quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

AQUELES DOIS (MG)



Esvaziando as gavetas do preconceito
Minas Gerais tem se destacado em suas produções na área das artes cênicas. Prova disso é o Festival do Teatro Brasileiro - Cena Mineira que encerra suas apresentações neste final de semana. Da terra mineira já assisti a trabalhos do Grupo Galpão, referencia nacional de criatividade, ao Grupo Espanca!, e sua dramaturga Grace Passô, o qual pude assistir o maravilhoso “Amores Surdos”, as Cias de dança, Grupo Corpo, Quasar Cia de dança, e 1º ato, destacando também o Grupo Giramundo.
Desta vez tive o enorme prazer de conhecer o trabalho da Cia Luna Lunera, com seu espetáculo “Aqueles Dois” baseado no conto homônimo do gaúcho Caio Fernando Abreu. O espetáculo esteve em Porto Alegre no ano passado, mas não consegui assistir. A repercussão foi ótima e eis que agora através do SESC-rs o referido espetáculo foi apresentado em Montenegro.
São muitos os aspectos que fazem de “Aqueles Dois” um dos melhores espetáculos que já assisti. Começo então pela adaptação do conto de Caio Fernando Abreu para o teatro, pois este mesmo conto já foi adaptado para o cinema. O espetáculo é uma grande homenagem ao nosso grande poeta, pois Caio está lá, presente e vivo, seja através do seu texto, que está praticamente na integra, ou seja, através do referencial do autor, pois a escrita de Caio desvela diversas referencias de livros, cinema, artistas e personalidades que permeiam sua escrita. E tudo isso está em cena. Referencias que vai desde a atriz Audrey Hepburn a Carlos Gardel, de Jane Fonda, Van Gogh a Dalva de Oliveira e Almodovar. Estas referencias criam a base dos personagens do conto e a Cia Luna Lunera potencializa com maestria esse referencial e multiplica tudo isso em cena. A começar pelo espaço cenográfico que expõe uma séria de gavetas de variados tamanhos, onde são guardados os objetos de cena, e são muitos, tudo bem organizado, a exemplo de uma repartição pública, cenário da estória da peça. Dentro destas gavetas vemos telefones, maquinas de escrever, copos, garrafas, rolhas, canetas, papéis, livros, etc. O espaço limpo se transforma num caos, onde todos falam juntos, instaurando um atribulado dia de trabalho da rotina d’aqueles dois. Raul e Saul são novos funcionários numa repartição pública. A relação entre os dois inicia de forma burocrática, mas, no entanto acaba gerando incômodo nos demais colegas de profissão.
O tema da peça (ainda) é tabu, pois trata da relação entre dois homens, mas o modo como a escrita e a encenação é apresentada, se torna altamente poética e tocante, o que em outra situação poderia resvalar e se tornar um monte de clichês. A peça é engraçada (cena em que um dos personagens começa a cantar no microfone numa espécie de karaokê, aplaudida em cena aberta), é emocionante (cena da morte da mãe, quando um vestido é desengavetado) e extremamente teatralizada, pois dialoga muito com os códigos teatrais, criando a todo tempo a ilusão em que o espectador adentra no universo daqueles personagens e a quebra da mesma, pois o espetáculo trabalha o tempo todo com a dualidade, onde quatro atores representam durante todo o tempo os personagens “Raul” e ‘Saul”. Dentro desta teatralidade a Cia Luna Lunera usa e abusa com autoridade das convenções teatrais, através de seus atores-narradores, que comentam e interferem durante toda a peça. A construção do TEMPO também é muito valorizada, a exemplo de que a história é contada duas vezes de forma diferenciada. Durante o espetáculo cartas de Caio, são lidas ao microfone, interferindo e complementando a ação.
Outro destaque é a trilha musical, operada pelos próprios atores, dá todo o clima da peça e trás clássicos do cancioneiro popular brasileiro e latino. Desfilam músicas de Marisa Monte, Maria Bethânia, Nana Caymi, além da canção que permeia toda a peça “El dia que me quieras”. Percebi que em muitos momentos a platéia cantarolava baixinho as canções junto com a peça, inclusive eu, que adoro a seleção da trilha.
A iluminação é praticamente operada em cena pelos atores, que manipulam luminárias que são utilizadas de várias maneiras. Básica e essencial.
“Aqueles Dois” foi dirigido a cinco mãos e o elenco é primoroso.
Aqueles dois + aqueles outros dois = TRABALHO EXTRAORDINÁRIO, impecável onde o trabalho físico e vocal é evidente e ótimo.
A cena final onde os dois esvaziam suas gavetas e vão embora, com aquelas figuras de olhos vazados observando a despedida é muito tocante.
O espetáculo é lindo, sutil e necessário nestes tempos (ainda) de preconceitos.

Diego Ferreira
Grupo Válvula de Escape

Acesse o BLOG  da Cia Luna Lunera 
Publicado Originalmente no Blog Válvula de Escape em 15 de julho de 2011. 

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