quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

DE-VIR (CE)


O melhor figurino de teatro é o corpo nu
Zé Celso

Devir é um conceito filosófico que qualifica a mudança constante, a perenidade de algo ou alguém. Movimento pelo qual as coisas se transformam. Ao assistir ao espetáculo “De-vir” da Cia Dita do Ceará dentro da programação do 6º Palco Giratório e fiquei bastante impressionado e transformado com o trabalho desta Cia. O trabalho estava cercado de tabus, até pelos meus colegas, que torceram o nariz para a proposta do trabalho. Em nossos debates pós-espetáculo tentei defender e intervir a favor da proposta, mas não obtive muito sucesso, mas mesmo assim, deixo aqui a minha impressão acerca do que assisti no Teatro Renascença. Em cena quatro performers pontuam as interferências do corpo com seu ambiente. Em cena quatro bailarinos nus propõem movimentos que se alteram em acelerações, pausas, repetições e variações. Três bailarinos e uma bailarina dançam no palco do teatro completamente despidos, usam somente meia-ponta. O coletivo se despe do figurino para revelar nos corpos dos performes a liberdade em se dançar, em provocar e em produzir um projeto estético repleto de significados e incrivelmente belo. Alguns enxergaram somente a nudez dos corpos, mas é preciso ir além para poder captar um trabalho sério, digno, ousado e pontuado por uma precisão de movimentos incríveis. O espetáculo era dividido por solos, duos, trios e todo o coletivo em cena. Grande parte do espetáculo era executado sem a presença de uma trilha sonora, mas a musicalidade estava impregnada nos corpos dos bailarinos e principalmente na respiração precisa e sonora produzida pelos corpos. Corpos que constroem, desconstroem e re-constroem imagens constantemente, com movimentos intensos, que iam sendo modelados de forma ralentada e era fragmentada por movimentos bruscos dando novos ares a coreografia. É preciso olhar para o espetáculo e conseguir enxergar que por trás dos corpos nus, existe um projeto repleto de referenciais que vai do trabalho de Lygia Clark a Roland Barthes.
Outra questão é que não podemos assistir a um espetáculo de dança com o mesmo olhar que lançamos quando assistimos a um espetáculo teatral. Vivemos no tempo do pós-dramático, onde existem linguagens muito hibridas e diluídas, teatro, dança, teatro-dança, dança-teatro. Mas as estruturas são diferentes. A concepção e execução são diferentes. E a apreciação também é diferente.
Fiquei com vontade de conhecer mais o trabalho da Cia Dita, que me provocou bastante.

Ficha técnica do espetáculo:
 Direção e coreografia: Fauller
Assistência de direção: Wilemara Barros
Bailarinos: Wilemara Barros, Henrique Castro, Marcelo Hortêncio, Fauller
Música: Ryoji Ikeda
Som: Wilenaina Barros
Luz: Fernando Peixoto, Operação: Fábio Oliveira
Fotografia: Alex Hermes
Produção: Ato Produção e Marketing Cultura

Publicado originalmente no Blog Válvula de Escape em 31 de maio de 2011.

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