qual o grupo executa muito bem, conseguindo lotar o teatro do Sesc Canoas, mas no desenrolar do espetáculo que é longo também percebemos que o grupo se propõe a um grande desafio que não consegue cumprir. 
A começar pela concepção estética do trabalho que nos mostra uma Marilyn que fica apenas na casca, não tem um aprofundamento da personagem que é interpretada por várias atrizes que ficam apenas no clichê da loura atraente. Falta uma criação que desvele a humanidade da personagem, e isto não é fácil, me parece que falta uma direção que provoque isso no elenco, sair do lugar comum e buscar descobrir novas possibilidades na criação. Os figurinos vão pelo mesmo caminho, alguns percebemos que foram criados para o espetáculo, outros arranjados tornando a proposta desproporcional e pobre, até mesmo os sapatos utilizados pelos atores em cena, que muitas vezes eram seus próprios calçados, demonstrando uma falta de cuidado da produção. A iluminação também não auxilia muito na criação de climas e espaços criados na cena, por exemplo, a iluminação poderia criar espaços que pudessem iluminar a banda presente no palco, as vezes apenas a cena que ocorre na frente, mas não consegue criando uma luz muito simplista, assim como os microfones que muitas vezes não funcionaram, ou  falharam em cena tornando o espetáculo massante de ser assistido. A própria banda poderia ousar mais e criar novos arranjos para músicas que se encaixasse melhor para cada cantor conseguir executar o seu melhor. O que me parece é que falta uma identificação com a história e as personagens que fazem parte dela, em uma construção demasiadamente simplista de uma grande ícone que merece uma homenagem a sua altura. Infelizmente saí decepcionado do teatro pelo potencial que o grupo tem, mas que não cumpriu. 


FICHA TÉCNICA

Espetáculo: Marilyn, O Musical
Duração: 100 minutos
Classificação: 14 anos
Elenco: Anne Greif, Bernardo Appel, Érica Ribas, Gabriel Tamujo, Gregory Martiny, Guilherme Oliveira, Gustavo Rezende, Iago Dal-Ri, Iago Dutra, João Marcelo Lucas, Júlia Hansen, Júlia Leiria, Júlia Lucas, Letícia Laureano, Mirella Queiroz, Mônica Freitas, Rafael Possel, Rafael Peres, Vinicius Kaiser, Vithor Ávila e Yasmine Trojan.
Versões das Canções: Júlia Leiria, Érica Ribas, Yasmine Trojan e Júlia Hansen
Versões dos Arranjos Musicais: Gabriel Tamujo, Gustavo Rezende, Iago Dal-Ri, Iago Dutra, Rafael Peres, Rafael Possel.
Sonorização e Iluminação: Prego Produções
Cenografia: Anne Greif e Mirella Queiroz
Figurino: Leopoldo Schneider
Roteiro: Música e Cena
Direção Coreográfica: Yasmine Trojan
Direção Musical: Érica Ribas e Vinícius Kaiser
Codireção: Júlia Leiria
Direção Geral: João Marcelo Lucas
Realização: Música e Cena
Apoio: Sesc Canoas e Prego Produções

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

sábado, 17 de agosto de 2019

MEU IRMÃO, O MEDO (RS)


IMPORTANTE REFLEXÃO HISTÓRICA EM ESPETÁCULO IRREGULAR

por Diego Ferreira*

O espetáculo "Meu irmão, o medo" é uma produção do Grupo Atrito que pretende (re)mexer nas feridas históricas do nosso país. Diante do momento que o Brasil está mergulhado, com a eleição e a tomada do poder por um (des)governo que está diretamente ligado as ideologias que nos reportam diretamente aos horrores provocados pela ditadura militar, um espetáculo como esse merece destaque na cena atual, justamente por provocar uma reflexão sobre o que pretendemos para nosso futuro nos reportando ao passado.
Diante disso, temos um espetáculo que considero irregular, que precisa ajustar muitas arestas, mas que também tem alguns destaques como a dramaturgia de Fernanda Moreno que cria uma narrativa que mexe nas feridas históricas e políticas do Brasil sobre a campanha da Legalidade liderada pelo Brizola, e é neste pano de fundo que a história se desenvolve. Fernanda cria um entrecruzamento de histórias, colocando em cena vários personagens fazendo com que os atores tenham que interpretar vários personagens e isso provoca uma lentidão na cena, pois alguns atores são pouco experientes não conseguindo internalizar a proposta dramatúrgica. A dramaturgia é boa, mas para o espetáculo alavancar é necessário que o elenco se coloque em cena de corpo e alma, com toda a gana necessária para fazer ecoar no espectador os traumas históricos que os personagens solicitam. Se a Fernanda dramaturga é boa, a Fernanda diretora carece de trabalhar junto ao seu elenco a criação e projeção dos personagens que montam este quebra-cabeças político, pois as interpretações estão muito rasas, periféricas, precisando de uma orientação atenta, para conseguir extrair a humanidade destes personagens, assim como a presença em cena e dicção. Do elenco irregular destaque para Marcia Schuler, Juliana Katz e Ismael Goulart que conseguem se sobressair aos demais, mas que tem potencial para crescer ainda mais em cena. O cenário construído com caixas é muito bem pensado e funciona em cena, como se tirássemos das caixas estas memórias, empilhamos as mesmas e depois destruímos, como acontece em cena. Da parte técnica o grupo poderia atentar para a trilha sonora que as vezes entra de forma exagerada em volume e extensão, podendo eleger alguns momentos para realçar a ação da peça, assim como a iluminação que as vezes deixa os atores no escuro.
O grupo Atrito é um grupo novo na cena teatral de Porto Alegre que com este trabalho traz a tona um texto que tem muitos paralelos com a política atual e soube explorar isso com muitas sutilezas, mas carece de ajustes para se comunicar melhor com o espectador, mas que mesmo assim merece ser assistido quando retornar aos palcos justamente por esse engajamento que percebemos no coletivo.

