quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

AUTO DA PAIXÃO E DA ALEGRIA (RS)

Demorei, mas consegui postar um comentário sobre o espetáculo "O Auto da Paixão e da Alegria" apresentado no dia 26 de novembro em Montenegro dentro do Projeto Arte Sesc Cultura por toda a parte. "O Auto da Paixão e da Alegria" é um auto popular, onde narra as aventuras de um grupo de atores saltimbancos, que se encarrega de contar os acontecimentos bíblicos da passagem de Cristo pelo mundo.  A palavra "Auto" me remete imediatamente as encenações liturgicas, geralmente apresentadas em festas cristãs, como "Auto de Natal" ou "Auto da Páscoa", e que de certo modo não me trazem boas lembranças. Mas segundo o autor Luis Alberto de Abreu; “Autos, de acordo com a definição clássica, são composições dramáticas breves, de caráter religioso ou profano, podendo comportar elementos cômicos e jocosos...  O que vemos neste "auto" é justamente uma sobreposição do termo clássico, de um lado temos uma narrativa que remete as estórias da paixão de Cristo, e do outro, temos a utilização de uma linguagem popular que valoriza o carnaval, as festas populares nordestinas entre outros. 
Confesso que foi uma grata surpresa assistir a este espetáculo do Grupo Timbre de Galo de Passo Fundo. Primeiro que é sempre bom poder assistir a bons trabalhos realizados pelos grupos do interior do estado, o que de certo modo legitima a arte produzida longe da capital, pois, as vezes parece que o teatro produzido no interior carrega um rótulo de inferior, amador, sem qualidade, pelo fato de não estar no foco da produção na capital, longe dos holofotes e dos incentivos. Não é o que acontece com estes "galos", que transbordam alegria, competência e técnica no trabalho apresentado. Segundo que eu apenas conhecia o grupo pela trajetória, mas principalmente pelo episódio da demisssão do antigo Grupo Viramundos que foram "apunhalados" pela UPF, ato de omissão com o Grupo e com toda comunidade cultural. Mas graças a vontade de todos o grupo se reergueu e continua os seus trabalhos, agora como Timbre de Galo, e posso afirmar que estão completamente recuperados deste golpe, digo isso, pela vitalidade demonstrada em "Auto da paixão e da alegria".
O que me chama a atenção logo no início é a estrutura que o grupo dispõe, um grande palco equipado com equipamentos de som e iluminação. A estrutura do palco remete a uma alegoria utilizada no carnaval e que funciona muito bem durante a encenação. E logo na entrada dos atores, percebi outros elos com o carnaval, maior manifestação popular do Brasil. O paralelo com o carnaval aparece no cenário, na porta bandeira, nos instrumentos e canções utilizadas durante a peça. Logo no início temos a presença de um anjo Gabriel "pop", um anjo de "all star" vermelho que faz um engraçado testemunho contra os diretores de teatro, pois o ator teria medo de altura e mesmo assim foi forçado pelo diretor a fazer tal cena. Este tipo de abertura, a relação entre ator x personagem x público, perspassa todo o espetáculo, quebrando a ilusão, a identificação com a persona construída, desvelando uma teatralidade que lembra muito as teorias de Brecht, onde o ator e o espectador se mantém distanciado da fábula apresentada, através de narradores-épicos. Num determinado momento a atriz Mara Cavalheiro anuncia: "gente é teatro viu", desmitificando o caráter ilusório. Mas neste caso, o grupo, nem tampouco o diretor, não se deixaram amarrar a teorias e conceituações rígidas, pelo contrário, exploram um terreno fértil que é o teatro popular, feito na rua, transitando entre o cômico, o farsesco e o melodramático para contar a história de Cristo. Segundo o relato da atriz Beliza Marroni, todas as contribuições que os atores levaram, tudo o que servia a criação foi utilizado, sem medo de misturar, de ousar, de festejar ou de profanar. Neste auto temos a figura de Deus, do diabo e outras figuras bíblicas, construídas de modo exagerado e 
Um destaque é para a trilha e efeitos sonoros realizados ao vivo pelos atores, demonstrando um belo preparo técnico  e com vozes deslumbrantes. Posso falar em nome do Grupo Válvula de Escape que este espetáculo marcou a todos os integrantes do grupo pelo profissionalismo e pela qualidade demonstrada, que a partir de agora este grupo de Passo Fundo passa a ser um referencial em Artes Cênicas para nós.
Parabéns a coesão do elenco e pelo belíssimo trabalho apresentado e espero que possamos nos cruzar muitas vezes ainda!
Postado originalmente no Blog Válvula de Escape no dia  12 de dezembro de 2010.


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