ENTRE DOIS, UMA CANÇÃO (RS)
QUANDO O CORPO DANÇA A MEMÓRIA DE LUPICÍNIO
Por Diego Ferreira*
Como dançar uma canção que já carrega tantas memórias? Em Entre Dois, Uma Canção, novo espetáculo da Companhia Municipal de Dança de Porto Alegre, essa pergunta parece encontrar resposta no corpo. Sob concepção e coreografia de Henrique Rodovalho, a obra mergulha no universo de Lupicínio Rodrigues sem tentar ilustrá-lo. As canções não são traduzidas literalmente para a cena; tornam-se impulso, atmosfera, ritmo, memória.
E talvez esteja justamente aí uma das maiores qualidades do espetáculo: Rodovalho não dança Lupicínio de maneira óbvia. As dores, os amores, as perdas e as ausências tão presentes nas canções do compositor porto-alegrense aparecem transfigurados pelo movimento. Os bailarinos parecem dançar essas dores como se flutuassem sobre elas. Há melancolia, mas não há peso excessivo; há sofrimento, mas ele surge como memória, como algo que já atravessou o corpo e agora pode ser revivido de outra maneira.
Essa escolha valoriza a potência da Companhia Municipal de Dança e de seus oito intérpretes: Eduarda Rodrigues, Gabriela Sampaio, Guilherme Capaverde, Iago Poersch, Isadora Franco, Leonardo Maia, Sergio Felício e Tami Melegari. Os corpos jovens do elenco encontram uma linguagem coreográfica rigorosa e detalhista, fazendo do próprio corpo o lugar onde a dramaturgia acontece. O resultado é uma dança de grande presença, em que precisão e delicadeza caminham juntas. É uma escolha que exige dos intérpretes disponibilidade, precisão e capacidade de escuta. E os oito bailarinos da Companhia Municipal de Dança respondem a esse desafio com presença. Há algo de particularmente bonito na maneira como o elenco se apropria de uma linguagem que não é originalmente sua, transformando aquilo que poderia ser apenas exercício técnico em matéria expressiva.
O argumento de Airton Tomazzoni contribui para que esse encontro entre música, memória e movimento não se reduza a uma sucessão de canções. A obra cria um campo de sensações no qual a trajetória de Lupicínio aparece menos como biografia e mais como reverberação.
A visualidade também merece destaque. A iluminação, assinada pelo próprio Henrique Rodovalho, cria atmosferas e estados que acompanham a movimentação, enquanto o figurino de Gustavo Dienstmann dialoga com a imagem de Lupicínio sem transformá-la em reconstituição histórica. O terno, tão associado à figura do compositor, aparece fragmentado, atravessado por elementos contemporâneos, e também a uma dimensão de afirmação social de um homem negro em seu tempo,. Assim, o passado não é reproduzido: é evocado.
A trilha sonora de Rodovalho também participa dessa operação, estabelecendo uma relação delicada entre aquilo que ouvimos e aquilo que vemos. O corpo não precisa repetir a canção. Ele pode responder a ela, deslocá-la, habitá-la.
Há uma escolha fundamental na própria concepção do espetáculo: atualizar Lupicínio sem aprisioná-lo à memória. Sua obra continua reconhecível, mas encontra corpos, gestos e sensibilidades de outro tempo. O que vemos não é a representação das histórias cantadas, mas aquilo que permanece delas depois que a canção termina.
Mas Entre Dois, Uma Canção não parece interessado em transformar Lupicínio em peça de museu. Há um gesto importante em atualizar sua obra sem domesticá-la. As canções permanecem reconhecíveis em sua potência afetiva, mas os corpos recusam a ilustração. Não vemos simplesmente aquilo que ouvimos. E justamente por isso passamos a ouvir de outra maneira aquilo que já conhecemos. Essa é uma das operações mais interessantes da montagem: criar uma distância entre a palavra cantada e a imagem produzida pelo corpo sem romper a relação entre elas.
Nesse sentido, o título Entre Dois, Uma Canção parece sintetizar a própria dramaturgia: entre passado e presente, entre amor e perda, entre música e dança, entre memória e esquecimento.
A presença de Henrique Rodovalho também é significativa por colocar em contato sua linguagem consolidada com uma companhia jovem. Há um desafio evidente nesse encontro, mas também uma oportunidade de deslocamento. O coreógrafo não parece interessado em fazer esses bailarinos simplesmente reproduzirem sua linguagem, e sim em permitir que ela encontre novos corpos e outras possibilidades.
Mas Entre Dois, Uma Canção merece ser celebrado também por aquilo que existe antes dele: a própria existência de uma Companhia Municipal de Dança em Porto Alegre.
Manter uma companhia pública é mais do que garantir a produção de espetáculos. É investir em artistas, formação, público, pesquisa e memória. É afirmar que a dança também é uma dimensão da política cultural de uma cidade. A atuação da companhia junto às escolas municipais amplia ainda mais esse papel, aproximando a dança de crianças e jovens e criando caminhos para novas gerações de artistas.
Depois de uma trajetória que já reúne mais de 20 produções e milhares de espectadores, a companhia encontra em Lupicínio e em Rodovalho uma oportunidade de celebrar sua história olhando para o futuro.
E talvez essa seja a melhor homenagem possível ao compositor. Não repetir Lupicínio, mas fazê-lo continuar acontecendo. Em Entre Dois, Uma Canção, sua obra muda de corpo, de tempo e de linguagem. E quando esses corpos atravessam suas dores e seus amores com tamanha leveza, Porto Alegre reencontra um de seus grandes compositores não como passado, mas como presença.
FICHA TÉCNICA
ENTRE DOIS, UMA CANÇÃO
Companhia Municipal de Dança de Porto Alegre
Concepção e coreografia: Henrique Rodovalho
Argumento: Airton Tomazzoni
Direção artística: Driko Oliveira e Isadora Franco Elenco: Eduarda Rodrigues, Gabriela Sampaio, Guilherme Capaverde, Iago Poersch, Isadora Franco, Leonardo Maia, Sergio Felício e Tami Melegari
Iluminação: Henrique Rodovalho
Trilha sonora: Henrique Rodovalho
Técnico de som: Driko Oliveira
Figurino: Gustavo Dienstmann
Produção: Ilza do Canto e Carla Souza
Assessoria de imprensa: Bebê Baumgarten
Mídias sociais: Sofia Alonso
Fotografia: Nando Espinosa
Vídeos: Marcus Godoy
Realização: Companhia Municipal de Dança de Porto Alegre / Secretaria de Cultura de Porto Alegre / Prefeitura de Porto Alegre
Apoio: Casa Salto
*Diego Ferreira é professor de teatro, dramaturgo, crítico e curador. Graduado em Teatro pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), é criador do projeto Olhares da Cena, espaço dedicado à crítica e reflexão sobre as artes da cena. Entre seus trabalhos dramatúrgicos estão Negreiros: História que a História Não Conta — vencedor do Prêmio Açorianos 2024, Corália Brechó, Abdias do Nascimento e Vozes do Lixão: a história de Tugira.