Direção e Dramaturgia: Fernanda Moreno
Assistente de Direção: Ismael Goulart
Elenco: Camila Salton, Domingos Berwanger, Giordano Spencer, Ismael Goulart, Jacque Sabater, Juliana Katz, Marcia Schuler, Rafael Mog e Tiago Martinelli .
Maquiagem: Victória Guella
Iluminação: Fabiana Santos
Sonoplastia: Ismael Goulart
Figurino: Grupo ATritO
Cenografia: Grupo ATritO


*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

2068 (RS)


SUSPENSÃO DO COTIDIANO EM ESPETÁCULO RIGOROSO



por Diego Ferreira*

"2068" é o novo espetáculo do Grupo Máscara Encena e assim como seu excepcional trabalho anterior "Imobilhados" arrebata o espectador pelo alto rigor técnico e estético de suas produções. Um espetáculo intenso, poético e necessário na atual cena gaúcha. Destaco a importância da máscara enquanto elemento potencializador de processos criativos para a cena no teatro contemporâneo, que ultrapassa em muito uma visão utilitária do objeto-máscara, como mero mecanismo de revivescência de tradições teatrais deslocadas de seu contexto sociocultural, e promulga uma forma de pensar-fazer teatro que se ousa chamar aqui de máscara expressiva (pois é muito mais amplo que isso), isto é, um pensar sobre a máscara como lugar de metamorfoses e hibridismos cênicos. Mas mais do que isso, o uso de uma máscara, representa a utilização de uma corporalidade que o jogo com a máscara exige, implicando o uso de pura técnica, e "2068" parte um princípio de composição-colagem do personagem teatral a partir das máscaras que nele coexistem e que correspondem às múltiplas facetas de uma personalidade moderna fragmentada, nos questionando se ainda é possível sonhar num mundo distópico, a qual a arte não busca mais a harmonia a não ser através da dissonância. A máscara revela um corpo orgânico, em sua percepção espetacular, isto é, ao cobrir o rosto, o indivíduo vê-se obrigado a comunicar-se e expressar-se com todo o seu corpo, garantindo-lhe uma consciência mais concreta dos elementos imateriais da cena que estão sob seu domínio. Com seu "2068" o Máscara Encena alcança uma dimensão essencial do jogo teatral, que é profundamente poética, onirica, metafórica e política pois através de uma temporalidade futura dialoga com a nossa atualidade através de temas como a liberdade, a violência, o preconceito, porém a experiência provocada não é nos dada em nenhum momento, precisamos estar abertos e aptos a tecer nossas próprias experiências a partir do belo material que o espetáculo nos dá, são pequenas histórias suspensas no ar, pequenos espaços sutis para que possamos dialogar através do nosso olhar. 
A direção de Liane Venturella é de extrema importância, pois revela que tem propriedade para extrair do objeto-máscara toda a humanidade que os seres inanimados ganham no palco. Somos embriagados com a vida que estes personagens ganham em cena e percebemos cada pequeno movimento, cada gesto e toda a carga estética que o trabalho propõe graças ao olhar criterioso de uma direção que amarra muito bem todos os elementos da obra que assistimos. O elenco formado por Alexandre Borin, Camila Vergara, Fábio Cuelli e Mariana Rosa são os grandes responsáveis por suspender o nosso duro cotidiano durante 60 minutos e nos levar a outros mundos, outros espaços onde ainda é possível sonhar sim, pois através dos seus corpos expressivos é possível tornar o sonho realidade diante dos nossos olhos. O elenco consegue literalmente se multiplicar em cena e dar vida a uma gama de personagens que muitas vezes precisei piscar para me certificar de que tais seres não eram reais, pois através dos corpos dos atores, os personagens ganham vida e nos fazem acreditar nas suas vidas e suas narrativas sobre atemporalidades.  
A produção opera verdadeiro milagre no pequeno palco do Instituto Ling com cenário quase nulo, porém com uma iluminação impecável de Fabiana Santos que cria espaços e texturas que trazem uma certa frieza no que tange ao confinamento das personagens, auxiliada pelas texturas e cores dos belos figurinos e pela excelente trilha sonora de Caio Amon, que cria uma narrativa sonora que guia o espectador na dramaturgia do espetáculo. 
Mais uma grande estreia nos palcos gaúchos, num ano nebuloso, mas que graças aos artistas da cidade tem nos agraciados com ricas experiências teatrais. 

Direção: Liane Venturella
Dramaturgia: Máscara EnCena e Liane Venturella
Elenco: Alexandre Borin, Camila Vergara, Fábio Cuelli e Mariana Rosa
Trilha Sonora Original: Caio Amon
Iluminação e Operação de Luz: Fabiana Santos
Operação de Som: Vitório Azevedo
Máscaras: Fábio Cuelli
Bonecos: Rita Spier
Cenografia: Máscara EnCena
Figurino: Liane Venturella
Confecção de Figurinos: Naray Pereira
Direção de Produção: Camila Vergara
Produção e Idealização: Máscara EnCena


*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 





quarta-feira, 7 de agosto de 2019

O POLVO (RS)


DRAMATURGIA-TENTÁCULO DESTAQUE NA CENA GAÚCHA

por Diego Ferreira

"O POLVO" é um espetáculo oriundo do Curso de Teatro da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul e se destaca primeiro por sua dramaturgia tentáculo, uma metáfora ao polvo que possui oito tentáculos assim como a estrutura do espetáculo, que é dividida em quadros com cenas curtas e aparentemente banais e cotidianas, mas que ao refletir sobre tais cenas, percebemos camadas profundas (talvez a mesma profundidade que o animal polvo alcança no fundo do mar), que refletem o lugar do homem na atualidade justamente por trazer a tona temas urgentes que dialogam com o homem contemporâneo. Só aí já temos uma excelente utilização deste novo termo de "dramaturgia-tentáculo", onde a partir da imagem do polvo conseguimos vislumbrar várias possibilidades metafóricas e estéticas e como casou muito bem este termo utilizado, pois temos oito tentáculos, e o animal pode ser observado tanto na superficie como em lugares mais profundos e por isso tem tudo a ver com o espetáculo apresentado. Nesta acepção, a dramaturgia de Marcelo Ádams abrange tanto a superficialidade de temas que de tão cotidianos poderiam não provocar o espectador, mas ao mesmo tempo abrange a profundidade no desenrolar dos acontecimentos e juntamente com isso os meios cênicos  empregados na encenação, que no detalhe parte de elementos muito simplórios, mas na totalidade se tornam arrojados. Por tudo isso, a dramaturgia de "O polvo" torna-se um dos grandes destaques da encenação, juntamente com a direção também de Marcelo Ádams que consegue explorar toda essa densidade do texto e traduzir em cenas curtas e muito bem articuladas num espetáculo que consegue tocar o espectador de um modo diferenciado. O grande elenco também é outro destaque pois todos os atores, eu disse todos os atores, tem de certa forma o seu destaque projetando nos seus personagens uma carga dramática que é na medida, sem esbarrar em interpretações exacerbadas ou clichês, como poderia acontecer com a cena inicial do casal e a cena de separação do casal homoafetivo, duas possibilidades que se não forem trabalhadas na medida poderiam caminhar para outros caminhos, mas que torna-se super acertada na forma como foi conduzida, assim como todas as cenas. O elenco também e o responsável pela execução da trilha sonora ao vivo construindo boas soluções sonoras e que contribuem muito para o clima das cenas e também para a costura das cenas fragmentadas. Outro destaque é a iluminação que é bela e pontual criando espaços poéticos na cena. Enfim, "O polvo" é um trabalho profissional que emociona justamente por ter sido gestado dentro de um curso de teatro de uma universidade pública, a UERGS, e que merece ser louvado por isso e por sua qualidade. 
Bravo!!!


|| FICHA TÉCNICA ||

TEXTO E DIREÇÃO: Marcelo Ádams
ELENCO: Ândy, Caroline Costa, Denise Cruz, Eduardo Fronckowiak, Evandro Samuel, Gabriele Manteze, Jaqueline Mayer, João Pedro Corrêa, Luana Corrêa, Mari Mü, Maria Carolina Aquino, Matheus Ramires, Tiago Bayarri, Yuri Niederauer
CONCEPÇÃO DE LUZ: Rodrigo Waschburger e Tiago Bayarri
OPERAÇÃO DE LUZ: Rodrigo Waschburger
PRODUÇÃO: Eduardo Fronckowiak, João Pedro Corrêa, Maria Carolina Aquino, Matheus Ramires e Tiago Bayarri
CENOGRAFIA, FIGURINOS E TRILHA SONORA AO VIVO: Po(l)vo do Teatro
FOTOS DE DIVULGAÇÃO: Gabriele Manteze e Victoria Sanguiné
ARTE GRÁFICA: Letícia Schmitt e Eduardo Fronckowiak


*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle. 

terça-feira, 30 de julho de 2019

HISTÓRIA DO FUTURO (RS)


TRABALHO PROVOCANTE SOBRE UM PAÍS DO FUTURO

por Diego Ferreira*

O espetáculo "História do Futuro" coloca em cena uma adaptação do texto de Antonio Vieira escrito a mais de 300 anos e que prevê a ideia de um país do futuro. Diria que o texto e a própria encenação vem muito a calhar diante de todas as situações que estamos vivenciando num Brasil que está mergulhado em incertezas políticas e o contexto da obra, que é muito atual dialoga diretamente com tudo isso. 
Provocação é a palavra que melhor se encaixa em relação ao trabalho apresentado, pois diante de todas as soluções estéticas apresentadas me senti extremamente provocado, através do texto que consegue ampliar a noção de construção de um país, sua formação, sua gente e cores, sua derrocada a partir da corrupção e a partir disso, sua reconstrução através da ética empregada em suas relações com suas mazelas. Me senti provocado com a própria encenação com direção de Eduardo Severino que é artista da dança e estreia na direção teatral, e carrega em uma direção contemporânea, articulando novos padrões de encenação, requisitando do espectador uma percepção centrada nas sensações, ora desconstruindo a fábula e evitando qualquer significado racional, ora centrado na experiência estética provocado pelas ótimas projeções mapeadas de Jana Castoldi que tornam a experiência prazerosa pela qualidade e apuro estético. Severino  a partir de suas experiências consegue criar um espetáculo que coloca em cena um ator que está extremamente seguro em cena, um corpo que é expressivo, que é minimalista e que tem domínio de seus movimentos, e que tudo que está colocado ali tem um sentido. Caco Coelho está excelente em cena, dono de si e com uma potência que eu não estava acostumado, pois conhecíamos seu trabalho como produtor e diretor, um verdadeiro batalhador das artes da cidade, sendo o projeto Usina das Artes um grande exemplo. Mas o lado ator de Caco estava adormecido e nesta oportunidade é desvelada e merece nosso destaque pela qualidade e apropriação do texto de Antônio Vieira. Um ator exercitando sua plenitude em cena. Mas os méritos da produção não cessam por aqui, pois além da qualidade de Severino e Caco Coelho, destaco também as participações em vídeo de Lima Duarte que dialoga e interfere na cena diretamente e sua participação é fundamental para o desenvolvimento da obra. Cabe citar a trilha sonora de Renato Velho e Driko Oliveira que é pontual e totalmente dentro da proposta da encenação, assim como a iluminação de Guto Greca e Eduardo Kramer que conseguem dialogar com as projeções, com o cenário e com as cenas que o ator faz na platéia, que aliás são muito boas quebrando a quarta parede e aproximando o espectador ao trabalho. 
"História do Futuro" é um espetáculo que tem muitas camadas e que merece ser visto e revisto pela capacidade que tem de dialogar com questões do nosso tempo e que se utiliza de uma estética apurada para falar sobre um Brasil possível. Produção impecável de Gisela Sparremberger que precisa urgentemente ser assistida. 



FICHA TÉCNICA:
Supervisao: Vera Holtz
Direção: Eduardo Severino
Roteiro e Interpretação: Caco Coelho
Produção e Assessoria de Imprensa: Tradeberger Cultural / Gisela Sparremberger
Projeção Mapeada: Jana Castoldi
Participação em Audiovisual: Lima Duarte
Luz: Guto Greca e Eduardo Kramer
Trilha Sonora: Renato Velho e Driko Oliveira
Coordenação Técnica: Gabriel Coelho
Vídeo: Fernando Piccoli
Figurino: Mariane Collovini
Voz: Lígia Motta
Acompanhamento Psicopedagogo: Clarissa Candiota
Fotografia: Taís Regina Palhares

*Diego Ferreira é Graduado em Teatro/UERGS. Escreve comentários críticos no blog Olhares da Cena. É integrante do Grupo de Estudos em Dramaturgia de Porto Alegre coordenado por Diones Camargo. É jurado no Prêmio Olhares da Cena. Foi jurado do Prêmio Açorianos de Teatro em 2013 e 2018. Professor de Teatro na Unisinos e Unilasalle.